Samuel Beckett começa seu romance L’Innommable com “dire je”. De origem irlandesa, o autor havia começado a carreira escrevendo na língua nativa mas, nessa época, as versões originais de suas obras já eram quase exclusivamente em francês (depois ele mesmo as traduzia para o inglês). Ao dizer “je” e não mais “I”, ele tenta se libertar de todos os eus que não têm relação com o “eu criador”, em busca de um “moi” puro. Embora nunca chegue lá realmente, a construção inscrita nesse movimento torna possivel uma literatura bem original.

Comecei a ler Beckett — e Derrida e George Steiner — na França, no início do ano passado. Queria entender este eu estrangeiro, tão comum em território francês — talvez por causa da multiplicidade de línguas faladas na França d’Outre Mer, ou da variedade de estrangeiros que abandonam sua língua materna pelo francês. Encontrei-me com Edmond Jabès e seu estrangeiro com um livro debaixo do braço, Akira Mizubayashi e sua história na minha cidade, Steiner (um caso raríssimo e maravilhoso de tripla nacionalidade), Ionesco e, claro, Beckett. Apaixonados pela língua francesa, eles já não eram mais egípcios, japoneses, europeus (George Steiner nasceu em Paris mas era, sobretudo, europeu), romênios, irlandeses… mas tampouco chegavam a ser franceses. Este limbo literário seria, para tantos, e logo para mim também, um estado permanente d’étrangeté .

De volta ao Brasil, encontrei a pessoa mais importante da minha vida e ele me emprestou O Estrangeiro de Camus (outro estrangeiro, argelino radicado na França). Li a obra famosa pela primeira vez e suas palavras, Cela ne veut rien dire, até hoje ressoam dentro de mim, como aquelas de Beckett…

Talvez toda literatura seja estrangeira.

Na foto, traduzindo o texto Lunch, do ator e dramaturgo Steven Berkoff.

Uma ideia sobre “Um Olhar Estrangeiro

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