As Bibliotecas Falsas

A ideia de bibliotecas falsas surgiu durante a viagem que fiz à Colômbia em 2010. Sozinha num bar em Bogotá perguntei ao garçom o que seria aquela grande sala do outro lado, com os livros grudados às prateleiras. “É uma biblioteca?”. “Sim, mas é uma biblioteca falsa. Não tem livros”.

Toda Colômbia era literatura. Em Cartagena, logo na chegada, dei de cara com o meu alter-ego literário. Subi as escadas para usar o único computador da pousada, que ficava ao lado das duas maiores suítes. Mexi no mouse e apareceu-me uma tela: Malgosia, M-a-l-g-o-s-i-a, respondia em polonês ao e-mail de um dos hóspedes, e embora eu não entendesse nada de polonês, sabia que a assinatura era um diminutivo do seu nome (Malgosia para Malgozarka ou algo assim). E era íntimo. Minimizei a página e fui para o meu e-mail e então um homem abriu a porta de uma das suítes, inteiro nu, suado, e me perguntou num inglês quebrado se eu havia fechado a sua página de e-mail. Disse que não. Ele me pediu que o fizesse e fechou a porta. Comecei a imaginar coisas. Que Malgosia era sua amante e aquele era um e-mail de ruptura, que ela havia marcado um encontro com ele ali, em Cartagena, e depois mudado de ideia. Ou não. Depois eu o vi no lobby do hotel com a esposa jovem, anéis enormes no dedo. Minha personagem favorita havia escrito a seu amante e de alguma forma eu intercambiara a mensagem.

O segundo personagem foi Gabriel García Marquez. Ele estava presente em cada canto de Cartagena, e da Colômbia. Num dos primeiros dias fui tomar um mojito num resort — eu estava hospedada na Casa La Fe, uma pousada católica charmosa. Eles ainda não tinham começado a servir o almoço e o hotel estava às moscas. Na mesa do buffet, encontrei um símbolo de seu famoso livro, Cem Anos de Solidão: uma bacia de gelos incontáveis e mínimos que não derretiam.

O terceiro personagem foi o anjo de Dulce Compañia, de Laura Restrepo. Naquela semana, li também Sandor Marái, mas como a minha relação com o escritor começou muito antes, acho melhor deixar o assunto para outro momento. Descobri o livro numa pequena livraria do aeroporto de Bogotá, antes de tomar o voo para Cartagena. O enredo é o seguinte: uma jornalista de frivolidades é enviada pelo chefe para cobrir o “surgimento” de um anjo num dos bairros mais pobres da cidade. Apaixona-se por ele, com toda a religiosidade em torno do menino, lindo e jovem, e a sugestão de um quadro de esquizofrenia. Um dia, emocionada e confusa, deixei o livro na cadeira de sol e entrei na piscina. Boiei de barriga para baix, imóvel, por um tempo que deve ter parecido interminável. Aí vi um reflexo na água. O funcionário da pousada, assustado, tinha a mão estendida em minha direção: “Pensei que tivesse morrido”, ele disse.

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