Arquivo mensal: abril 2012

O livro está morto. Viva o livro!

Nova Penguin English Library - foto publicada via Penguin, no Facebook

A Penguin acaba de lançar uma nova coleção deliciosa: Penguin English Library. É na verdade um projeto com 100 títulos clássicos da literatura inglesa, os “melhores” segundo a famosa editora. Great Expectations, A Tale of Two Cities, The Adventures of Huckleberry Finn, Moby Dick e muito mais. O lançamento é a cara da “maison”, primeira a produzir paperbacks de qualidade, na década de 30. Nos últimos 12-13 anos,  acompanhei quase todos os seus novos selos e coleções, entusiasmando-me com cada um deles. E a diferença entre meu primeiro The Picture of Dorian Gray, de capa amarelada, páginas permeáveis e impressão borrada e os itens da nova English Library é muito simples: não dá para comparar. A única semelhança parece ser o preço — na Amazon.com, as novas cópias da EL são vendidas entre $4 e $7. Mas aí eu pergunto, será que é barato mesmo?

Moonstone, do fantástico Wilkie Collins, é um dos livros do selo. Só que tem quase 1.000 páginas. Em 2010, comprei uma edição paperback de outra obra extensa do autor, a muito famosa Woman in White. E só fui terminar de ler em 2011, em julho, de volta ao Brasil com meu novo Kindle. Andar pra cima e pra baixo com um livro de tantas páginas não é tarefa fácil — isso sem contar o esforço envolvido em decifrar aquelas letrinhas espremidas. No Kindle, diversão pura: li os dois em uma semana. E o melhor: não precisaria ter pago nada por eles, pois estão no domínio público.

É claro que a Penguin sabe que os ebooks são uma ameaça iminente. Há alguns anos, lançaram alguns títulos em edição deluxe, com capa de couro, impressão impecável, uma beleza só. Ia para a Cultura umas 3x por semana só para namorar o livro, vendido no Brasil a R$ 200. Acabei comprando um. Na época li em algum lugar que a Penguin pretendia liderar um novo movimento do mercado literário, tornando o livro, mais uma vez, um artigo de luxo. Os ebooks tomariam uma fatia grande dos paperbacks, mas ainda haveria espaço para os livros mais cuidados, sofisticados. Não deu certo: um ano depois, os livros eram vendidos a R$ 70. A ideia não era sem fundamento. A Bibliothèque de la Pléiade e edições Robert Lafont são deluxe e semi-deluxe e vendem muito bem há décadas. Mas com a Penguin não funcionou.

Hoje a leitura é uma atividade de tempos bem variados. Para as leituras rápidas, diárias, só no Kindle mesmo. Aquelas mais demoradas, as leituras de domingo, são perfeitas para um exemplar da Pléiade. Tem lugar pra todo mundo, mas o fato de a Penguin não ter liderado essa migração para o ebook me deixa um pouco decepcionada. As inovações na área são bem limitadas. Adoraria, um dia, poder comprar um livro em edição deluxe e ganhar uma versão ebook. Já pensou que delícia poder pesquisar os principais trechos de seus livros favoritos e ainda presentear um filho ou neto nas décadas vindouras com uma edição em capa dura? Recebi minha herança em livros antecipadamente e espero passá-la adiante com adições minhas. Ou, quem sabe, comprar um livro em inglês, no Kindle ou na livraria, e ganhar uma senha para acessar um link tal, onde eu poderia adquirir com desconto de 70% a mesma obra, em outra língua (ou em várias outras línguas)? Isso sem falar em alternativas já viáveis, mas restritas geograficamente. Tive que ouvir da Amazon que não poderia emprestar ebooks porque as editoras não permitem a função no Brasil. Não sabia que ler tinha fronteiras. E quando escrevi para eles, entusiasmada, perguntando como deveria proceder para publicar um livro em 2, até 3 línguas no Kindle Direct Publishing, responderam-me: “Infelizmente a alternativa ainda não é possível. Anotaremos a sugestão da senhora”.

Parece que o futuro dos livros é um tema mal-endereçado há bem uns 50 anos…

P.S: o título é o nome de um estudo do MIT Media Lab sobre mídias velhas e novas (“Books are Dead. Long Live Books“). Um dos melhores trechos era um registro jornalístico da época em que o fonógrafo foi anunciado. O jornalista proclamava: “Agora os livros estão condenados à extinção.

P.S:2: Links e hiperlinks vieram depois porque esse post tinha que sair no dia 27. Desfilei o dia todo com o presente de Tomás, uma camiseta que dizia: “Keep Calm and Blog On”. Não compri a primeira parte da oração imperativa e precisava dar um jeito na segunda.

P.S:3: Em Montpellier, essa suposta morte dos livros era assunto em todas as aulas. Nunca entendi direito a preocupação dos franceses. Com Gallimard, Livre de Poche e Lafont, eles souberam abordar melhor do que ninguém a trajetória dos bouquins: livros para todos os tipos de leitores e de leituras. Poucos títulos no Kindle, infelizmente, graças à liderança de mercado da Fnac. Mas isso vai mudar.

Uma Morte em Família

Capa de Uma Morte em Família, (Companhia das Letras, 2012)

Escolhi Uma Morte em Família, do escritor americano James Agee, para iniciar um projeto aqui no Blog. O livro, que ganhou um Pulitzer póstumo em 1958, acaba de ser lançado pela Companhia das Letras, com tradução de Caetano Waldrigues Galindo. A edição em Português deve chegar hoje lá em casa, mas já comecei a ler o ebook no Kindle. Muito querida pelos leitores americanos, a obra é pura poesia… e tem trechos bem difíceis para os não-nativos. O inglês coloquial das classes mais baixas e as descrições do ponto de vista da criança — o menino Rufus, ponto focal da história, alterego e nome do meio de Agee — me deixam curiosa para conhecer a tradução.

He reached up for him and took him, and faintly recalled, as he gave him comfort, a multitude of fire-tipped candles (and bristling needles) and a strong green smell, a dog more gaily colored and much larger, over which he puzzled, and his father’s huge face, smiling, saying, ‘It’s a dog’. His father too remembered how he had picked out the dog with great pleasure and had it given it too soon, and here it was now too late

A ideia é contrapor, aqui, trechos originais aos traduzidos, sem qualquer aspiração a uma análise aprofundada. O livro me conquistou já nas primeiras páginas, com a bela narrativa da última noite do menino com o pai.

Ao fim do passeio noturno, os dois se sentam no cantinho especial, uma rocha a meio km de casa. O silêncio vai crescendo aos poucos e culmina com um carinho do pai, descrito suave e cuidadosamente como o selo do pacto entre os dois. Voltam sem dizer uma palavra e, naquela noite, Jay recebe o telefonema sobre o seu pai. Sonolento, Rufus ouve a conversa dos pais mas não entende muita coisa. O pai vai embora sem se despedir, porque tem certeza de que estará de volta na noite seguinte. A vida do menino — e escritor — passa a girar em torno dessa despedida antecipada.

Camus, um francês estrangeiro

Albert Camus por Henri Cartier-Bresson

Ontem recebi a minha primeira New Yorker na casa nova. A revista está deliciosa. Tem conto sobre pornográfos literários, texto sobre o futuro da procriação e uma crítica de Albert Camus que começa assim:

O romancista e filósofo francês Albert Camus era um homem bonito demais por quem as mulheres se apaixonavam perdidamente — o Don Draper do existencialismo.

Já disse aqui que só fui ler L’Étranger em julho passado, quando Tomás me emprestou o livro. Aí descobri que em vez de chato era deliciosamente absurdo. Nem O inferno são os outros soou tão forte quanto o Cela ne veut rien dire, e por algum motivo o Camus literário era mais atraente que Sartre — qualquer Sartre.

Na crítica, além de compará-lo a Bogart (fisicamente), Adam Gopnik divaga sobre a sua condição de estrangeiro: “Na América, Camus é, antes de mais nada, francês; na França ele permanece, mais do que tudo, algeriano”.

Pois é aí que discordo. O nacionalismo francês tem um limite muito bem-definido, a arte. Na Universidade de Montpellier ouvi falar várias vezes de Chopin ou Van-Gogh como franceses. Beckett, Derrida — outro franco-algeriano, Ionesco, estavam todos do lado direito da biblioteca universitária, isto é, na secção que abrigava a literatura e o pensamento nacionais (Beckett conseguia se estender por toda a biblioteca e algumas de suas obras ficavam escondidas numa sala especial, com uma funcionária dedicada que levava uns 15 minutos para achar o livro e trazê-lo para você). E numa de minhas primeiras aulas, a professora de Expression Écrite veio me perguntar se já tinha publicado (tinha, mas na escola, e aí não conta). E então me disse, enfaticamente: “Você poderia escrever em francês”.

Ora, se eu poderia…

Buenos Aires para as histórias perdidas

Na sexta 13 viajamos para Buenos Aires, minha primeira visita ao país e à cidade. Levei o Kindle com Remains of the Day e A Most Dangerous Method — que voltei a ler depois de ver o filme — além do paperback de Le Suicide et Le Chant, de Sayd Bahodine Majrouh, que reúne belas poesias populares traduzidas do pashtou. Me encantei com o texto em 2009, durante a Flip, quando o escritor afegão Atiq Rahimi leu trechos da obra, mas só fui encontrá-la na Amazon.fr há um mês.

Não li quase nada na viagem. Minha primeira impressão, ainda no aeroporto, foi a de que Buenos Aires me traria de volta tudo o que um dia perdi. Começou no Duty Free, onde encontrei um pacote de Lifesavers Gummies, a base de minha alimentação aos 16 anos. Mas culminou, de verdade, na saída do restaurante La Brigada, quando entramos numa feira de antiguidades qualquer, em San Telmo. Ali, os objetos eram velhos, sujos, gastos, muito mais do que antigos. Não escondiam sua história, seus donos pregressos, sua promiscuidade. Nada estava limpo, nem mesmo as frutas e verduras no balcão. Encontramos a inspiração do Instagram, uma Polaroid antiga, muita prata, bonecas de louça. Lembrei-me de uma memória velha. Quando era pequena, compramos uma boneca de louça e guardamos em casa, ainda na caixa. Hoje já não lembro mais por que compramos a tal boneca, por que não foi um presente para mim, por que guardamos a boneca indefinidamente. Sei apenas que um dia tive um amigo secreto de última hora na escola e ela foi escolhida. Passei a manhã inteira observando a menina que tinha ganho a boneca que nunca seria minha.

Na saída da feira, mais uma surpresa. Estávamos tirando fotos quando uma senhorita alta e ruiva se agachou no chão e desenhou, em giz de cera, uma seta e um número — talvez o número 43, talvez a fração 1/3 (foto). Mais à frente, agachou-se de novo, sem sequer se dar conta de nossa presença, e fez uma nova seta. Bateu a garrafa de Gatorade no chão, cobriu o solo de pó branco e saiu em disparada. Tomás e eu tiramos várias fotos. E rimos. Depois, divagamos sobre as possibilidades. Seriam orientações especiais para um furão? Prefiro pensar que eram para ela mesma.

No domingo, almoçamos num excelente restaurante italiano local – o Albamonte. Foi só entrar, de short jeans e pólo, para uma respeitável senhora torcer o nariz: éramos gringos em território exclusivamente portenho. À parte a comida — boa demais — o hiperativo garçom de 80 anos e o vinho — excelente — o restaurante dava mesmo essa impressão de perdido no tempo, decadente, velho, sujo. Todos estavam vestidos segundo modas passadas, e usadas. Maquiagem exagerava no blush — como num filme de Marlene Dietrich dos anos 30, embora ninguém ali tivesse a sua elegância — e ausência.

Buenos Aires para as histórias perdidas.

A Estrangeira

Naquela viagem à Colômbia li uma história impressionante. Já conhecia o húngaro Sándor Márai havia pelo menos um ano. Tinha lido As Brasas em versão em inglês (Embers) e ficado extasiada com o talento, a beleza e a profundidade do texto dele. Algo atravessava aquele inglês truncado– imagino que traduzir do húngaro não seja fácil — e alçava o texto para muito além da linguagem. Era também meu primeiro estrangeiro, escritor oriundo de uma cultura, de uma língua, com a(s) qual(is) não tinha qualquer familiaridade. Márai era uma versão mais íntima de Stefan Zweig, também estrangeiro (e suicida).

Encontrei o livro na Librería Lerner, uma das principais da cidade. Edições Salamandra de livros de Márai ocupavam uma bancada especial e lembro que fiquei quase 1 hora escolhendo. Um senhor colombiano passou por mim e disse, rindo: “Pues que la belleza y el intelecto no son todavía incompatibles“. Mas o riso morreu logo. Escolhi La Extranã.

Terminei a leitura em menos de dois dias. O enredo é simples: Viktor Askenasi, húngaro e judeu, viaja para o Hotel Argentina, em Dubrovnik, em busca de liberdade, e ali reflete sobre sua vida aos 47 anos. Mas é o encontro com a estrangeira, la extraña do título em espanhol, que realmente me fascina. A intimidade com o “estrangeiro” é levada às últimas consequências, e de forma irresistível. Nem hoje nem na época saberia dizer o que realmente acontece. Mas a tragédia íntima me fascina.

Há alguns dias, pesquisando sobre as versões traduzidas da obra — infelizmente ainda sem versão em Inglês ou Português — encontrei uma edição em francês da Albin Michel, intitulada: “L’étrangère“. Imediatamente lembrei-me do livro de Camus, L’étranger, e de como fui lê-lo na minha volta ao Brasil, quando encontrei Tomás, que me emprestou seu exemplar. Na época díziamos que éramos estrangeiros que tinham se buscado durante toda uma vida. Não podia ser coincidência — presenteei Tomás com a versão francesa do livro e fechei o ciclo.

Hoje recomeço Márai, em outra língua estrangeira.