Buenos Aires para as histórias perdidas

Na sexta 13 viajamos para Buenos Aires, minha primeira visita ao país e à cidade. Levei o Kindle com Remains of the Day e A Most Dangerous Method — que voltei a ler depois de ver o filme — além do paperback de Le Suicide et Le Chant, de Sayd Bahodine Majrouh, que reúne belas poesias populares traduzidas do pashtou. Me encantei com o texto em 2009, durante a Flip, quando o escritor afegão Atiq Rahimi leu trechos da obra, mas só fui encontrá-la na Amazon.fr há um mês.

Não li quase nada na viagem. Minha primeira impressão, ainda no aeroporto, foi a de que Buenos Aires me traria de volta tudo o que um dia perdi. Começou no Duty Free, onde encontrei um pacote de Lifesavers Gummies, a base de minha alimentação aos 16 anos. Mas culminou, de verdade, na saída do restaurante La Brigada, quando entramos numa feira de antiguidades qualquer, em San Telmo. Ali, os objetos eram velhos, sujos, gastos, muito mais do que antigos. Não escondiam sua história, seus donos pregressos, sua promiscuidade. Nada estava limpo, nem mesmo as frutas e verduras no balcão. Encontramos a inspiração do Instagram, uma Polaroid antiga, muita prata, bonecas de louça. Lembrei-me de uma memória velha. Quando era pequena, compramos uma boneca de louça e guardamos em casa, ainda na caixa. Hoje já não lembro mais por que compramos a tal boneca, por que não foi um presente para mim, por que guardamos a boneca indefinidamente. Sei apenas que um dia tive um amigo secreto de última hora na escola e ela foi escolhida. Passei a manhã inteira observando a menina que tinha ganho a boneca que nunca seria minha.

Na saída da feira, mais uma surpresa. Estávamos tirando fotos quando uma senhorita alta e ruiva se agachou no chão e desenhou, em giz de cera, uma seta e um número — talvez o número 43, talvez a fração 1/3 (foto). Mais à frente, agachou-se de novo, sem sequer se dar conta de nossa presença, e fez uma nova seta. Bateu a garrafa de Gatorade no chão, cobriu o solo de pó branco e saiu em disparada. Tomás e eu tiramos várias fotos. E rimos. Depois, divagamos sobre as possibilidades. Seriam orientações especiais para um furão? Prefiro pensar que eram para ela mesma.

No domingo, almoçamos num excelente restaurante italiano local – o Albamonte. Foi só entrar, de short jeans e pólo, para uma respeitável senhora torcer o nariz: éramos gringos em território exclusivamente portenho. À parte a comida — boa demais — o hiperativo garçom de 80 anos e o vinho — excelente — o restaurante dava mesmo essa impressão de perdido no tempo, decadente, velho, sujo. Todos estavam vestidos segundo modas passadas, e usadas. Maquiagem exagerava no blush — como num filme de Marlene Dietrich dos anos 30, embora ninguém ali tivesse a sua elegância — e ausência.

Buenos Aires para as histórias perdidas.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s