O livro está morto. Viva o livro!

Nova Penguin English Library - foto publicada via Penguin, no Facebook

A Penguin acaba de lançar uma nova coleção deliciosa: Penguin English Library. É na verdade um projeto com 100 títulos clássicos da literatura inglesa, os “melhores” segundo a famosa editora. Great Expectations, A Tale of Two Cities, The Adventures of Huckleberry Finn, Moby Dick e muito mais. O lançamento é a cara da “maison”, primeira a produzir paperbacks de qualidade, na década de 30. Nos últimos 12-13 anos,  acompanhei quase todos os seus novos selos e coleções, entusiasmando-me com cada um deles. E a diferença entre meu primeiro The Picture of Dorian Gray, de capa amarelada, páginas permeáveis e impressão borrada e os itens da nova English Library é muito simples: não dá para comparar. A única semelhança parece ser o preço — na Amazon.com, as novas cópias da EL são vendidas entre $4 e $7. Mas aí eu pergunto, será que é barato mesmo?

Moonstone, do fantástico Wilkie Collins, é um dos livros do selo. Só que tem quase 1.000 páginas. Em 2010, comprei uma edição paperback de outra obra extensa do autor, a muito famosa Woman in White. E só fui terminar de ler em 2011, em julho, de volta ao Brasil com meu novo Kindle. Andar pra cima e pra baixo com um livro de tantas páginas não é tarefa fácil — isso sem contar o esforço envolvido em decifrar aquelas letrinhas espremidas. No Kindle, diversão pura: li os dois em uma semana. E o melhor: não precisaria ter pago nada por eles, pois estão no domínio público.

É claro que a Penguin sabe que os ebooks são uma ameaça iminente. Há alguns anos, lançaram alguns títulos em edição deluxe, com capa de couro, impressão impecável, uma beleza só. Ia para a Cultura umas 3x por semana só para namorar o livro, vendido no Brasil a R$ 200. Acabei comprando um. Na época li em algum lugar que a Penguin pretendia liderar um novo movimento do mercado literário, tornando o livro, mais uma vez, um artigo de luxo. Os ebooks tomariam uma fatia grande dos paperbacks, mas ainda haveria espaço para os livros mais cuidados, sofisticados. Não deu certo: um ano depois, os livros eram vendidos a R$ 70. A ideia não era sem fundamento. A Bibliothèque de la Pléiade e edições Robert Lafont são deluxe e semi-deluxe e vendem muito bem há décadas. Mas com a Penguin não funcionou.

Hoje a leitura é uma atividade de tempos bem variados. Para as leituras rápidas, diárias, só no Kindle mesmo. Aquelas mais demoradas, as leituras de domingo, são perfeitas para um exemplar da Pléiade. Tem lugar pra todo mundo, mas o fato de a Penguin não ter liderado essa migração para o ebook me deixa um pouco decepcionada. As inovações na área são bem limitadas. Adoraria, um dia, poder comprar um livro em edição deluxe e ganhar uma versão ebook. Já pensou que delícia poder pesquisar os principais trechos de seus livros favoritos e ainda presentear um filho ou neto nas décadas vindouras com uma edição em capa dura? Recebi minha herança em livros antecipadamente e espero passá-la adiante com adições minhas. Ou, quem sabe, comprar um livro em inglês, no Kindle ou na livraria, e ganhar uma senha para acessar um link tal, onde eu poderia adquirir com desconto de 70% a mesma obra, em outra língua (ou em várias outras línguas)? Isso sem falar em alternativas já viáveis, mas restritas geograficamente. Tive que ouvir da Amazon que não poderia emprestar ebooks porque as editoras não permitem a função no Brasil. Não sabia que ler tinha fronteiras. E quando escrevi para eles, entusiasmada, perguntando como deveria proceder para publicar um livro em 2, até 3 línguas no Kindle Direct Publishing, responderam-me: “Infelizmente a alternativa ainda não é possível. Anotaremos a sugestão da senhora”.

Parece que o futuro dos livros é um tema mal-endereçado há bem uns 50 anos…

P.S: o título é o nome de um estudo do MIT Media Lab sobre mídias velhas e novas (“Books are Dead. Long Live Books“). Um dos melhores trechos era um registro jornalístico da época em que o fonógrafo foi anunciado. O jornalista proclamava: “Agora os livros estão condenados à extinção.

P.S:2: Links e hiperlinks vieram depois porque esse post tinha que sair no dia 27. Desfilei o dia todo com o presente de Tomás, uma camiseta que dizia: “Keep Calm and Blog On”. Não compri a primeira parte da oração imperativa e precisava dar um jeito na segunda.

P.S:3: Em Montpellier, essa suposta morte dos livros era assunto em todas as aulas. Nunca entendi direito a preocupação dos franceses. Com Gallimard, Livre de Poche e Lafont, eles souberam abordar melhor do que ninguém a trajetória dos bouquins: livros para todos os tipos de leitores e de leituras. Poucos títulos no Kindle, infelizmente, graças à liderança de mercado da Fnac. Mas isso vai mudar.

2 ideias sobre “O livro está morto. Viva o livro!

  1. Marcella

    Como vc disse, ainda vai lá uns 50 anos para sabermos qual será o futuro do livro. Provavelmente muita gente daqui a algum tempo vai querer voltar a carregar livros, pq será vintage! e os tablets (que convenhamos, bem mais leves e práticos) serão/são os novos cadernos, livros e maquinás fotográficas. Eu farei parte dos dois rsrs, ainda carregando meus livros de capa dura e o tablet com um monte de livros para ler.

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  2. literaturaestrangeira Autor do post

    Marcella, concordo plenamente com você! Também carrego o Kindle e um livro, quase sempre… Hoje o livro é: Steven Berkoff: Plays, porque preciso terminar de traduzir uma das peças dele. Você conhece? Muito bacana seu blog.

    Resposta

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