Arquivo mensal: maio 2012

Éter

O Rio de Janeiro continua lindo

Fiquei quase um mês sem escrever e acho que devo começar com uma breve atualização literária. Terminei de ler A Death in the Family na versão original e gostei muito. Ainda preciso ler a tradução em português e comentar por aqui, mas agora só posso dizer que o livro é sensível e bonito e me tocou profundamente em alguns momentos. Voltei a ler Steven Berkoff e seu Lunch, fascinante, sempre. E comecei The Voyage Out, de Virginia Woolf, muito recomendado por Tia Tania. Este sim é um livro que me remete a vários momentos inventados de minha vida, aos devaneios de fim de tarde de sol e sono, quando tudo ao meu redor, e às vezes até eu mesma, assumia uma composição etérea, quase irreal. Tinha o maior preconceito contra Ms. Woolf, e se não fosse Tia Tania, nem sei se leria a autora algum dia. Mas agora que li, acho que traz o melhor da literatura inglesa, e brinca com a língua de uma forma muito especial.

O fim-de-semana sem dormir e sem ler — embora com o Kindle a tiracolo — teve muito dessa sensação etérea. Primeiro porque estava no Rio de Janeiro, e é impossível ficar imune à beleza, ao mar, às praias do Rio no outono. Sentamo-nos de frente para o mar, sonolentos. Depois nos aprontamos para visitar minha sobrinha recém-nascida, Sofia. Foi a primeira vez em que segurei um bebê em meus braços depois de adulta e não poderia descrever a minha emoção. Senti-la de tão perto, seu calor de criança muito amada, o coraçãozinho batendo no corpo todo, me fez entender um pouco mais o que significa ser mãe, e por que por tantos anos me neguei a segurar uma criança no colo. Tinha que ser alguém que eu amasse demais, para sentir por completo essa magia. Pequenininha daquele jeito, Sofia faz o mundo um pouco mais gostoso e coloca todo o resto em perpectiva, dando sentido para a vida. E se não houver nada mais, vou querer ao menos dar um priminho para ela.

A Paris de Cartier-Bresson

A Paris de Cartier-Bresson: numa das fotos da famosa coleção de 68, um homem lê uma pichação num dos muros de Paris

Em Aix-en-Provence, andando pelo Cours Mirabeau, resolvi entrar numa papelaria bem simpática, para comprar uns cadernos Paperblanks maravilhosos que custam uma fortuna aqui em São Paulo. Tomás, Tia Tania e Jean ficaram na entrada, curtindo o dia de inverno primaveril e olhando os cartões postais pendurados. Quando saí, uma surpresa: num desses cartões de Paris da Magnum Photos, com foto do grande Henri Cartier-Bresson, encontramos um conhecido, hoje falecido. Na foto, ele olha um muro com a seguinte pichação: Jouissez sans entraves. Na tradução para o inglês, Pleasure without Limits, mas acho que é uma daquelas expressões que não admitem tradução honesta (quer dizer, até Eric Hosbsbawm decidir interpretá-la). É o tipo de coincidência literária a que aspiro todos os dias quando saio de casa. E esta tinha uma conotação histórica, além de tudo.

A foto faz parte da coleção de 68 da Magnum Photos, e ocupou um parágrafo inteiro no ensaio de Eric J. Hobsbawn intitulado Os Anos 60 e publicado em sua autobiografia Tempos Interessantes: uma Vida no Século XX. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, p.274-282. Aqui um trecho do parágrafo sobre a foto (há várias controvérsias):

A coleção de fotos de 1968 do Magnum contém outra imagem que resume pelo menos parte de meus sentimentos na época. Um homem idoso de classe média, de pé, com os braços cruzados para trás, olha com ar pensativo um muro parisiense coberto de cartazes e uma porta rude de madeira, presumivelmente de algum quintal ou terreno. A camada superior dos cartazes foi parcialmente arrancada, deixando entrever tijolos de massa e velhos pôsteres cinematográficos. Na porta estão acumulados cartazes políticos – um do Partido Comunista por cima de um texto sobre poder estudantil, uma folha meio rasgada conclamando à luta por uma sociedade democrática que abra o caminho para o socialismo, e por cima de tudo um grande grafite escrito com o armamento básico dos revolucionários de 1968: a lata de spray. A inscrição diz “Jouissez sans entraves”, que os editores timidamente traduziram por “Vamos mostrar tudo”. (Na verdade significa “Que nada impeça o orgasmo”.) Não sabemos o que o velho de Cartier-Bresson pensava sobre os muros de Paris, que foram as principais vítimas e testemunhas públicas da revolta estudantil.

Pesquisando na Internet, encontrei outra referência controversa. Um post de 2009 do blog Quartier Latin Paris, também da WordPress:

A voir un bourgeois bedonnant regarder dubitatif un graffiti: «Jouissez sans entrave», on pense au conflit des générations ou aux manifestations de mai 68.

Ele entrou para a história, é isso que importa.

Dois tempos, uma só poesia: de Omar Khayyam a Elisa Lucinda

Uma das capas deluxe do clássico de Omar Khayyam

Meu primeiro livro de poesia realmente querido foi uma edição especial francesa, minima, com capa de camurça e folhas de laterais douradas de Rubaiyat, de Omar Khayyam. Havia pertencido ao meu bisavô e era um presente da minha vó, bem no dia do casamento da minha prima. Passei um ano procurando uma versão mais completa e achei, em francês também, e ia devorando os quartetos um por dia, e quando acabava, começava tudo de novo. O livro era compacto, uma pílula de felicidade, e esse tempo todo achei que a poesia tivesse de ser assim: inscrita num espaço delimitado, sem se arriscar além-tempo ou além-vida.

Fomos a um recital de poesia falada no último domingo, a apresentação final de um curso de 4 dias de Elisa Lucinda. Lembrei-me dela depois, e de Parem de Falar Mal da Rotina — que agora virou livro — e das emoções avassaladoras daquele início de 2010. Uma amiga e eu assistimos a tudo de uma das primeiras fileiras do teatro, aqui em São Paulo, e eu chorei e ri, vezes alternadas. Ali a poesia era outra, infinita e sonora, de verdade. Mas precisei encerrá-la numa caixa, porque atravessava uma das fases mais infelizes da minha vida e não podia me abrir inteiramente para ela. No domingo Anna escolheu um poema maravilhoso, Ex Voto, de Adélia Prado (transcrito abaixo). Ouvindo aquela poesia, lembrei-me de uma conversa que tive com a minha vó aos 16 anos, quando eu disse que estava feliz e não sentia mais vontade de escrever. Ela respondeu que quem escrevia, escrevia por necessidade interior — e se tivesse de escolher entre me ver feliz ou escritora, preferia que fosse feliz. Passei dias com medo disso: de ser feliz e não ser escritora, e de ser escritora e não ser feliz, e acabei decidindo que se eu quisesse mesmo escrever, se eu deixasse que a leitura e a literatura fossem me escrevendo de dentro para fora, talvez algum dia eu pudesse escolher. Uma terceira alternativa. Como não ser estrangeira nem brasileira. A felicidade era mais difícil de escolher assim. Mas agora, com o livro de Lucinda na mesa de cabeceira, sou feliz e posso dizer: Preciso escrever.

Ex Voto

Na tarde clara de um domingo quente
surpreendi-me,
intestinos urgentes, ânsia de vômito, choro,
desejo de raspar a cabeça e me pôr nua
no centro da minha vida e uivar
até me secarem os ossos:
que queres que eu faça, Deus?
Quando parei de chorar
o homem que me aguardava disse-me:
“você é muito sensível, por isso tem falta de ar”.
Chorei de novo porque era verdade
e era também mentira,
sendo só meio consolo.
Respira fundo, insistiu, joga água fria no rosto,
vamos dar uma volta, é psicológico.
Que ex-voto levo à Aparecida,
se não tenho doença e só lhe peço a cura?
Minha amiga devota se tornou budista,
torço para que se desiluda
e volte a rezar comigo as orações católicas.
Eu nunca ia ser budista,
por medo de não sofrer, por medo de ficar zen.
Existe santo alegre ou são os biógrafos
que os põem assim felizes como bobos?
Minas tem coisas terríveis,
a Serra da Piedade me transtorna.
Em meio a tanta rocha
de tão imediata beleza,
edificações geridas pelo inferno,
pelo descriador do mundo.
O menino não consegue mais,
vai morrer, sem forças para sugar
a corda de carne preta do que seria um seio,
agora às moscas.
Meu coração é bom
mas não aceita que o seja.
O homem me presenteia,
por que tanto recebo,
quando seria justo mandarem-me à solitária?
Palavras não, eu disse, só aceito chorar.
Por que então limpei os olhos
quando avistei roseiras
e mais o que não queria,
de jeito nenhum queria àquela hora,
o poema,
meu ex-voto,
não a forma do que é doente,
mas do que é são em mim
e rejeito e rejeito,
premida pela mesma força
do que trabalha contra a beleza das rochas?
Me imploram amor Deus e o mundo,
sou pois mais rica que os dois,
só eu posso dizer à pedra:
és bela até à aflição;
o mesmo que dizer a Ele:
sois belo, belo, sois belo!
Quase entendo a razão de minha falta de ar.
Ao escolher palavras com que narrar minha
angústia,
eu já respiro melhor.
A uns Deus os quer doentes,
a outros quer escrevendo.

Uma poética da tradução

Baudelaire num dia de sol invernal em Montpellier

Minha primeira leitura de Poe em idade adulta deve ter sido The Man of the Crowd, durante meus anos na faculdade de Jornalismo. Lemos o conto em português mas, assim que saímos da aula, fui correndo para a biblioteca procurar algum livro com a sua versão original. Li o texto inteirinho e, insatisfeita, passei para os contos subsequentes. Nenhum deles trazia nova informação sobre o tal homem da multidão. E essa frustração foi o que provocou minha paixão por Poe. Ao lado de ETA Hoffmann — autor alemão que, como EA Poe(t), traz iniciais curiosas — foi o que de melhor absorvi do curso.

Poe era o autor completo, que apresentava o extraordinário com imaginação, inteligência e um curioso domínio da língua inglesa. Em 2009, um amigo, diretor de cinema e teatro, me convidou para adaptar um texto de Poe para o cinema, The Mystery of Marie Rogêt. Disse que sim na mesma hora e demos início a um estudo que combinava cinema e a muito particular literatura poesca. O projeto ainda não foi finalizado mas ler, de cabo a rabo, todos os textos em prosa e verso de Poe foi uma das experiências literárias mais ricas de minha vida. Memorizei, talvez de maneira imperfeita, uma das coisas que ele dizia. Que queria escrever algo que pudesse ser lido em uma única sentada — poesia.

Pois bem. Na França comecei a estudar Baudelaire. Mais precisamente no dia 18 de janeiro de 2011, um dia de sol espetacular em pleno inverno mediterrâneo, deitada sobre a grama em frente ao Córum, com uma edição barata da Livre de Poche. E foi ali que entendi Baudelaire como tradutor de Poe e, como nossa professora bem nos explicou depois, foi ali que compreendi que Baudelaire, (em parte) responsável pelo prestígio do escritor americano em solo francês, havia criado obras literárias inteiramente novas a partir dos textos de Poe, construindo uma poética muito própria da tradução. Nos absorvemos tanto no estudo de Fleurs du Mal, que nunca cheguei a ler as traduções de Baudelaire reunidas em Histoires Extraordinaires. E só agora, mais de um ano depois, o assunto volta à tona.

Um amigo me emprestou O Corvo e suas Traduções, livro organizado por Ivo Barroso que reúne uma série de traduções do poema mais famoso de Poe, The Raven, em francês e português. Baudelaire, o pioneiro, traduziu o texto em prosa poética, ou poesia em prosa, como insistia uma antiga professora de Português. O Baudelaire que conheci no IEFE, na Université Montpellier 3, era um poeta que valorizava muito a forma, sem deixar de prestigiar o conteúdo e a música. Seus poemas eram pílulas artísticas perfeitas, e passávamos horas a fio tentando desvendar (e contar) as sílabas, as rimas, o tema. Por que não traduziria Poe respeitando a forma, até agora não sei responder — e pretendo investigar o assunto mais a fundo (e ler, com cuidado, a tradução em verso feita em 1998 por Didier de Lamaison), mas agora o que quero mesmo é transcrever a primeira estrofe — do original e de Baudelaire (os links levam aos textos na íntegra).

THE RAVEN

Once upon a midnight dreary, while I pondered, weak and weary,
Over many a quaint and curious volume of forgotten lore,
While I nodded, nearly napping, suddenly there came a tapping,
As of someone gently rapping, rapping at my chamber door.
“‘Tis some visitor,” I muttered, “tapping at my chamber door
Only this and nothing more

LE CORBEAU

« Une fois, sur le minuit lugubre, pendant que je méditais, faible et fatigué, sur maint précieux et curieux volume d’une doctrine oubliée, pendant que je donnais de la tête, presque assoupi, soudain il se fit un tapotement, comme de quelqu’un frappant doucement, frappant à la porte de ma chambre. « C’est quelque visiteur, — murmurai-je, — qui frappe à la porte de ma chambre ; ce n’est que cela, et rien de plus. »