A Paris de Cartier-Bresson

A Paris de Cartier-Bresson: numa das fotos da famosa coleção de 68, um homem lê uma pichação num dos muros de Paris

Em Aix-en-Provence, andando pelo Cours Mirabeau, resolvi entrar numa papelaria bem simpática, para comprar uns cadernos Paperblanks maravilhosos que custam uma fortuna aqui em São Paulo. Tomás, Tia Tania e Jean ficaram na entrada, curtindo o dia de inverno primaveril e olhando os cartões postais pendurados. Quando saí, uma surpresa: num desses cartões de Paris da Magnum Photos, com foto do grande Henri Cartier-Bresson, encontramos um conhecido, hoje falecido. Na foto, ele olha um muro com a seguinte pichação: Jouissez sans entraves. Na tradução para o inglês, Pleasure without Limits, mas acho que é uma daquelas expressões que não admitem tradução honesta (quer dizer, até Eric Hosbsbawm decidir interpretá-la). É o tipo de coincidência literária a que aspiro todos os dias quando saio de casa. E esta tinha uma conotação histórica, além de tudo.

A foto faz parte da coleção de 68 da Magnum Photos, e ocupou um parágrafo inteiro no ensaio de Eric J. Hobsbawn intitulado Os Anos 60 e publicado em sua autobiografia Tempos Interessantes: uma Vida no Século XX. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, p.274-282. Aqui um trecho do parágrafo sobre a foto (há várias controvérsias):

A coleção de fotos de 1968 do Magnum contém outra imagem que resume pelo menos parte de meus sentimentos na época. Um homem idoso de classe média, de pé, com os braços cruzados para trás, olha com ar pensativo um muro parisiense coberto de cartazes e uma porta rude de madeira, presumivelmente de algum quintal ou terreno. A camada superior dos cartazes foi parcialmente arrancada, deixando entrever tijolos de massa e velhos pôsteres cinematográficos. Na porta estão acumulados cartazes políticos – um do Partido Comunista por cima de um texto sobre poder estudantil, uma folha meio rasgada conclamando à luta por uma sociedade democrática que abra o caminho para o socialismo, e por cima de tudo um grande grafite escrito com o armamento básico dos revolucionários de 1968: a lata de spray. A inscrição diz “Jouissez sans entraves”, que os editores timidamente traduziram por “Vamos mostrar tudo”. (Na verdade significa “Que nada impeça o orgasmo”.) Não sabemos o que o velho de Cartier-Bresson pensava sobre os muros de Paris, que foram as principais vítimas e testemunhas públicas da revolta estudantil.

Pesquisando na Internet, encontrei outra referência controversa. Um post de 2009 do blog Quartier Latin Paris, também da WordPress:

A voir un bourgeois bedonnant regarder dubitatif un graffiti: «Jouissez sans entrave», on pense au conflit des générations ou aux manifestations de mai 68.

Ele entrou para a história, é isso que importa.

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