Arquivo mensal: junho 2012

Bradbury e seu Playground

O escritor Ray Bradbury, falecido no início de junho. Foto de Steve Castillo, AP Photo, publicada no site do jornal O Globo

Por onde começar? Ontem estava doente e li um Kindle Single: The Playground, do escritor Ray Bradbury. Recomendo a todos, mesmo àqueles que não têm Kindle. Trata-se de um conto curto e fascinante, que pode ser lido na tela do computador mesmo, e e o preço é baixinho, 0,99 USD — clique aqui para comprar. Foi meu primeiro livro de Bradbury lido do início ao fim — estava procurando o conto The Fire Balloons, mas não há versão ebook disponível no momento, infelizmente.

O conto, de terror, é delicioso e uma leitura perfeita para quem está de cama: nada melhor para escapar da realidade do que um bom texto fantasioso. Também terminei de ler a edição especial de ficção científica da New Yorker. Adoro o texto de Margaret Atwood: aqui, mas é necessário comprar a edição ou já ter a assinatura.

Hoje vamos ao Astor, comemorar quase um ano de namoro — sempre gostei das comemorações de véspera — e tomar o mesmo Dry Martini que tomamos no dia 28 de julho do ano passado. Talvez sirva de inspiração para um novo texto.

Narrativas científicas

Conto de Jennifer Egan, confirmada para a Flip deste ano, publicado na edição especial de ficção científica da revista New Yorker

A edição de 4-11 de Junho da New Yorker é todinha sobre ficção científica. Traz contos de Jennifer Egan, Junot Díaz, Sam Lipsyte, Jonathan Lethem, etc, e relatos em primeira pessoa de Ray Bradbury, William Gibson, Anthony Burges (autor de Clockwork Orange e de quem fui fã por muito tempo), Ursula K. Le Guin, China Miéville, Margaret Atwood, Karen Russell.

Jennifer Egan participará da programação principal da Flip 2012, com mesa 11 confirmada para 12h, no sábado dia 07 de julho. A conversa é com Ian McEwan, e embora os ingressos para a Tenda dos Autores estejam esgotados, a Tenda do Telão é uma opção (compras na Tickets for Fun ou durante a Flip, em Paraty).

No conto, Black Box, no sul da França, os homens são Designated Mates e as mulheres, beauties. E espiãs de algum lugar da América são enviadas para segui-los, satisfazê-los e gravar todas as conversas que possam ter, através de uma extensão eletrônica do corpo orgânico. Quando as mulheres cedem aos desejos dos homens, acionam a chamada Dissociation Technique, em que alma e corpo se dissociam, e a mulher só retorna ao fim do ato, dizendo-se sempre: “Lembre-se de que se trata de um sacrifício por sua pátria e você não está sendo paga por este trabalho”. Ao fim do conto — ainda não decidi se gostei ou não — a técnica dissociativa entra em cena outra vez, mas numa situação muito diferente.

Gosto, especialmente, da narrativa de Bradbury (grande autor de sci-fi, falecido em 06 de junho — aqui, A Man Who Won’t Forget Ray Bradbury, texto de Neil Gaiman publicado no site do The Guardian sobre o escritor). Não posso dizer que já li muita coisa dele, mas é o tipo de escritor que volta e meia reaparece na minha vida — comecei a gostar de ficção científica há pouquíssimo tempo, em 2004-2005 provavelmente, quando fiz meu projeto de jornalismo sobre o futuro da informação. Em Take Me Home, que mal ocupa uma página, ele volta à primeira fase de sua paixão com a ficção científica e conta qual foi a inspiração para um de seus contos, The Fire Balloons, infelizmente indisponível eletronicamente — quem sabe um dia todos os livros estarão no Kindle…

When I look back now, I realize what a trial I must have been to my friends and  relatives. It was one frenzy after one elation after one enthusiasm after one  hysteria after another. I was always yelling and running somewhere, because I  was afraid life was going to be over that very afternoon.

Impossível escolher um ou outro trecho, pois são todos muito bons: “I would go out to that lawn on summer nights and reach up to the red light of  Mars and say, ‘Take me home!’ I yearned to fly away and land there in the  strange dusts that blew over dead-sea bottoms toward the ancient cities“.

E então ele conta como a relação com o avô foi costurando a fantasia sci-fi e 25 anos depois, escreveu uma história que era na verdade um tributo a “essas noites com o avô”. A literatura sci-fi só entrou na minha vida muito tarde, mas lembro-me de dias, noites, na casa de praia de minha vó, andando pela praia e pedindo que um avô imaginário me ajudasse a conferir algum sentido a tudo o que estava ao meu redor.

Narrativas que curam

Modelo criado a partir de minha interpretação de trechos do livro Making Sense of Madness que destacam a importância das narrativas (stories) na constituição da realidade

Uma psicanalista que respeito muito me disse que realidade era aquilo que descobríamos e inventávamos, sem parar. As narrativas, base de toda a psicánalise, seriam também a base de nossa interação com o mundo exterior, uma abertura direta entre as experiências e nosso eu interior, com a capacidade de modificar um e outro. Sempre gostei dessa tese. Histórias ou narrativas — stories, em inglês — nos permitiam fugir da realidade e finalmente atingí-la, e se o “mundo real” parecia algo bem constituído, sólido, imutável, na verdade era pouco mais do que um conjunto aleatório de interferências de luz, matéria e movimento sobre o espaço-tempo e sobre nós mesmos. E nós tinhamos essa função não proclamada de receber essas interferências e procurar internalizá-las de alguma forma, make sense of them alguns nanosegundos depois e responder, num processo que não terminava nunca. E esse processo interminável às vezes dava origem às narrativas…

Por isso o livro Making Sense of Madness: Contesting the Meaning of Schizophrenia me conquistou desde o primeiro momento. O livro faz parte de uma coleção do The International Society for the Psychological Treatments of the Schizophrenia and Other Psychoses sobre a psicose ou a “loucura”. Um psiquiatra uma vez me explicou que, em pessoas que apresentam um quadro psicótico (do surto ao primeiro diagnóstico são meses que não acabam mais) existe uma interferência nessa percepção da realidade. Em vez de receber as interferências externas e absorvê-las de uma forma que faça sentido para o observador, o psicótico “interfere nelas”, de modo que o filtro que todos nós temos, para não apreender a realidade de uma vez só , confunde-se com os estímulos externos e a dado momento já não sabemos mais o que é real e o que não é. As vozes “ouvidas” pelo esquizofrênico (um dos principais sintomas positivos da “condição), por exemplo, são tão reais quanto aquela emitida pela pessoa ao lado. E se há uma mutação logo no início da interação com a realidade, fica muito mais difícil restabelecer essa conexão saudável de troca (interferências externas+interferências internas).

Até descobrir o livro, acreditava que os tratamentos hoje disponíveis eram muito limitados. As vozes, e outros sintomas positivos da “condição” eram “tratados” com remédios antipsicóticos, alguns à base de clozapina, medicação que apresenta uma série de efeitos colaterais; os remédios contribuíam para o aumento dos sintomas negativos (tem gente que diz que os antipsicóticos podem inclusive provocá-los), que colocam o paciente num estado meio letárgico; e no que diz respeito à compreensão da realidade… O paciente é conduzido pelo seu psiquiatra e/ou psicólogo a pensar que as vozes que ouve todos os dias não são reais, ou seja, a desacreditar na etapa mais básica de sua percepção da realidade, além disso, é obrigado a usar uma medicação forte o suficiente para comprometer, justamente, essa interação — e além disso tudo, quando recebe um diagnóstico de esquizofrenia, é obrigado a aceitar e conviver com uma condição cujo status de doença ainda não foi sequer comprovado, para a qual não há cura ou reversão, e que implica no uso de medicação para o resto da vida. E se o paciente ainda é jovem, e os primeiros surtos aconteceram na primeira juventude, 20-23 anos, a família então se encarrega do resto, e faz de tudo para que o paciente realmente não chegue a ser mais do que parcialmente dependente, com perspectivas de vida que não vão muito além da mediocridade.

As narrativas criadas numa interação “normal” com o mundo real são histórias que muitas vezes têm uma correlação fraca com os estímulos externos e com uma observação dos fatos em si, mas que têm uma importância fundamental na superação de obstáculos que se apresentam todos os dias, e continuarão a se apresentar. Em quadros psicológicos mais complexos, essas historinhas muitas vezes perduram por muito tempo, enquanto o indivíduo segue um fluxo de vida funcional. A narrativa em que ele se insere tem o objetivo de protegê-lo do momento presente e guiá-lo para o próximo, e muitas vezes se transformam (às vezes em outra narrativa uma vez cumprida sua função).

Pacientes que apresentam um quadro de esquizofrenia fazem a mesma coisa; mas as narrativas costumam se parecer, por causa de manifestações e sintomas muito semelhantes. Exceto em casos extremos, em que os surtos colocam em risco a vida do paciente ou de outras pessoas, acredito que a exploração dessas narrativas — geralmente com cunho espiritual — deveria ser feito de forma extensa antes de iniciar a medicação (que geralmente ocorre já na primeira consulta psiquiátrica). Essa é uma ideia esboçada no livro — ainda estou no comecinho — por especialistas que têm uma vantagem especial: suas experiências muito pessoais com a psicose. Só estando mesmo próximo para entender que o objetivo principal do tratamento não deveria nunca ser atingir uma interação funcional com a realidade, e que para ajudar pessoais com casos especiais a “make sense of reality”, é preciso antes “make sense of madness”, que ainda é uma grande incógnita para todos em pleno século XXI, sejam eles psiquiatras, psicanalistas, familiares ou meros curiosos. Provavelmente sabemos quase tão pouco sobre a loucura quanto sabemos sobre a realidade, e isso em si já revoga qualquer diagnóstico.

Aluguel de livros Kindle

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A Amazon começou com o aluguel e o empréstimo de livros há alguns meses.

A ideia era genial. Primeiro, você podia alugar o livro que quisesse, pelo tempo que determinasse, pagando só por este período. E se ao fim do período você decidisse comprar o livro, isso também era possível, pagando a diferença, claro. Era como comprar um paperback barato, que você só pretende ler uma vez e depois passar adiante. E as editoras selecionaram títulos assim: best-sellers, livros populares (os 3 de Stieg Larsson estavam disponíveis na época).

Segundo, você podia emprestar livros, disponíveis na sua biblioteca Kindle. Como temos 2 Kindles em casa, essa opção era ótima. Depois de ler um livro, poderia passá-lo para Tomás, e vice-versa. E assim poderíamos, finalmente, utilizar duas contas na Amazon (hoje os Kindles estão registrados na minha, porque não faz nenhum sentido pagar pelo mesmo livro 2 vezes).

Pois é, mas nenhuma dessas opções estava disponível para usuários brasileiros. Escrevi para a Amazon reclamando, dizendo que não fazia sentido algum restringir funções de acordo com a geografia física. Eles me responderam que a decisão era das editoras e ficou por isso mesmo.

Mas essa semana tive uma ótima surpresa. O aluguel de livros já está disponível, para alguns títulos — geralmente títulos que ultrapassam o preço médio unitário de 10 USD. Já aluguei 2 e recomendo. Para saber mais, clique aqui.

O Impulso Criativo

Capa do 2o volume da coletânea de contos de Somerset Maugham. “The Creative Impulse” é um dos excelentes contos do livro

Finalmente descobri o nome do conto do Somerset Maugham: The Creative Impulse ou O Impulso Criativo, publicado no 2o volume da coletânea de contos do escritor, disponível em versões impressa (Vintage Random House) e Kindle (veja aqui). Recomendo muito, principalmente a versão Kindle. Tenho todos os paperbacks dele, mas  foram se gastando com o tempo. Nem mesmo a cópia em capa dura que ganhei da minha vó resistiu. Comecei a ler suas histórias por recomendação dela, The Facts of Life, Mr. Know All, são alguns exemplos. E um dos contos mais deliciosos é o The Three Fat Women of Antibes (disponivel na íntegra neste site). Cheguei a escrever histórias  com os personagens dele, com as aventuras das três amigas jogadoras de poker num SPA em tempos modernos.

Maugham domina por completo o gênero conto e é um de meus escritores favoritos até hoje. Cada conto revela um universo inteiro, e os personagens ficam conosco para sempre. Gosto muito, também, de The Wash-Tub, totalmente despretensioso, que me fez sonhar com Positano por anos; ou Red, um dos mais famosos, também disponível na íntegra aqui. Theatre, sobre a atriz Julia Lambert — vivida por Annette Bening na adaptação cinematográfica — é fantástico, e disponível online, também, aqui.

Vou reler Maugham, certamente, mas hoje decidi por uma nova leitura — deliciosa. Lerei pela primeira vez um livro inteiro de PD James, A Mind to Murder.

Leituras irresistíveis

Nada mais gostoso do que ler no Kindle em Taci

Recebi hoje minha New Yorker de 28 de maio, um atraso danado. Mas o ensaio Easy Writers de Arthur Krystal, é delicioso e vale a leitura (infelizmente é necessário comprar a edição ou já ter a assinatura para ler). O campo de investigação é muito bem definido: o que seria de nós, reles mortais, sem a literatura fácil, a “genre literature”. Nenhum leitor que se preze vive só de alta literatura. E cada um tem seu escritor das horas difíceis ou tediosas — no meu caso, P.G Wodehouse acaba com qualquer tristeza e Agatha Christie, com qualquer tédio. E não resisto ao magnífico Georges Simenon, para muitos o único “escritor” do gênero policial — e uma das grandes delícias de se conhecer o idioma francês.

Mas muitos dos escritores fáceis de antigamente são hoje respeitados — Somerset Maugham, que aos 23 anos já vivia da literatura e escreveu um excelente conto sobre uma escritora adorada pela crítica: não ganhava um tostão e vivia às custas do marido até ser abandonada por ele. E é então que ele lhe dá um grande conselho: “Ora, por que você não escreve histórias de detetive? A crítica vai adorar ter uma desculpa para ler o que quer, e as massas finalmente cederão a seus livros”. E assim ela fica rica*.

Recentemente sucumbi a Stieg Larsson e adorei. Não tem nada melhor do que um livro gostoso para substituir as horas incontáveis na frente da TV ou os devaneios sem fim de um domingo de solidão.

*: Para descobrir qual o nome do conto, é só dar uma espiada no 2o post do dia…

Traduzindo Steven Berkoff

Capa do primeiro volume da coletânea de peças de teatro do ator e dramaturgo Steven Berkoff

Comecei a traduzir Lunch, de Steven Berkoff, no início deste ano, a pedido de um amigo, ator, que pretende encenar a peça, inédita no país. Berkoff é ator — visto mais recentemente na pele de Dirch Frode em Os Homens que Não Amavam as Mulheres — diretor e dramaturgo. Nunca tinha ouvido falar dele antes do convite, e comecei a ler seu texto com certa surpresa. Seus diálogos são ricos em vocabulários, imagens contundentes e expressões bem curiosas, como “what did you expect, Gregory Peck?”. E embora tenhamos uma primeira versão, esta ainda não foi bem-resolvida, pois é necessário dar corpo à linguagem de Berkoff. Sinto uma compaixão infinita por todos os tradutores literários que critiquei nos últimos anos, quando me deparava com traduções ruins de textos famosos. Verdade que no teatro não basta traduzir bem, a voz do texto, seu espaço-tempo particular, também precisam ser transpostos, e se eliminamos a estranheza, a perfeição imagética, o mal-estar e as referências de alguns dos trechos de Berkoff (são muitos), já não temos seu texto, mas outra coisa. E pensando em teatro, lembro daquele ensaio brilhante de Tennessee Williams publicado como prefácio em uma de suas coletâneas, Rose Tattoo & Other Plays, acho, em que ele diz que as dimensões de ação e emoção da vida real seriam as mesmas do teatro “if only the shattering intrusion of time could be locked out“.

Acredito que, mais do que isso, o teatro traz o tempo para seu interior com a intenção de dominá-lo. Se ninguém na plateia comparar o texto original àquele em cena, certamente todos perceberão a presença — ou ausência — muito particular de um tempo exterior.

Em breve novo post sobre o assunto.