Narrativas que curam

Modelo criado a partir de minha interpretação de trechos do livro Making Sense of Madness que destacam a importância das narrativas (stories) na constituição da realidade

Uma psicanalista que respeito muito me disse que realidade era aquilo que descobríamos e inventávamos, sem parar. As narrativas, base de toda a psicánalise, seriam também a base de nossa interação com o mundo exterior, uma abertura direta entre as experiências e nosso eu interior, com a capacidade de modificar um e outro. Sempre gostei dessa tese. Histórias ou narrativas — stories, em inglês — nos permitiam fugir da realidade e finalmente atingí-la, e se o “mundo real” parecia algo bem constituído, sólido, imutável, na verdade era pouco mais do que um conjunto aleatório de interferências de luz, matéria e movimento sobre o espaço-tempo e sobre nós mesmos. E nós tinhamos essa função não proclamada de receber essas interferências e procurar internalizá-las de alguma forma, make sense of them alguns nanosegundos depois e responder, num processo que não terminava nunca. E esse processo interminável às vezes dava origem às narrativas…

Por isso o livro Making Sense of Madness: Contesting the Meaning of Schizophrenia me conquistou desde o primeiro momento. O livro faz parte de uma coleção do The International Society for the Psychological Treatments of the Schizophrenia and Other Psychoses sobre a psicose ou a “loucura”. Um psiquiatra uma vez me explicou que, em pessoas que apresentam um quadro psicótico (do surto ao primeiro diagnóstico são meses que não acabam mais) existe uma interferência nessa percepção da realidade. Em vez de receber as interferências externas e absorvê-las de uma forma que faça sentido para o observador, o psicótico “interfere nelas”, de modo que o filtro que todos nós temos, para não apreender a realidade de uma vez só , confunde-se com os estímulos externos e a dado momento já não sabemos mais o que é real e o que não é. As vozes “ouvidas” pelo esquizofrênico (um dos principais sintomas positivos da “condição), por exemplo, são tão reais quanto aquela emitida pela pessoa ao lado. E se há uma mutação logo no início da interação com a realidade, fica muito mais difícil restabelecer essa conexão saudável de troca (interferências externas+interferências internas).

Até descobrir o livro, acreditava que os tratamentos hoje disponíveis eram muito limitados. As vozes, e outros sintomas positivos da “condição” eram “tratados” com remédios antipsicóticos, alguns à base de clozapina, medicação que apresenta uma série de efeitos colaterais; os remédios contribuíam para o aumento dos sintomas negativos (tem gente que diz que os antipsicóticos podem inclusive provocá-los), que colocam o paciente num estado meio letárgico; e no que diz respeito à compreensão da realidade… O paciente é conduzido pelo seu psiquiatra e/ou psicólogo a pensar que as vozes que ouve todos os dias não são reais, ou seja, a desacreditar na etapa mais básica de sua percepção da realidade, além disso, é obrigado a usar uma medicação forte o suficiente para comprometer, justamente, essa interação — e além disso tudo, quando recebe um diagnóstico de esquizofrenia, é obrigado a aceitar e conviver com uma condição cujo status de doença ainda não foi sequer comprovado, para a qual não há cura ou reversão, e que implica no uso de medicação para o resto da vida. E se o paciente ainda é jovem, e os primeiros surtos aconteceram na primeira juventude, 20-23 anos, a família então se encarrega do resto, e faz de tudo para que o paciente realmente não chegue a ser mais do que parcialmente dependente, com perspectivas de vida que não vão muito além da mediocridade.

As narrativas criadas numa interação “normal” com o mundo real são histórias que muitas vezes têm uma correlação fraca com os estímulos externos e com uma observação dos fatos em si, mas que têm uma importância fundamental na superação de obstáculos que se apresentam todos os dias, e continuarão a se apresentar. Em quadros psicológicos mais complexos, essas historinhas muitas vezes perduram por muito tempo, enquanto o indivíduo segue um fluxo de vida funcional. A narrativa em que ele se insere tem o objetivo de protegê-lo do momento presente e guiá-lo para o próximo, e muitas vezes se transformam (às vezes em outra narrativa uma vez cumprida sua função).

Pacientes que apresentam um quadro de esquizofrenia fazem a mesma coisa; mas as narrativas costumam se parecer, por causa de manifestações e sintomas muito semelhantes. Exceto em casos extremos, em que os surtos colocam em risco a vida do paciente ou de outras pessoas, acredito que a exploração dessas narrativas — geralmente com cunho espiritual — deveria ser feito de forma extensa antes de iniciar a medicação (que geralmente ocorre já na primeira consulta psiquiátrica). Essa é uma ideia esboçada no livro — ainda estou no comecinho — por especialistas que têm uma vantagem especial: suas experiências muito pessoais com a psicose. Só estando mesmo próximo para entender que o objetivo principal do tratamento não deveria nunca ser atingir uma interação funcional com a realidade, e que para ajudar pessoais com casos especiais a “make sense of reality”, é preciso antes “make sense of madness”, que ainda é uma grande incógnita para todos em pleno século XXI, sejam eles psiquiatras, psicanalistas, familiares ou meros curiosos. Provavelmente sabemos quase tão pouco sobre a loucura quanto sabemos sobre a realidade, e isso em si já revoga qualquer diagnóstico.

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