Curiositas: do Asno de Ouro à Vênus em Peles de Sacher-Masoch

Venus com um espelho, de Titian. Arquivo do Wikimedia Commons

Estou lendo um livro delicioso que redescobri há pouco tempo: o semi-autobiográfico Venus in Furs, do escritor austríaco Leopold von Sacher-Masoch. Tomás estava fazendo uma pesquisa na Web, encontrou a obra por acaso e comprou pelo Kindle. Embora tivesse há muitos anos na edição Red Classics, da Penguin, por algum motivo nunca tinha lido.

O nome do escritor deu origem ao termo masoquismo — e de certa forma, também ao termo sadomasoquismo — cunhado pelo psiquiatra Richard Freiherr von Krafft-Ebing em 1866, quatro anos antes da publicação do primeiro volume de The Legacy of Cain, que incluía a novela Venus in Furs. Aí a história fica interessante. Segundo o psiquiatra, nascido no comecinho do século XX,

 As an author he suffered severe injury so far as the influence and intrinsic merit of his work is concerned, for so long and whenever he eliminated his perversion from his literary efforts he was a gifted writer, and as such would have achieved real greatness had he been actuated by normally sexual feelings.

Em Venus in Furs, como na vida real, Severin/Sacher-Masoch e Wanda/Fanny Pistor assinam um contrato que estabelece que ele será seu escravo, e ela usará peles o mais frequentemente possível, especialmente em seus momentos mais cruéis. O ponto de partida é puramente intelectual. O solitário Severin visita a Vênus de mármore todas as noites, até que um dia uma viúva de excepcional beleza decide se fazer passar por ela. Assustado, ele sai correndo, mas ela reaparece como reles mortal e confessa ter lido suas anotações, curiosa sobre essa Vênus imaginária. Ele então lhe revela uma fantasia antiga, tornar-se o escravo de uma mulher extremamente bela e cruel, vestida em peles.

Na primeira metade do livro, o discurso é dialético, mas Wanda se deixa seduzir aos poucos pela fantasia do outro, e se um dia está totalmente apaixonada, no outro tem todos os desejos do mundo, e leva seu hedonismo às últimas consequências. O livro não tem nada de pérfido, embora um dos pontos focais seja uma perversão (compartilhada). E o fato de Severin sucumbir, diversas vezes, ao prazer da dor, lembra-me muito um dos melhores livros que já li, O Asno de Ouro, de Lucius Apuleius, único romance em latim a sobreviver em sua forma completa. Fascinado pela magia e pelas mulheres, e irremediavelmente insaciável, o protagonista se vê transformado num asno, vivendo na pele do animal as mais divertidas fantasias. Talvez a comparação nem seja tão absurda — Severin se refere a si mesmo como “donkey” (asno) diversas vezes, quando reflete sobre seu comportamento. E talvez o tema de ambos os livros seja um só: a curiosidade.

Nota pós publicação: Terminei de ler o livro no dia em que publiquei o post e vale muito a pena.

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