Caos e ficção

Ilustração da curvatura do espaço-tempo disponível em página da Wikipedia (propriedade da Wikimedia Commons)

Comecei a gostar de ficção científica porque me interessei por física quântica, no comecinho de 2005, quando a literatura quântica com base filosófica invadiu as livrarias. Lembro até hoje do primeiro livro, The Fabric of the Cosmos, de Brian Greene, o primeiro cientista-celebridade de tantos que viriam depois. Comprei a edição mais baratinha, da Penguin, e a letra e as figuras eram tão pequenas que não consegui passar da metade. Mas ali estava um assunto que havia me fascinado desde a infância, desde uma tarde remota na casa de Tacimirim, quando me debrucei sobre a obra famosa de James Gleick.

Devia ser 93 ou 94, Caos tinha sido lançado há uns cinco anos e já estava surrado. Meu pai, meu grande ídolo até hoje, tinha as versões original e em inglês, em casa e em Taci, e sugeriu que eu lesse o livro. Ele já havia me presenteado com histórias fantásticas como o Homem Que Calculava, de Malba Tahan, as Mil e Uma Noites e uma porção de livros sobre dinossauros. Mas não li Caos depois daquela tarde, nem procurei pelo livro. Lembro de ter ficado com medo, como se alguém tivesse dito de repente que o universo de verdade era outro, escondido, incompreensível. Por muitos anos rejeitei a ficção científica. Não participei da euforia por Star Wars ou Star Trek ou Alien, e até Jurrasic Park me deixava apavorada. Mas, pior do que isso: eu não me interessava pelos livros que meu pai devorava no fim-de-semana, era como se a minha literatura e a dele fossem distintas, ainda que eu, cheia de admiração, fosse ler em seu cantinho especial sempre que podia. E se eu escrevia, meus textos eram terrenos, quase aborrecidos, e eu tinha certeza que ele nunca os aprovaria como um todo.

Não sei se a ficção me decepcionou parcialmente, ou se estava mesmo entediada com tudo, mas em 2005 essa ficção da ciência, apresentou-se novamente para mim como um outro universo, que eu não entendia em absoluto mas, olha, era possível. E as possibilidades abertas pelo avanço da física quântica eram tão amplas e tão deliciosas que eu podia encará-las como ficção. E daí meu projeto de conclusão de concurso ficou sendo sobre o futuro da informação. Foi um ano inteiro [sub]imersa nas literaturas de Google, Richard Feymann, Lee Smolin, H.G. Wells, Bruce Sterling — que tive o prazer de entrevistar diversas vezes — absorvendo a máxima de John Wheeler: IT FROM BIT, toda existência vinha de uma só coisa, informação.

Lembro de ligar uma vez para meu pai, no meio da noite, para perguntar por quê mesmo o teletransporte ainda não era possível, ou de nossas conversas no meio do almoço, a família toda reunida no Dolce Villa, eu comendo aquele hamburger de javali, sobre o código cerebral descoberto por uma equipe do MIT segundo o qual pensamos em 1, 0 e -1 e é isso que nos permite ignorar tanta informação.

Nem o excesso de citações nos livros de Michio Kaku, nem o culto a Lisa Randall (como se a beleza fosse algo incompatível com o intelecto), nada me tirou desse caminho mais. Não consegui ler o último capítulo de Quantum Gravity, de Lee Smolin, mas volta e meia releio o início. E foi naquela época que comecei a escrever uma novela sobre o tempo. Meu pai acompanhou passo a passo, dando dicas sobre enredo e personagens. Já tem mais de cem páginas e talvez eu a retome algum dia. A verdade é que a ficção científica acabou se tornando um abrigo desse mundo tão difícil. É como se eu tivesse voltado para a família, para casa, como naquele texto tão bonito de Ray Bradbury que comentei aqui outro dia. Take me Home.

Nota pós publicação: quando fui pesquisar o nome do autor de Caos, descobri que é também autor de The Information: A History, A Theory, A Flood publicado recentemente e já disponível no meu Kindle. A versão em Português será publicada pela Companhia das Letras, com tradução do amigo Augusto Calil.

3 ideias sobre “Caos e ficção

  1. Thiago Massari

    Esse tema também me atrai muito. Já esbocei uma obra nesse sentido, mas com uma pegada bem mais pop. Mas, de tudo o que você disse, o que mais me chamou a atenção foram os relatos da sua relação com seu pai. Poético, simples e cheio de signos escondidos. Me comoveu.

    Resposta

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