Arquivo mensal: agosto 2012

O Gosto da França; Uma Estrangeira na França

Ingredientes do meu primeiro jantar francês. Croustillants à la Poire et à la Fourme d’Ambert, Kir Royal e Boeuf Bourguignon

Mais um capítulo do livro Uma Estrangeira na França, agora sobre os sabores da França. Na versão para o livro, incluirei também as receitas (em português) e os endereços de restaurantes em Montpellier — a cidade e a gastronomia de Paris ganharão texto à parte.

O Gosto da França

Guardo na boca o gosto da França. A baguete do fim-do-dia ou do midi. A manteiga, sempre deliciosa, não importa se tem mais ou menos gordura. Os ovos mexidos que comia às pressas, no horário de almoço da Fac, com um pouco de queijo e jambon. O foie gras, principalmente em versão patê, com torradas finas, salada verde e geleia.

Dava para escrever um livro inteirinho só com esses sabores. A batata gratinada que provei um dia, nem lembro mais onde, e reconheci imediatamente quando jantei no Le Marais, na Rua Jerônimo da Veiga, aqui em São Paulo. Os escargots, os moules, que decidi provar em fins de semana de aventura, acompanhada de gente que entendia mais do assunto do que eu. O Martini Bianco de tantas tardes de outono, que não era bom, mas também não chegava a ser ruim, e tinha a vantagem de custar apenas 3 euros. O Bourgogne que tomei quando cozinhei pela primeira vez, boeuf bourguignon! O sanglier de Sophie – ela dizia não fazer grandes coisas na cozinha, mas preparava pratos deliciosos, até hoje me lembro da ratatouille e da lasanha de soja. Foi ela quem despertou em mim a ideia de cuisine française. Uma cozinha sazonal – uma vez dissuadiu-me de comprar framboesas no supermercado porque já estávamos no outono – e pessoal – sempre cozinhava para si, mesmo quando não tinha tempo, nem que fizesse ovos fritos.

Dava prazer ver a intimidade do francês com a comida. Quando começavam a cortar as verduras, os legumes, para as sopas, por exemplo – Alex, marido de minha amiga Flávia, tem intolerância ao glúten e não pode comer queijo, mas fazia as sopas mais deliciosas. Ou a cozinha toda especialista de Vania, minha co-boadrasta, como costumava chamá-la. O primeiro pain d’épices de Sophie causou alvoroço. Repeti a receita outras três vezes, e trouxe um dos temperos para casa, na mala, mas nunca fiz.

Foi lá que cozinhei pela primeira vez. Em janeiro de 2011, Sophie viajou durante um mês inteiro e eu fiquei sozinha em seu apartamento. Aí decidi experimentar algumas receitas do livro Cozinha Provençal (French Provincial Cooking), da inglesa Elizabeth David. A obra tinha sido um presente de um amigo, alguns dias antes de eu embarcar. Hoje nossa amizade já não é mais a mesma coisa, mas na época ele me disse que se tratava da melhor introdução à cultura francesa que conhecia. Tinha lido o livro pela primeira vez quando era bem mais jovem do que. “Leia do início ao fim” foi sua recomendação máxima.

Para o primeiro jantar, escolhi o Boeuf Bourguignon já mencionado. Meu amigo disse que Ms David provavelmente sugeriria o Daube Provençal, mas resolvi optar por um prato que conhecia desde criança. Como o livro era em inglês e eu não tinha conhecimento algum sobre cozinha, tive de pesquisar na Internet para encontrar os termos equivalentes em francês. Isso foi o que deu mais trabalho. Ligava para minha avó por Skype várias vezes ao dia, e algumas vezes nem ela sabia a resposta. A verdade é que alguns temperos só existem na França. Ela também me enviou sua própria receita. A versão final virou uma mistura, considerando o que funcionou no dia porque, por incrível que pareça, funcionou. O boeuf bourguignon ficou delicioso. Tomei uma garrafa de vinho durante o processo, os pedaços de carne ficaram quase simétricos, e o fogo se comportou direitinho. Mas logo nesse primeiro dia, entendi que meu negócio era outro. A sobremesa – a mousse au chocolat à l’orange estava divina, feita com o excelente Grand Marnier e o melhor chocolate Lindt amargo, 43% de cacau – e os drinks, preparados com a mesma bebida e uma grande variedade de sucos.

Os jantares geralmente aconteciam às sextas-feiras. Tive a oportunidade de experimentar mais algumas receitas. Para sobremesa, sorbet au citron e pain d’épices, que ficaram muito bons, e um crepe, que não ficou lá essas coisas. O magret de canard não funcionou, mas os gratinados sim, e minha receita máxima acabou sendo o Poulet à la Ciboulette, que devo ter feito pelo menos umas dez vezes entre janeiro e junho, quando embarquei de volta para o Brasil. A ciboulette não existe aqui, nem o échalotte, e virou uma aventura encontrar os ingredientes que pudessem substituí-los.

Antes de viajar, folheando a obra de David, tinha uma ideia toda sofisticada do que seria a cozinha na França, mas os sabores que ficaram foram realmente os mais simples. O pão, a manteiga, os ovos mexidos. Fico com água na boca sempre que me lembro do sanduíche de Charolais de 2 euros que comprava no Mc Donald’s da Place de la Comédie quando não tinha tempo de comer outra coisa. Era minha carne favorita, inclusive nos restaurantes (como o excelente La Chistera). O queijo de cabra, curado, fresco, do jeito que fosse, era irresistivelmente barato e me acompanhava durante todo o dia: no café-da-manhã, no almoço, no lanche da tarde. Na primavera, gostava de sentar a uma mesa qualquer, no meio da tarde, e almoçar aquela salada com foie gras. Mas a primavera, que chegou deslumbrante – um espetáculo assistir ao aparecimento de flores por toda a cidade– trouxe também muitas saudades. E de repente já não fazia mais as receitas francesas, mas a torta negra que aprendi com Ludmila e que conquistaria os franceses para sempre.

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Coração suspenso por um fio de açúcar ou um ano de amor; Uma Estrangeira na França

A eterna Tacimirim ou Itacimirim

Ontem terminei de ler We’ll Always Have Paris, do excelente Brabdury. O conto Miss Appletree é especialmente delicioso, e poderia escrever um post inteiro sobre ele. Também avancei muito na leitura de Sarum, especialmente dos capítulos sobre Stonehenge. E já recebi lá em casa Mayaya, primeiro livro literário que traduzirei para o inglês.

Mas vou deixar esses assuntos de lado, para publicar aqui mais um capítulo — incompleto — do livro Uma Estrangeira na França. Infelizmente, o livro inteiro só ficará disponível em setembro, depois que eu voltar de viagem. Mas aviso por aqui assim que tiver novidades.

Coração suspenso por um fio de açúcar

Acordamos com livros. Ele me trouxe, na cama, um livro de Stephen Hawkings e uma bíblia do mundo de mídias sociais, e começamos a falar discretamente sobre física quântica. Toda vez que sua mão tocava na minha pele provocava uma reação físico-química, como se os meus ouvidos tivessem se enchido de água, e os pelos nos braços e nas pernas se eriçavam rapidamente. Gostava da voz, do cheiro, do toque em seus cabelos lisos e finos como os meus, do jeito como se mexia e até do espaço que ocupava no universo. Queria, em cada beijo, sugar tudo que havia nele, que era dele, para mim, fazê-lo meu de uma vez. Então era isso. Paixão que já nascia com amor, quando alguém te chama assim já na primeira noite, naquele primeiro dia 28 de julho.

Conhecemo-nos virtualmente, embora ele diga que se lembra de mim de quando éramos crianças, nos verões de Tacimirim. Um ano antes de nosso primeiro encontro, lá na Provença, sua mãe me mostrou uma foto, e eu pensei: vou me casar com ele. Nem podia dizer isso a alguém, então estava morando na França não fazia dois meses e já pensava em voltar? Logo eu que havia decidido morar lá para sempre, andando de trem e tramway para cima e para baixo, no meio daqueles leitores apaixonados.

Pensava nele como no futuro marido de uma vida que já não era minha. Conectamo-nos pelas mídias sociais – sua mãe mandou fotos de nosso fim-de-semana, e foi assim que ele soube de mim – e uma vez de volta ao Brasil, enviei-lhe uma mensagem e combinamos de nos encontrar.

Vesti-me toda de preto e fui até o bar. Nem pensava mais em casamento, havia decidido, deliberada e intransigentemente, que nunca mais me casaria nem teria filhos. E, de qualquer forma, todo mundo me dizia que ele tinha uma namorada bem bacana, e eu ainda nem havia terminado meu relacionamento francês. Queria um amigo, alguém com quem pudesse dividir minha Tacimirim perdida, meus livros, alguém que trouxesse as lembranças de Tia Tania e Tio Jean, que haviam sido tão importantes para a minha volta ao Brasil. Um mês de São Paulo, alguns dias depois de 30, disse a uma prima: Vamos marcar um happy hour com Tomás? Ela concordou, mas não foi. Foi assim. Fiquei do lado de fora do Astor esperando, no frio, depois ele chegou e nos sentamos na primeira mesa à direita, encostada à pilastra. Nosso jeito de sentar era parecido, com os ombros encurvados, como alguém que se abre para dentro, não para fora. Ele estava solteiro, ficamos lá das 8 da noite às 3 da manhã, e a dado momento ele me disse:

“Se um dia eu me casar com você…”.

Vivemos dias de vertigem, meu coração suspenso por um fio de açúcar. Falávamo-nos por telefone, por e-mail, por mensagem, por tudo. Havia um Tomás para cada canal de mídias sociais, para as mensagens de texto, para o e-mail, para as conversas por telefone, para as noites lado a lado na cama. E eu gostava de todos eles. Começamos a nos escrever poemas de amor, ele em inglês, eu em francês, acordados a noite toda, lendo Shakespeare ou Poe, ou então falando, do primeiro beijo, do primeiro amor, do primeiro namoro. Do misticismo de nossas famílias, de suas dinastias inventadas e heróis tão verdadeiros. Pela primeira vez abri para alguém aquele mundo à parte que havia construído só para mim, que começava na sala de estar de minha antiga casa em Salvador, naquele canto do sofá sob a luz da lâmpada aonde meu pai lia, passando pela grande sala de televisão onde eu sonhava, pela Sainte Victoire do jardim de sua mãe (minha tia adotiva), por Tacimirim, pelos mundos invisíveis que só os cegos de HG Wells enxergam – vê-se noite quando é dia e, do outro lado mundo, o navio que teria naufragado – até chegar naquele dia 28.

Era amor à primeira vista, como o de minha avó e meu avô, que se tinham conhecido em 1944, no Clube Bahiano de Tênis, ela com dezesseis anos. Toda a vida me dissera, “Casei-me com seu avô porque não poderia ter feito outra coisa”. E era a isso que aspirava acima de tudo, encontrar um amor cujo senso urgência atravessasse qualquer (im)possibilidade. Busquei estrangeiros, achando que com eles poderia compartilhar minha estrangeirice. Mas foi na França que entendi que era outra coisa. A certeza veio quando Tomás abriu um de seus cadernos antigos de escola e leu: “Sinto-me como um estrangeiro”. Eu também me sentia. Mas não mais.

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A Partícula de Deus por Lisa Randall

Large Hadron Collider ou Grande Colisor de Partículas, em Genebra, na Suíça

Acabo de comprar The Higgs Discovery: The Power of Empty Space, da excelente e muito cultuada física americana Lisa Randall (há uns dez anos, quando se começou a publicar livros de física quântica para os leigos, ela se destacou como a mais bonita dos especialistas). O Kindle Single veio como sugestão de compra na newsletter da Amazon.com, pouco mais de um mês depois da descoberta do Higgs Boson na Large Hadron Collider, em Genebra, na Suíça.

Em apenas 83 páginas, Ms Randall contextualiza  “a descoberta” — ie, por que a partícula encontrada pode ser o boson e por que o boson é tão importante para o Standard Model (na verdade quem é importante é o campo Higgs, mas este não existe sem o boson. No espaço vazio — daí o título de Randall — o campo adquire um valor diferente de zero, e é isso que dá massa a todas as partículas elementares, incluindo o boson de Higgs. O apelido, partícula de Deus, foi dado pelo físico Leon Lederman justamente por causa disso). Depois, encontramos dois capítulos sobre o boson anteriormente publicados em seus bestsellers Warped Passages e Knocking on Heaven’s Door.

Ainda não terminei de ler, mas considerando que li enquanto estava fazendo as unhas no salão, recomendo, e muito, a leitura. Para quem busca informações em português sobre o assunto, clique aqui.

A morte do livro, de novo

Charge publicada no Facebook da Paris Review na última terça-feira, dia 07/08, ao lado de uma frase de William Gibson: É mais fácil prever o futuro do que adivinhar o passado.

O New York Times publicou hoje uma resenha intitulada “A Morte do Livro Através das Eras” (The Death of the Book through the Ages). Ainda não li até o fim, mas recomendo, porque traz à tona um assunto bem importante.

A morte do livro vem sendo anunciada desde o fim do séc. XIX, quando a invenção de Gutenberg já acumulava quatro sólidos séculos. Para produzir meu trabalho sobre o futuro da informação, em 2005, li muitas, mas muitas resenhas e materiais de pesquisa do MIT Media Lab e até hoje lembro com enorme satisfação do ensaio de Priscilla Murphy intitulado Books are Dead, Long Live Books (clique aqui para ler na íntegra).

A ideia vigente no fim do séc. XIX segundo a qual o fonógrafo desbancaria o livro de papel me faz rir até hoje. “‘Uma vez que a leitura cansa facilmente, a fonografia poderia amenizar o cansaço físico [provocado pelas posições exigidas pela leitura] e o arder nos olhos’. Desconsiderando  custo e o peso de fonógrafos, Octave Uzanne estava confiante que eles logo se tornariam portáteis e baratos — e perfeitos para se levar num passeio usando ‘cilindros pequenos leves como canetas de celuloide que armazenariam de 500 a 600 palavras'”.

Uzanne, no entanto, antecipou algumas tendências, ao dizer que a relação entre autor e leitor estava para mudar. “Leitores poderão ouvir a voz do escritor diretamente”, o que é verdade para audiobooks de Neil Gaiman ou Richard Feynman (cujas famosas palestras estão disponíveis para compra no Kindle), e “os homens de letras não serão chamados escritores, mas narradores”. E a ideia de narrativa fica mais a forte a cada dia.

Não concordo totalmente com o ensaio, mas este traz análises e exemplos bem ricos, e preciso dizer que quando penso na morte do livro, lembro logo do artigo.

Sou uma leitora inveterada de Kindle (ou uma leitora Kindle inveterada?), e acho que a versão ebook só tem vantagens em relação ao papel (veja abaixo). Mas o livro de papel não vai acabar, mas não vai mesmo. Continuarei a comprar livros em papel para determinadas ocasiões. E em alguns países, o papel persistirá por um bom tempo.

Na França, por exemplo, onde a tradição da leitura percorre trens, praças, cafés, jardins e calçadas (um dos famosos mendigos de Montpellier lia todos os dias pois os sebos de lá vendem títulos a 20 centavos de euro), todo mundo lê em papel, quer dizer, menos os estrangeiros, que têm sempre um Kindle a tiracolo. A Amazon começou a vender seu eReader por lá há vários meses, e ainda que os grandes clássicos estejam disponíveis para download gratuito em versão Kindle desde o início de 2010 (trabalho de digitalização feito por uma comunidade de leitores), o eReader parece não vingar.

No Brasil, o problema é outro. Muita gente já lê em iPad e iPhone (bem caros, diga-se de passagem), mas para alcançar a maior parcela da população, seria necessário uma mudança de mentalidade. Tem gente que acha que livro eletrônico é mais caro que livro em papel. Não é. O problema é que aqui no Brasil nem temos sebos que vendam a R$ 0,20 nem gente que digitalize os grandes clássicos em escala. Ainda assim, dá para pensar num futuro melhor, com tablets subsidiados pelo governo, formato digital integrado, e leitores, seja em papel ou na tela.

O ereader é mais barato

Isso mesmo, paga-se o Kindle comprando uma média de cinco livros de papel (os lançamentos das editoras brasileiras são vendidos a R$ 40 em média), e depois a faixa de preço varia entre 2 e 10 USD, o que não chega à metade do preço de um livro aqui.

Mais confortável 

Pois é. Só não sabe disso quem nunca leu num Kindle Touch. Tinha o Kindle Keyboard e achava muito bom, mas o Touch é excelente, não reflete luz, e é mais confortável para se ler em qualquer lugar (talvez as posições da leitura tradicional realmente não sejam confortáveis).

Mais prático

Em vez das 600 palavras previstas por Uzanne, o Kindle Touch armazena mais de 3 mil livros. Isso mesmo.

Mais leve

Não são canetas de celuloide, mas tablets bem compactos que pesam umas 200g. O peso de um livro de 200 páginas ou mais leve.

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Amazon (+consumidor) x Apple, editoras, livrarias etc – aqui discute-se se a atuação da Amazon neste mercado vai levar os outros players à falência

O livro está morto. Viva o livro!

Outros links:

Objetivo do Kindle é reinventar o livro, afirma VP da Amazon no Brasil – reportagem sobre a palestra de Russel Grandinetti que aconteceu hoje na 22a Bienal Internacional do Livro de São Paulo.

A Amazon disse que não há previsão para vender o Kindle no Brasil. Mas você não precisa esperar: compre-o hoje mesmo pela Dabee.

Bertrand; Uma Estrangeira na França

Performance de O Quarteto Azul, uma das obras de Bertrand Gaillard no ano passado. Ele é francês, mas o texto foi escrito em inglês e depois traduzido por outra pessoa.

Uma das secções do novo livro Uma Estrangeira na França será dedicada às pessoas que encontrei durante a viagem. Os “rencontres” servirão de inspiração para os mini-ensaios ou contos, como este abaixo.

Bertrand

Conheci Bertrand nas minhas últimas semanas em Montpellier. No início do ano, havia afixado um anúncio na livraria inglesa Le Bookshop, colocando-me à disposição para aulas de inglês, para tentar financiar minha estada na França. Bertrand só viu meus contatos em junho, quando minha situação monetária já não fazia muita diferença.

Ele falava inglês muito bem, talvez até melhor do que eu, com um perfeito sotaque britânico. No dia de nosso primeiro encontro, chovia bastante na cidade. Encontramo-nos num dos cafés da Place de la Comédie, e acho que ficamos por lá, mas depois nos encontraríamos principalmente na Esplanade Charles de Gaulle, um de meus lugares preferidos em Montpellier.

Artista plástico, professor de francês, Bertrand era um senhor de estatura média, elegante, eloquente, interessado em todas as coisas que também me fascinavam.  Já nesse primeiro dia, falamos de Anaïs Nin, que li e reli compulsivamente dos 19 aos 21 anos, especialmente Delta of Venus. No prefácio ao livro, ela conta sobre a época em que, com um grupo de escritores e amigos, escrevia contos eróticos a $ 1 dólar por página para um senhor rico que dizia contratar o serviço para outra pessoa. A figura dessa escritora jovem, bonita e sem dinheiro, em noites intermináveis com aqueles amigos tão interessantes, deixou-me sonhando por anos a fio. Lembro-me especialmente da passagem inicial de um conto seu, em que a protagonista, no trem, reflete sobre o que espera da viagem que a levará à Espanha. O maravilhoso (le merveilleux).

Ele também vivia imerso numa profusão de idiomas e sentidos, misturando ritmo, cores e palavras estrangeiras em suas apresentações. Fotógrafo, coreógrafo, roteirista, cinegrafista, em suma, um artista. Às vezes conversávamos inclusive em português. Ele insistia em se despedir de mim com “Adeus”, ao que respondia dizendo sempre que nos veríamos de novo.

Seu trabalho mais recente, o Quarteto Azul, tinha texto em inglês, depois traduzido para o francês por uma amiga. “Precisava ser fiel à minha vontade de escrevê-lo em inglês e só pedi para que o traduzissem para que os artistas entendessem o que estava escrito”. Mas o significado das palavras não era nada fora do contexto sonoro. “Uso a língua inglesa como material musical para minhas criações”, explicou.

Nosso encontro foi também uma descoberta. Depois de quase um ano na França, conhecendo gente de todas as nacionalidades, ainda não havia encontrado alguém com quem pudessem, realmente, dividir. Bertrand era um artista maior, inclusive mais prolífico do que todos aqueles que eu havia conhecido antes, tinha lido mais do que eu e era certamente mais inteligente. Mas não tinha nada da falsa intelectualidade – ou modéstia – de alguns, era fluido como suas pinturas, quase uma estrutura francesa de éter.

Suas obras retratavam dançarinos cheios de vida, prontos para pular da tela, exalando erotismo e calor. Mas nosso rencontre, que durou tão pouco, nunca deixou de observar a mais absoluta polidez e distância física.

Ele queria montar um pequeno concerto em português no meu penúltimo dia de França. Conhecia o Pará e amava o Brasil. “É uma língua bonita, sonora. Que me importa se não entendo o que você está dizendo? Primeiro sentir, depois entender. Leia seus textos em voz alta. Escolha um deles”.

Nosso concerto nunca aconteceu porque voltei muito tarde de uma viagem à Riviera Francesa. E ele me escreveu. “A vida nunca é aquilo que esperamos. Espero que você esteja feliz sob as palmeiras de Cannes. Adeus”.

A janela de Javier Marías; Free New Yorker App

Capa do livro Mientras Ellas Duermen, de Javier Marías. Edição da Anagrama

Meu primeiro contato com Javier Marías aconteceu nas aulinhas de espanhol, há uns 5 anos, lá na Cultura Española da Al. Santos. A professora nos apresentou um texto incompleto e pediu que criássemos um fim. Tratava-se na verdade de um capítulo do livro Corazón tan Blanco, um dos mais famosos do escritor. Um homem em lua de mel olha pela janela do hotel e vê uma mulher, de salto, gesticulando progressivamente, com o dedo em riste apontando para a janela dele. Os outros três alunos escreveram sobre o possível encontro entre os dois. Na minha história, no entanto, a mulher se dirige ao quarto ao lado e mata o hóspede vizinho. O homem a vê fugindo pela escada mas eles nunca têm qualquer interação. No original de Marías, também, o homem procurado não é ele, é um engano do início ao fim, e o protagonista ouve uma briga de casal, que trará consequências para o seu próprio casamento.

Apaixonei-me por Marías. Comprei quase todos os livros dele. El Hombre Sentimental, Mañana en la Batalla Piensa en Mí, Todas las Almas, Negra Espalda en el Tiempo e, principalmente as coletâneas de contos Cuando fui Mortal e Mientras Ellas Duermen. Gosto dos contos mais do que tudo. Como em Corazón, em Mientras ellas Duermen, há também um turista e uma janela e alguém que ele observa. Neste caso, um casal, uma jovem linda de seus 20 anos e um homem de meia idade gordo. O turista acompanha-os com os olhos, interrogando-se sobre quem são e o que fazem ali, e por que aquele homem gordo insiste em registrar cada movimento da menina. Depois, ele encontra o homem à beira da piscina e descobre que estão hospedados no mesmo hotel. Enquanto elas dormem, eles conversam e algumas revelações são feitas. A curiosidade do turista não o deixa interromper a conversa, nem mesmo quando a sua própria mulher aparece na janela, com uma expressão de terror.

Posso dizer que essa janela e esses personagens acompanharam toda a minha vida de leitora, escritora e turista. E quando no ano passado meu pai voltou da viagem de Cannes com uma foto de dois locais no momento em que cruzam a rua,  pensei: “é a janela de Javier Marías”. Toda noite, ele ia para a janela com a sua câmera e começava a fotografar. Acho que nem ele entende direito por que gosto tanto da foto, nem mesmo depois de eu contar a história de Mientras ellas Duermen. A foto servirá de capa para meu livro no Kindle e pode ser vista aqui.

Para os que quiserem ler Marías, a Alfaguara e a Anagrama publicam em espanhol. Em inglês, a Penguin acaba de anunciar nova coleção. E na Amazon.com, você pode encontrar a versão ebook de vários dos livros — mas apenas em inglês.

Curtas:

A New Yorker acaba de anunciar seu aplicativo gratuito para iPhone — disponível mesmo para aqueles que têm conta Apple brasileira, como eu. Ainda está com alguns bugs — sou assinante e até agora não consegui logar — mas recomendo muito, principalmente para aqueles que não são assinantes. Edição atual tem download de graça. Para saber mais sobre isso, é só entrar no link abaixo.

New Yorker App disponível para download no iPhone – grátis!

Novo livro de Neil Gaiman: The Ocean at the End of the Lane

Tweet de Neil Gaiman capturado pela Web

Será lançado no verão de 2013 — daqui a quase um ano — mas promete ser maravilhoso. Para adultos e jovens, na verdade qualquer leitor que saiba valorizar um mundo à parte. Vale a pena esperar. Recomendo!