A morte do livro, de novo

Charge publicada no Facebook da Paris Review na última terça-feira, dia 07/08, ao lado de uma frase de William Gibson: É mais fácil prever o futuro do que adivinhar o passado.

O New York Times publicou hoje uma resenha intitulada “A Morte do Livro Através das Eras” (The Death of the Book through the Ages). Ainda não li até o fim, mas recomendo, porque traz à tona um assunto bem importante.

A morte do livro vem sendo anunciada desde o fim do séc. XIX, quando a invenção de Gutenberg já acumulava quatro sólidos séculos. Para produzir meu trabalho sobre o futuro da informação, em 2005, li muitas, mas muitas resenhas e materiais de pesquisa do MIT Media Lab e até hoje lembro com enorme satisfação do ensaio de Priscilla Murphy intitulado Books are Dead, Long Live Books (clique aqui para ler na íntegra).

A ideia vigente no fim do séc. XIX segundo a qual o fonógrafo desbancaria o livro de papel me faz rir até hoje. “‘Uma vez que a leitura cansa facilmente, a fonografia poderia amenizar o cansaço físico [provocado pelas posições exigidas pela leitura] e o arder nos olhos’. Desconsiderando  custo e o peso de fonógrafos, Octave Uzanne estava confiante que eles logo se tornariam portáteis e baratos — e perfeitos para se levar num passeio usando ‘cilindros pequenos leves como canetas de celuloide que armazenariam de 500 a 600 palavras'”.

Uzanne, no entanto, antecipou algumas tendências, ao dizer que a relação entre autor e leitor estava para mudar. “Leitores poderão ouvir a voz do escritor diretamente”, o que é verdade para audiobooks de Neil Gaiman ou Richard Feynman (cujas famosas palestras estão disponíveis para compra no Kindle), e “os homens de letras não serão chamados escritores, mas narradores”. E a ideia de narrativa fica mais a forte a cada dia.

Não concordo totalmente com o ensaio, mas este traz análises e exemplos bem ricos, e preciso dizer que quando penso na morte do livro, lembro logo do artigo.

Sou uma leitora inveterada de Kindle (ou uma leitora Kindle inveterada?), e acho que a versão ebook só tem vantagens em relação ao papel (veja abaixo). Mas o livro de papel não vai acabar, mas não vai mesmo. Continuarei a comprar livros em papel para determinadas ocasiões. E em alguns países, o papel persistirá por um bom tempo.

Na França, por exemplo, onde a tradição da leitura percorre trens, praças, cafés, jardins e calçadas (um dos famosos mendigos de Montpellier lia todos os dias pois os sebos de lá vendem títulos a 20 centavos de euro), todo mundo lê em papel, quer dizer, menos os estrangeiros, que têm sempre um Kindle a tiracolo. A Amazon começou a vender seu eReader por lá há vários meses, e ainda que os grandes clássicos estejam disponíveis para download gratuito em versão Kindle desde o início de 2010 (trabalho de digitalização feito por uma comunidade de leitores), o eReader parece não vingar.

No Brasil, o problema é outro. Muita gente já lê em iPad e iPhone (bem caros, diga-se de passagem), mas para alcançar a maior parcela da população, seria necessário uma mudança de mentalidade. Tem gente que acha que livro eletrônico é mais caro que livro em papel. Não é. O problema é que aqui no Brasil nem temos sebos que vendam a R$ 0,20 nem gente que digitalize os grandes clássicos em escala. Ainda assim, dá para pensar num futuro melhor, com tablets subsidiados pelo governo, formato digital integrado, e leitores, seja em papel ou na tela.

O ereader é mais barato

Isso mesmo, paga-se o Kindle comprando uma média de cinco livros de papel (os lançamentos das editoras brasileiras são vendidos a R$ 40 em média), e depois a faixa de preço varia entre 2 e 10 USD, o que não chega à metade do preço de um livro aqui.

Mais confortável 

Pois é. Só não sabe disso quem nunca leu num Kindle Touch. Tinha o Kindle Keyboard e achava muito bom, mas o Touch é excelente, não reflete luz, e é mais confortável para se ler em qualquer lugar (talvez as posições da leitura tradicional realmente não sejam confortáveis).

Mais prático

Em vez das 600 palavras previstas por Uzanne, o Kindle Touch armazena mais de 3 mil livros. Isso mesmo.

Mais leve

Não são canetas de celuloide, mas tablets bem compactos que pesam umas 200g. O peso de um livro de 200 páginas ou mais leve.

Posts relacionados:

Amazon (+consumidor) x Apple, editoras, livrarias etc – aqui discute-se se a atuação da Amazon neste mercado vai levar os outros players à falência

O livro está morto. Viva o livro!

Outros links:

Objetivo do Kindle é reinventar o livro, afirma VP da Amazon no Brasil – reportagem sobre a palestra de Russel Grandinetti que aconteceu hoje na 22a Bienal Internacional do Livro de São Paulo.

A Amazon disse que não há previsão para vender o Kindle no Brasil. Mas você não precisa esperar: compre-o hoje mesmo pela Dabee.

Uma ideia sobre “A morte do livro, de novo

  1. Pingback: Mulheres leitoras; Contos em Voz Alta « Literatura Estrangeira

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