Arquivo mensal: setembro 2012

Novas janelas (e narrativas), Os enamoramentos de Javier Marías

Os enamoramentos, Companhia das Letras (2012). Edição brasileira do livro Los Enamoramientos, de Javier Marías, publicado em 2011.

Recebi hoje o livro Os Enamoramentos, de Javier Marías. Lançado neste mês pela Companhia das Letras, o livro foi considerado o melhor de 2011 pela Babelia, suplemento cultural do principal jornal espanhol, El País.

Ainda não comecei a ler mas já me conquistou. A protagonista María Dolz, madrilenha e funcionária de uma editora, cria uma narrativa a partir de um casal que observa à distância, todos os dias. Sua ficção muito pessoal se desconstrói quando o homem morre e ela passa de voyeur a personagem. “A última vez que vi Miguel Desvern ou Deverne foi também a última vez que sua mulher, Luisa, o viu, o que não deixou de ser estranho e talvez injusto, já que ela era isso, sua mulher, e eu, ao contrário, era uma desconhecida e nunca havia trocado uma só palavra com ele” dá início ao livro, narrado em primeira pessoa.

Pensei em Laura y Julio, de Juan José Millás, que comprei no El Corte Inglés, em Madri, quando fui lá pela primeira vez, em 2008. A novela provocou em mim sensações profundas. Julio, recém-separado de Laura, vai viver no apartamento do vizinho, um amigo em comum do casal. Manuel está em coma, no hospital, e Julio, aos poucos, sem acender nenhuma luz, começa a se apropriar de sua vida, suas roupas, seu computador, e acaba lendo cartas escritas por sua ex-esposa e dirigidas a ele. Julio decide responder a uma dessas cartas e o triângulo amoroso virtual tem um desfecho muito interessante. Por meio do outro, Julio consegue voltar a si mesmo.

Pensei, também, em Mientras Ellas Duermen, também de Marías, e já comentado aqui. As obras de Marías parecem repletas de janelas prontas para construir realidades alternativas, ficciones. Nos dias de hoje, esses jogos de espelho que nem sempre refletem a verdade podem ser transpostos para as atividades em mídias sociais. Tanto acompanhamos sem viver diretamente! Como María, que “por uns dias, depois da viagem, sentiu falta do casal, apesar de saber que não viria”.

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Ah! O livro vem com um mimo para o leitor: O Coronel Chabert, que integra A Comédia Humana de Balzac e é considerado uma das referências literárias para Marías neste livro. Para comprar na Livraria Cultura, clique aqui.

Oba, dois livros novinhos para ler. Vou levá-los para Juquehy neste fim-de-semana. Notícias em breve.

Cinquenta Tons de Cinza; o romance perdido de James Cain

Capa do livro perdido do mestre noir James A. Cain. A foto indica que existe uma edição Kindle, mas na verdade só audiobook e hardcover.

Dia desses, no salão perto de casa, fui surpreendida por uma mulher que lia Cinquenta Tons de Cinza (Fifty Shades of Grey no original). O livro, lançado em 2011, é um bestseller absoluto e o mais vendido paperback de todos os tempos, superando o recorde da coleção Harry Potter (que, por um motivo ou outro, nunca li). Já tive vontade de ler algumas vezes, mas era só dar uma olhada nas críticas disponíveis na página da Amazonmais de 12 mil no total — que desistia. Foi a figura daquela mulher pomposa e séria lendo E. L. James enquanto fazia as unhas que me fez voltar à obra mais uma vez (e acabo de baixar pelo Kindle).

Conheço pouco do enredo do primeiro título da trilogia, mas já encontro semelhanças entre este e Vênus em Peles, de Sacher-Masoch (aqui, post antigo sobre o assunto). Num dos primeiros encontros, Grey (que dá nome ao título) propõe a Ana (Anastasia, a protagonista) que eles assinem um acordo de “dominação e submissão”, do qual desiste (temporariamente) após descobrir que ela é virgem (aos 22!). O acordo é provavelmente assinado antes do fim deste primeiro livro, mas realmente duvido que supere a complexidade intelecto-passional de Sacher-Masoch. Enfim, vou ler o livro antes de criticar.

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The Cocktail Waitress, romance “perdido” do escritor noir James M. Cain redescoberto no fim do ano passado, acaba de ser publicado. Ainda não está disponível em versão Kindle, infelizmente (nem mesmo para compra antecipada) mas dá para comprar pela Amazon o audiobook.

A crítica gostou da protagonista Joan e do livro, com ressalvas: “Nenhum autor era melhor [do que Cain] quando o assunto era o preço que se paga pela concretização dos desejos. Não se trata de um Cain vintage, mas ainda assim é Cain”.

A inteligência sem cortinas de Fernando Pessoa; Dukan; Uma Estrangeira na França

Lisboa no início de setembro, em pleno sol e verão

Estou lendo Crônicas da Vida que Passa, de Fernando Pessoa, comprado numa (linda) livraria-café em Lisboa (não lembro o nome, não sei por quê). E estou me divertindo muito, pois não conhecia esse lado de Pessoa.

O livro reúne crônicas de Pessoa publicada n’O Jornal no ano 1915. A primeira fala de política e de convicções profundas: “Se há fato estranho e inexplicável, é que uma criatura de inteligência se mantenha sempre sentada sobre a mesma opinião, sempre coerente consigo mesma. (…) Uma criatura de nervos modernos, de inteligência sem cortinas, de sensibilidade acordada, tem a obrigação cerebral de mudar de opinião e de certezas várias vezes no mesmo dia”. A segunda, do excesso de disciplina do povo português (“Somos incapazes de revolta e agitação”, escreve). A quarta, polêmica, trata dos chaffeurs para criticar o jornal monarquista A Nação, e levou o jornal a demitir o escritor.

Curtas

Depois de quase 5 dias sem escrever, aí vai uma breve atualização:

Terminei de ler The Dukan Diet de Pierre Dukan. Não só isso. Estou seguindo a dieta desde segunda-feira e posso confirmar a sua eficácia (algo mais preciso só na próxima segunda-feira, quando começarei a 2a semana). O cardápio só proteínas da fase de ataque (que para mim durou 3 dias embora o recomendado seja 2) é surpreendentemente rico e variado. O cardápio proteínas+vegetais, mais ainda, mas estou alternando 1 dia de proteínas com 1 dia de proteína, vegetais e 1 extra, que pode ser qualquer coisa que eu queria comer, desde que em quantidade bem reduzida. Acho uma boa opção para quem quer (ou precisa) perder uma média de 5kgs (e não muito mais do que isso).

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A Livraria Cultura anunciou ontem um fim-de-semana de desconto para alguns títulos Penguin, em homenagem aos 110 anos de Allan Lane, o inovador fundador da Editora Penguin que lançou o paperback barato no mercado. Entre os títulos disponíveis (há livros em inglês e em português), recomendo Dubliners, de Joyce, The Heart is a Lonely Hunter, de Carson McCullers, e The Great Gatsby, de Fitzgerald, em versões original e traduzida. O desconto é de mais ou menos 30%. E a promoção vai só até domingo, dia 23!

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A nova data de publicação do livro Uma Estrangeira na França já foi definida: 29 de novembro de 2012. Optei por não publicar os novos capítulos, mas todos estarão disponíveis no livro, publicado na plataforma KDP da Amazon. Novidades em breve!

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Noiva por acaso: Comprei a 4a edição da Claudia Noivas. Ainda não tive tempo de olhar com calma, mas gostei — embora não seja tão boa quanto a 3a edição ou a Vogue Noiva de 2012. Tenho duas provas agendadas para a semana que vem: Cymbeline e Cecilia Echenique. Pretendo escolher o vestido até janeiro de 2013 — e antes disso temos 2 casamentos muito queridos, os dois em novembro.

A dieta Dukan

Pierre Dukan, o guru das dietas e autor do livro The Dukan Diet ou Je ne sais pas maigrir

Estou lendo The Dukan Diet e é muito, muito bom. O livro (Je ne sais pas maigrir no original) lançou o nutricionista francês Pierre Dukan à fama e é um sucesso desde 2008, mas ganhou novo fôlego no fim de 2010, com a anúncio do noivado de Lady Kate e da dieta milagrosa dos Middleton.

Funciona. Não posso dizer por experiência própria pois comecei a seguir o método hoje, mas na semana passada passei dois dias (quase) à base de proteína e o resultado foi ótimo. Senti-me bem mais disposta e ativa e o único efeito colateral — se é que podemos chamar assim — foi a boca seca. Para quem não precisa perder tantos quilos, o programa é ainda melhor. Um ou dois dias na primeira fase, chamada por Dukan de Ataque (choque talvez seja mais adequado pois é este o efeito no corpo), algumas semanas em Cruise ou Transição (que pode variar de 5 dias só proteína intercalados com 5 dias proteína + legumes a dois dias só proteína e 5 dias relativamente livres, tudo depende de quanto você quer perder e em quanto tempo) então Consolidação e Estabilização, que são fases mais relaxadas pois liberam quase todos os tipos de alimentos compensando com 1 ou 2 dias só de proteína*.

Há vários sites, em várias línguas, explicando e exemplificando todas as fases do método. Por isso, preferi destacar os motivos por que resolvi ler e/ou do que gostei mesmo.

1) a dieta realmente exige uma reeducação alimentar. Uma pessoa da minha família adotou o método no início de agosto e em 14 dias já tinha perdido 6kgs. Hoje já está na fase de consolidação — que é longa, pois prevê 5 dias para cada pound, mais ou menos 0,5kg. No último ano, ele já havia experimentado várias dietas mas só a Dukan funcionou. E o motivo deve ser bem simples. Depois de sentir os efeitos muito benéficos de uma dieta saudável (durante a qual não é necessário contar calorias), o corpo acaba traduzindo esses esforços em novos e bons hábitos.

2) o livro é muito bem escrito, divertido e instrutivo. Estou lendo a versão em inglês, no Kindle, e ainda não descobri se é do próprio autor ou de um tradutor. De qualquer forma, a leitura é rápida e nada chata, com algumas pequenas descobertas para quem nunca gostou de dietas (e menos ainda de livros de dietas): Oat Bran ou uma divertida consideração sobre o efeito do frio no nosso gasto calórico diário. Dukan recomenda sair com um casaco a menos em pleno inverno (europeu!), ligar o ar condiciona quando não está calor, e chupar gelo. Isso mesmo.

3) a abordagem no-nonsense do exercício físico. Não é para correr para a academia que nem um desesperado nos primeiros dias de dieta. Ele recomenda, ou melhor, prescreve, 20 minutos diários de caminhada nesses primeiros dias críticos de ataque. Assim você não cansa muito mas ajuda seu corpo a gastar mais calorias. Vale caminhar com o cachorro, ir a pé para o trabalho ou para o cinema, buscar a roupa na lavanderia. Qualquer coisa. Desde que some 20 minutos. Depois, a recomendação é outra e a prática de uma atividade física se torna desejável.

4) nunca fiz uma dieta na vida (que fosse além de uma semana sem chocolate) e achei que já estava na hora (principalmente considerando meu novo status de noiva).

Para quem quer visualizar os cardápios de cada fase, é só ir nesse site, que traduz todas as fases para o português e traz várias dicas. Para o site oficial da dieta Dukan no Brasil, Dieta Dukan.com.br, onde é possível descobrir seu peso real (que, veja bem, não é o ideal nem o atual, mas ainda assim é conservador, provavelmente porque o escritor é francês. Lá, eles têm dois termos para indicar “magreza”: um para magreza saudável outro para nem tanto). O site é mais um efeito da indústria Dukan, mas não compromete o livro, que vale muito a pena.

*: aqui vale uma ressalva. Essa primeira fase não é só de proteína. Como Dukan diz no livro, o único alimento 100% proteína que encontramos consiste na clara do ovo. Trata-se de priorizar alimentos principalmente proteicos. Exemplo: o leite e o iogurte, que trazem um pouco de gordura ou açúcar na composição, ou as carnes, que por mais magras que sejam nunca são 100% magras.

Os 39 Degraus, por John Buchan e Hitchcock

Desenho de Merville Stairs por Dermond McCarthy

Os últimos dias têm sido uma correria mas eu não poderia deixar de falar do livro que li recentemente — e finalmente — Os Trinta e Nove Degraus, de John Buchan.

Escritor escocês, historiador, diplomata, Primeiro Barão de Tweedsmir e uma vez 15o Governador Geral do Canadá, Buchan é bastante prolífico. O romance é o primeiro de cinco a figurar o personagem que se tornaria famoso, Richard Hannay (no início um escocês bem de vida vivendo tediosamente em Londres). O título curioso surgiu quando Buchan estava doente num lar assistencial privado e a irmã de 6 anos começou a contar os degraus da escada que levava à praia. A escada, que se tornaria um presente para o escritor (bem, parte dela), tinha 39 degraus.

Nas mãos de Hitchcock, no entanto, o título é um Mc Guffin — talvez o melhor de toda a obra do diretor. (Clique sobre o link para conhecer mais sobre a técnica narrativa popularizada por ele). Confesso que só resolvi ler o livro por causa da excelente adaptação do mestre do suspense. E o filme, em preto e branco, é um dos primeiros de sua filmografia, ainda da época inglesa — estrelando a já famosa atriz Madeleine Carroll.

A primeira vítima, em Buchan um homem, torna-se nas telas uma mulher — e outras personagens femininas surgem ao longo da trama. O desfecho, que na versão literária obedece a uma combinação ficção/realidade pouco ousada, na hitchcockiana traz uma grande surpresa, e o efeito mcguffiano me faria ler Buchan madrugada adentro.

Cada versão tem seu final, e o melhor é que ambos são ótimos. Vale a leitura!

Leitura Atualizada

Estou terminando de ler Stardust, de Neil Gaiman. Vi o filme há 4 anos e adorei, mas por algum motivo nunca tinha lido a obra. Em papel, pretendo começar a ler neste fim-de-semana meu delicioso presente Femmes Qui Courent Avec Les Loups, de Clarissa Pinkola Estés. E para minha total surpresa, acabo de comprar as versões Kindle de The Dukan Diet e A Practical Wedding, para me preparar para 2013.

O escritor e (é) o estrangeiro; O convite à viagem

Dia de Canoagem, numa cidade próxima a Montpellier. Na França, tudo é viagem; e todos, estrangeiros

Queria uma revista de noivas mas achei a edição de Julho e Agosto da Le Magazine Littéraire. O tema, “L’invitation au voyage” (O Convite à viagem), com (grandes) escritores como Montaigne, Sand, Jules Verne, Gide, Kerouac, Le Clézio, George Sand, Bruce Chatwin.

É uma das mais importantes revistas francesas do panorama literário e, nos meus primeiros meses de Montpellier, andei com um de seus números para cima e para baixo. Quase obscena, a edição sobre o hedonismo trazia na capa  uma pintura famosa de uma mulher inteiramente nua.

Mas esta fala do estrangeiro. O estrangeiro parece estar presente em tudo o que é francês, e principalmente em todas as minhas memórias francesas. Muitos desses escritores, só vim a conhecer na França ou depois da França. Bruce Chatwin, o estrangeiro por excelência, já conhecia de nome, mas foi em Montpellier que li o belíssimo On The Black Hill. Cheguei a comprar Songlines, sua obra-prima, mas até hoje não li até o fim. Meu amigo Bertrand, já mencionado em outro post, dizia se tratar do livro mais lindo de todos.

Foi Montesquieu que disse (embora tenha pensado até outro dia que havia sido Montaigne): “As viagens concedem uma grande profundidade ao espírito: saímos do círculo de preconceitos de nosso país, e ainda não estamos prontos para adotar aqueles dos estrangeiros”. A partir dessa frase, construí um dos meus trabalhos na Université Paul-Valéry e dei início à busca muito pessoal pelo estrangeiro. Dali, só foi um pulo para Beckett e seu Dire Je e todos os outros. Em francês, estrangeiro e estranho são palavras muito próximas, com uma grande conexão sonora (étranger e étrange). E estranhamento e estrangeirice são exatamente a mesma (aliás, não há correspondência exata em nossa língua natal: étrangeté.

E nada disso deve ser por acaso pois logo na primeira página encontramos um comentário do jornalista Joseph Macé-Sacron, identificando o caráter indissociavelmente estrangeiro do escritor. Depois ele diz: “A viagem desloca a alma assim como o corpo, e essa participação total permite ao escritor alcançar, além do estranhamento/estrangeirice que atravessa, uma outra dimensão de si mesmo”.

O artigo vale a leitura, lá no site da revista, e o poema de Baudelaire, extraído de Fleurs du Mal, também é ótimo.

L’invitation au voyage – clique aqui para ler a versão em inglês

Mon enfant, ma soeur,
Songe à la douceur
D’aller là-bas vivre ensemble!
Aimer à loisir,
Aimer et mourir
Au pays qui te ressemble!
Les soleils mouillés
De ces ciels brouillés
Pour mon esprit ont les charmes
Si mystérieux
De tes traîtres yeux,
Brillant à travers leurs larmes.

Là, tout n’est qu’ordre et beauté,
Luxe, calme et volupté.

Des meubles luisants,
Polis par les ans,
Décoreraient notre chambre;
Les plus rares fleurs
Mêlant leurs odeurs
Aux vagues senteurs de l’ambre,
Les riches plafonds,
Les miroirs profonds,
La splendeur orientale,
Tout y parlerait
À l’âme en secret
Sa douce langue natale.

Là, tout n’est qu’ordre et beauté,
Luxe, calme et volupté.

Vois sur ces canaux
Dormir ces vaisseaux
Dont l’humeur est vagabonde;
C’est pour assouvir
Ton moindre désir
Qu’ils viennent du bout du monde.
— Les soleils couchants
Revêtent les champs,
Les canaux, la ville entière,
D’hyacinthe et d’or;
Le monde s’endort
Dans une chaude lumière.

Là, tout n’est qu’ordre et beauté,
Luxe, calme et volupté.

— Charles Baudelaire

O Vestido da Noiva

Vestidos de noiva no provador da loja Pronovias, sábado, aqui em São Paulo

Ainda éramos pequenininhas quando minha prima Stella começou a falar de casamento. Ela já havia planejado quase tudo. Queria uma festa linda, um vestido lindo, um marido perfeito. Lembro do dia em que nos contaram, em Itacimirim, que a família da noiva arcava com os custos da festa. Retruquei que não faria festa alguma. E passei impávida pela maioria delas. Os 15 anos, a formatura do colegial, da universidade. Quando falávamos em casamento — de forma remota — eu dizia querer uma cerimônia discreta, numa igrejinha pequena, com dez convidados no máximo. Quando conheci Tomás, veio a vontade de casar. De certa forma, ele já era meu marido, desde o primeiro dia. Mas às vezes acordava no meio da noite e, num momento confuso, não sabia dizer quem ele era. Aí, já desperta, sugeria: “vamos nos casar no cartório amanhã?”.

A verdade é que nem nos meus sonhos de princesa achei que teria um noivado tão longo. Mais de 14 meses. Tinha certeza de que o meu casamento seria organizado às pressas, por outra pessoa, e o vestido comprado numa loja qualquer. Não poderia nunca ter antecipado a emoção de portar um anel todos os dias ou de experimentar o primeiro vestido de noiva, naquele provador gigantesco da Pronovias. Não conhecia as convicções resolutas (e às vezes passageiras) da personagem, ou o poder de visualizar um casamento antes de ele acontecer. Não poderia adivinhar o que isso faria com a minha cabeça e com os meus anseios literários — pois hoje passo com a maior facilidade dos 39 Degraus de John Buchan (próximo post) à leitura de Claudia Noivas.

Olhando os vestidos de noiva, é impossível não associá-los aos trajes de princesa dos contos de fada. Fã dessas histórias, li há alguns dias uma versão literária — e inédita — da Bela Adormecida. No dia do casamento, ela desiste de tudo para salvar a vida de outra princesa. Desconfio que a princesa moderna vá na direção inversa pois hoje, ao abraçar o casamento sem reservas, consegue cumprir integralmente a função de mulher.