O estrangeiro na arte

Na obra Um bar em Folies-Bergère de Manet, as lâmpadas são reproduzidas como dois discos totalmente brancos, para que possamos nos concentrar no reflexo do espelho.

Na Waterstones, em Londres, encontramos um livro inesperado. The Foreigner: Two Essays on Exile, de Richard Sennett. Foi meu primeiro contato com o escritor e sociólogo inglês, famoso por seus estudos sobre a cidade e os efeitos da vida urbana nos indivíduos do mundo moderno.

Só pude começar a ler os dois ensaios no fim da viagem, no caminho de Positano a Roma — onde tomaríamos o avião para Lisboa. O primeiro é excelente e muito instrutivo, sobre os guetos (ghettos) judeus na Veneza Renascentista. Mas foi o segundo que realmente me chamou a atenção.

Sennett parte de Manet e sua técnica artística para falar da trajetória de Herzen, russo exilado em Paris e Londres, e então do estrangeiro universal. “Em muitas das últimas pinturas de Manet, a ideia de deslocamento óptico é reforçada por um gesto arbitrário que distancia ainda mais a cena da realidade. Em Um Bar em Folies-Bergère, isso se dá no modo como Manet pinta duas lâmpadas refletidas no espelho; são discos totalmente brancos sem sombra ou efeito refratário. Para os contemporâneos de Manet, essas luzes eram sinal de fraqueza”, analisa Sennett.

Mas a função das luzes é outra. “Da mesma forma como o vestido da bargirl não pode ser refletido imediatamente à sua direita, o senhor que lhe faz uma pergunta com os olhos não pode existir opticamente, pois bloquearia nossa visão de Suzon, que por sua vez olha diretamente para a frente”. A pintura se configura de tal forma que o observador, qualquer que ele seja, encontra-se em pé de frente para Suzon. Mas, afirma Sennett, claro que nem você nem eu parecemos aquela pessoa refletida no espelho. Daí o drama criado por Manet na obra: “Eu olho no espelho e vejo alguém que não sou eu”.

A Paris da juventude de Manet, em meados do séc. XIX, era uma Paris de estrangeiros. Nos anos 30, as universidades da França estavam abertas a eles. “Era, como disse, uma situação curiosa, essa nação xenofóbica seduzida por estrangeiros perseguidos, mas tratava-se também de um importante momento histórico”. Em Paris, percebeu-se primeiro as mudanças que produziriam a imagem moderna do estrangeiro. Imagem esta que surgiu como efeito do nacionalismo moderno. Daí, Sennett parte para contar a trajetória do pensador e escritor Alexander Herzen, conhecido com o “pai do socialismo russo”, utilizando as referências mais diversas: Édipo Rei, Rousseau, Duchamp. O ensaio vale muito a leitura e o livro pode ser encontrado nas lojas Amazon.fr e Amazon.uk.

Terminei-o no avião de volta para o Brasil e, chegando em casa, recebi a edição de 27 de agosto da revista New Yorker. Que surpresa! Uma nova biografia de Stefan Zweig acaba de ser publicada — Three Lives, de Oliver Maruschek –, e em sua crítica, Leo Carey revisita toda a vida do escritor. Comecei a ler Zweig há pouco menos de 10 anos e seu livro Chess Story ou The Royal Game está entre os melhores que já li. É brilhante. Com a ascenção do governo nazista em 1933, Zweig, judeu, foi forçado a viver em exílio. Morou em Londres, NY, e e se suicidou em 1942, em Petrópolis, no Brasil. Sua vida e sua obra representam a máxima do estrangeiro cujas válvulas de escape nunca são suficientes.

P.S: traduzi livremente os trechos originais do livro de Sennett.

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