Arquivo mensal: outubro 2012

Meu caso de amor com o Kindle; Halloween; Penguin e Random House

Kindle em suas versões Touch (cinza) e Paperwhite (preto). Os dois são muito bons, mas o novo modelo é ainda melhor, com um sistema de iluminação quase perfeito, uma caixa robusta e resistente, e um touchscreen que funciona bem. Mesmo.

Hoje recebi o meu Kindle Paperwhite, que veio por encomenda, diretamente dos Estados Unidos, quase um mês depois do lançamento do produto em solo americano.

É o meu terceiro Kindle em 18 meses. Comprei o primeiro em maio do ano passado, pouco antes de voltar para o Brasil, numa época em que ia quase todos os dias à Gilbert & Joseph negociar algum valor por algum livro. Desfiz-me de títulos incalculáveis, e outros tantos mandei pro Brasil numa caixa, a um preço abusivo (esses eram livros caros que eu havia levado para a França ou pedido para alguém levar). Livro na França era barato. Já nas primeiras semanas por lá, tinha visto um mendigo, sentado na entrada de uma loja, lendo um volume em capa dura. Que civilização literária!, pensei. Eram tão baratos e tão disponíveis que dava para comprar um livro com o troco do maço de cigarro. Mas, alas, eu não podia levá-los de volta para o Brasil.

As meninas inglesas da universidade andavam com seus Kindles a tiracolo. Resolvi experimentar. Na época, a Amazon ainda nem vendia na França. Encomendei no site, paguei 60 USD a mais e aguardei. Em apenas 4 dias, meu e-reader (Kindle Keyboard) já estava lá. Foi meu companheiro inseparável nas últimas semanas francesas. Fomos juntos para todas as praias, do Languedoc à Riviera, lemos George Steiner e Baudelaire e, chegando ao Brasil, Wilkie Collins. Ele só tinha um probleminha. Quando faltava luz, não dava para ler. Aí o jeito era apelar para os Text-to-Speech e para os Audiobooks (como as palestras de Richard Feynman).

Apresentei o Kindle a Tomás, que gostou da ideia e em novembro de 2011, quando ele viajou para os EUA, encomendei 2 novíssimos Kindle Touch. Primeiro, fiquei decepcionada, por incrível que pareça. Coloquei na cabeça que refletia luz, que não era tão bom, mas assim que me acostumei, nunca mais desgrudei. O Touch era infinitamente superior ao Keyboard. A experiência da leitura tinha se tornado quase íntima de tão próxima, e eu já não precisava me preocupar com mais nada quando estava lendo. Compramos umas mini luzinhas para leitura, que quebravam um galho quando faltava luz, ou quando eu lia madrugada adentro. Depois, compramos capas com luz embutida, que utilizavam a própria bateria do Kindle para funcionar (a bateria dura “quase” para sempre, na cronologia dos bytes), uma libertação.

Estava tão feliz com o Kindle e com a Amazon — que inclusive mandou um Kindle substituto depois que eu manchei o meu na praia — que nem esperava que criassem algo melhor. Aí veio o Kindle Paperwhite.

Ele tem quase o mesmo design do Touch, mas o tato é bem diferente. É mais robusto e bem-acabado, arrojado. Estava receosa quanto ao sistema de iluminação, a tal da built-in light (veja aqui), mas funciona muito bem. E você pode mudar a quantidade de luz na hora em que quiser. Como a Amazon explica no site, a luz reflete sobre a tela e não sobre os seus olhos, então o efeito anti-glare continua valendo. Ele é ligeiramente menor e mais leve, e o primeiro Kindle realmente Touch (não tem nem aquele botão da Home, sabe?).

Como nada é perfeito, a depender da configuração de luz escolhida, aparecem algumas manchinhas na parte inferior da tela. Mas nada que incomode a leitura.

Comprei a capinha de couro junto. Uma surpresa boa. Embora a capa da versão anterior viesse com a luz, era bem ruim. Pesada, com acabamento suspeito, pouco prática. A nova é excelente (veja aqui) e vale a compra. Recomendo!

Agora, para quem quer comprar seu Kindle Paperwhite e não está indo para os EUA… recomendo a Dabee. A Amazon ainda não vende diretamente no Brasil e tudo indica que começará vendendo o modelo mais barato da família. Por isso, melhor garantir. O modelo Wifi — bem mais barato — atende às necessidades de quase todos os leitores. A não ser que você viaje muito, e leia muito em trânsito, e não aguente esperar chegar em casa para baixar o livro, nesse caso (o meu), melhor gastar um pouco mais e comprar a versão 3G.

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Ontem foi anunciada a fusão entre Penguin e Random House. O iG, aqui no Brasil, reproduziu uma matéria da agência EFE (leia aqui), sob o título: “Penguin e Random House anunciam fusão para enfrentar desafio digital“. Ainda lembro das longas tardes que passava em livrarias, procurando as mais novas edições de literatura estrangeira em versão original, e hoje, tudo à distância de um toque…

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Halloween. Acompanhei pelo Facebook alguns vídeos e galerias de imagens de festas muito bacanas. Fiquei triste que não consegui ir a nenhuma. Na época em que eu era adolescente, essas festas estavam restritas a escolinhas de inglês e colégios bilingues. Agora, parece que estão por toda parte. Será o mundo globalizado?

Leituras vintage no Dia Nacional do Livro; Livros perdidos; Desejo e curiosidade em Bluebeard

Lindos marcadores de texto vintage, à venda no site de compras Enjoei. Eu comprei!

Ontem foi o Dia Nacional do Livro e eu acabei nem escrevendo aqui. No dia 29 de outubro de 1810 — há 202 anos — a Real Biblioteca Portuguesa foi transferida para o Brasil, e a Biblioteca Nacional foi estabelecida no Rio de Janeiro. E isso, é claro, é motivo de comemoração. Vamos falar sobre livros.

Estava preparando um post sobre o conto de fada moderno Bluebeard, um de meus preferidos desde que li The Bloody Room, de Angela Carter. Sempre gostei de contos de fadas e de suas interpretações (Freud, Bettelheim e o que mais aparecesse na minha frente). No fim-de-semana, decidi que leria Bluebeard Tales from Around the World (quem tem conta Amazon nos EUA pode tomar emprestado de graça), não sem antes reler o delicioso Quarto Sangrento. Foi nessa leitura, e na leitura da versão clássica de Perrault, que me dei conta de que Bluebeard não era e nunca havia sido atraente. O eroticismo de Carter deve ter me confundido daquela primeira vez, lá na França. Mas, como dizia, isso merece um post à parte.

Os 52 livros que trouxe para minha casa nova (leia aqui) continuam no chão da sala, sem destino específico. A estante embutida está mais do que ocupada e começamos a preencher os armários, gavetas, com livros. Qualquer arrumação discreta e acho um monte de livros. Ontem, dando alguma direção à organização deixada pela metade no domingo, achei o livro Antropofagia. Tomás comprou-o comigo no início do namoro, depois de uma conversa que tivemos, quando ele me disse que gostaria de levar adiante um projeto sobre o assunto. Minha intenção era guardar o livro num lugar todo especial, e entregar para ele assim que voltasse de viagem (já voltou), mas agora já não lembro mais onde foi que coloquei, e isso tem acontecido com quase todos os meus livros de papel.

Deixo na mesa de cabeceira alguns títulos imprescindíveis, como Burlesque and the Art of the Teese, que comprei recentemente, Os Enamoramentos, Steven Berkoff, Femmes Qui Courent Avec Loups, Pénélope. (Ontem mesmo esqueci entre as folhas de um desses um cartão lindíssimo da Moleskine). Mas aí a lista imprescindível vai aumentando e quando vejo — ou quando temos algum evento lá em casa — já é hora de retransferi-los. Carrego a pilha de livros e faço uma redistribuição física de toda a minha literatura estrangeira. Alguns lá em cima, sobre a prateleira, uns (secretos) no meio das minhas roupas, outros escondidos no quarto de hóspedes, outros no ex-closet que virou depósito quando a gente mudou para cá. O problema é que depois não consigo encontrar nenhum deles, mas nenhum mesmo, e saio pela casa feito uma louca procurando. Na parede que separa a sala de TV da sala per se, poderíamos fazer uma estante branca, ou usar o espaço para uma poltrona de leituras. Mas não tem estante que dê conta dos livros que ainda preciso trazer da minha antiga casa. Talvez seja hora de começar a doá-los.

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Fiquei com saudade foi dos meus livros, todos os livros, lendo a deliciosa coluna de Vanessa Bárbara no Blog da Companhia de hoje, Das Coisas que Encontramos em Livros. São tantos livros perdidos!

Amanhã recebo o novo Kindle Paperwhite. Eba!

A criatividade linguística de Kevin Barry

Ilustração do conto Ox Mountain Death Song, Canção de Morte das Montanhas Ox, de Kevin Barry, publicado na última edição da revista New Yorker.

Li há alguns dias um conto impressionante, Canção de Morte das Montanhas Ox, de Kevin Barry, publicado na revista New Yorker. Usei o novo feature do App da revista no iPad, “the author reads”, e li o conto duas vezes, numa delas ouvindo a voz do escritor. Não são todos os escritores que conseguem ler bem ou muito bem em voz alta, mas Barry é dessas raras e maravilhosas exceções. Irlandês, ganhou o Booker Prize com a sua primeira obra, There are Little Kingdoms, publicada em 2007 (e por algum motivo ainda indisponível no Kindle). Publicou outros dois livros depois, City of Bohane e Dark Lies the Island (cuidado com a lista da Amazon. Descobri agora que existe outro escritor com o mesmo nome, australiano).

Comecei a ler seu conto preguiçosamente, deitada no sofá. Mas foi só ligar a função “Kevin Barry reads” para me dar conta de sua estranheza linguística. Cada frase é uma delícia, por isso foi tão difícil traduzir o trecho inicial (abaixo).

Ele vinha semeando bebês pelas Montanhas Ox desde seus dezessete anos. Bom, ele tinha o cabelo certo para isso, e um sorriso de furão, e dificilmente haveria uma fêmea naqueles lados de Sligo-Mayo em que ele não tivesse passado os olhos castanhos, ou pegado*, nos cantos escuros de bares, ou na turbulência hormonal das discotecas da cidade, ou em carros sem placa, descendo estradas suspeitas, sob o luar tão, tão tolo. Ele tinha sobrancelhas macias, quase femininas e ombros ignorantes — ‘sexo num espeto’, era sua opinião, e muitas das meninas e mulheres tolas a compartilhavam. Ele mantinha várias ao mesmo tempo, mas era só elas ganharem peso* e ele as deixava.

Há homens que numa vida inteira não conseguem deixar uma mulher — que não têm coragem suficiente nem superam o sentimento — mas Canavan as deixava todos os dias.

Para acessar o conto na New Yorker, clique aqui. O acesso é restrito a assinantes ou àqueles que comprarem a edição. Para quem ainda não é assinante, recomendo a assinatura digital da versão para iPad, que além de permitir o acesso a todas as edições da New Yorker, ainda traz features extras. Para aqueles que gostariam de ler um conto de Barry aberto a não-assinantes, clique neste link para ler Fjord of Killary, também publicado na New Yorker.

* A tradução é livre e feita por mim, mas há dois pontos para discussão. Traduzi como “pegado” a expressão “had the hard word laid on”, na verdade uma expressão australiana que quer dizer, simplesmente, que ele pediu alguma coisa para elas. “Pegar” é um termo bem utilizado no baianês, que transmite o duplo sentido certamente desejado pelo autor.

Também preferi traduzir literalmente a expressão: “as soon as they got weight on them”. Esta última poderia ser tanto uma referência ao ganho de peso, o que duvido, quanto à irremediável gravidez (que concorda com a frase de abertura) ou ainda ao ato sexual.

Abaixo, trecho original.

He had been planting babies all over the Ox Mountains since he was seventeen years old. Well, he had the hair for it, and the ferret grin, and there was hardly a female specimen along that part of the Sligo-Mayo border that hadn’t taken the scan of his hazel glance, or hadn’t had the hard word laid on, in the dark corners of bars, or in the hormone maelstrom of the country discos, or in untaxed cars, down back roads, under the silly, silly moonlight. He had soft girlish eyelashes and pig-ignorant shoulders — sex on a stick, was his own opinion, and too many of the foolish girls, the foolish women, shared it. He kept several on a string at any given time but as soon as they got weight on them he left them. 

Now there are those who in a lifetime cannot leave a woman — who cannot gather the strength or get past the sentiment — but Canavan left them every day.

Vestido de Noiva; Nutricosméticos; Dita Von Teese

Vitrine da loja Cecilia Echenique, aonde fui no sábado.

Minha vó me perguntou outro dia se havia desistido do vestido de noiva, só porque não falo (muito) no assunto ultimamente. Não desisti, aliás, o casamento ocupa boa parte dos meus pensamentos livres. Ainda falta um ano e um mês, é tempo pra caramba, ou talvez não. Lembro quando voltamos de viagem, recém-noivos, no início de setembro. Com toda a empolgação, fui à Pronovias logo no primeiro fim de semana, e achei que havia encontrado meu vestido. Era lindo, mas não serviria para a cerimônia que vamos fazer, então tive de voltar a procurar. Aí relaxei, achei que tivesse tempo, pensei até em comprar pela Internet, no site da Nicole Miller. Agendei visitas na Cecilia Echenique e na Cymbeline, desmarquei, remarquei, e finalmente no último sábado fui até lá. Meu guarda-chuva imitação de Burberry acabou ficando na loja, e eu andei um bom pedaço dos Jardins debaixo d’água. Gostei de dois, bem diferentes um do outro, e até agora não consegui decidir de qual gostei mais. E a opinião das amigas não ajudou nesse ponto. Minha vó disse que o mais simples era a minha cara, as amigas acharam simples demais. Adoraria publicar as fotos, uma pequena galeria de pré-noiva, mas Tomás não iria gostar nada, então deixa para lá. Como os dois vestidos são da Coleção 2012, sempre fica a dúvida. E se eu não encontrar nada parecido no ano que vem? Estou falando com uma vendedora muito simpática da loja de Nova Iorque, e sem nunca ter me visto, ela já escolheu o meu vestido para mim. Não sei o que fazer.

Os preparativos vão além do vestido. Comecei a tomar algumas pílulas, dos chamados nutricosméticos. Não poderia imaginar que tanta gente usasse. A percepção dos resultados acontece de outra forma, também, pela própria imaterialidade do tratamento. Estou tomando o Innéov Nutri-Care para Queda Capilar e Cabelos Danificados, porque quero chegar de cabelão no casamento, e Oenobiol Solar, para manter o bronzeado e me proteger dos abusos ultravioleta. Aí aproveitei e comprei um tubinho de colágeno também. Ainda não me acostumei à quantidade de comprimidos que tomo de manhã, ao acordar. Mas acho que o mais importante é a empolgação que cerca cada um desses cuidados. É mais gostoso pensar (e saber) que existe um objetivo maior num futuro não muito distante e que tudo o que eu fizer por mim e para mim, como mulher, nesses próximos 13 meses, refletirá em um dos dias mais importantes das nossas vidas, para sempre. Mesmo com todo o entusiasmo, esse noivado longo é um tempo de preparação. Depois da paixão avassaladora, do amor precoce, vem a construção do lar, e como quase tudo que importa, acontece de dentro para fora.

***

Hoje comprei Burlesque and the Art of the Teese, de Dita Von Teese. Simpáticas, as vendedoras me perguntaram se eu já tinha lido Cinquenta Tons de Cinza. Disse que estava terminando, e que não era ruim, mas que recomendaria dois ou três livros antes desse. Dita também: em sua lista Top 10, ela indica Anais Nin e Sacher-Masoch (leia este post sobre o assunto), além de Histoire d’O e a trilogia da Bela Adormecida de Anne Rice (dois que nunca li mas já ouvi falar), e Henry Miller, de que nunca gostei. Lembrei imediatamente do conto de Bluebeard (adoro a versão de Angela Carter) e, pesquisando, encontrei um livro do escritor francês — um de meus preferidos — Anatole France: The Seven Wives of Bluebeard, com versão Kindle gratuita (baixe aqui). O próximo post vai ser todinho sobre isso.

 

Lollo para sempre

Lollo, o chocolate fofinho da Nestlé, igualzinho quando foi lançado em 1982.

Tá bom, o blog é sobre literatura, mas não dava para deixar de falar desse assunto.

Há algumas semanas, o Lollo voltou às prateleiras — e vendinhas — brasileiras. Comi o meu primeiro Lollo em 20 anos há mais ou menos 20 dias, e desde então tenho comido o chocolate diariamente (ou sempre que consigo achar pois, por incrível que pareça, está difícil!).

A iniciativa vintage está relacionada ao próprio amadurecimento do mercado brasileiro. Em 1982, o brasileiro consumia em média 1 kg de chocolate por ano. Hoje, consome 2,5 kgs anualmente. Os consumidores locais se tornaram bem mais importantes para a matriz, que na época ditou o alinhamento global para substituir o Lollo por um tal de Milkybar. O comercial de lançamento do Milkybar era até bonitinho e sugeria que o Lollo estava de roupa nova. Na verdade mexeram, e muito, na fórmula.

Tinha apenas 11 anos quando o Lollo foi retirado do mercado brasileiro (leia matérias sobre a volta do chocolate fofinho da Nestlé no UOL, no Estadão, no G1 e no Portal Administradores — a mais completa na minha opinião) e substituído pelo Milkybar. Adotei-o no início mas abandonei depois de um tempo, achando que meu paladar para doce tinha mudado com a idade. Por isso, quando vi no Instagram que o Lollo tinha sido relançado, nem achei que provocaria todo esse furor. Que surpresa! O Lollo é diferente, sim, e muito mais gostoso, exatamente como eu lembrava dele. Nada popular, o Milkybar vinha sendo vendido exclusivamente nas caixas de especialidades. Por isso a Nestlé anunciou que essa versão de 28g é edição limitada. Espero, sinceramente, que reavaliem essa estratégia de marketing e o chocolate fofinho tenha voltado para ficar!

O Lollo é um chocolate (quase) light. Uma barra de chocolate ao leite tem em média 5,2 kcal por grama e 32% de gordura. O Lollo tem só 4,6 kcal/g e apenas 18% de gordura. Seu equivalente americano, o 3Musketeers, é ainda menos calórico: com apenas 4,2 kcal por grama e 8% de gordura. Mas o Lollo é mais gostoso.

Onde achar o Lollo: até agora não vi em supermercado algum. Mas lojas de conveniência geralmente têm, assim como algumas padarias e mercearias. O preço  varia entre R$ 1,20 e R$ 2,00 a unidade. Se achar, melhor comprar para fazer um estoque!

Mulheres leitoras; Contos em Voz Alta

Mulheres da família de Mr. William Mason de Colchester. Pin de Clara Lucas: Mulheres Lendo

Li há alguns dias, no iPad, um artigo excelente publicado na última edição da revista New Yorker, Turning the Page: How Women Became Readers. Trata-se de uma crítica de Joan Acoccela do livro The Woman Reader, de Belinda Jack — já disponível em versão Kindle, embora a um preço meio azedo –, que atravessa a história da leitura e da literatura para contar como mulheres ascenderam à posição de leitoras.

Se a crítica de Acocella é uma prévia fiel da obra, o livro deve ser muito bom. A história da “mulher leitora” se mistura à dos vernáculos e, claro, à da independência feminina: “Por que as mulheres lerem era algo tão temido pelos homens? Porque a leitura era algo que elas poderiam fazer sozinhas”, conclui Acoccela.

Em outros trechos, evidencia-se a preocupação com a saúde física e mental das mulheres quando confrontadas com o poder da ficção: “Alguns médicos especialistas acreditavam que as mulheres poderiam reagir a alguns livros [como Clarissa, de Richardson] de forma a colocar em perigo a sua própria saúde mental, ou agravar a condição de sua saúde física. Um médico londrino decidiu que a leitura estava liberada às mulheres, desde que elas fossem observadas cuidadosamente. Se, por exemplo, um romance agravasse o estado físico de uma mulher, ele deveria ser imediatamente substituído por outro livro, sobre um tema prático, como por exemplo o cultivo de abelhas”.

Embora provavelmente escrito antes da publicação de Fifty Shades of Grey, de E. L. James (o primeiro título da trilogia chegou às livrarias em 2011), o livro de Ms Jack (e a crítica de Acoccela) pode(m) ser lido(s) à luz desse novo gênero literário. Ainda lembro da época em que lia Anais Nin às escondidas (ou talvez nem precisasse, pois a escritora não era popular), e hoje em qualquer salão de bairro a gente vê alguém lendo Cinquenta Tons de Cinza. De acordo com a pesquisa feita por Jack, as preferências literárias de homens e mulheres continuam diferentes e, por incrível que pareça, seguem até hoje uma divisão estereotipada. As mulheres leem mais ficção, principalmente quando os tópicos variam entre “amor, amizade, animais, aventura”. Quando os homens leem ficção, os títulos que apareçam geralmente pertencem à chamada alta literatura, Cem Anos de Solidão e O Estrangeiro, são alguns dos exemplos (a exceção nesse caso é O Apanhador no Campo de Centeio, que deve ser o equivalente masculino de Orgulho e Preconceito, um de meus livros preferidos de todos os tempos).

Pessoalmente, aposto no crescimento dessas genres literatures, quaisquer que sejam. Entusiasta de thrillers e romances policiais, vejo com bons olhos os romance novels, os livros de young adults, como também o novo gênero que certamente se desenvolverá a partir de Cinquenta Tons. O que importa, de verdade, é que as pessoas leiam mais e mais nessa época tão tecnológica. Ontem descobri, com certo atraso talvez, que o aplicativo da New Yorker para iPad possibilita que se escute o próprio escritor lendo o conto ou poema, uma evolução bem particular da ideia do livro fonógrafo (veja aqui post sobre o assunto). O efeito nem sempre é um sucesso, afinal não é todo escritor que lê tão bem quanto Neil Gaiman, mas o fator surpresa funciona muito bem.

Gostaria apenas que o livro de James levasse mais leitoras a Vênus em Peles, de Sacher Masoch (veja aqui post sobre o assunto). Foi Masoch quem deu origem ao termo masoquismo, lá atrás, em meados do séc. XIX, e sem o masoquismo, o sadismo de Grey não teria graça alguma. Também fica quase evidente que o longo e complicado contrato proposto por Christian foi inspirado no documento assinado entre Severin e Wanda. A grande diferença é, talvez, o coeficiente intelectual do sadomasoquismo de Severin/Wanda/Masoch, por algum motivo ausente do livro de James.

Leia mais

No Pinterest, você pode encontrar uma série de pins de mulheres lendo, como a bela galeria de Clara Lucas. Veja aqui. Vale também dar uma olhada nesse blog: Notas sobre Leituras.

Para quem quer ler mais sobre o assunto, além dos livros de James e Jack, recomendo Silly Novels by Lady Novelists, de George Eliot, nom de plume da escritora inglesa Mary Anne. Escrito em 1856, pode dar uma ideia do que as mulheres daquela época pensavam sobre a leitura — e a literatura — femininas.

Cinquenta Tons é, possivelmente, uma nova versão das coleções de Sabrina, Julia e Bianca, sucesso uma geração antes da minha. Tomara que as vendas de James levem alguém a digitalizar as coleções e disponibilizá-las no Kindle.

Daqui para o instante seguinte, é tudo mistério; Narrativas do futuro

Sestina, publicado na edição de outono 2012 da Paris Review é uma sugestão de nova narrativa. Meio poema, meio quadrinhos, meio cinema. “Quem realmente quer ler um poema? Vamos dizer que uma garota esteja sentada debaixo de árvores cabeludas, lendo, segurando um livro. E, quem sabe, no chão esteja um rapaz. Ele está dormindo, parece, ou talvez esteja morto. Ele não se move, nem ele nem as árvores”.

Uma semana inteira sem escrever aqui e me deparo com um conto na última edição da New Yorker (The Semplica-Girl Diaries, leia aqui) que me faz pensar, justamente, nesses momentos de intensa atividade, quando quase não escrevemos, mas vivemos tantas coisas gostosas. E aí, passa um, dois anos e ficamos com saudades desses momentos, e buscamos em cadernos perdidos um registro fidedigno dessa época. Queremos saber o que acordamos pensando, qual foi o primeiro gesto do namorado, que bebida escolhemos da carta do bar, qual foi o bar, a distância que percorremos, e como (táxi, a pé, ônibus, carona?) aquilo que disse o taxista ou o moço desocupado olhando para você do outro lado da rua, as mensagens de texto que trocamos, os momentos menos fotogênicos e mais literários e além, bem além, nossas paixões e crenças, convicções e sensações, quase um Instagram da alma.

Conheço várias mamães de primeira viagem e acompanho a atividade delas — e de suas famílias — nas mídias sociais. Outro dia estava pensando na sobrinha de uma amiga. Ela tem hoje 15 anos, um ano mais nova do que eu naquela foto perdida que publiquei no último post (leia aqui), e já possui uma significativa memória instagrâmica. E o sobrinho de cinco meses também. Isso sem falar em casamentos, batizados, pedidos de noivado, viagens de aventura, tudo devidamente registrado na nuvem. A experiência deve ser diferente. Quando ela tiver 30 anos, por exemplo, não vai precisar recorrer a caixas e cadernos velhos para se lembrar de quem era, pois ela já vai saber. Vai mesmo?

Hoje vivemos o tempo todo com todas as nossas memórias. Ou quase. É verdade que o homem só conseguiu chegar até aqui porque tem a capacidade de ignorar informação — aliás, essa é uma das principais características a nos diferenciar de computadores e, porque computadores já estão um quê ultrapassados, plataformas digitais. Nossos algoritmos são mais criteriosos e desenvolvidos, e até agora vivemos muito bem nos esquecendo de quase tudo (e nos forçando a lembrar das coisas importantes, o que se torna cada vez menos necessário, com tantas ferramentas!). Mas a possibilidade de viver tudo, com tudo e todos, o tempo todo, deixa a humanidade mais ubíqua — e divertida. Alguns físicos acreditam que é assim com o universo. Passado, presente e futuro acontecem ao mesmo tempo. Outros dizem que existe uma relação entre o universo visível e a quantidade de informação acumulada até hoje. Do instante zero até o momento atual, está tudo iluminado; daqui para o instante seguinte, é tudo mistério. Torço, muito, pela evolução dessa ubiquidade e, para um dia, realmente, poder viver com tudo e todos o tempo todo. E, num futuro não muito longínquo, poder acessar, mais do que minhas memórias, todo o conhecimento humano, como HG Wells tão brilhantemente previu (veja The World Brain aqui). Responder a todas as perguntas, de uma sala de reunião virtual, com alguém no tempo presente e alguém no tempo passado, e ver a história desfilar defronte meus olhos (em holografias tão perfeitas que, mais do que simular a realidade, vão superá-la).

O valor dessas pegadas digitais é incalculável. Dizem que os atores dessa vanguarda de bits querem nos censurar e controlar, que essa tendência de colocar tudo na nuvem vai botar a humanidade em cheque. Do meu lado, torço para isso; para que as plataformas digitais conversem cada vez mais entre sim e nós tenhamos cada vez mais acesso a todas as histórias. Então poderemos criar novas narrativas, abrir, de verdade, uma brecha no tempo do nosso universo, e investigar o mistério.