Literaturas esquecidas, memórias analógicas e outros tempos

Estávamos caminhando para o cinema para ver A Estrada Perdida, quando tiraram esta foto de mim. Era 1997, iniciozinho do ano, havia começado a cursar o primeiro colegial no Pueri Domus da Jacurici (que nem existe mais). Encontrei-a num pequeno álbum antiquíssimo onde guardo até hoje fotos que amigas da Bahia me deram quando mudei para São Paulo.

Hoje resolvi passar na minha antiga casa, lá em Perdizes, para buscar alguns livros. Vinha sentindo falta de vários deles e decidi aproveitar a viagem de Tomás para dar um jeito nessa saudade toda. Primeiro, um passeio pelo bairro. O empório onde comprava pastinhas de queijo e azeitona, chocolates, torradas deliciosas, está menor, tem menos produtos, ficou sem graça. Das duas padarias, uma está igualzinha, meio perdida no tempo. Fui procurar um Lollo — alguém teve a ideia magnífica de relançá-lo exatamente como foi criado — e não tinha. Encontrei-o na outra, mas nem mudou tanto. A academia é a mesma coisa, aí quem mudou fui eu. Não senti nada quando olhei para a piscina, ou subi as escadas. A videolocadora de que gostava tanto, e frequentei assiduamente por anos, estava em reforma, o que me deixou chateada. Descobri meus filmes preferidos no meio caminho entre a Notoriuns e a 2001, e toda sexta-feira, e todo sábado e domingo, lá ia eu ver se tinham lançado um novo filme do Hitchcock em vídeo. Por incrível que pareça, o DVD pertence às minhas memórias analógicas.

Entrando em casa, fui direto para a estante, antes mesmo de cumprimentar meus irmãos. Buscava três livros. Laura y Julio, de Juan José Millás, Mientras Ellas Duermen, de Javier Marías, e o quarto volume dos contos de Maugham. Só encontrei o último da lista. Mas trouxe 52 livros para minha nova casa no Itaim Bibi. Isso mesmo. 52. Achei que voltaria para cá com meia dúzia de literaturas esquecidas mas acabei carregando boa parte de minhas memórias numa mala velha. Não largo do Kindle por nada desse mundo, mas a verdade é que livros em papel são como casas antigas que ainda não vendemos. Não moramos mais lá, mas tampouco alguém mora. Aí um dia abrimos a porta e encontramos tudo do jeito que era antes, se bobear até uma versão mais jovem da gente. Entre os livros, e os cadernos, aquelas narrativas infinitas, encontrei esta foto, totalmente espontânea, tirada numa rua do Itaim. Estávamos, o grupo de Jovens Escritores do Pueri Domus e eu, caminhando para o cinema Lumière que, pura coincidência, fica aqui na esquina. Veríamos naquele início de noite o polêmico Estrada Perdida, que não entendi em absoluto mas despertou em mim a paixão pelo cinema. Três anos depois, descobriria Kubrick, Bergman, Truffaut e muitos outros. Cinco, os anos dourados de Hollywood, e Hitchcock e Billy Wilder. E se naquela tarde eu não tivesse feito aquele trajeto a pé, com aquele grupo, talvez nada disso tivesse acontecido.

Dos livros.

Alguns dos 52 livros merecem nota.

Contos de Amor e Morte, Arthur Schnitzler, que li aos 19, logo que comecei a me interessar por Kubrick — e Freud. Freud dizia que seu contemporâneo era mais avançado que ele no que dizia respeito às mulheres (e sua sexualidade), e eu concordo. Li quase tudo de Schnitzler que chegou ao Brasil de algum jeito naquele ano. Ou no ano seguinte.

Complete Short Fiction, Oscar Wilde. Li a short fiction de Wilde aos 14 ou 15, ainda na Bahia, na nossa casa no Caminho das Árvores, em Salvador. Um livro da Companhia das Letras que minha mãe encapou com plástico para eu levar para a escola. Guardei-o como um tesouro mas, assim que adquiri uma certa independência literária, comprei seu substituto, a versão da Penguin em inglês. O livro tem 13, 14 anos, está caindo aos pedaços, mas não tenho coragem de passar adiante. Ainda.

Homer’s Odyssey, que herdei de minha vó e nunca li, pois nunca consegui ler. A última tentativa foi no Carnaval de 2010, e em algum momento da festa devo ter me dado conta de que não se tratava de um momento propício para esse tipo de leitura. Incrível como nossa história é contada, em igual proporção, pelos livros que lemos e por aqueles que deixamos de ler.

Licks of Love, Updike. Que também não li, mas meu Tio Zeca mencionou o autor ontem ou antes de ontem e achei que estava na hora de iniciar uma nova tentativa.

Eight Stories. Um livrinho caseiro, que fiz para um antigo namorado. Contos românticos e semi-eróticos, todos em inglês, que eu nem sabia falar direito na época.

Beginners, Raymond Carver. O livro ficou famoso bem antes de eu começar a ter vontade de lê-lo. A Companhia das Letras lançou-o por aqui, o título uma tradução de uma das versões inglesas. What we talk about when we talk about love. Mas Beginners ilustra melhor o assunto delicado do livro. Comprei-o na Shakespeare & Co, a grande livraria inglesa de Paris, e li-o num único fim-de-semana.

El túnel, Ernesto Sábato. Primeiro livro que li em espanhol até o fim. Na piscina da antiga casa do meu pai (como aliás li muitos livros), num único domingo de sol.

La tregua, Mario Benedetti. Um de meus livros favoritos em língua espanhola. Recomendado por um amigo que já não conheço mais.

A Room with a View, EM Forster. O livro não marcou tanto quanto a sua compra. Edição caríssima da Penguin, com capa de couro deluxe, era vendido aqui a R$ 200 e eu tive coragem de comprar. Ficou guardado numa caixa todos esses anos. Resultado: está em pior estado que meus paperbacks. Mas não me arrependo.

2666, Bolaño. Este foi talvez o escritor de que mais tentei gostar. Um amigo chileno me recomendou este e muitos outros, dentre os quais Las Putas Asesinas. Festejado, comemorado pelos críticos americanos, Bolaño até hoje figura na New Yorker e na Paris Review mês sim, mês não. E até agora não aprendi a gostar dele.

El Hombre Sentimental, Marías. Um livro roubado. Tomei emprestado na Cultura Española, onde fazia minhas aulas de espanhol, e nunca devolvi. E nunca li, o que é ainda mais vergonhoso.

Decameron, Boccaccio. Para ler e reler, sempre. Talvez o livro mais divertido que já li em toda a minha vida.

The Night of the Iguana, Williams. Amei o filme, e o livro.

Hotel World, Ali Smith. Minha primeira Flip, 2006, meu primeiro namorado mais sério. O livro de que mais lembro é outro, em que a narradora/protagonista começa contando como chegou a existir.

O Tradutor Cleptomaníaco. Nome impronunciável. Veio de brinde e eu me diverti com a possibilidade de, na posição de tradutora, poder fazer a mesma coisa.

Freud.

Marái.

Neil Gaiman. The Graveyard Book. Trabalhando para a Flip 2008, consegui uma prova do livro para o Marcelo Tas ler antes da mesa. Gaiman foi uma surpresa deliciosa. Só tinha lido os Sandman, para um projeto do Pueri Domus. De 2008 em diante, me encantei com seus contos e literatura infantil. Bom amigo até hoje.

Rumi.

Druon.

Sophie Calle.

Eric. Achei um caderno de quando morava na França. Não lembrava mais por que motivo o teria guardado, quando achei i a dedicatória de um amigo bem antigo que só conheci durante 1 ano e meio. Francês, ele havia morado na Grécia e falava grego muito bem. Passei uma semana inteirinha tentando decifrar o que estava escrito. E consegui. Deu saudade da possibilidade, da chance, de conhecê-lo.

4 ideias sobre “Literaturas esquecidas, memórias analógicas e outros tempos

  1. Thiago Massari

    Nossa… que post mais delicado. Doce. Sensível. Me deixou com saudade da minha adolescência. Das minhas casas fechadas. Por um breve momento, eu as abri. Obrigado por isso.

    Resposta
  2. Pingback: Daqui para o instante seguinte, é tudo mistério; Narrativas do futuro « Literatura Estrangeira

  3. Pingback: Leituras vintage no Dia Nacional do Livro; Livros perdidos; Desejo e curiosidade em Bluebeard « Literatura Estrangeira

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