Daqui para o instante seguinte, é tudo mistério; Narrativas do futuro

Sestina, publicado na edição de outono 2012 da Paris Review é uma sugestão de nova narrativa. Meio poema, meio quadrinhos, meio cinema. “Quem realmente quer ler um poema? Vamos dizer que uma garota esteja sentada debaixo de árvores cabeludas, lendo, segurando um livro. E, quem sabe, no chão esteja um rapaz. Ele está dormindo, parece, ou talvez esteja morto. Ele não se move, nem ele nem as árvores”.

Uma semana inteira sem escrever aqui e me deparo com um conto na última edição da New Yorker (The Semplica-Girl Diaries, leia aqui) que me faz pensar, justamente, nesses momentos de intensa atividade, quando quase não escrevemos, mas vivemos tantas coisas gostosas. E aí, passa um, dois anos e ficamos com saudades desses momentos, e buscamos em cadernos perdidos um registro fidedigno dessa época. Queremos saber o que acordamos pensando, qual foi o primeiro gesto do namorado, que bebida escolhemos da carta do bar, qual foi o bar, a distância que percorremos, e como (táxi, a pé, ônibus, carona?) aquilo que disse o taxista ou o moço desocupado olhando para você do outro lado da rua, as mensagens de texto que trocamos, os momentos menos fotogênicos e mais literários e além, bem além, nossas paixões e crenças, convicções e sensações, quase um Instagram da alma.

Conheço várias mamães de primeira viagem e acompanho a atividade delas — e de suas famílias — nas mídias sociais. Outro dia estava pensando na sobrinha de uma amiga. Ela tem hoje 15 anos, um ano mais nova do que eu naquela foto perdida que publiquei no último post (leia aqui), e já possui uma significativa memória instagrâmica. E o sobrinho de cinco meses também. Isso sem falar em casamentos, batizados, pedidos de noivado, viagens de aventura, tudo devidamente registrado na nuvem. A experiência deve ser diferente. Quando ela tiver 30 anos, por exemplo, não vai precisar recorrer a caixas e cadernos velhos para se lembrar de quem era, pois ela já vai saber. Vai mesmo?

Hoje vivemos o tempo todo com todas as nossas memórias. Ou quase. É verdade que o homem só conseguiu chegar até aqui porque tem a capacidade de ignorar informação — aliás, essa é uma das principais características a nos diferenciar de computadores e, porque computadores já estão um quê ultrapassados, plataformas digitais. Nossos algoritmos são mais criteriosos e desenvolvidos, e até agora vivemos muito bem nos esquecendo de quase tudo (e nos forçando a lembrar das coisas importantes, o que se torna cada vez menos necessário, com tantas ferramentas!). Mas a possibilidade de viver tudo, com tudo e todos, o tempo todo, deixa a humanidade mais ubíqua — e divertida. Alguns físicos acreditam que é assim com o universo. Passado, presente e futuro acontecem ao mesmo tempo. Outros dizem que existe uma relação entre o universo visível e a quantidade de informação acumulada até hoje. Do instante zero até o momento atual, está tudo iluminado; daqui para o instante seguinte, é tudo mistério. Torço, muito, pela evolução dessa ubiquidade e, para um dia, realmente, poder viver com tudo e todos o tempo todo. E, num futuro não muito longínquo, poder acessar, mais do que minhas memórias, todo o conhecimento humano, como HG Wells tão brilhantemente previu (veja The World Brain aqui). Responder a todas as perguntas, de uma sala de reunião virtual, com alguém no tempo presente e alguém no tempo passado, e ver a história desfilar defronte meus olhos (em holografias tão perfeitas que, mais do que simular a realidade, vão superá-la).

O valor dessas pegadas digitais é incalculável. Dizem que os atores dessa vanguarda de bits querem nos censurar e controlar, que essa tendência de colocar tudo na nuvem vai botar a humanidade em cheque. Do meu lado, torço para isso; para que as plataformas digitais conversem cada vez mais entre sim e nós tenhamos cada vez mais acesso a todas as histórias. Então poderemos criar novas narrativas, abrir, de verdade, uma brecha no tempo do nosso universo, e investigar o mistério.

2 ideias sobre “Daqui para o instante seguinte, é tudo mistério; Narrativas do futuro

  1. Thiago Massari

    Não sei se, hoje, as pessoas de fato tem memórias. Elas tem imagens de momentos que significam menos do que deveriam, dada a preocupação em registrar tudo que DEVE ser postado para que os outros vejam. Desconectar-se, às vezes, é se conectar. Belo post. Bjo

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  2. Joana Pires

    para onde estamos indo com tanta tecnologia e o que vai ser feito com tudo isso, sempre dá um bom debate. confesso que ainda não sei se sou totalmente a favor de tanta integração tecnológica. de qualquer forma, é algo que precisamos nos acostumar, né? outro dia vi um filme argentino, que fala justamente sobre esse novo mundo e novas relações, em certo momento um personagem fala “a internet me aproximou do mundo, mas me distanciou da vida”. acho que é algo a se pensar. será que “esse novo mundo” vai conseguir deixar palpável a sensação de encontrar aquela caixa perdida com nossas memórias? hoje percebo que as pessoas estão muito mais preocupadas em justamente registrar o momento do que vivenciar o momento. hoje para você estar vivo, presente, você precisa estar conectado. lembrando sua memória digital o tempo todo que você está ali. enfim, não sei. como disse no começo, acho que é um assunto que sempre rende um bom debate. ou talvez eu seja nostalgica demais.
    pauta para o próximo happy hour hehehheeheh

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