Mulheres leitoras; Contos em Voz Alta

Mulheres da família de Mr. William Mason de Colchester. Pin de Clara Lucas: Mulheres Lendo

Li há alguns dias, no iPad, um artigo excelente publicado na última edição da revista New Yorker, Turning the Page: How Women Became Readers. Trata-se de uma crítica de Joan Acoccela do livro The Woman Reader, de Belinda Jack — já disponível em versão Kindle, embora a um preço meio azedo –, que atravessa a história da leitura e da literatura para contar como mulheres ascenderam à posição de leitoras.

Se a crítica de Acocella é uma prévia fiel da obra, o livro deve ser muito bom. A história da “mulher leitora” se mistura à dos vernáculos e, claro, à da independência feminina: “Por que as mulheres lerem era algo tão temido pelos homens? Porque a leitura era algo que elas poderiam fazer sozinhas”, conclui Acoccela.

Em outros trechos, evidencia-se a preocupação com a saúde física e mental das mulheres quando confrontadas com o poder da ficção: “Alguns médicos especialistas acreditavam que as mulheres poderiam reagir a alguns livros [como Clarissa, de Richardson] de forma a colocar em perigo a sua própria saúde mental, ou agravar a condição de sua saúde física. Um médico londrino decidiu que a leitura estava liberada às mulheres, desde que elas fossem observadas cuidadosamente. Se, por exemplo, um romance agravasse o estado físico de uma mulher, ele deveria ser imediatamente substituído por outro livro, sobre um tema prático, como por exemplo o cultivo de abelhas”.

Embora provavelmente escrito antes da publicação de Fifty Shades of Grey, de E. L. James (o primeiro título da trilogia chegou às livrarias em 2011), o livro de Ms Jack (e a crítica de Acoccela) pode(m) ser lido(s) à luz desse novo gênero literário. Ainda lembro da época em que lia Anais Nin às escondidas (ou talvez nem precisasse, pois a escritora não era popular), e hoje em qualquer salão de bairro a gente vê alguém lendo Cinquenta Tons de Cinza. De acordo com a pesquisa feita por Jack, as preferências literárias de homens e mulheres continuam diferentes e, por incrível que pareça, seguem até hoje uma divisão estereotipada. As mulheres leem mais ficção, principalmente quando os tópicos variam entre “amor, amizade, animais, aventura”. Quando os homens leem ficção, os títulos que apareçam geralmente pertencem à chamada alta literatura, Cem Anos de Solidão e O Estrangeiro, são alguns dos exemplos (a exceção nesse caso é O Apanhador no Campo de Centeio, que deve ser o equivalente masculino de Orgulho e Preconceito, um de meus livros preferidos de todos os tempos).

Pessoalmente, aposto no crescimento dessas genres literatures, quaisquer que sejam. Entusiasta de thrillers e romances policiais, vejo com bons olhos os romance novels, os livros de young adults, como também o novo gênero que certamente se desenvolverá a partir de Cinquenta Tons. O que importa, de verdade, é que as pessoas leiam mais e mais nessa época tão tecnológica. Ontem descobri, com certo atraso talvez, que o aplicativo da New Yorker para iPad possibilita que se escute o próprio escritor lendo o conto ou poema, uma evolução bem particular da ideia do livro fonógrafo (veja aqui post sobre o assunto). O efeito nem sempre é um sucesso, afinal não é todo escritor que lê tão bem quanto Neil Gaiman, mas o fator surpresa funciona muito bem.

Gostaria apenas que o livro de James levasse mais leitoras a Vênus em Peles, de Sacher Masoch (veja aqui post sobre o assunto). Foi Masoch quem deu origem ao termo masoquismo, lá atrás, em meados do séc. XIX, e sem o masoquismo, o sadismo de Grey não teria graça alguma. Também fica quase evidente que o longo e complicado contrato proposto por Christian foi inspirado no documento assinado entre Severin e Wanda. A grande diferença é, talvez, o coeficiente intelectual do sadomasoquismo de Severin/Wanda/Masoch, por algum motivo ausente do livro de James.

Leia mais

No Pinterest, você pode encontrar uma série de pins de mulheres lendo, como a bela galeria de Clara Lucas. Veja aqui. Vale também dar uma olhada nesse blog: Notas sobre Leituras.

Para quem quer ler mais sobre o assunto, além dos livros de James e Jack, recomendo Silly Novels by Lady Novelists, de George Eliot, nom de plume da escritora inglesa Mary Anne. Escrito em 1856, pode dar uma ideia do que as mulheres daquela época pensavam sobre a leitura — e a literatura — femininas.

Cinquenta Tons é, possivelmente, uma nova versão das coleções de Sabrina, Julia e Bianca, sucesso uma geração antes da minha. Tomara que as vendas de James levem alguém a digitalizar as coleções e disponibilizá-las no Kindle.

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