A criatividade linguística de Kevin Barry

Ilustração do conto Ox Mountain Death Song, Canção de Morte das Montanhas Ox, de Kevin Barry, publicado na última edição da revista New Yorker.

Li há alguns dias um conto impressionante, Canção de Morte das Montanhas Ox, de Kevin Barry, publicado na revista New Yorker. Usei o novo feature do App da revista no iPad, “the author reads”, e li o conto duas vezes, numa delas ouvindo a voz do escritor. Não são todos os escritores que conseguem ler bem ou muito bem em voz alta, mas Barry é dessas raras e maravilhosas exceções. Irlandês, ganhou o Booker Prize com a sua primeira obra, There are Little Kingdoms, publicada em 2007 (e por algum motivo ainda indisponível no Kindle). Publicou outros dois livros depois, City of Bohane e Dark Lies the Island (cuidado com a lista da Amazon. Descobri agora que existe outro escritor com o mesmo nome, australiano).

Comecei a ler seu conto preguiçosamente, deitada no sofá. Mas foi só ligar a função “Kevin Barry reads” para me dar conta de sua estranheza linguística. Cada frase é uma delícia, por isso foi tão difícil traduzir o trecho inicial (abaixo).

Ele vinha semeando bebês pelas Montanhas Ox desde seus dezessete anos. Bom, ele tinha o cabelo certo para isso, e um sorriso de furão, e dificilmente haveria uma fêmea naqueles lados de Sligo-Mayo em que ele não tivesse passado os olhos castanhos, ou pegado*, nos cantos escuros de bares, ou na turbulência hormonal das discotecas da cidade, ou em carros sem placa, descendo estradas suspeitas, sob o luar tão, tão tolo. Ele tinha sobrancelhas macias, quase femininas e ombros ignorantes — ‘sexo num espeto’, era sua opinião, e muitas das meninas e mulheres tolas a compartilhavam. Ele mantinha várias ao mesmo tempo, mas era só elas ganharem peso* e ele as deixava.

Há homens que numa vida inteira não conseguem deixar uma mulher — que não têm coragem suficiente nem superam o sentimento — mas Canavan as deixava todos os dias.

Para acessar o conto na New Yorker, clique aqui. O acesso é restrito a assinantes ou àqueles que comprarem a edição. Para quem ainda não é assinante, recomendo a assinatura digital da versão para iPad, que além de permitir o acesso a todas as edições da New Yorker, ainda traz features extras. Para aqueles que gostariam de ler um conto de Barry aberto a não-assinantes, clique neste link para ler Fjord of Killary, também publicado na New Yorker.

* A tradução é livre e feita por mim, mas há dois pontos para discussão. Traduzi como “pegado” a expressão “had the hard word laid on”, na verdade uma expressão australiana que quer dizer, simplesmente, que ele pediu alguma coisa para elas. “Pegar” é um termo bem utilizado no baianês, que transmite o duplo sentido certamente desejado pelo autor.

Também preferi traduzir literalmente a expressão: “as soon as they got weight on them”. Esta última poderia ser tanto uma referência ao ganho de peso, o que duvido, quanto à irremediável gravidez (que concorda com a frase de abertura) ou ainda ao ato sexual.

Abaixo, trecho original.

He had been planting babies all over the Ox Mountains since he was seventeen years old. Well, he had the hair for it, and the ferret grin, and there was hardly a female specimen along that part of the Sligo-Mayo border that hadn’t taken the scan of his hazel glance, or hadn’t had the hard word laid on, in the dark corners of bars, or in the hormone maelstrom of the country discos, or in untaxed cars, down back roads, under the silly, silly moonlight. He had soft girlish eyelashes and pig-ignorant shoulders — sex on a stick, was his own opinion, and too many of the foolish girls, the foolish women, shared it. He kept several on a string at any given time but as soon as they got weight on them he left them. 

Now there are those who in a lifetime cannot leave a woman — who cannot gather the strength or get past the sentiment — but Canavan left them every day.

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