Histórias que não acabam nunca; Cinquenta Tons de Cinza; Casamentos

Tempo sem fim. Início da primavera, Languedoc, um homem fotografa. Ao longe, parece carregar uma arma

Hoje terminei de ler Fifty Shades of Grey. Gostei mais do desfecho do que do corpo da história, e acho que podemos dizer que o trecho final é superior. Em 500 páginas, o livro não arrancou de mim a emoção e verdade das últimas dez, mas as últimas dez devem ter feito valer a leitura. Há uma curiosidade perversa latente na tola Ana com que quase todas as mulheres podem se identificar. Só fico na dúvida se o momentum final não teria ficado melhor num conto. A ideia de uma continuação me apavora. Meus contos e minhas histórias preferidas cristalizaram personagens queridos e outros nem tanto em um tempo sem fim, numa escada de milhões e milhões de degraus. A protagonista de Lamb to the Slaughter, de Roald Dahl, no quarto, gargalha depois de servir a arma do crime aos policiais, as gordas de The Three Fat Women of Antibes provavelmente teriam comido até morrer se Maugham não as tivesse salvado com um ponto final. Brown, o pobre Brown, no recente Ox Mountain Death Song, não sabemos o que aconteceu com ele depois, e muito menos antes, tantos poemas inacabados de Baudelaire e contos assustadores de Poe, Milhauser e seus miniaturistas sem fim, ou o homem que alguém convenceu a comprar um lustre de vidros e de repente, havia enchido a casa de espelhos (leia aqui Miracle Polish, publicado na New Yorker no ano passado). A literatura às vezes se comporta como o buraco negro das nossas almas, e faz a história parar num único tempo. Como “se a intrusão dilacerante do tempo pudesse ser trancada do lado de fora”, (Tennessee Williams). (Aqui, você pode baixar todo o texto The Timeless World of a Play*).

Se eu tivesse escrito Cinquenta Tons, terminaria o livro com uma cena de Anastasia subindo as escadas do novo e estranho apartamento, num início de noite sem luz, sem parar de chorar, impregnada com o cheiro de Christian e com a escuridão sem fim.

Agora volto às últimas páginas de Stardust, de Neil Gaiman, que voltei a ler hoje. E, se ainda tiver fôlego, a The History of Mr Polly, de Wells.

*

No último sábado, Tomás e eu fomos padrinhos num casamento de amigos. Em um ano e três meses de namoro, e muitos, muitos casamentos, foi a primeira vez em que fomos padrinhos juntos, e isso em si já seria muito especial. Mas o fato de os noivos terem se tornado tão importantes, em tão pouco tempo, fez do casamento um dos mais emocionantes de toda a minha vida.

* Trecho completo, na versão original:

The audience can sit back in a comforting dusk to watch a world which is flooded with light and in which emotion and action have a dimension and dignity that they would like-wise have in real existence, if only the shattering intrusion of time could be locked out. 

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