Arquivo mensal: janeiro 2013

Dukan, Cupcakes, Kleist. E mapeamento genético

Cupcake da Delicake, para quem não está fazendo a Dukan

Cupcake da Delicake, para quem não está fazendo a Dukan

Nos últimos meses escrevi alguns posts sobre a Dieta Dukan. Estava empolgadíssima com livro e método do neurologista francês e, olha, eu até pretendia seguir a dieta à risca. Colegas, amigos, familiares e até meu noivo aderiram à moda, com resultados excepcionais, e só tenho coisas boas a dizer sobre o programa. Mas preciso confessar aqui: eu não segui a dieta. No fim de setembro, devo ter feito três dias de Ataque (PP – proteína pura) e alguns dias de PV (proteínas + vegetais), mas nos outros dias, comi à vontade. Ou quase. Porque eu realmente privilegiei os alimentos escolhidos por Dukan — proteína e vegetais — e comecei a evitar outros que antes faziam parte da minha dieta do dia-a-dia — pão branco, massas, batatas, queijos amarelos, frituras. (Só não deu para escapar do Lollo, do brigadeiro do cupcake). E o resultado foi bom. Ontem, depois de meses sem me pesar, eis que subi na balança. Eliminei mais de 5kg desde setembro, sem passar vontade. Agora só falta perder mais 2kg para o casamento!

E os preparativos devem incluir um exame pouco comum. No último fim-de-semana, um amigo nosso veio contar uma das coisas mais interessantes dos últimos tempos. O mapeamento genético, aquele negócio bem complicado que há pouco mais de 10 anos parecia inacessível ao cidadão comum, custa hoje apenas 99 USD e pode ser feito com um kit encomendado pela Internet — eles entregam em vários países, mas o Brasil ainda não faz parte da lista. Você só precisa cuspir no tubo que vem no kit e enviar de volta, depois de cadastrar todas as informações online. Se dá para enviar daqui do Brasil, via FedEx, ainda não sei. Mas a possibilidade não deixa de ser fantástica.

O 23andMe tem como co-fundadora Anne Wojcicki, esposa de Sergey Brin, co-fundador do Google. O negócio passou por várias injeções de capital, e o exame, que custava 999 dólares inicialmente, hoje pode ser encomendado por 1/10 do valor, o que deve contribuir para aumentar a database deles. Basicamente, ao enviar o kit, você pode descobrir seus ancestrais, possíveis parentes distantes que já são membros da “comunidade” e, não menos importante, sua predisposição genética para algumas doenças já mapeadas e outras nem tanto — eles conseguem listar genes associados a estudos conduzidos recentemente que ainda não têm sequer o aval da comunidade científica. E se você fizer com seu cônjuge, pode conhecer um pouco mais sobre o possível futuro hereditário dos filhos. Se fizer com pais, irmãos, avós, os riscos que você carrega serão certamente melhor definidos.

Acho tudo muito interessante e intelectualmente estimulante, como já disse aqui, e pretendo fazer o exame com Tomás antes do casamento. Mas ainda estamos longe de um mundo como aquele retratado no filme Gattaca. O sequenciamento genético ainda custa muito, muito caro, e até este ficar disponível vai ser difícil pensar na ascensão de qualquer tipo de genoísmo. E, como meu pai me disse hoje, “informação sem sabedoria é [quase sempre] uma maldição”.

*

Terminei de ler The Duel, de Kleist, escritor de quem gosto demais. E agora estou terminando de ler The Mysterious Affair at Styles, de Agatha Christie (com Poirot) e gostando muito. Comentários aqui em breve.

Paris apaixonada, Paris quand il fait beau!

Palácio de Versailles, em fevereiro de 2012. Dia glorioso de inverno

Palácio de Versalhes, em fevereiro de 2012. Dia glorioso de inverno

Paris é sempre Paris. Mas quando você está apaixonada, quand il fait beau, é mais Paris ainda. Havia prometido a mim mesma que não voltaria para a França no inverno e menos ainda no Carnaval. Estava apaixonada por um baiano e convencida de que a minha pátria era a Bahia. Só não podia imaginar que visitar a França com ele poderia ser tão bom. E que na felicidade, a gente carrega a pátria dentro de si. A minha Paris com Tomás é a melhor de todas. Assim como a minha São Paulo, a minha Itacimirim, a minha Itália.

***

Chegamos em Paris no dia 23 de fevereiro de 2012. Tínhamos embarcado em Aix-en-Provence naquela manhã e antes das 10 horas já estávamos na Gare de Lyon. Fomos para o nosso hotel, Le Vignon 8, a algumas quadras da Igreja Madeleine, no 8ème arrondissement, meu bairro favorito em Paris. Já havia ficado em Saint Germain e em outros hotéis da Rive Gauche, mas eles eram caros e nada confortáveis, isso sem falar na calefação central, que não dava para mudar. Deixamos nossas malas, ajustamos a temperatura do quarto para 15 graus Celsius (isso mesmo, para não dar aquele choque térmico na volta) e fomos a pé para as Galeries Laffayette, para fazer nossas comprinhas de chegada. Vinho, champanhe, belisquetes para ter no hotel — além das deliciosas madeleines que nos eram oferecidas todos os dias, bem ao gosto de Proust! E, de quebra, uma sessão maquiagem com uma negra linda, vendedora da Clinique, que usou um sem fim de produtos para me deixar com a cara das francesas.

Almoçamos no Saint Joseph, um restaurante na região, antes de ir para o Louvre. Comemos filet mignon (o autêntico, de carne de porco), com Chablis e foie gras. Tudo uma delícia. E então o Louvre. Fizemos uma visita curta. A Vitória de Samotrácia, a Vênus de Milo, a Mona Lisa, as salas com as esculturas greco-romanas, e os salões com obras dos grandes pintores franceses. Fui perguntar onde estava o Delaroche que tanto havia me impressionado um ano antes, A Jovem Mártir, mas a funcionária me disse que estava em tour, infelizmente.

Voltamos para o hotel passando pela Place Vendôme e pela Place de L’Opèra. Queríamos ir ao Bar Hemingway, mas ainda estava fechado, e tudo o que fizemos foi tirar uma foto em frente à Coluna da Grande Armada, para lembrar de Maurice Chevalier e Amor na Tarde. À noite, nos encontramos com Iuli, amigo de longa data da família de Tomás, que nos levou ao Marais e mostrou muito da Rive Droite, passando inclusive pelo Centre Georges Pompidou, que Tomás tanto queria visitar. Jantamos no Le Petit Marcel, um restaurante delicioso, e tomamos o vinho da casa, também excelente.

Na manhã seguinte, Versalhes. Saímos um pouco atrasados (e atrapalhados) com o metrô de Paris. Visitamos o Palácio e, quando descemos, que surpresa! Estávamos em pleno inverno e fazia um dia glorioso de primavera. Eles nem cobraram entrada para os jardins, já que as esculturas estavam todas cobertas e não havia espetáculo das grandes eaux. Versalhes era quase só nossa, passeando entre as fontes e os lagos, tirando foto dos cisnes e dos mini labirintos charmosos. Tinha até uma barraca de pommes de terre, o equivalente a nossas barraquinhas de cachorro-quente, imagino — e lá compramos duas garrafas de 250mL de vinho branco. O moço fez o maior sucesso. Quem imaginaria que em pleno inverno, eles abririam os jardins e ele venderia tanto?

Dali voltamos para Paris. Compramos pães, queijo e foie gras com vinho, para comer com as madeleines antes de se arrumar para o teatro. O teatro era o Théatre Madeleine e a peça, Oh Les Beaux Jours, escrita por Beckett em inglês em 1961, quando ele já escrevia quase que exclusivamente em francês. São dois personagens, Winnie e Willie, uma cinquentona e um sessentão, provavelmente casados. Ela está enterrada até o colo em um monte de terra, mas todos os dias acorda dizendo: “Oh, mais um dia maravilhoso”, faz sua toilette e tenta dizer a Willie o que fazer com o seu dia. O primeiro ato é uma construção repetitiva para nos preparar para o segundo, em que Winnie, agora com os braços também imobilizados — tetraplégica — e Willie compartilham um momento ambíguo. Beckett disse que a peça fala dos momentos lentos que levam à morte, quando o tempo começa a passar mais devagar. E até hoje não consigo me livrar do eco de “Willieee”, que servia de compasso às falas de Winnie.

Tomamos champanhe no metrô, fomos para a Champs-Elysées e então para Saint Germain. Jantamos e tomamos um drink de mais de um litro no Le Petit Café, perto do Boulevard. Depois terminamos a noite numa discoteca perto dos Champs-Elysées de nome já esquecido.

Acordamos tarde no sábado, fomos almoçar com Iuli num restaurante italiano e passeamos pelo Marché des Enfants Rouges. De lá, atravessamos para a Rive Gauche a pé, passamos por um circo montado, pelos bouquinistes do Pont Neuf, por quase toda Paris, até chegar ao Musée d’Orsay. Só tivemos meia hora lá, foi a visita mais rápida possível aos impressionistas — privilegiando Van Gogh, naturalmente. E foi aí que nosso passeio perdeu o rumo e ficou ainda mais interessante. Tentei refazer o caminho de uma antiga lista de outro amigo, passamos pelo La Palette, pelas galerias de arte, por tudo que dá mais charme à Rive Gauche, até chegar, por acaso, a uma loja de vinhos chamada La Dernière Goute. Uma americana radicada há muito tempo na França nos vendeu alguns vinhos e depois falou que havia escrito um livro, Guia da Paris Impressionista, editado pela Record aqui no Brasil (o nome da escritora é Patty Laurie). Ela nos deu o livro de presente e de lá fomos, sem querer, para Les Deux Magots, que havia sido tão recomendado por todo mundo aqui no Brasil. Bebemos um excelente Bourgogne e saímos correndo para a Igreja Madeleine, para o concerto das Quatro Estações de Vivaldi. Fomos os últimos a entrar, acho.

Minha vó me disse que adora a igreja e certamente nos levou lá há mais de quinze anos. A Madeleine é o lugar onde mais gosto de ficar em Paris. Saindo de lá, fomos jantar num restaurante de bairro, despretensioso, Le Roi du Pot au Feu. A cozinha estava fechada, mas ele nos serviu o prato da casa — pot au feu, parecido com o nosso cozido –e o vinho da casa, melhor do que muito vinho internacional, e até francês, que já bebi. Já estava chegando a hora de se despedir. No dia seguinte, visitamos a Tour Eiffel e o Arco do Triunfo, e almoçamos no café do George V, na Champs-Elysées. Foram quatro dias gloriosos de sol, na Paris mais apaixonante. Em fevereiro, vai fazer um ano já. Que saudades. Quem sabe eu não compre meu vestido de noiva lá?

Paris é para sempre

Madeleine, Paris.

Madeleine, Paris.

Morei na França durante quase um ano mas só visitei Paris cinco vezes em toda a vida. Pouco. Mas muito. Da primeira à última, dos 14 aos 30, vivi tanta coisa diferente ali, com tanta gente! Minha vó e prima tão amadas, meus melhores amigos, o amor da minha vida. Fui para lá na primavera, no outono, no inverno, agora só falta conhecer Paris no verão.

É difícil escrever sobre Paris. Tentei lembrar como pude de todas as viagens. Da primeira, apenas fragmentos, mas desconfio que o relato completo esteja perdido em um dos meus diários antigos. Se encontrar algo mais do que uma lista de obras e artistas (mania que tinha na época), prometo transcrever os trechos aqui. Reservei um post especial para a última visita, com Tomás, em fevereiro de 2012 (que você pode ler aqui). Ainda transbordo de felicidade pensando que ele conheceu a França comigo, seis meses depois de nosso primeiro encontro. Fizemos um pouco de tudo, e mais. Os museus, a vida noturna, uma Versailles deslumbrante em pleno inverno, ópera na Madeleine, Beckett no teatro, vinhos, champanhes, Marais, bistrôs de bairro, Tour Eiffel à meia noite. Dá até para dizer que as visitas anteriores me conduziram a esta.

***

Conheci Paris aos 14. Lembro que chegamos cedo ao hotel e nosso quarto ainda nem estava liberado. Amontoamos nossas bagagens no alto de uma estante, lá na recepção mesmo, e seguimos para o Louvre. Minha vó, prima e eu estávamos exaustas, e ficamos naquela fila interminável, de frente para a pirâmide, comendo os chocolates que havíamos comprado em Londres. Era abril mas estava chovendo, e por muito tempo lembraria de Paris assim. Naquele dia, a Monalisa não me impressionou muito, mas a Grande Esfinge do Tânis, sim. Lembro que minha vó e eu nos sentamos e ela me contou essa história. Pensei em Sófocles e Édipo e pensaria neles depois, ao ler Cocteau. Queríamos ver a Vitória de Samotrácia e a Vênus de Milo, preferidas absolutas da minha avó e, mesmo com toda aquela expectativa, toda aquela antecipação — o grande corredor para uma, a grande escadaria para a outra — fiquei encantada. Até hoje, dão frio na barriga. Como Paris.

Ficamos apenas três dias na cidade. Minhas memórias são inexatas. Caminhando ao longo da Champs Elysées, jantando num restaurante perto do hotel, comprando baguetes na padaria, falando em francês nos pontos turísticos. A Notre Dame. A Queda da Bastilha. O jardim de Versalhes. Um sorvete de bolinhas coloridas comprado na banca de revista. Rodin e seu Beijo, seu Balzac, seu Pensador. Ah, a Place Vendôme! A Tour Eiffel. Os árabes. Os croissants.

Voltei no outono, em outubro, em um dos dias mais bonitos que já vivi na cidade luz. Tomei o TGV de Montpellier e cheguei mais ou menos umas cinco horas da tarde. Meu melhor amigo chegaria de Genebra à noite, e eu tinha o fim de tarde livre. Nem passei no hotel, fui direto da estação para o Pont Neuf e percorri a Rive Gauche com uma lista que outro amigo havia feito especialmente para mim, com os restaurantes, bares, livrarias e espaços não-demarcados que eu precisava conhecer. Ele me disse, por exemplo, que eu deveria ler no Palais Royal. Passei vários dias procurando onde exatamente, até que ele me esclareceu que o seu local preferido não era um lugar.

Andei às margens do Sena, parando em cada uma das barracas dos chamados “bouquinistes” para ver os livros ou os cartões-postais da Nouvelle Vague. Passei pela Sennelier, no Quai Voltaire, e comprei alguns cadernos pretos, de papelão, que uso até hoje para os escritos de ocasião. Na volta, parei na La Palette, onde ele havia me dito que eu devia tomar um Brouilly. Era um pedacinho tão charmoso de Paris, com as lojas de arte, os carros-esporte. E a apenas alguns minutinhos da Shakespeare & Co., a grande livraria de língua inglesa da cidade. Comprei Beginners, de Raymond Carver, obra que também foi publicada sob o título What We Talk About When We Talk About Love. Foi o único livro que li do autor.

Atravessei a ponte mais uma vez, parei num café qualquer para mais uma taça de vinho e aí percorri a Rue de Rivoli, parando na Place de L’Opèra e na fantástica Place Vendôme. O hotel ficava a algumas quadras da Madeleine. Achei a igreja maravilhosa e nem lembrava de tê-la visto na primeira visita. Quando Pedro chegou, fomos jantar e então andamos às margens do Sena, à meia noite. A cada ponte, jovens e belos universitários bebiam diretamente da garrafa, ao lado dos “flics”, gíria francesa para policiais. E eu nem sabia que Paris tinha tantas pontes lindas!

Pedro me mostrou quase toda Paris, a pé. Não fomos a nenhum museu, a nenhuma atração turística, mas comemos e bebemos maravilhosamente bem (recomendo um restaurante em frente à Madeleine, Maison de la Truffe), e andamos, muito. Foram três dias de sol, uma benção para Paris no outono. No meio da tarde, parávamos em um café qualquer para tomar o famoso pastis Ricard. E foi caminhando no Champs Elysées, em direção ao Arco do Triunfo, que conheci a Ladurée, única marca de macarrons de que realmente gosto (e que tem loja lá no JK).

Voltei duas semanas depois, com Amélia. Logo no primeiro dia, fomos ao Café Hugo na Place des Voges,  depois no bar do hotel Ritz — aquele que fica em frente ao Hemingway, que está sempre cheio. Tomamos o drink mais caro de toda a viagem, um coquetel de champanhe de 30 euros. E vivemos uma das experiências mais divertidas e inusitadas: fizemos um verdadeiro book fotográfico no Ritz! Subindo e descendo as escadas, sentadas na poltrona, admirando os quadros. Nem sei como não nos expulsaram dali!

O programa da sexta-feira era o Castelo de Versalhes. O melhor momento foi quando a chuva parou e eles começaram a vender ingressos para os jardins. Eles e suas “grandes eaux” são das coisas de que mais gosto em Paris. Nós passeamos para caramba e temos fotos demais para provar. Havia comprado nossos ingressos para uma peça de Chekov, Tio Vanya. Tinha lido a peça antes de embarcar para a França e estava louca para vê-la em francês. Fomos ao teatro Louis-Jouvet e ficamos muito bem impressionadas, mas o texto era difícil, por isso Amelinha nem aproveitou tanto.

Para terminar a noite, o Polidor. Esse restaurante tem uma história curiosa. Aliás, duas. Uma vem de Hollywood. O lugar ficou famoso depois do filme de Woody Allen, Meia Noite em Paris. Não sei se ele faz uma menção nominal ao lugar em que o protagonista conversa com Hemingway, mas sei que o restaurante desaparece no fim. Na verdade, ele continua lá, na rua Monsieur Le Prince, 75006, desde 1845. Vale a visita. A comida é espetacular, e como Hugo me disse na época, “ultra-parisiense, sem a fama, ou os preços” de outros restaurantes da cidade. A comida era mesmo fantástica, e a atmosfera, Paris de cima a baixo. A garçonete que nos atendeu tinha uns 70 anos, cabelos curtinhos e loiros, antipática. E o banheiro era turco: um buraco no chão. Achando que havia me enganado, perguntei algumas vezes aos funcionários onde eram os toilettes depois, sem dar jeito, voltamos para o hotel — e que gostoso caminhar e se perder por Paris à meia noite!

Mas vale a pena visitar o Polidor, sempre. Voltei lá em dezembro, com Faffy. A nossa viagem foi diferente, por causa do frio e do meu momento — estávamos em quatro. Já morava há quatro meses em Montpellier, mas não havia me adaptado nem ao frio nem a outros aspectos de minha vida francesa. Mas nós fomos ao Louvre, a bons restaurantes e à Notre Dame. Paris sempre deixa saudades. Até na tristeza.

***

Amelinha me pediu para incluir um dos momentos mais divertidos de nossa viagem, na Place de L’Opèra. Tínhamos comprado um daqueles guarda-chuvas bem sem vergonha, que dificilmente duram mais do que um dia. De repente começou a chover pra caramba, todo mundo buscou abrigo embaixo da Opéra de Paris, e nossos guarda-chuvas se desmantelaram no ar. Fizemos de tudo para registrar este momento com uma foto, mas não houve jeito. A chuva, o evento, todo mundo encharcado. Sempre que lembro desse momento, dou risada sozinha, como imagino que Amelinha também faça.

Leituras pra todo dia

Na França, todo mundo lê, até os moradores de rua, lá chamados de SDF - sans domicile fixe

Na França, todo mundo lê, em qualquer lugar.

Aderi há alguns dias a uma corrente literária que está circulando no Facebook. A ideia é simples: oferecer cinco ou mais livros para amigos em sua rede que estejam interessados em fazer o mesmo com as pessoas na redes deles. Você escolhe os livros que vai dar pensando em quem vai recebê-los, e pode entregar em qualquer momento de 2013. Sempre gostei de correntes, e acho que funcionavam muito bem antes do surgimento do e-mail, quando tudo acontecia por cartas. Quem sabe o Facebook não resgata isso?

Bom, a primeira coisa que fiz foi tirar a obrigação, assim todo mundo pode participar, mesmo quem não tem cinco livros para distribuir. E incluí a possibilidade de doar ebooks. Nos Estados Unidos, já é possível emprestar livros para outros usuários ou mesmo oferecê-los de graça na Amazon e estou torcendo para que eles habilitem a mesma coisa por aqui, ou lancem uma nova função de Doação. Quem já lê em ereader, vai receber o meu presente por e-mail, mas o cartão vai ser em papel mesmo, para ficar mais charmoso. Quem lê em papel vai receber um dos meus livros preferidos, hoje acumulando poeira numa mala bem no meio da sala. Já falei deles aqui, mas só para lembrar rapidinho: Contos de Amor e Morte, de Arthur Schnitzler, um de meus autores preferidos dos meus 20 anos; Complete Short Fiction, de Oscar Wilde, numa edição bem velhinha de algumas das histórias mais apaixonantes que já li na vida; The Night of the Iguana, de Tennessee Williams, peça que adoro (também tenho em casa a versão em espanhol); Steppenwolf, do Herman Hesse (vai ser difícil achar destino para esse), Somerset Maugham, e Morte em Família, de James Agee, lançado no ano passado pela Companhia das Letras — também tenho a versão original no Kindle. Certamente encontrarei algum Georges Simenon, Agatha Christie, Julian Barnes para completar a lista.

A lista de leituras para 2013 está crescendo muito. Já li três livros, mas não consigo terminar Other Lives But Mine, do francês Emmanuel Carrère. Optei por ler em inglês mesmo (o original é em francês) porque o livro ia demorar muito para chegar aqui, mas agora me arrependo. Também baixei o exemplar de dois livros de Alyson Richman, The Lost Wife e The Last Van Gogh, alguns Poirot, um novo do Julian Barnes, (Flaubert’s Parrot) e outros recomendados pela Amazon.

E se não bastasse tudo, sei que preciso concluir os dois livros em andamento — aquele sobre a França e aquele de contos. Logo, logo.

Desamparo; Julian Barnes; Agatha Christie e histórias antigas

Julian Barnes e a capa de seu livro The Sense of an Ending. Imagem publicado no site The Telegraph.

Julian Barnes e a capa de seu livro The Sense of an Ending. Imagem publicada no site The Telegraph.

Li há alguns dias The Sense of an Ending, de Julian Barnes, recomendado numa das já saudosas manhãs com gin tônica em Itacimirim. Conhecia Barnes de nome e fama, tinha folheado Arthur & George algumas vezes, mas nada poderia ter me preparado para a leitura dessa novela de pouco mais de 150 páginas. Acabara de ler Beauvoir in Love (veja post sobre o assunto), e voltar para São Paulo, orfã da praia e da Bahia, e meio entristecida. Comecei a lê-lo na quinta ou sexta, terminei no almoço de domingo, e ele me assombrou até a noite de ontem, quando li, do início ao fim, um outro livro excelente de Agatha Christie (mais sobre isso daqui a pouco).

A leitura de Barnes aumentou meu sentimento de desamparo, mas de um jeito bom. Fiquei orfã do livro, dos personagens, do autor, e tinha vezes em que eu queria falar sobre ele, mas não podia. Esse é um dos seus charmes: você não pode falar sobre o livro para alguém que nunca o leu. Você pode dizer que o narrador é uma pessoa comum, que tudo começa como numa história de bar. Tudo o que acontece poderia realmente ter acontecido, e se tivesse acontecido, seria contado exatamente do jeito que Barnes escolheu. Quer dizer, se fosse contado por Tony, porque uma das coisas que aprendemos logo no início é que não tem jeito de escapar da consciência desse narrador. Ah, e quando o livro acaba, começa a angústia, a agonia, uma saudade profunda e indefinida.

A história é sobre quatro amigos de escola, um mais inteligente e estranho do que os outros, mas também é sobre o que acontece com eles depois que entra em cena uma menina rica, inteligente e bonita. O livro oferece algumas interpretações sobre o tempo, uma intimista, juvenil quase, outra indissociável da memória e uma terceira, a do leitor, implacável. O livro investiga o sentido de acumulação (de que Poirot fala em seu grand finale, por incrível que pareça), e de um fim realmente definitivo, que talvez não exista.

Levei dois dias para dar um chega pra lá no desamparo. Ontem, finalmente, li Curtain: Poirot’s Last Case do início ao fim. É o último livro de Agatha Christie com o detetive Poirot, e é excelente. Aliás, excelente é pouco, é o grand finale de um grande personagem, com estilo impecável e timing de mestre. Impossível parar de ler. Li algumas páginas no almoço, retomei a leitura à noite e só fui terminar às 2h30. Órfã, de novo. Ainda bem que tem muito livro de Poirot pela frente.

*

Há alguns dias, redescobri um pen drive com uma série de contos escritos entre 2005 e 2010, em inglês. Um dos contos foi inclusive criado muito antes disso, quando ainda estava na escola. Mas enfim. São histórias de fantasia, ficção científica e até horror (sim, algumas são assustadoras), que compuseram minha “alma” por muito, muito tempo. Os personagens são recorrentes e indissociáveis da minha vida naquela época.

Quando pensei em organizar e publicar meu livro na plataforma Kindle, a ideia era fazê-lo em português e publicar um livro que tivesse tudo a ver com o meu momento França e pós-França. Mas agora não sei mais. Não sei se tenho o direito de abandonar personagens, histórias e sonhos tão queridos e seguir em frente. O desafio será, realmente, voltar a escrever em inglês, nem que seja para revisar os textos e redigir pré e posfácio. Pois — agora vem o bônus — os textos já estão prontos, graças a Deus.

Paixão e vaidade em Beauvoir e as mulheres de Rubem Fonseca

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Fim de tarde em Itacimirim. Dezembro 2012

Acabamos de voltar de uma viagem de dez dias na Bahia, em Itacimirim, na praia das nossas vidas. Foi tudo uma delícia, vai ver é por isso que está tão difícil me readaptar a São Paulo, seu ar rarefeito, sua chuva no asfalto. Nessa viagem tão curta e tão longa ao mesmo tempo, voltei a pertencer a Itacimirim, como há dezenas de anos, só que mais e melhor. Aquela alegria, aquela liberdade de se deixar adormecer em qualquer lugar e ter sonhos quase épicos, deitada na cadeira de sol ou boiando no mar, enquanto a história se refaz sob a luz do meio-dia. Voltei a ser feliz como naqueles passeios logo antes ou logo depois do pôr-do-sol, caminhadas solitárias e profundas que agora não faço mais sozinha.

Li dois livros nessas férias, Ela e outras mulheres, de Rubem Fonseca, e Beauvoir in Love, da francesa Irène Frain. O primeiro era um presente para Tomás, e tem uma história curiosa. Em 2009 ou 2010, não lembro, uma prima me falou muito em Fonseca e no livro, e eu fiquei com uma vontade louca de ler. Ela já não tinha mais seu exemplar e a obra estava esgotada por aqui. Procurei-o em livrarias, sebos, mas não achei em nenhum lugar. Aí fui para a França, voltei, e já lia quase que exclusivamente no Kindle. Esqueci totalmente disso e só lembrei no meio de dezembro, quando estava comprando presentes na Livraria da Vila. Alguém falou em Marcelo Rubens Paiva e eu lembrei de Fonseca, pedi o livro e comprei. Queria ler antes de dar de presente para Tomás.

Pois bem. O livro explora o universo masculino muito mais do que o feminino, talvez por isso a leitura seja tão inusitada. Não guarda nenhuma semelhança com a história que eu havia criado na minha cabeça e queria que Tomás lesse. Não consegui me identificar com nenhuma das personagens femininas, mas alguns dos protagonistas homens me agradaram muito. De qualquer forma, a leitura vale a pena. E ler em papel em pleno dezembro me preparou para o livro que viria depois, de Irène Frain. Com mais de 400 páginas, o livro é delicioso mesmo pesando quase 1kg.

Nunca li nada de Simone de Beauvoir. Para mim, ela sempre foi a “mulher de Sartre“, aquela que havia estabelecido com ele um relacionamento pra lá de liberal. Já Sartre tinha um correspondente complexo no meu imaginário. Era tão fascinada por ele que chegava a considerá-lo bonito. Adoro Entre Quatro Paredes, que já li dramaticamente algumas vezes, na aula de teologia da faculdade, no projeto Jovens Escritores da escola e em outras ocasiões. Foi a única peça que atravessou-me da adolescência à vida adulta e que pode ser interpretada na minha cabeça, com personagens independentes. Adoro A Náusea, também, e O Muro, As Palavras e, inclusive, O Ser e o Nada, que usava para me acalmar em meus momentos mais tristes dos perdidos 19 anos.

De modo que não sabia bem o que esperar do livro de Frain, que transformou em romance um complexo e longo trabalho de estudo: cartas, diários, obras e entrevistas com todos aqueles que participaram (mesmo que como coadjuvantes) do quarteto amoroso formado por Sartre, Beauvoir, Nelson Algren, o escritor americano com quem o Castor viveu um tórrido caso de paixão e Dolores, a “contingente” quase amor essencial de Sartre.

Algren é autor do famoso livro The Man With The Golden Arm, que virou (um excelente) filme com Frank Sinatra. É um dos meus títulos preferidos da era dourada de Hollywood, e o melhor Sinatra. Foi vendo esse filme que comecei a entender a fascinação que minha vó tem por ele, e que tantos têm por Kim Novak. Mas li o livro na mais completa ignorância. Para mim, Algren era apenas um escritor americano bem bonito, que vinha das classes mais baixas. Nem sabia que ele havia escrito algo de valor. Não conseguia entender por que Beauvoir ou Mary Guggenheim eram tão apaixonadas, até que cheguei à página 300. É quando eu descubro quem ele é de verdade, bem no momento em que ele começa as colher os frutos do sucesso do seu romance recém-publicado.

As primeiras páginas dão uma raiva sem limite de Sartre. Sartre manipulador, machista, mesquinho. Egoísta, egocêntrico. Insensível. Simpatizei imediatamente com o dilema de Beauvoir. Ela e Sartre se relacionavam havia quase duas décadas, mas há anos não tinham qualquer relacionamento sexual. Tentei imaginar o sofrimento dessa mulher inteligente, de mais ou menos 40 anos, relegada à segunda posição assim, de repente. E é esse sentimento desesperador, esse ciúme, essa vaidade que imperam quando ela vai para os Estados Unidos para um tour de quase 3 meses.

Seu primeiro capricho é conhecer Dolores, a amante americana de Sartre. Ela convence uma amiga a marcar o encontro, e inferniza a vida da “contingente” por algumas semanas (ou meses). Consigo entender essa necessidade. Um misto de curiosidade, vaidade e literatura faz com que a gente queira conhecer a mulher  apaixonada por “nosso amor essencial”. Dolores é uma personagem fugidia: sabemos que ela é atraente e pequena, de tipo mignon (embora em francês mignonne queira dizer bonita, simplesmente), e passa impávida às provocações de Beauvoir. E dá para entender por que ela não aparece tanto no livro: quem de fato Dolores foi importa menos do que quem ela é nas cartas e relatos de Sartre, e é isso que dá origem, em Beauvoir, a um tour de force de pura vaidade.

Tudo acontece principalmente por palavras, não importa quantas vezes Algren e Beauvoir façam amor, ou quantos voos cada um precise tomar para ver o outro. A cada encontro no aeroporto, a impressão de que aquele que esperava era um desconhecido, isso sem mencionar o “calepin”, o pequeno caderno instituído por Algren para que cada um relatasse as experiências sob a sua ótica. As pequenas narrativas começam com uma explosão de amor e terminam como brigas veladas ou mesmo abertas, e uma angústia sem fim para alcançar aquele primeiro momento de puro sexo e amor, quando ainda não haviam intelectualizado e epistolado a paixão que sentiam um pelo outro. Algren permanece vivo em Beauvoir, mesmo quando ela não se sente mais atraída, mesmo quando, em suas viagens românticas ao lado dele, ela corre para o correio quase todos os dias para verificar se há uma nova carta de Sartre. Algren é o outro, o tempo todo. Eles teriam feito uma perfeita encenação de Entre Quatro Paredes, com a vantagem de que Sartre e Beauvoir poderiam interpretar todos e cada um dos papéis: o homem inseguro, que morre de desejo pela mulher bonita, mas precisa da aprovação da outra, a mulher bonita cuja vaidade é mais simples, ela quer ser amada e desejada pelo homem, pela sua beleza, e a outra mulher, que tem um desejo físico pela mulher bonita. Sartre e Beauvoir, na verdade, precisavam do outro para coroar a sua relação a dois.

É até possível que Beauvoir tenha se apaixonado e mesmo amado Algren (e Sartre), mas a impressão que fica é a de uma vaidade perigosa e egoísta, e de uma dependência realmente existencial (de Sartre). Não consigo dizer se gostei do livro, mas posso garantir que foi fascinante lê-lo durante sete dias, sob o sol da Bahia. Os personagens não são agradáveis e ainda assim dá vontade de encontrá-los um dia e passar toda a história a limpo. De Beauvoir, provavelmente lerei Les Mandarins e Le Deuxième Sexe, em francês, que ela preparou durante os anos de romance com Algren. Já baixei uma amostra do famoso Tête-à-Tête, da australiana Hazel Rowley. Mas atenção: vi que a autora usa termos bem diferentes dos franceses para definir os tipos de amor estabelecidos no contrato dos dois. O amor essencial de Sartre e Beauvoir se torna “absoluto”, e os amores contingentes, “secundários”. A diferença é grande.