Paixão e vaidade em Beauvoir e as mulheres de Rubem Fonseca

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Fim de tarde em Itacimirim. Dezembro 2012

Acabamos de voltar de uma viagem de dez dias na Bahia, em Itacimirim, na praia das nossas vidas. Foi tudo uma delícia, vai ver é por isso que está tão difícil me readaptar a São Paulo, seu ar rarefeito, sua chuva no asfalto. Nessa viagem tão curta e tão longa ao mesmo tempo, voltei a pertencer a Itacimirim, como há dezenas de anos, só que mais e melhor. Aquela alegria, aquela liberdade de se deixar adormecer em qualquer lugar e ter sonhos quase épicos, deitada na cadeira de sol ou boiando no mar, enquanto a história se refaz sob a luz do meio-dia. Voltei a ser feliz como naqueles passeios logo antes ou logo depois do pôr-do-sol, caminhadas solitárias e profundas que agora não faço mais sozinha.

Li dois livros nessas férias, Ela e outras mulheres, de Rubem Fonseca, e Beauvoir in Love, da francesa Irène Frain. O primeiro era um presente para Tomás, e tem uma história curiosa. Em 2009 ou 2010, não lembro, uma prima me falou muito em Fonseca e no livro, e eu fiquei com uma vontade louca de ler. Ela já não tinha mais seu exemplar e a obra estava esgotada por aqui. Procurei-o em livrarias, sebos, mas não achei em nenhum lugar. Aí fui para a França, voltei, e já lia quase que exclusivamente no Kindle. Esqueci totalmente disso e só lembrei no meio de dezembro, quando estava comprando presentes na Livraria da Vila. Alguém falou em Marcelo Rubens Paiva e eu lembrei de Fonseca, pedi o livro e comprei. Queria ler antes de dar de presente para Tomás.

Pois bem. O livro explora o universo masculino muito mais do que o feminino, talvez por isso a leitura seja tão inusitada. Não guarda nenhuma semelhança com a história que eu havia criado na minha cabeça e queria que Tomás lesse. Não consegui me identificar com nenhuma das personagens femininas, mas alguns dos protagonistas homens me agradaram muito. De qualquer forma, a leitura vale a pena. E ler em papel em pleno dezembro me preparou para o livro que viria depois, de Irène Frain. Com mais de 400 páginas, o livro é delicioso mesmo pesando quase 1kg.

Nunca li nada de Simone de Beauvoir. Para mim, ela sempre foi a “mulher de Sartre“, aquela que havia estabelecido com ele um relacionamento pra lá de liberal. Já Sartre tinha um correspondente complexo no meu imaginário. Era tão fascinada por ele que chegava a considerá-lo bonito. Adoro Entre Quatro Paredes, que já li dramaticamente algumas vezes, na aula de teologia da faculdade, no projeto Jovens Escritores da escola e em outras ocasiões. Foi a única peça que atravessou-me da adolescência à vida adulta e que pode ser interpretada na minha cabeça, com personagens independentes. Adoro A Náusea, também, e O Muro, As Palavras e, inclusive, O Ser e o Nada, que usava para me acalmar em meus momentos mais tristes dos perdidos 19 anos.

De modo que não sabia bem o que esperar do livro de Frain, que transformou em romance um complexo e longo trabalho de estudo: cartas, diários, obras e entrevistas com todos aqueles que participaram (mesmo que como coadjuvantes) do quarteto amoroso formado por Sartre, Beauvoir, Nelson Algren, o escritor americano com quem o Castor viveu um tórrido caso de paixão e Dolores, a “contingente” quase amor essencial de Sartre.

Algren é autor do famoso livro The Man With The Golden Arm, que virou (um excelente) filme com Frank Sinatra. É um dos meus títulos preferidos da era dourada de Hollywood, e o melhor Sinatra. Foi vendo esse filme que comecei a entender a fascinação que minha vó tem por ele, e que tantos têm por Kim Novak. Mas li o livro na mais completa ignorância. Para mim, Algren era apenas um escritor americano bem bonito, que vinha das classes mais baixas. Nem sabia que ele havia escrito algo de valor. Não conseguia entender por que Beauvoir ou Mary Guggenheim eram tão apaixonadas, até que cheguei à página 300. É quando eu descubro quem ele é de verdade, bem no momento em que ele começa as colher os frutos do sucesso do seu romance recém-publicado.

As primeiras páginas dão uma raiva sem limite de Sartre. Sartre manipulador, machista, mesquinho. Egoísta, egocêntrico. Insensível. Simpatizei imediatamente com o dilema de Beauvoir. Ela e Sartre se relacionavam havia quase duas décadas, mas há anos não tinham qualquer relacionamento sexual. Tentei imaginar o sofrimento dessa mulher inteligente, de mais ou menos 40 anos, relegada à segunda posição assim, de repente. E é esse sentimento desesperador, esse ciúme, essa vaidade que imperam quando ela vai para os Estados Unidos para um tour de quase 3 meses.

Seu primeiro capricho é conhecer Dolores, a amante americana de Sartre. Ela convence uma amiga a marcar o encontro, e inferniza a vida da “contingente” por algumas semanas (ou meses). Consigo entender essa necessidade. Um misto de curiosidade, vaidade e literatura faz com que a gente queira conhecer a mulher  apaixonada por “nosso amor essencial”. Dolores é uma personagem fugidia: sabemos que ela é atraente e pequena, de tipo mignon (embora em francês mignonne queira dizer bonita, simplesmente), e passa impávida às provocações de Beauvoir. E dá para entender por que ela não aparece tanto no livro: quem de fato Dolores foi importa menos do que quem ela é nas cartas e relatos de Sartre, e é isso que dá origem, em Beauvoir, a um tour de force de pura vaidade.

Tudo acontece principalmente por palavras, não importa quantas vezes Algren e Beauvoir façam amor, ou quantos voos cada um precise tomar para ver o outro. A cada encontro no aeroporto, a impressão de que aquele que esperava era um desconhecido, isso sem mencionar o “calepin”, o pequeno caderno instituído por Algren para que cada um relatasse as experiências sob a sua ótica. As pequenas narrativas começam com uma explosão de amor e terminam como brigas veladas ou mesmo abertas, e uma angústia sem fim para alcançar aquele primeiro momento de puro sexo e amor, quando ainda não haviam intelectualizado e epistolado a paixão que sentiam um pelo outro. Algren permanece vivo em Beauvoir, mesmo quando ela não se sente mais atraída, mesmo quando, em suas viagens românticas ao lado dele, ela corre para o correio quase todos os dias para verificar se há uma nova carta de Sartre. Algren é o outro, o tempo todo. Eles teriam feito uma perfeita encenação de Entre Quatro Paredes, com a vantagem de que Sartre e Beauvoir poderiam interpretar todos e cada um dos papéis: o homem inseguro, que morre de desejo pela mulher bonita, mas precisa da aprovação da outra, a mulher bonita cuja vaidade é mais simples, ela quer ser amada e desejada pelo homem, pela sua beleza, e a outra mulher, que tem um desejo físico pela mulher bonita. Sartre e Beauvoir, na verdade, precisavam do outro para coroar a sua relação a dois.

É até possível que Beauvoir tenha se apaixonado e mesmo amado Algren (e Sartre), mas a impressão que fica é a de uma vaidade perigosa e egoísta, e de uma dependência realmente existencial (de Sartre). Não consigo dizer se gostei do livro, mas posso garantir que foi fascinante lê-lo durante sete dias, sob o sol da Bahia. Os personagens não são agradáveis e ainda assim dá vontade de encontrá-los um dia e passar toda a história a limpo. De Beauvoir, provavelmente lerei Les Mandarins e Le Deuxième Sexe, em francês, que ela preparou durante os anos de romance com Algren. Já baixei uma amostra do famoso Tête-à-Tête, da australiana Hazel Rowley. Mas atenção: vi que a autora usa termos bem diferentes dos franceses para definir os tipos de amor estabelecidos no contrato dos dois. O amor essencial de Sartre e Beauvoir se torna “absoluto”, e os amores contingentes, “secundários”. A diferença é grande.

2 ideias sobre “Paixão e vaidade em Beauvoir e as mulheres de Rubem Fonseca

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