Arquivo diário: 2 de abril de 2013

Quando você for velha

Com minha vó em seu aniversário de 80 anos

Com minha vó em seu aniversário de 80 anos

Aprendi a gostar de poesia já tarde, com um pequeno Rubaiyat que havia pertencido ao meu bisavô. Minha vó me deu de presente em 2009, no dia do casamento da minha prima. Alguns meses depois, li Yeats pela primeira vez. Um grande amigo na época se sentou ao meu lado, abriu um livro antigo e leu When You Are Old em voz alta.

O poema ressoa dentro de mim até hoje, e nunca soube ao certo se o que provocava era medo ou esperança. Via-me jovem como a mulher do poema e, igual a ela, nunca havia pensado no que seria envelhecer um dia. Meus amores eram homens “antigos”, minhas paixões tão ancestrais como efêmeras, e a mulher que mais admirava no mundo era também a mais velha. Minha vó era cheia de história e histórias, e tanta juventude! Talvez por isso eu tenha acreditado que um dia me transformaria numa versão mais simplificada de quem ela era; mas envelhecer, nunca.

Só fui me dar conta dos efeitos do tempo nos últimos dias. Foram mais de 31 anos de negligência — serão 32 em julho — sem passar um único creme, tomando sol sem protetor solar quase sempre, vivendo a vida dia após dia. Numa das análises que encontrei na web, um suposto “crítico” diz que sonhar com a expressão que seu rosto teve um dia não faz sentido, pois a maioria das pessoas sequer se olha no espelho por outro motivo que não seja “ver que tudo está no lugar”. Ora, esse crítico desconhece as pessoas do sexo feminino.

Mas a verdade é que mesmo ao longo dos anos continuamos encontrando a mesma menina, ou a mesma mulher, até que um dia algo muda. E a gente percebe que não tem volta, para o bem e para o mal.

A passagem do tempo, para a mulher, é um assunto tão poético que o lindo poema de Yeats — abaixo em versões original e em português, numa bela tradução que encontrei no blog A Poesia de Yeats — tem um precursor do séc. XVI, o poeta francês Pierre de Ronsard.

Os dois textos servem como alerta. O poeta escreve para uma mulher ainda jovem, e certamente bela. Em Ronsard, ele relembra que celebrou a sua beleza um dia e ela o desdenhou; hoje ele está debaixo da terra e ela virou uma velha. “Colha desde hoje as rosas da vida”. Em Yeats, ela também o desdenhou, mas enquanto todos os homens amaram a sua beleza, ele foi o único a amar “sua alma peregrina”. Hoje ele também está morto, e ela lamenta com amargura que “o amor fugiu”.

Talvez, em Ronsard, a ideia seja celebrar a beleza e a juventude, que são dádivas, e em Yeats dizer que a mulher amada não tem idade.

Quando fores velha
Quando já fores velha, e grisalha, e com sono,

Pega este livro: junto ao fogo, a cabecear,
Lê com calma; e com os olhos de profundas sombras
Sonha, sonha com o teu antigo e suave olhar.

Muitos amaram-te horas de alegria e graça,
Com amor sincero ou falso amaram-te a beleza;
Só um, amando-te a alma peregrina em ti,
De teu rosto a mudar amou cada tristeza.

E curvando-te junto à grade incandescente,
Murmura com amargura como o amor fugiu
E caminhou montanha acima, a subir sempre,
E o rosto em multidão de estrelas encobriu.

When You are Old

William B. Yeats (1865-1939)

When you are old and grey and full of sleep,
And nodding by the fire, take down this book,
And slowly read, and dream of the soft look
Your eyes had once, and of their shadows deep;
How many loved your moments of glad grace,
And loved your beauty with love false or true,
But one man loved the pilgrim soul in you,
And loved the sorrows of your changing face;
And bending down beside the glowing bars,
Murmur, a little sadly, how Love fled
And paced upon the mountains overhead
And hid his face amid a crowd of stars.

Quand Vous Serez Bien Vieille

Pierre de Ronsard – 1587

Quand vous serez bien vieille, au soir, à la chandelle,
Assise auprès du feu, dévidant et filant,
Direz, chantant mes vers, en vous émerveillant :
Ronsard me célébrait du temps que j’étais belle.

Lors, vous n’aurez servante oyant telle nouvelle,
Déjà sous le labeur à demi sommeillant,
Qui au bruit de mon nom ne s’aille réveillant,
Bénissant votre nom de louange immortelle.

Je serai sous la terre et fantôme sans os :
Par les ombres myrteux je prendrai mon repos :
Vous serez au foyer une vieille accroupie,

Regrettant mon amour et votre fier dédain.
Vivez, si m’en croyez, n’attendez à demain:
Cueillez dès aujourd’hui les roses de la vie.