A perigosa arte de viver a ficção na realidade

Dentro de Casa, novo filme de François Ozon, baseado na peça El Chico de La Última Fila de Juan Mayorga (Foto Divulgação)

Cena de Dentro de Casa, novo filme de François Ozon, baseado na peça El Chico de La Última Fila, de Juan Mayorga (Foto Divulgação)

Há dias pensava em escrever sobre as delícias — e os perigos — de viver a ficção na realidade, mas não conseguia pensar em uma obra que abordasse o assunto do jeito que queria. Tenho certeza de que este é o tema implícito de todo livro, filme, peça de teatro, música, novela, de qualquer narrativa semi ou inteiramente fictícia e de que provavelmente elas só existem para isso e são fundamentais, inclusive, para manter nossa sanidade intacta e conter a realidade dentro de nosso tempo. Por isso, talvez, tanta gente se preocupe com a saúde do autor George R. R. Martin, como um amigo nos explicou nesse fim de semana. Dela depende a continuidade da famosa série Crônicas de Gelo e Fogo. O que seria de milhões e milhões de fãs se não pudessem conhecer o fim da história?

O novo filme de François Ozon vai um pouco além dessa curiosidade. A ideia, aqui, é mesmo privilegiar a continuidade pela continuidade, e inscrevê-la no fluxo da própria vida. Ozon é um grande autor de cinema. Acho que seus filmes mais conhecidos aqui no Brasil são Swimming Pool e 8 Femmes (8 Mulheres). Mas eu tinha acabado de mudar para Montpellier quando Potiche – A Esposa Perfeita entrou em cartaz. Adorei. Fabrice Luchini, Catherine Deneuve e Gérard Depardieu, juntos. Luchini é tão bom, tão bom que ainda dou risada quando lembro de As Mulheres do Sexto Andar (Les Femmes Du Sixième Étage), que fui ver sozinha no meio da semana num cinema de bairro cheirando a pó da cidade francesa.

A premissa é simples mas arrebatadora — escolhi o filme quando li a sinopse naquele folheto de porta de cinema. Luchini é Germain, um professor de francês de colegial, entediado com a mediocridade dos seus alunos. É casado com Jeanne, interpretada por Kristin Scott Thomas. Ela trabalha numa galeria de arte que está com os dias contados — e vende arte ou muito erótica ou muito moderna, ou as duas coisas. A história começa assim: ela volta do funeral do suposto dono da galeria e o encontra corrigindo o dever de casa dos alunos. Ele havia pedido que escrevessem sobre o fim de semana, e quase todos falam da televisão, do celular, da pizza — e ele lhes dá notas baixíssimas. Mas Claude Garcia começa uma narrativa sobre como finalmente entrou na casa de seu amigo Raphael Artole, descreve o perfume característico da mulher de classe média e termina assim: Continua.

Germain decide dedicar horas extras do dia a Claude e ensinar-lhe sobre a literatura. Empresta-lhe livros, dá aulas extras sobre o motivo literário, incorre em pequenos e grandes delitos para garantir que a história, bem, continue. Lê com avidez cada novo capítulo do que se passa Dentro da Casa de Raphael, ao lado da esposa, que também entra na brincadeira. Ninguém mais sabe o que é verdade e o que é ficção, o que é manipulação de Claude e o que é literatura no que tem de melhor, tudo o que é importa é a narrativa pela narrativa, e que não acabe nunca.

Não poderia concordar mais com a premissa de uma Scheherazade e um sultão de meia idade, e reconheço um pouco de mim em Claude e Germain, tão indispensáveis para qualquer história. No enredo do filme, a dosagem da ficção ganha proporções trágicas, e talvez seja sempre assim quando a parte mais importante de nossas vidas começa a ser ocupada por outro tipo de narrativa. A pergunta, então, poderia ser: quando parar?

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A peça em que o filme é baseado, El Chico de La Última Fila, pode ser lida na Internet, neste link. A adaptação é bastante fiel e o texto original, muito bom.

Emmanuelle Seigner, a bela e banal esposa de Roman Polanski, interpreta Esther, por quem o jovem Claude é obcecado. Eu a considero uma das mulheres mais bonitas de todos os tempos.

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E já que estamos falando em narrativas, acho que vale mencionar que a sexta temporada de Mad Men já está disponível para download na Apple Store (para usuários americanos). Bom, por enquanto, apenas os 2 primeiros — e maravilhosos — episódios. Estou adorando. Não existe narrativa mais elegante — em estilo e literatura. E acho Don Draper um dos melhores personagens dos últimos tempos.

Ainda estou terminando de ler Emmaus, de Baricco, e engatei no segundo livro da trilogia Fifty Shades. Mas quase não tenho tido tempo para ler.

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