Arquivo mensal: maio 2013

Dissecando Agatha Christie

A Rainha do Crime, Agatha Christie

A Rainha do Crime, Agatha Christie

Outro dia me dei conta de que li oito livros de Agatha Christie só nesse ano. Se não me engano, o primeiro foi Curtain: Poirot’s Last Case: assassino incrível, Poirot perfeito, depois voltei para o princípio, The Mysterious Affair at Styles — adoro o Capitão Hastings. Five Little Pigs, que havia começado e parado de ler algumas vezes — ou será que foi The Hollow? E aí, de uma só vez, Death in the Clouds, Peril at End House, Death on the Nile e Sad Cypress.

Curtain e Styles são os dois melhores dessa lista parcial. Achei Death on the Nile fraco, quer dizer, muita elaboração para pouca história — e a vítima é insuportável; Peril instiga e obedece a uma lógica um pouco diferente, mas já vi gente descobrir quem era o assassino logo nas primeiras páginas. Five Little Pigs é bem melhor do que eu esperava, mas sem grandes surpresas. The Hollow vale por causa de uma das personagens. Sad Cypress é curioso, e Death in the Clouds tem um certo valor emocional — já que foi a primeira vez em que descobri quem era o assassino!

Depois de ler tanto Agatha, comecei a notar alguns padrões nas histórias:

Sempre tem um ou dois personagens muito, mas muito bonitos, o que me faz pensar que talvez Ms. Christie não tenha sido, ela mesma, tão bonita — quando eu era adolescente, adorava escrever histórias com personagens lindos, e para não deixar dúvida alguma sobre essa perfeição estética, descrevia-os com uma porção de adjetivos vazios, ao que meu professor objecionava, perguntando se isso mudava alguma coisa na história. Bom, no caso de Christie, o belo pode ser a vítima, o assassino, a causa ou a oportunidade. Ou mais de um combinados.

Sempre tem uma fortuna no meio. O próprio Poirot costuma dizer que a maioria dos crimes apresenta uma solução bem simples. Bom, eu diria que a causa geralmente é dinheiro, quando o assassinato é premeditado, e luxúria, quando não é. Mas, é claro, os melhores livros são mais surpreendentes. Gosto especialmente de um deles — e não vou dizer qual é, mas não está nessa lista — o assassino matou por um quadro de Vermeer (ou será que era outro pintor?).

Sempre tem alguém acima de qualquer suspeita, pode procurar. Nos primeiros livros que li de Agatha, minhas desconfianças iam de um personagem para outro, até o livro acabar. A coisa ficava ainda pior quando Hastings aparecia na história. Ele e eu quase enlouquecíamos juntos, mudando de assassino a cada nova página. Mas sempre havia alguém acima de suspeita. E este alguém não era, necessariamente, o favorito de Hastings (sim, ele tem favoritos), mas alguém para cima de quem Poirot jogava Hastings: para dar um passeio no parque, por exemplo. Depois que eu descobri isso, minha vida de leitora ficou muito mais fácil.

Sempre tem um médico, ou um dentista, ou os dois. Bonitos, jovens e quase onipresentes — estão em todo lugar, no avião, na casa do paciente, no trem — bem na hora! E pelo menos os dentistas não estão acima de suspeita — em um dos livros, que eu não vou dizer qual é, Poirot subverteu todas as regras e até mudou o par romântico do final… Que pena.

Toda história tem um final feliz. Depois do 10º livro, a autora acaba se confundindo com Poirot. Eu até diria que ela vira Poirot. Aí vem a hora em que a gente lembra que, no fundo ou até na superfície, Christie é mulher. A maioria de seus livros — só consigo pensar em dois que são exceções que confirmam a regra — acaba com um par romântico. E, veja bem, nem sempre é o par que os próprios personagens envolvidos tinham em mente — Poirot é o cupido. Parece que em matéria de crime e amor, a última palavra é sempre a dele!

E eu já vou pensando no próximo livro…

Solidão em Murakami

O escritor Haruki Murakami

O escritor Haruki Murakami

Depois de anos e anos ouvindo falar de Haruki Murakami, finalmente resolvi ler o autor. The Elephant Vanishes é uma coletânea de contos livresca, solitária e inesperada, quer dizer, os personagens fazem exatamente o que eu faria se estivesse no lugar deles — mas eu nunca pensei que encontraria personagens assim ou ainda que um escritor japonês poderia traduzir tanto do que penso sobre isso — a intrusão desesperada da ficção na realidade.

Li em algum lugar que a literatura de Murakami tinha um quê de realismo fantástico. Eu não concordo, pelo menos não com o nome. Esses críticos da web também falam em extraordinário, em “descompasso com o mundo ao redor” ou em uma “desestabilização do cotidiano”. Eu diria que o descompasso é de dentro para dentro, e que a cisão acontece no interior do personagem. Como a mulher que passa as noites acordadas — exatas 17 noites — num estado de super-vigília, lendo e relendo Anna Karenina enquanto come chocolates e bebe conhaque, em suma, faz três coisas que a vida pacífica com o marido e o filho não permitiam (ou assim ela nos leva a pensar). A realidade, ou o dia, torna-se para ela algo automático e sem significado, até que a falta de sono acaba comprometendo sua supra-realidade notívaga…

Talvez o conto mais impressionante seja o mais simples e aborrecido: Um dos empregados da loja de departamentos responde à carta de uma cliente que queria trocar um CD porque havia se confundido de compositor clássico — aliás, todo mundo parece confundir os nomes da música clássica nesse livro, já nem sei mais se era Haydn ou Mozart ou outro — dizendo que queria dormir com ela mas, veja bem, apenas se pudesse se dividir em dois, e ela também — ele queria continuar com a namorada, e não poderia pedir à destinatária da carta que mudasse nada em sua vida, mas seus duplos, eles sim, iriam para a cama.

Minha pergunta talvez seja ainda mais simples: por que esta cisão é, ao mesmo tempo, impossível e necessária? Talvez na resposta esteja a síntese da literatura que me interessa, talvez seja a solidão em seu estado puro.

*

Tem um outro escritor japonês que me impressionou demais: David Hoon Kim, autor de Sweetheart Sorrow, o melhor conto que já li na New Yorker, e talvez o melhor conto que já li na vida.