Solidão em Murakami

O escritor Haruki Murakami

O escritor Haruki Murakami

Depois de anos e anos ouvindo falar de Haruki Murakami, finalmente resolvi ler o autor. The Elephant Vanishes é uma coletânea de contos livresca, solitária e inesperada, quer dizer, os personagens fazem exatamente o que eu faria se estivesse no lugar deles — mas eu nunca pensei que encontraria personagens assim ou ainda que um escritor japonês poderia traduzir tanto do que penso sobre isso — a intrusão desesperada da ficção na realidade.

Li em algum lugar que a literatura de Murakami tinha um quê de realismo fantástico. Eu não concordo, pelo menos não com o nome. Esses críticos da web também falam em extraordinário, em “descompasso com o mundo ao redor” ou em uma “desestabilização do cotidiano”. Eu diria que o descompasso é de dentro para dentro, e que a cisão acontece no interior do personagem. Como a mulher que passa as noites acordadas — exatas 17 noites — num estado de super-vigília, lendo e relendo Anna Karenina enquanto come chocolates e bebe conhaque, em suma, faz três coisas que a vida pacífica com o marido e o filho não permitiam (ou assim ela nos leva a pensar). A realidade, ou o dia, torna-se para ela algo automático e sem significado, até que a falta de sono acaba comprometendo sua supra-realidade notívaga…

Talvez o conto mais impressionante seja o mais simples e aborrecido: Um dos empregados da loja de departamentos responde à carta de uma cliente que queria trocar um CD porque havia se confundido de compositor clássico — aliás, todo mundo parece confundir os nomes da música clássica nesse livro, já nem sei mais se era Haydn ou Mozart ou outro — dizendo que queria dormir com ela mas, veja bem, apenas se pudesse se dividir em dois, e ela também — ele queria continuar com a namorada, e não poderia pedir à destinatária da carta que mudasse nada em sua vida, mas seus duplos, eles sim, iriam para a cama.

Minha pergunta talvez seja ainda mais simples: por que esta cisão é, ao mesmo tempo, impossível e necessária? Talvez na resposta esteja a síntese da literatura que me interessa, talvez seja a solidão em seu estado puro.

*

Tem um outro escritor japonês que me impressionou demais: David Hoon Kim, autor de Sweetheart Sorrow, o melhor conto que já li na New Yorker, e talvez o melhor conto que já li na vida.

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