Arquivo mensal: junho 2013

Todos os personagens da minha infância tardia

Um pedacinho de uma das portas de vidro e eu, aos 13, 14 anos

Um pedacinho de uma das portas de vidro e eu, aos 13, 14 anos

Adolescente, li O Aniversário da Infanta e a história provocou um efeito extraordinário em mim. Voltava da escola e, ainda de uniforme, sentava num dos sofás da nossa sala de estar. Era o meu lugar preferido da casa, e o mais fantástico. Para onde se olhasse, lá estavam as grandes portas de vidro. E eu me perguntava na época para que servia a sólida porta principal, se qualquer um, viesse da rua ou do vizinho, podia passar pelo vidro (se bem que a gente morava num condomínio fechado). À noite, antes de ir para o quarto, fazia questão de verificar se as portas tinham sido devidamente trancadas, tamanho era o meu medo. Eu sabia que todos os personagens da minha infância tardia podiam entrar por ali, a qualquer momento.

Quando não estava viajando, meu pai lia naquele canto do sofá. E era como se estivesse lá na hora em que eu voltava da escola. O copo de vodca-coca, o abajur à meia-luz, o cinzeiro com a ponta de cigarro, iam se compondo em ausência, misturando-se a ele e à árvore de Natal e aos presentes de fim de ano, ao bar. Era incrível que eu gostasse do bar, numa época em que sequer podia usufruir dele. Maciço, antigo, elegante, parecia mágico: copos longos e curtos e garrafas que eu nunca tinha visto saíam de algum lugar embaixo do balcão, de um compartimento que, jovem como era, nunca tive a chance de abrir.

No dia em que li aquele conto de Oscar Wilde e pela primeira vez entrei em contato com o anão, algo se quebrou. Dei-me conta de que era, a um só tempo, o anão e a infanta e não podia me limitar a um deles. Sabia que mais cedo ou mais tarde precisaria tomar um caminho. E se eu nunca conseguisse?  Aquela duplicidade era íntima e estrangeira, e tão adulta!

Nunca me redimi totalmente da injustiça que fiz contra o anão — ou será que foi contra a infanta? — mas há alguns dias, lendo The Elephant Vanishes, de Haruki Murakami, encontrei pela segunda vez o anão de Oscar Wilde. O conto The Dancing Dwarf é uma daquelas histórias que esperamos anos e anos para ler — no meu caso, foram quase 20. E valeu a pena. Descobri que havia aceitado minha natureza de duplo — e também escolhido um caminho.