Arquivo mensal: julho 2013

O Oceano Dentro do Livro

Neil autografando meu livro Smoke and Mirrors durante a Flip 2008. Foto: Gustavo Scatena/Imagem Paulista

Neil autografando meu livro Smoke and Mirrors durante a Flip 2008. Foto: Gustavo Scatena/Imagem Paulista

Por onde começar?

Tem quase um ano que eu quero escrever sobre The Ocean at the End of the Lane, publicado sob o título O Oceano no Fim do Caminho pela Editora Intrínseca. Li a nova obra de Neil Gaiman em julho de 2012 e de novo agora, logo que foi lançada. Adoro essa literatura de Neil, que não se dirige a crianças nem a adultos, mas ao leitor sem tempo nem espaço tampouco idade que habita cada um de nós, amantes de histórias. Gosto mais de Oceano do que de Coraline — que também adoro — ou de Graveyard Book. Para falar a verdade, gosto mais de Oceano do que de quase tudo o que li nos últimos meses, e olha que não foi pouca coisa.

Para começar, o livro é curto e eu a-m-o livros curtos. Minhas histórias favoritas têm até 200 páginas. São contos, short novels, novelettes. Tem uma frase de Amós Oz que diz assim, “escrever um poema é como ter um caso, às vezes de uma noite só; um conto é um envolvimento romântico, um relacionamento; um romance é um casamento — você precisa ser esperto, ceder e fazer sacrifícios”. Particularmente, sempre gostei daquelas narrativas de meio de jantar. Alguém começa a falar de repente, de forma simples, a história é imprevisível, fascinante — mas então ele é interrompido, por um outro convidado, pelo cafezinho com licor. Mas a lembrança daquele momento persiste no dia seguinte, às vezes até anos depois. Os livros mais curtos vivem dentro de nós como essas narrativas: sólidos, imutáveis, se inscrevendo como intrusos em nosso tempo. E é assim com Oceano: o livro acaba lá pelas 100 e poucas páginas, mas se a gente observar com atenção, vai ver que dura toda a eternidade.

A história começa com a festa de aniversário de sete anos do jovem narrador. Ninguém aparece, e só isso já é um prenúncio de terror. Poucas coisas são mais aterrorizantes para um menino dessa idade do que comemorar uma festa sozinho mas, olha, todas elas acontecem no livro.

Depois o seu gato morre, e o locatário que mora em seu quarto, responsável indireto pelo acidente, tenta substituí-lo por outro, que julga ser “praticamente igual”. Não dá certo. O ponto de partida para a aventura — se é que podemos chamar assim — é o suicídio do locatário. No meio dos adultos e daquela situação tão estranha e nova, o protagonista conhece Lettie Hempstock, que mora com a mãe e a avó numa casa “no fim da estrada ou do caminho” e é a dona do oceano do título.

A história — que eu não vou contar aqui, porque ela já foi narrada da melhor forma possível no livro (e este tem só 100 e poucas páginas!) — é um conto de fadas perfeito, com todos os elementos, uma síntese para este “go out into the world” que todos nós fazemos, pelo menos uma vez na vida (gosto do termo inglês porque combina “out” e “into, que a priori seriam antônimos). E, é também, uma grande história: quando ele mergulha no oceano do tamanho de uma pequena lagoa, nós também mergulhamos com ele. O livro de Neil é, na verdade, o oceano ele mesmo, e enquanto estamos lendo-o, nos sentimos como o garoto, que a um só tempo lembra de tudo e sabe tudo, desde o início dos tempos.

*

O livro tem talvez uma das capas mais bonitas que eu já vi. Por isso vale a pena comprar a versão em papel mesmo para quem for ler no Kindle (como eu).

Uma das melhores capas de todos os tempos

Uma das melhores capas de todos os tempos

A Intrínseca criou um hotsite sobre o livro, que você pode encontrar aqui.

Na Amazon, as versões ebook estão disponíveis em inglês e português.

E, para completar, a bela resenha de A.S Byatt publicada no The Guardian.