Flutuando pelo tempo

Cena do filme d'O Enigma de Uma Vida (The Swimmer), com Burt Lancaster

Cena do filme O Enigma de Uma Vida (The Swimmer), com o ator Burt Lancaster

Nietzsche dizia que, quando dormimos, os pés, sem sapatos, livres da necessidade de encostar no chão, causavam a estranheza dos sonhos. Acho que quase todas as teorias que ele tinha sobre os sonhos (“um homem que tem as pernas amarradas por dois cordões pode sonhar que cobras se enroscam nelas”) hoje soam absurdas, mas a metáfora dos pés ficou comigo desde 1999, uma vida inteira. E só consegui alcançar de verdade esse flutuar pelo espaço-tempo na piscina.

Na natação, a gravidade quase se anula, e a necessidade de se manter em movimento — o seu movimento — transforma o próprio espaço-tempo. Era o esporte que de que eu menos gostava na infância e na adolescência — pois era obrigada a cumprir as aulas quase diárias, que sempre envolviam a participação de dezenas de outras crianças e adolescentes — e foi o único esporte de que realmente gostei na vida adulta. Redescobri a natação porque gostava de água, simples assim, e porque em minhas viagens à Bahia competia por espaço com os banhistas e as lanchas na Praia do Porto da Barra, ao lado da beleza mais do que fantástica da Baía de Todos os Santos.

Na casa de praia, em Itacimirim, tínhamos uma brincadeira bem simples: nadar o máximo possível sem respirar, e sem enxergar, porque naquela época nem andávamos com os óculos de natação a tiracolo. Isso sem falar na maré que começava depois do Carnaval, em março, e ia até a Páscoa, em abril. Se não fosse aquela intimidade com o mar, não sei se teríamos sobrevivido.

Fiquei quase dois anos sem praticar natação, nadando só de vez em quando, na Bahia. Há algumas semanas, fiz uma aula teste ao lado de casa, na 4fit. Fiquei mais de 1 hora na piscina, nem sabia quanto tempo tinha passado, pois dali só dava pra ver o cronômetro. Impossível descrever o que senti ao sair de lá, ou mesmo durante, esse flutuar por um espaço-tempo desconstruído, como se São Paulo tivesse virado a Bahia.

*

A foto é do filme The Swimmer, baseado no conto homônimo originalmente publicado na revista The New Yorker, e disponível na íntegra neste link.

Conto e filme são excelentes, e muito diferentes. Consigo me identificar demais com o personagem de Burt Lancaster.

*

Estou lendo Los Enamoramientos, de Javier Marías, livro que já havia começado a ler em português, mas agora resolvi ler no original. Li há algumas semanas La Petite, de Michèle Halberstadt. Sensível e bonito, fala sobre uma tentativa inocente de suicídio — foi o terceiro livro que li sobre suicídio nesse ano. E me sugeriram um outro, Reconstructing Amelia. Estou lendo também algumas obras sobre marketing digital, bastante interessantes.

Uma ideia sobre “Flutuando pelo tempo

  1. Jair Ribeiro

    Estou vivendo indiretamente esta sensação com minha filha de 6 anos. Ela que sempre foi tímida e introspectiva… quando entra na piscina se encontra, se sente livre e leve… É fantástico ver o seu desenvolvimento também através da natação..

    Resposta

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