Liz e a saudade do lado de fora do tempo

A linda Praia do Porto da Barra, em Salvador

A linda Praia do Porto da Barra, em Salvador

Minha vó mencionou Liz pela primeira vez em 2007. Tínhamos acabado de jantar e estávamos tomando licor (o meu favorito, o francês Grand Marnier), nós três. Meu namorado na época, Joe, era americano e a gente falava em inglês. Pode ter sido por causa da língua ou porque ele era ex-pat em São Paulo, exatamente como minha vó e meu avô em 53, só sei que foi a primeira vez em que ela me contou algo mais ordinário (embora fosse, na verdade, extraordinário) sobre a vida dos dois.

Liz era uma mulher fascinante que eles tinham conhecido logo que se mudaram para São Paulo. Moravam em Santo Amaro e passavam os fins de semana na represa de Guarapiranga ou em jogos de mímica na casa dos amigos. Liz e Richard, também expatriados, eram vizinhos e tinham quatro meninos. Meu avô e avó, três. Então a aproximação foi natural. Um dia, meu tio e um dos filhos de Liz saíram para brincar e não voltaram até a noite. Minha vó ficou desesperada — acredite, só quem a conhece pode imaginar como é. Aí Richard virou para ela e disse (brincando na certa): “já sei por que você está nesse estado e eu não. Se eles não voltarem, você vai perder 1/3 enquanto eu, apenas 1/4”.

Liz, que era mesmo muito peculiar, tentou matar o segundo marido. Assim. Envenenou-o com arsênico e ele só escapou (embora paraplégico) porque ela teve um ataque cardíaco na farmácia antes de concluir de forma bem sucedida a tentativa. Passei dias, meses, só pensando na história, fascinada com a possibilidade de a minha vó, alguém tão próxima de mim, ter conhecido um autêntico personagem de policial. Volta e meia lembrava da narrativa e me vinha a ideia de escrever um livro, ou pelo menos um conto sobre Liz, mas “a intrusão dilacerante do tempo” (só para citar Tennessee Williams) não deixava.

Minha vó e eu falávamos (e falamos) sobre tudo, sobre as pequenas coisas do dia a dia e os grandes livros, os grandes planos, a grande política (nesse caso, ela fala e eu ouço). E de 2007 para cá realmente muita coisa aconteceu. Os pequenos romances, a ida para a França, a volta para o Brasil, o grande amor. E ainda que a gente falasse praticamente todos os dias, por telefone, por Skype, por e-mail e até por cartas, nunca dava tempo de falar das coisas que estão do lado de fora do tempo. Sempre tive essa curiosidade enorme sobre o meu avô. Ele faleceu cinco dias antes de eu nascer, no dia em que tinham marcado meu parto, e toda a minha infância, adolescência, pensei que esses cinco dias tinham sido necessários para que um pedaço de sua alma fizesse parte de mim. Mas nunca havíamos conversado de verdade sobre ele, eram fragmentos de narrativa que compunham sua imagem para mim.

Depois que voltei para o Brasil, minha vó começou a falar mais sobre o meu avô. Exatamente como naquela noite em que me contou sobre Liz. Ou estávamos jantando, ou almoçando, ou passeando pela rua (somos grandes amigas) e de repente alguma coisa levava até ele. Mas as narrativas eram emocionadas, profundas, embora também alegres, cheias de vida. E o que deveria me dar felicidade, acabava me deixando triste. Porque eu sabia que a mesma coisa que trazia meu avô para perto, um dia a levaria para longe. Ela estava se despedindo. Era uma despedida longa, mas era uma despedida ainda assim.

Quando Willie veio me dizer que queria gravar alguns videos com ela, para que ela contasse mais sobre o meu avô, sobre a vida que tiveram juntos, sobre todos esses anos extraordinários que nós sempre fomos jovens demais para conhecer, eu me lembrei do meu desejo quase infantil de escrever sobre Liz. Aí decidi que queria escrever um livro, não sobre os incidentes literários da sua vida cheia de eventos, nem tampouco sobre o meu avô, de quem sempre senti saudade sem nunca ter conhecido, mas sobre a minha vó, ela mesma. Um livro que seja um documento, em que ela mesma e mais ninguém possa narrar a vida que teve. Às vezes penso que é para descobrir como ela se tornou a mulher extraordinária que é hoje ou se tenho um pouco de quem ela foi no passado. Mas a verdade é que o único jeito de aguentar a saudade vai ser guardá-la do lado de fora do tempo, para que seja contínua, em vez de eterna e ainda assim, para sempre.

*

The Timeless World of a Play, de Tennessee Williams, texto brilhante de onde vem a citação “if only the shattering intrusion of time could be locked out”.

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