Wells na New Yorker

O grande H.G. Wells

O grande Herbert George Wells

Adoro H.G. Wells. É um dos poucos escritores que me acompanhou ao longo dos anos e permeou toda a minha vida criativa. Ele estava lá quando produzi meu projeto sobre o futuro da informação, quando primeiro me interessei pelo “tempo” como unidade física, ou ainda quando queria “comfort fiction” (embora sejam poucos aqueles que se sintam assim à vontade com a sua literatura). Seu Homem Invisível foi uma excelente introdução à multiplicidade de dimensões de espaço e quando ainda estava na faculdade escrevi um conto baseado em suas premissas. Mas o mais legal disso tudo é que até pouco tempo, era muito difícil comprar seus livros. Descobrir uma nova velha obra de Wells na livraria, dar de cara com uma reedição barata da Penguin era então puro prazer. Mas enquanto muitas de suas obras estavam esgotadas nas editoras, quase todas elas estavam disponíveis no Projeto Gutenberg e podiam ser baixadas de graça. Claro, a formatação era péssima. Mas eu baixei e reformatei Twelve Stories and a Dream só para imprimi-lo na gráfica do bairro. Tenho a brochura até hoje, e ela me lembra todo dia do quanto a minha vida de leitora apaixonada melhorou depois do Kindle.

Ontem, na web, dei de cara com um conto de Wells que nunca havia lido, sobre o qual nunca tinha ouvido falar, e tive a ideia de compartilhá-lo aqui. Na verdade, era um post rápido sobre o programa de rádio famoso de Orson Welles, que transpôs A Guerra dos Mundos para a New Jersey no Halloween de 1937. Aproveitando o gancho, a New Yorker republicou o conto Answer to Prayer, o único texto de H.G. Wells a figurar na famosa revista. Maravilhoso, até agora não tenho certeza sobre o que ele quis dizer. É só clicar no link abaixo para ter acesso ao texto original em PDF:

NewYorker – Answer to Prayer

Só coisa boa: chocolate e livros

Essa delícia de cacau (foto emprestada do site All Women Stalk)

Essa delícia de cacau (foto emprestada do site All Women Stalk)

Eu amo chocolate. Desde sempre. Já passei por todas as fases, já provei de todos os tipos, e gosto de todos: do mais doce ao mais amargo, do mais barato ao mais caro. Até aquele que não vale muito a pena eu como de vez em quando, só para ter certeza de que não mudei de ideia. (Recentemente, dei entrevista para a TV Cultura sobre essa minha paixão. Você pode assistir ao VT nesse link aqui).

Na França, apurei meu paladar para o chocolate amargo, e adorava as variações da Lindt por lá (principalmente esse daqui, usado nas receitas caseiras, que é incrivelmente gostoso e tem 54% de cacau, medida ideal na minha opinião), mas desde que voltei para o Brasil (e para as Nhá Bentas e brigadeiros de que tanto gosto), acabei privilegiando mesmo o chocolate ao leite.

Resolvi fazer um teste essa semana: substitui-lo pelo amargo. E adorei! Desde segunda só como chocolate amargo (entre 49% e 70% de cacau). Senti-me mais disposta, esperta e inclusive feliz, e não senti a menor falta do chocolate ao leite. Para mim, o mais gostoso (e que lembra uma sobremesa que eu fazia muito na França, mousse au chocolat à l’orange), foi esse aqui (desculpem-me a foto bem caseira, mas é a única que tenho e a única que o WordPress aceitou!), com 49% de cacau:

Chocolate amargo da Lindt com laranja e amêndoa. Tão bom que nem o WordPress queria que eu publicasse a foto! (Procurei no Google Images e não achei uma só foto, tampouco no site da Lindt. Ai meu Deus, será que vão parar de fabricar?)

Chocolate amargo da Lindt com laranja e amêndoa. Tão bom que nem o WordPress queria que eu publicasse a foto! (Procurei no Google e não achei uma só imagem, tampouco no site da Lindt. Ai meu Deus, será que vão parar de fabricar?)

Também adorei as trufas Puro Cacau da Cacau Show (54% de cacau) e o Lindt Excellence Intense Orange. Continuo achando que o mais gostoso é ter entre 50 e 60% de cacau, mas quem sabe não mudo de ideia depois…

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Tanto tempo sem escrever que eu não sei nem por onde começar, então vai ser pela Amazon mesmo.

Descobri hoje — só hoje — que a Amazon anunciou o Kindle Matchbook. A ideia é simples: os clientes Amazon podem baixar a versão Kindle de livros já comprados na loja (em versão papel) de graça ou a um preço mais barato. Um serviço simples, pertinente e realmente útil, sobre cujo conceito eu já tinha escrito aqui. O catálogo de livros ainda é limitado — não achei um único matching book e olha que compro na Amazon há séculos! Mas a tendência é melhorar, sempre.

E não pára aí. Hoje recebi um e-mail deles sobre o Kindle First. Usuários Kindle e clientes Amazon Prime terão a chance de ler algumas obras antes de elas serem lançadas — e de graça! Isso é muito bacana, para os apressados (como eu) e para conhecer escritores novos, que inclusive podem ser autores novos publicando por conta própria no Kindle Direct Publishing. Já baixei Things We Set on Fire, de Deborah Reed, para ler assim que terminar 2001 de Arthur C. Clarke e o primeiro volume de O Retrato, de Veríssimo. Tenho lido bem pouco esses dias.

Ainda no campo de e-reading: Vale a pena dar uma olhada na Oyster, um app lançado recentemente que promete ser o Netflix dos livros: tudo o que você conseguir ler no mês por uma mensalidade de $ 9,95. Quando li pela primeira vez sobre o aplicativo, achei o máximo, a melhor coisa desde o Kindle. Agora já não tenho mais tanta certeza. O app é gratuito e pode ser baixado no iPhone e/ou no iPad, mas só para quem tem conta Apple americana. E, pior, para ter conta Oyster (mesmo o free trial que eles prometem no site), você precisa, mesmo, inserir um cartão de crédito americano.

Bom, não consegui testar ainda (eles não deixaram né?), mas gosto do conceito. Pode funcionar muito para os curiosos, que querem ler um pouquinho — ou poucão — do livro antes de decidir sobre a compra, ou para poesias, aqueles textos que a gente consegue ler de uma sentada só. Não me imagino lendo nada de mais de 100 páginas no iPad (aliás, nem isso), mas conheço um monte de gente que consegue. Agora é só aguardar lançarem por aqui.

Meu caso de amor com Camus

Clara Paget na belíssima adaptação de Tom Beard de The Sea Close By (La Mer au Plus Près). Iniciativa incrível da Penguin para comemorar o centenário de Camus

Clara Paget na belíssima adaptação de Tom Beard de The Sea Close By (La Mer au Plus Près). Iniciativa incrível da Penguin para comemorar o centenário de Camus

Às vezes a gente se apaixona por um livro e começa um caso com ele. Há quatro dias estou namorando The Sea Close By (La Mer au Plus Près na versão original). Foi amor à primeira vista. Estava na Livraria Cultura por acaso, fazendo hora para a minha aula da pós, quando notei um livrinho caseiro e barato, daqueles que dava para imprimir em qualquer gráfica. Logo vi que devia se tratar de uma iniciativa incrível da Penguin, que com seus paperbacks liderou a popularização da leitura (e literatura) em nosso vasto mundo.

Logo me dei conta da qualidade arrebatadora da tradução. Esse é um tema que me fascina e um dia pretendo estudá-lo a fundo, mas leio mesmo é no original (menos quando não dá, né?). Aqui foi a exceção. Fui atrás do texto em francês, no Kindle, e aí descobri uma porção de coisas. A Penguin escolheu dois capítulos de dois livros distintos, L’Été, onde Camus originalmente publicou La Mer au Plus Près  e Noces, onde publicou L’Été à Alger. O belo The Sea Close By é o último capítulo de L’Été, mas aqui ele abre a diminuta seleção, e em grande estilo: “I grew up in the sea and poverty was sumptuous, then I lost the sea and found all luxuries grey, and poverty unbearable”. Em francês: “J’ai grandi dans la mer et la pauvreté m’a été fastueuse, puis j’ai perdu la mer, tous les luxes alors m’ont paru gris, la misère intolérable”. Decidi que compraria os pequenos paperbacks e a coletânea completo no Kindle. Mas não parei por aí.

Essa edição da Penguin apareceu em agosto, em comemoração ao centenário de Albert Camus (que nasceu em 07 de novembro de 2013). Em setembro, a editora lançou um filme dirigido por Tom Beard e estrelado pela modelo e atriz Clara Paget, que é lindo, para dizer o mínimo (é só clicar nesse link para assistir). Aí que desde segunda eu leio e releio o texto em inglês e em francês, vejo e revejo o filme e comecei até a gravar o primeiro trecho, que é também o mais bonito e poético, com o qual eu mais me identifico. Não é todo dia que descobrimos um livro que tem tanto a ver com a gente, de um escritor que nos fascina — e arrebata — desse jeito. Descobri Camus há 2 anos, quando voltei da França. Coincidência ou não, estudava o estrangeiro na época mas ainda não tinha lido uma única linha do autor. L’Étranger foi um dos livros que mais me impressionaram. Cada vez que lia “Cela ne veut rien dire”, alguma coisa pulsava dentro de mim. Por que levei tanto tempo para ler outro livro do algeriano, nunca vou saber, só sei que não vou esquecer que como eu ele é totalmente apaixonado pelo mar, a pátria que escolheu para si: “Point de patrie pour le désesperé et moi, je sais que la mer me précède et me suit, j’ai une folie toute prête. Ceux qui s’aiment et qui sont séparés peuvent vivre dans la douleur, mais ce n’est pas le désespoir: ils savent que l’amour existe. Voil`s pourquoi je souffre, les yeux secs, de l’exil. J’attends encore. Un jour vient, enfin…”.

Belo filme de Tom Beard

Belo filme de Tom Beard

Liz e a saudade do lado de fora do tempo

A linda Praia do Porto da Barra, em Salvador

A linda Praia do Porto da Barra, em Salvador

Minha vó mencionou Liz pela primeira vez em 2007. Tínhamos acabado de jantar e estávamos tomando licor (o meu favorito, o francês Grand Marnier), nós três. Meu namorado na época, Joe, era americano e a gente falava em inglês. Pode ter sido por causa da língua ou porque ele era ex-pat em São Paulo, exatamente como minha vó e meu avô em 53, só sei que foi a primeira vez em que ela me contou algo mais ordinário (embora fosse, na verdade, extraordinário) sobre a vida dos dois.

Liz era uma mulher fascinante que eles tinham conhecido logo que se mudaram para São Paulo. Moravam em Santo Amaro e passavam os fins de semana na represa de Guarapiranga ou em jogos de mímica na casa dos amigos. Liz e Richard, também expatriados, eram vizinhos e tinham quatro meninos. Meu avô e avó, três. Então a aproximação foi natural. Um dia, meu tio e um dos filhos de Liz saíram para brincar e não voltaram até a noite. Minha vó ficou desesperada — acredite, só quem a conhece pode imaginar como é. Aí Richard virou para ela e disse (brincando na certa): “já sei por que você está nesse estado e eu não. Se eles não voltarem, você vai perder 1/3 enquanto eu, apenas 1/4”.

Liz, que era mesmo muito peculiar, tentou matar o segundo marido. Assim. Envenenou-o com arsênico e ele só escapou (embora paraplégico) porque ela teve um ataque cardíaco na farmácia antes de concluir de forma bem sucedida a tentativa. Passei dias, meses, só pensando na história, fascinada com a possibilidade de a minha vó, alguém tão próxima de mim, ter conhecido um autêntico personagem de policial. Volta e meia lembrava da narrativa e me vinha a ideia de escrever um livro, ou pelo menos um conto sobre Liz, mas “a intrusão dilacerante do tempo” (só para citar Tennessee Williams) não deixava.

Minha vó e eu falávamos (e falamos) sobre tudo, sobre as pequenas coisas do dia a dia e os grandes livros, os grandes planos, a grande política (nesse caso, ela fala e eu ouço). E de 2007 para cá realmente muita coisa aconteceu. Os pequenos romances, a ida para a França, a volta para o Brasil, o grande amor. E ainda que a gente falasse praticamente todos os dias, por telefone, por Skype, por e-mail e até por cartas, nunca dava tempo de falar das coisas que estão do lado de fora do tempo. Sempre tive essa curiosidade enorme sobre o meu avô. Ele faleceu cinco dias antes de eu nascer, no dia em que tinham marcado meu parto, e toda a minha infância, adolescência, pensei que esses cinco dias tinham sido necessários para que um pedaço de sua alma fizesse parte de mim. Mas nunca havíamos conversado de verdade sobre ele, eram fragmentos de narrativa que compunham sua imagem para mim.

Depois que voltei para o Brasil, minha vó começou a falar mais sobre o meu avô. Exatamente como naquela noite em que me contou sobre Liz. Ou estávamos jantando, ou almoçando, ou passeando pela rua (somos grandes amigas) e de repente alguma coisa levava até ele. Mas as narrativas eram emocionadas, profundas, embora também alegres, cheias de vida. E o que deveria me dar felicidade, acabava me deixando triste. Porque eu sabia que a mesma coisa que trazia meu avô para perto, um dia a levaria para longe. Ela estava se despedindo. Era uma despedida longa, mas era uma despedida ainda assim.

Quando Willie veio me dizer que queria gravar alguns videos com ela, para que ela contasse mais sobre o meu avô, sobre a vida que tiveram juntos, sobre todos esses anos extraordinários que nós sempre fomos jovens demais para conhecer, eu me lembrei do meu desejo quase infantil de escrever sobre Liz. Aí decidi que queria escrever um livro, não sobre os incidentes literários da sua vida cheia de eventos, nem tampouco sobre o meu avô, de quem sempre senti saudade sem nunca ter conhecido, mas sobre a minha vó, ela mesma. Um livro que seja um documento, em que ela mesma e mais ninguém possa narrar a vida que teve. Às vezes penso que é para descobrir como ela se tornou a mulher extraordinária que é hoje ou se tenho um pouco de quem ela foi no passado. Mas a verdade é que o único jeito de aguentar a saudade vai ser guardá-la do lado de fora do tempo, para que seja contínua, em vez de eterna e ainda assim, para sempre.

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The Timeless World of a Play, de Tennessee Williams, texto brilhante de onde vem a citação “if only the shattering intrusion of time could be locked out”.

As mulheres de Oz

Nadine Gordimer e Amós Oz na Flip de 2007. Foto divulgação.

Nadine Gordimer e Amós Oz na Flip de 2007. Foto divulgação.

Conheci Amos Oz na Flip de 2007, quando ele dividiu o palco da Tenda dos Autores com a maravilhosa escritora sul-africana Nadine Gordimer. Não conhecia nada da obra de nenhum deles. E como deixei para comprar os ingressos na última hora, vi o espetáculo de longe, da telinha da antiga Tela do Telão, com fone de ouvido para ouvir a conversa no inglês original. Quando Oz disse que queria ter sido bombeiro, para salvar vidas, Nadine respondeu: “But Amós, when you write you are a fireman”. O público das duas tendas aplaudiu de pé, e muita gente — eu incluída — chorou de se acabar.

Prometi a mim mesma que um dia leria Oz. Talvez tenha demorado tanto para começar por causa do teor político de suas obras, mas foi um preconceito bobo, que hoje lamento. O fato de não poder ler seus livros no original foi outro fator importante. De qualquer forma, vários anos se passaram, e há alguns meses finalmente escolhi um livro, To Know a Woman, publicado em 1992.

O pano de fundo é a perda, a recuperação de um trauma, a doença de uma filha. Mas o livro fala mesmo é sobre o amor de um homem por uma mulher. Ou várias: a esposa, a filha, a mãe, a sogra, a amante. Yoel me lembrou muito o olhar inteligente, paciente, terno de Oz, que vi tão rapidamente durante a festa literária. Ele descreve as mulheres de uma forma emocionante, as cenas de amor são as mais bonitas e reais de toda a literatura que conheci, como se descrevesse como quem sente mas não vê, e o leitor pudesse reviver tudo aquilo, de dentro para fora.

A impossibilidade de se conhecer uma mulher em sua totalidade é compensada por um amor carinhoso e bem sexual que ele dedica a cada uma delas, consciente de suas diferenças, potências e fraquezas. E pela inevitabilidade de um homem diante de uma mulher que ele ama, não importa qual seja a relação que tenha com ela.

Com certeza um dos livros mais bonitos que li no ano. Ainda vai demorar muito para eu entender tudo o que ele quis dizer.

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Lindo texto de Paloma de Montserrat sobre a mesa dos dois grandes na Flip.

Janelas, ficções e narrativas. De novo

Capa do livro Os Enamoramentos, de Javier Marías, lançado em 2012

Capa do livro Os Enamoramentos, de Javier Marías, lançado em 2012

Faz tempo que eu comecei a ler o livro, um ano quase, quando a Companhia das Letras me enviou uma cópia da linda edição nacional d’Os Enamoramentos, a obra mais nova de Javier Marías.

Eles tinham lido alguns posts sobre o autor espanhol no meu blog e acharam que eu poderia me interessar, já que era fascinada por ele. Comecei a ler Marías nas aulinhas de espanhol da Cultura Española, em 2007 eu acho, e gostei na mesma hora de suas narrativas livrescas e personagens permissivos, que se davam ao luxo de viver toda e qualquer ficção em plena luz do dia. Os protagonistas de Javier — primeiro nome de um dos principais personagens do novo livro — leram muito Shakespeare, mas também Alexandre Dumas e Balzac, e trazem várias das características de seu criador: são poliglotas e amantes da literatura, as mulheres gostam muito de homens, e os homens, muito de mulheres. Sua literatura se constrói justamente no limiar entre a ficção e a realidade: no momento em que a protagonista decide delatar ou não o ex-amante por um crime que talvez não tenha sido cometido, ou o turista, fascinado pelos relatos de um homem estranho, decide se interfere ou não para impedir um perigo iminente (ou talvez irreal). São todos observadores à sua maneira, mas cada um deles tem o poder de transformar a narrativa — e muitas vezes é exatamente isso que fazem — como na novela Corazón Tan Blanco, quando os tradutores simultâneos mudam o rumo de um encontro entre dois chefes de estado.

Gosto tanto que até criei um conceito: as janelas de Marías (conto Mientras Ellas Duermen foi a maior inspiração. Texto brilhante, vale a leitura). Como se as suas narrativas pudessem ser vistas de um e de outro lado da janela, e a “a filosofia da composição” acontecesse, justamente, na combinação entre ambas. Sou permissiva como os personagens de Marías, e como eles também gostaria de viver a ficção na realidade, todos os dias.

E embora a nova obra tenha todos esses elementos, há algo novo. Quando comecei a ler a versão em português, tinha certeza de que havia algo por trás do “enamoramento” do Casal Perfeito. Pensei que, talvez, eles fossem amantes em vez de casados, ou que escondessem algum segredo terrível, que seria revelado depois, mas nada me preparou para o verdadeiro mistério ou o fluxo que a narrativa tomaria, ou as infindáveis e deliciosas referências a Coronel Chabert (que a Companhia das Letras acabou incluindo num pacote, numa edição bonita) ou Os Três Mosqueteiros ou, como sempre acontece com ele, Macbeth. Incrível que eu tenha me equivocado tanto a respeito de Maria e de Luiza — dois dos meus prenomes femininos favoritos…

Os enamoramentos do título talvez tenham menos que ver com a condição do “enamorado” do que com o tempo não contínuo do enamoramento, com a ideia de que as coisas, quando terminam, continuam abertas, de que a própria morte é transitória, e as ficções, reais como o nosso dia-a-dia mais banal.

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Li-o metade em português e inteiro em espanhol, e recomendo, tanto a edição física da Companhia como as duas versões Kindle (o livro em português pode ser comprado nesse link).

Flutuando pelo tempo

Cena do filme d'O Enigma de Uma Vida (The Swimmer), com Burt Lancaster

Cena do filme O Enigma de Uma Vida (The Swimmer), com o ator Burt Lancaster

Nietzsche dizia que, quando dormimos, os pés, sem sapatos, livres da necessidade de encostar no chão, causavam a estranheza dos sonhos. Acho que quase todas as teorias que ele tinha sobre os sonhos (“um homem que tem as pernas amarradas por dois cordões pode sonhar que cobras se enroscam nelas”) hoje soam absurdas, mas a metáfora dos pés ficou comigo desde 1999, uma vida inteira. E só consegui alcançar de verdade esse flutuar pelo espaço-tempo na piscina.

Na natação, a gravidade quase se anula, e a necessidade de se manter em movimento — o seu movimento — transforma o próprio espaço-tempo. Era o esporte que de que eu menos gostava na infância e na adolescência — pois era obrigada a cumprir as aulas quase diárias, que sempre envolviam a participação de dezenas de outras crianças e adolescentes — e foi o único esporte de que realmente gostei na vida adulta. Redescobri a natação porque gostava de água, simples assim, e porque em minhas viagens à Bahia competia por espaço com os banhistas e as lanchas na Praia do Porto da Barra, ao lado da beleza mais do que fantástica da Baía de Todos os Santos.

Na casa de praia, em Itacimirim, tínhamos uma brincadeira bem simples: nadar o máximo possível sem respirar, e sem enxergar, porque naquela época nem andávamos com os óculos de natação a tiracolo. Isso sem falar na maré que começava depois do Carnaval, em março, e ia até a Páscoa, em abril. Se não fosse aquela intimidade com o mar, não sei se teríamos sobrevivido.

Fiquei quase dois anos sem praticar natação, nadando só de vez em quando, na Bahia. Há algumas semanas, fiz uma aula teste ao lado de casa, na 4fit. Fiquei mais de 1 hora na piscina, nem sabia quanto tempo tinha passado, pois dali só dava pra ver o cronômetro. Impossível descrever o que senti ao sair de lá, ou mesmo durante, esse flutuar por um espaço-tempo desconstruído, como se São Paulo tivesse virado a Bahia.

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A foto é do filme The Swimmer, baseado no conto homônimo originalmente publicado na revista The New Yorker, e disponível na íntegra neste link.

Conto e filme são excelentes, e muito diferentes. Consigo me identificar demais com o personagem de Burt Lancaster.

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Estou lendo Los Enamoramientos, de Javier Marías, livro que já havia começado a ler em português, mas agora resolvi ler no original. Li há algumas semanas La Petite, de Michèle Halberstadt. Sensível e bonito, fala sobre uma tentativa inocente de suicídio — foi o terceiro livro que li sobre suicídio nesse ano. E me sugeriram um outro, Reconstructing Amelia. Estou lendo também algumas obras sobre marketing digital, bastante interessantes.