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Agatha Christie, a rainha do crime

Encenação de And Then There Were None com Jennifer Wilson como Miss Brent. Foto do site http://www.freewebs.com/colinbaker

Encenação de And Then There Were None com Jennifer Wilson como Miss Brent. Foto do site http://www.freewebs.com/colinbaker

Não lembro quando comecei a ler Agatha Christie, mas sempre fui fã da escritora. Meu primeiro livro foi O Assassinato de Roger Ackroyd, depois passei a outros, ora com Poirot, ora com Miss Marple, culminando em sua peça mais brilhante, The Mousetrap. Um de meus filmes favoritos, Testemunha de Acusação, é baseado num conto de mesmo nome da autora (depois adaptado para o teatro). Nunca li. A versão de Billy Wilder, com os deliciosos e impecáveis Charles Laughton, Marlene Dietrich, Tyrone Power e Elsa Lanchester, é insuperável e pretendo me manter fiel a ela. Por enquanto.

Na última sexta-feira, estava procurando um livro de literatura fácil e grande estilo, aquele tipo de história que te prende desde o primeiro minuto e não larga nunca mais, que você lê mesmo quando vai jantar com amigos. Escolhi a versão Kindle de After the Funeral (vendido também em bancas e livrarias de São Paulo em sua versão L&PM Pocket a um preço baixinho). Fui conquistada logo na largada. A narrativa começa com o mordomo Lanscombe, que sintetiza tudo aquilo que esperamos de um mordomo na literatura. Ele prepara a casa para o funeral e faz algumas reflexões, rápidas, sobre a mudança dos tempos. Aí a história começa. A família rica e decadente, os irmãos e sobrinhos de moralidade oscilante, o sempre fiel executor e amigo da família Sr. Entwhistle, são peças excelentes e complementares no grande jogo de Christie. E temos um bônus, uma certa personagem irretocável, que me faz pensar em irresistíveis personagens literários, como aquele coadjuvante onipresente nos filmes de Hitchcock. Tudo com muita classe.

Quando terminei de ler na manhã de domingo fui logo contar a Tomás quem era o assassino. Bom, talvez não tenha dito exatamente quem era, mas revelei o gênero, o que ele não gostou nada. Horas depois me senti orfã de Christie (e de Poirot). Tinha três ou quatro livros candidatos numa lista no Kindle mas ontem decidi ler And Then There Were None, que não tem Poirot mas em compensação é considerado um dos melhores AC.

Li o livro numa única noite, e quando terminei, lá pelas 2 horas da manhã, estava tão apavorada que não consegui dormir. Já conhecia visual e sensorialmente todos os pedaços da Soldier Island e da mansão do U.N.Owen, e talvez nunca consiga esquecer a canção “de ninar” Ten Little Solider Boys:

Ten little soldier boys went out to dine;
One choked his little self and then there where Nine.

Nine little soldier boys sat up very late;
One overslept himself and then there were Eight.

Eight little soldier boys travelling in Devon;
One said he’d stay there and then there where Seven.

Seven little soldier boys chopping up sticks;
One chopped himself in halves and then there were Six.

Six little soldier boys playing with a hive;
A bumble bee stung one and then there were Five.

Five little soldier boys going in for law;
One got into Chancery and then there were Four.

Four little soldier boys going out to sea;
A red herring swallowed one and then there were Three.

Three little soldier boys walking in the Zoo;
A big bear hugged one and then there were Two.

Two little soldier boys sitting in the sun;
One got frizzled up and then there was One

One little soldier boy left all alone;
He went and hanged himself

And then there were None.

O melhor Agatha Christie. Sem dúvida. Ou talvez os outros sejam tão bons quanto. Livro bom é assim: você lê em uma só noite.

Lendo livremente no Kobo

As diferentes versões do Kobo (sim, eles são coloridos!)

Olha, estava preparando um outro post para esses dias mas esse teve que passar na frente.

A Livraria Cultura começou a vender hoje — para entrega a partir do dia 05 de dezembro, às vésperas do Natal — o Kobo, que foi considerado o melhor eReader pela revista Wired. O preço estipulado pela Livraria Cultura é R$ 399, quase o dobro do preço internacional — 129 USD. O Kindle Touch também é vendido, nos Estados Unidos, a um valor a partir de 119 USD. Mas enquanto a Amazon não chega, fica difícil dizer quanto vai custar no país. (Clique aqui para encomendar seu Kobo na Livraria Cultura).

Para começar, preciso dizer que gostei. Mesmo. O design é bacana, o layout é bem similar ao do Kindle Touch, e adorei a contracapa estilizada. Gostei tanto que compraria um, se não fosse tão caro. A empresa canadense e, agora, a Livraria Cultura, têm feito muita publicidade em torno da ideia de leitura livre (“reading freely”), dizendo que livros em qualquer formato podem ser lidos no Kobo, o que é uma grande vantagem em relação aos eReaders exclusivos hoje disponíveis no mercado. Ainda preciso confirmar se o contrário também é verdade, ie, se podemos ler livros Kobo em qualquer eReader — dando uma olhada rápida no site da Cultura, vejo que muitos livros estão disponíveis em formato PDF, que não é ideal para o Kindle, por exemplo.

E, uma curiosidade: os eBooks Kobo mais vendidos fazem parte da nova literatura erótica. A trilogia de Cinquenta Tons de Cinza, obras de Sylvia Day, Algemas de Seda e até Anaïs Nin, em português. Será que é porque ler livros assim sem capa é melhor?

Mulheres leitoras; Contos em Voz Alta

Mulheres da família de Mr. William Mason de Colchester. Pin de Clara Lucas: Mulheres Lendo

Li há alguns dias, no iPad, um artigo excelente publicado na última edição da revista New Yorker, Turning the Page: How Women Became Readers. Trata-se de uma crítica de Joan Acoccela do livro The Woman Reader, de Belinda Jack — já disponível em versão Kindle, embora a um preço meio azedo –, que atravessa a história da leitura e da literatura para contar como mulheres ascenderam à posição de leitoras.

Se a crítica de Acocella é uma prévia fiel da obra, o livro deve ser muito bom. A história da “mulher leitora” se mistura à dos vernáculos e, claro, à da independência feminina: “Por que as mulheres lerem era algo tão temido pelos homens? Porque a leitura era algo que elas poderiam fazer sozinhas”, conclui Acoccela.

Em outros trechos, evidencia-se a preocupação com a saúde física e mental das mulheres quando confrontadas com o poder da ficção: “Alguns médicos especialistas acreditavam que as mulheres poderiam reagir a alguns livros [como Clarissa, de Richardson] de forma a colocar em perigo a sua própria saúde mental, ou agravar a condição de sua saúde física. Um médico londrino decidiu que a leitura estava liberada às mulheres, desde que elas fossem observadas cuidadosamente. Se, por exemplo, um romance agravasse o estado físico de uma mulher, ele deveria ser imediatamente substituído por outro livro, sobre um tema prático, como por exemplo o cultivo de abelhas”.

Embora provavelmente escrito antes da publicação de Fifty Shades of Grey, de E. L. James (o primeiro título da trilogia chegou às livrarias em 2011), o livro de Ms Jack (e a crítica de Acoccela) pode(m) ser lido(s) à luz desse novo gênero literário. Ainda lembro da época em que lia Anais Nin às escondidas (ou talvez nem precisasse, pois a escritora não era popular), e hoje em qualquer salão de bairro a gente vê alguém lendo Cinquenta Tons de Cinza. De acordo com a pesquisa feita por Jack, as preferências literárias de homens e mulheres continuam diferentes e, por incrível que pareça, seguem até hoje uma divisão estereotipada. As mulheres leem mais ficção, principalmente quando os tópicos variam entre “amor, amizade, animais, aventura”. Quando os homens leem ficção, os títulos que apareçam geralmente pertencem à chamada alta literatura, Cem Anos de Solidão e O Estrangeiro, são alguns dos exemplos (a exceção nesse caso é O Apanhador no Campo de Centeio, que deve ser o equivalente masculino de Orgulho e Preconceito, um de meus livros preferidos de todos os tempos).

Pessoalmente, aposto no crescimento dessas genres literatures, quaisquer que sejam. Entusiasta de thrillers e romances policiais, vejo com bons olhos os romance novels, os livros de young adults, como também o novo gênero que certamente se desenvolverá a partir de Cinquenta Tons. O que importa, de verdade, é que as pessoas leiam mais e mais nessa época tão tecnológica. Ontem descobri, com certo atraso talvez, que o aplicativo da New Yorker para iPad possibilita que se escute o próprio escritor lendo o conto ou poema, uma evolução bem particular da ideia do livro fonógrafo (veja aqui post sobre o assunto). O efeito nem sempre é um sucesso, afinal não é todo escritor que lê tão bem quanto Neil Gaiman, mas o fator surpresa funciona muito bem.

Gostaria apenas que o livro de James levasse mais leitoras a Vênus em Peles, de Sacher Masoch (veja aqui post sobre o assunto). Foi Masoch quem deu origem ao termo masoquismo, lá atrás, em meados do séc. XIX, e sem o masoquismo, o sadismo de Grey não teria graça alguma. Também fica quase evidente que o longo e complicado contrato proposto por Christian foi inspirado no documento assinado entre Severin e Wanda. A grande diferença é, talvez, o coeficiente intelectual do sadomasoquismo de Severin/Wanda/Masoch, por algum motivo ausente do livro de James.

Leia mais

No Pinterest, você pode encontrar uma série de pins de mulheres lendo, como a bela galeria de Clara Lucas. Veja aqui. Vale também dar uma olhada nesse blog: Notas sobre Leituras.

Para quem quer ler mais sobre o assunto, além dos livros de James e Jack, recomendo Silly Novels by Lady Novelists, de George Eliot, nom de plume da escritora inglesa Mary Anne. Escrito em 1856, pode dar uma ideia do que as mulheres daquela época pensavam sobre a leitura — e a literatura — femininas.

Cinquenta Tons é, possivelmente, uma nova versão das coleções de Sabrina, Julia e Bianca, sucesso uma geração antes da minha. Tomara que as vendas de James levem alguém a digitalizar as coleções e disponibilizá-las no Kindle.

O novo Kindle

O novo Kindle Paperwhite, anunciado hoje pela Amazon

A ideia era escrever sobre o estrangeiro — sob as perspectivas de Stefan Zweig e Richard Sennett — mas não dava para ignorar o novo anúncio da Amazon. A empresa acaba de lançar o novo Kindle — ie, 11 meses depois de colocar o fantástico Kindle Touch no mercado. As mudanças são mais sutis — do Keyboard para o Touch, a evolução foi realmente significativa — mas o novo produto é certamente melhor.

Vou já encomendar o meu e colocar o antigo à venda — aliás, interessados podem entrar em contato comigo por email blogliteraturaestrangeira at gmail . com

Leia aqui matéria de Nayara Fraga sobre o lançamento

A morte do livro, de novo

Charge publicada no Facebook da Paris Review na última terça-feira, dia 07/08, ao lado de uma frase de William Gibson: É mais fácil prever o futuro do que adivinhar o passado.

O New York Times publicou hoje uma resenha intitulada “A Morte do Livro Através das Eras” (The Death of the Book through the Ages). Ainda não li até o fim, mas recomendo, porque traz à tona um assunto bem importante.

A morte do livro vem sendo anunciada desde o fim do séc. XIX, quando a invenção de Gutenberg já acumulava quatro sólidos séculos. Para produzir meu trabalho sobre o futuro da informação, em 2005, li muitas, mas muitas resenhas e materiais de pesquisa do MIT Media Lab e até hoje lembro com enorme satisfação do ensaio de Priscilla Murphy intitulado Books are Dead, Long Live Books (clique aqui para ler na íntegra).

A ideia vigente no fim do séc. XIX segundo a qual o fonógrafo desbancaria o livro de papel me faz rir até hoje. “‘Uma vez que a leitura cansa facilmente, a fonografia poderia amenizar o cansaço físico [provocado pelas posições exigidas pela leitura] e o arder nos olhos’. Desconsiderando  custo e o peso de fonógrafos, Octave Uzanne estava confiante que eles logo se tornariam portáteis e baratos — e perfeitos para se levar num passeio usando ‘cilindros pequenos leves como canetas de celuloide que armazenariam de 500 a 600 palavras'”.

Uzanne, no entanto, antecipou algumas tendências, ao dizer que a relação entre autor e leitor estava para mudar. “Leitores poderão ouvir a voz do escritor diretamente”, o que é verdade para audiobooks de Neil Gaiman ou Richard Feynman (cujas famosas palestras estão disponíveis para compra no Kindle), e “os homens de letras não serão chamados escritores, mas narradores”. E a ideia de narrativa fica mais a forte a cada dia.

Não concordo totalmente com o ensaio, mas este traz análises e exemplos bem ricos, e preciso dizer que quando penso na morte do livro, lembro logo do artigo.

Sou uma leitora inveterada de Kindle (ou uma leitora Kindle inveterada?), e acho que a versão ebook só tem vantagens em relação ao papel (veja abaixo). Mas o livro de papel não vai acabar, mas não vai mesmo. Continuarei a comprar livros em papel para determinadas ocasiões. E em alguns países, o papel persistirá por um bom tempo.

Na França, por exemplo, onde a tradição da leitura percorre trens, praças, cafés, jardins e calçadas (um dos famosos mendigos de Montpellier lia todos os dias pois os sebos de lá vendem títulos a 20 centavos de euro), todo mundo lê em papel, quer dizer, menos os estrangeiros, que têm sempre um Kindle a tiracolo. A Amazon começou a vender seu eReader por lá há vários meses, e ainda que os grandes clássicos estejam disponíveis para download gratuito em versão Kindle desde o início de 2010 (trabalho de digitalização feito por uma comunidade de leitores), o eReader parece não vingar.

No Brasil, o problema é outro. Muita gente já lê em iPad e iPhone (bem caros, diga-se de passagem), mas para alcançar a maior parcela da população, seria necessário uma mudança de mentalidade. Tem gente que acha que livro eletrônico é mais caro que livro em papel. Não é. O problema é que aqui no Brasil nem temos sebos que vendam a R$ 0,20 nem gente que digitalize os grandes clássicos em escala. Ainda assim, dá para pensar num futuro melhor, com tablets subsidiados pelo governo, formato digital integrado, e leitores, seja em papel ou na tela.

O ereader é mais barato

Isso mesmo, paga-se o Kindle comprando uma média de cinco livros de papel (os lançamentos das editoras brasileiras são vendidos a R$ 40 em média), e depois a faixa de preço varia entre 2 e 10 USD, o que não chega à metade do preço de um livro aqui.

Mais confortável 

Pois é. Só não sabe disso quem nunca leu num Kindle Touch. Tinha o Kindle Keyboard e achava muito bom, mas o Touch é excelente, não reflete luz, e é mais confortável para se ler em qualquer lugar (talvez as posições da leitura tradicional realmente não sejam confortáveis).

Mais prático

Em vez das 600 palavras previstas por Uzanne, o Kindle Touch armazena mais de 3 mil livros. Isso mesmo.

Mais leve

Não são canetas de celuloide, mas tablets bem compactos que pesam umas 200g. O peso de um livro de 200 páginas ou mais leve.

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O livro está morto. Viva o livro!

Outros links:

Objetivo do Kindle é reinventar o livro, afirma VP da Amazon no Brasil – reportagem sobre a palestra de Russel Grandinetti que aconteceu hoje na 22a Bienal Internacional do Livro de São Paulo.

A Amazon disse que não há previsão para vender o Kindle no Brasil. Mas você não precisa esperar: compre-o hoje mesmo pela Dabee.