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Paris apaixonada, Paris quand il fait beau!

Palácio de Versailles, em fevereiro de 2012. Dia glorioso de inverno

Palácio de Versalhes, em fevereiro de 2012. Dia glorioso de inverno

Paris é sempre Paris. Mas quando você está apaixonada, quand il fait beau, é mais Paris ainda. Havia prometido a mim mesma que não voltaria para a França no inverno e menos ainda no Carnaval. Estava apaixonada por um baiano e convencida de que a minha pátria era a Bahia. Só não podia imaginar que visitar a França com ele poderia ser tão bom. E que na felicidade, a gente carrega a pátria dentro de si. A minha Paris com Tomás é a melhor de todas. Assim como a minha São Paulo, a minha Itacimirim, a minha Itália.

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Chegamos em Paris no dia 23 de fevereiro de 2012. Tínhamos embarcado em Aix-en-Provence naquela manhã e antes das 10 horas já estávamos na Gare de Lyon. Fomos para o nosso hotel, Le Vignon 8, a algumas quadras da Igreja Madeleine, no 8ème arrondissement, meu bairro favorito em Paris. Já havia ficado em Saint Germain e em outros hotéis da Rive Gauche, mas eles eram caros e nada confortáveis, isso sem falar na calefação central, que não dava para mudar. Deixamos nossas malas, ajustamos a temperatura do quarto para 15 graus Celsius (isso mesmo, para não dar aquele choque térmico na volta) e fomos a pé para as Galeries Laffayette, para fazer nossas comprinhas de chegada. Vinho, champanhe, belisquetes para ter no hotel — além das deliciosas madeleines que nos eram oferecidas todos os dias, bem ao gosto de Proust! E, de quebra, uma sessão maquiagem com uma negra linda, vendedora da Clinique, que usou um sem fim de produtos para me deixar com a cara das francesas.

Almoçamos no Saint Joseph, um restaurante na região, antes de ir para o Louvre. Comemos filet mignon (o autêntico, de carne de porco), com Chablis e foie gras. Tudo uma delícia. E então o Louvre. Fizemos uma visita curta. A Vitória de Samotrácia, a Vênus de Milo, a Mona Lisa, as salas com as esculturas greco-romanas, e os salões com obras dos grandes pintores franceses. Fui perguntar onde estava o Delaroche que tanto havia me impressionado um ano antes, A Jovem Mártir, mas a funcionária me disse que estava em tour, infelizmente.

Voltamos para o hotel passando pela Place Vendôme e pela Place de L’Opèra. Queríamos ir ao Bar Hemingway, mas ainda estava fechado, e tudo o que fizemos foi tirar uma foto em frente à Coluna da Grande Armada, para lembrar de Maurice Chevalier e Amor na Tarde. À noite, nos encontramos com Iuli, amigo de longa data da família de Tomás, que nos levou ao Marais e mostrou muito da Rive Droite, passando inclusive pelo Centre Georges Pompidou, que Tomás tanto queria visitar. Jantamos no Le Petit Marcel, um restaurante delicioso, e tomamos o vinho da casa, também excelente.

Na manhã seguinte, Versalhes. Saímos um pouco atrasados (e atrapalhados) com o metrô de Paris. Visitamos o Palácio e, quando descemos, que surpresa! Estávamos em pleno inverno e fazia um dia glorioso de primavera. Eles nem cobraram entrada para os jardins, já que as esculturas estavam todas cobertas e não havia espetáculo das grandes eaux. Versalhes era quase só nossa, passeando entre as fontes e os lagos, tirando foto dos cisnes e dos mini labirintos charmosos. Tinha até uma barraca de pommes de terre, o equivalente a nossas barraquinhas de cachorro-quente, imagino — e lá compramos duas garrafas de 250mL de vinho branco. O moço fez o maior sucesso. Quem imaginaria que em pleno inverno, eles abririam os jardins e ele venderia tanto?

Dali voltamos para Paris. Compramos pães, queijo e foie gras com vinho, para comer com as madeleines antes de se arrumar para o teatro. O teatro era o Théatre Madeleine e a peça, Oh Les Beaux Jours, escrita por Beckett em inglês em 1961, quando ele já escrevia quase que exclusivamente em francês. São dois personagens, Winnie e Willie, uma cinquentona e um sessentão, provavelmente casados. Ela está enterrada até o colo em um monte de terra, mas todos os dias acorda dizendo: “Oh, mais um dia maravilhoso”, faz sua toilette e tenta dizer a Willie o que fazer com o seu dia. O primeiro ato é uma construção repetitiva para nos preparar para o segundo, em que Winnie, agora com os braços também imobilizados — tetraplégica — e Willie compartilham um momento ambíguo. Beckett disse que a peça fala dos momentos lentos que levam à morte, quando o tempo começa a passar mais devagar. E até hoje não consigo me livrar do eco de “Willieee”, que servia de compasso às falas de Winnie.

Tomamos champanhe no metrô, fomos para a Champs-Elysées e então para Saint Germain. Jantamos e tomamos um drink de mais de um litro no Le Petit Café, perto do Boulevard. Depois terminamos a noite numa discoteca perto dos Champs-Elysées de nome já esquecido.

Acordamos tarde no sábado, fomos almoçar com Iuli num restaurante italiano e passeamos pelo Marché des Enfants Rouges. De lá, atravessamos para a Rive Gauche a pé, passamos por um circo montado, pelos bouquinistes do Pont Neuf, por quase toda Paris, até chegar ao Musée d’Orsay. Só tivemos meia hora lá, foi a visita mais rápida possível aos impressionistas — privilegiando Van Gogh, naturalmente. E foi aí que nosso passeio perdeu o rumo e ficou ainda mais interessante. Tentei refazer o caminho de uma antiga lista de outro amigo, passamos pelo La Palette, pelas galerias de arte, por tudo que dá mais charme à Rive Gauche, até chegar, por acaso, a uma loja de vinhos chamada La Dernière Goute. Uma americana radicada há muito tempo na França nos vendeu alguns vinhos e depois falou que havia escrito um livro, Guia da Paris Impressionista, editado pela Record aqui no Brasil (o nome da escritora é Patty Laurie). Ela nos deu o livro de presente e de lá fomos, sem querer, para Les Deux Magots, que havia sido tão recomendado por todo mundo aqui no Brasil. Bebemos um excelente Bourgogne e saímos correndo para a Igreja Madeleine, para o concerto das Quatro Estações de Vivaldi. Fomos os últimos a entrar, acho.

Minha vó me disse que adora a igreja e certamente nos levou lá há mais de quinze anos. A Madeleine é o lugar onde mais gosto de ficar em Paris. Saindo de lá, fomos jantar num restaurante de bairro, despretensioso, Le Roi du Pot au Feu. A cozinha estava fechada, mas ele nos serviu o prato da casa — pot au feu, parecido com o nosso cozido –e o vinho da casa, melhor do que muito vinho internacional, e até francês, que já bebi. Já estava chegando a hora de se despedir. No dia seguinte, visitamos a Tour Eiffel e o Arco do Triunfo, e almoçamos no café do George V, na Champs-Elysées. Foram quatro dias gloriosos de sol, na Paris mais apaixonante. Em fevereiro, vai fazer um ano já. Que saudades. Quem sabe eu não compre meu vestido de noiva lá?