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A Vida de Adèle (e a nossa também)

Cena do filme la Vie d'Adèle ou Azul é a Cor Mais Quente

Cena do filme la Vie d’Adèle ou Azul é a Cor Mais Quente com a linda Adèle Exarchopoulos

Há alguns dias fomos ver La Vie d’Adèle ou Azul é a Cor Mais Quente, novo filme de Abdellatif Kechiche que concorre ao Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro. Merecia mesmo era ganhar o de Melhor Filme.

Fiquei com vontade de ver desde que li a bela e contraditória resenha de Anthony Lane publicada na New Yorker há quase dois meses. Leio a revista há anos, e Anthony Lane há mais tempo ainda (há mais ou menos dez anos, publicaram um livro reunindo várias de suas críticas) e ele nunca tinha ficado daquele jeito. Não entendi, tampouco compreendi sobre o que era mesmo o filme (paixão entre duas meninas, uma delas com o cabelo azul?), mas logo depois dos créditos iniciais, tudo mudou de figura. Azul tem duração de três horas, isso mesmo, como os épicos de Hollywood ou aquelas obras bem cabeça. E muitas cenas são de Adèle respirando — dá pra sentir a sua inspiração da cadeira da sala e só isso já é inquietante — ou comendo a macarronada do pai, que depois ela mesma aprende a preparar (ela falou em entrevistas que o diretor ficou fascinado com o jeito de comer dela, então pode esperar várias cenas de comida).

Também tem muito sexo. Sexo visceral inscrito na intimidade real de duas pessoas apaixonadas. O tempo incomoda. Penso em Rope, de Hitchcock e numa reportagem brilhante e científica sobre o tempo no cinema, publicada numa edição especial da Scientific American. Embora alguns anos estejam compressos nessas três horas (que agora parecem tão curtas), nós os vivemos de forma fluida, como uma narrativa sem fim.

Adèle é o personagem mais bonito do cinema desde Tadzio em Morte em Veneza, de Visconti. Logo que vi o filme, fui buscar na Internet a obra em que teria se baseado e tive uma leve decepção: trata-se uma história em quadrinhos quase, que pode ser comprada aqui na Amazon.fr. Na obra original, o enredo parece mesmo girar em torno do amor adolescente e homossexual entre a menina de cabelo azul e a outra, que apenas começou a se descobrir. Mas no filme é algo maior. O que, exatamente? Se eu precisasse descrever em algumas palavras, diria que é sobre o amor, sobre a transição entre a adolescência e a vida adulta, sobre a comida, sobre os motivos por que estamos aqui. Ou então que é sobre a vida de Adèle, que não deixa de ser, também, a nossa vida. A personagem do livro se chama Clementine. Acho que o diretor mudou o nome propositadamente, já que a atriz também se chama Adèle, e que muito dela transbordou para a tela. Como nas obras de arte de verdade, porque o cinema de Kechiche é mesmo diferente de tudo o que já vimos, eu e… Anthony Lane.

Os 39 Degraus, por John Buchan e Hitchcock

Desenho de Merville Stairs por Dermond McCarthy

Os últimos dias têm sido uma correria mas eu não poderia deixar de falar do livro que li recentemente — e finalmente — Os Trinta e Nove Degraus, de John Buchan.

Escritor escocês, historiador, diplomata, Primeiro Barão de Tweedsmir e uma vez 15o Governador Geral do Canadá, Buchan é bastante prolífico. O romance é o primeiro de cinco a figurar o personagem que se tornaria famoso, Richard Hannay (no início um escocês bem de vida vivendo tediosamente em Londres). O título curioso surgiu quando Buchan estava doente num lar assistencial privado e a irmã de 6 anos começou a contar os degraus da escada que levava à praia. A escada, que se tornaria um presente para o escritor (bem, parte dela), tinha 39 degraus.

Nas mãos de Hitchcock, no entanto, o título é um Mc Guffin — talvez o melhor de toda a obra do diretor. (Clique sobre o link para conhecer mais sobre a técnica narrativa popularizada por ele). Confesso que só resolvi ler o livro por causa da excelente adaptação do mestre do suspense. E o filme, em preto e branco, é um dos primeiros de sua filmografia, ainda da época inglesa — estrelando a já famosa atriz Madeleine Carroll.

A primeira vítima, em Buchan um homem, torna-se nas telas uma mulher — e outras personagens femininas surgem ao longo da trama. O desfecho, que na versão literária obedece a uma combinação ficção/realidade pouco ousada, na hitchcockiana traz uma grande surpresa, e o efeito mcguffiano me faria ler Buchan madrugada adentro.

Cada versão tem seu final, e o melhor é que ambos são ótimos. Vale a leitura!

Leitura Atualizada

Estou terminando de ler Stardust, de Neil Gaiman. Vi o filme há 4 anos e adorei, mas por algum motivo nunca tinha lido a obra. Em papel, pretendo começar a ler neste fim-de-semana meu delicioso presente Femmes Qui Courent Avec Les Loups, de Clarissa Pinkola Estés. E para minha total surpresa, acabo de comprar as versões Kindle de The Dukan Diet e A Practical Wedding, para me preparar para 2013.