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A Estrangeira

Naquela viagem à Colômbia li uma história impressionante. Já conhecia o húngaro Sándor Márai havia pelo menos um ano. Tinha lido As Brasas em versão em inglês (Embers) e ficado extasiada com o talento, a beleza e a profundidade do texto dele. Algo atravessava aquele inglês truncado– imagino que traduzir do húngaro não seja fácil — e alçava o texto para muito além da linguagem. Era também meu primeiro estrangeiro, escritor oriundo de uma cultura, de uma língua, com a(s) qual(is) não tinha qualquer familiaridade. Márai era uma versão mais íntima de Stefan Zweig, também estrangeiro (e suicida).

Encontrei o livro na Librería Lerner, uma das principais da cidade. Edições Salamandra de livros de Márai ocupavam uma bancada especial e lembro que fiquei quase 1 hora escolhendo. Um senhor colombiano passou por mim e disse, rindo: “Pues que la belleza y el intelecto no son todavía incompatibles“. Mas o riso morreu logo. Escolhi La Extranã.

Terminei a leitura em menos de dois dias. O enredo é simples: Viktor Askenasi, húngaro e judeu, viaja para o Hotel Argentina, em Dubrovnik, em busca de liberdade, e ali reflete sobre sua vida aos 47 anos. Mas é o encontro com a estrangeira, la extraña do título em espanhol, que realmente me fascina. A intimidade com o “estrangeiro” é levada às últimas consequências, e de forma irresistível. Nem hoje nem na época saberia dizer o que realmente acontece. Mas a tragédia íntima me fascina.

Há alguns dias, pesquisando sobre as versões traduzidas da obra — infelizmente ainda sem versão em Inglês ou Português — encontrei uma edição em francês da Albin Michel, intitulada: “L’étrangère“. Imediatamente lembrei-me do livro de Camus, L’étranger, e de como fui lê-lo na minha volta ao Brasil, quando encontrei Tomás, que me emprestou seu exemplar. Na época díziamos que éramos estrangeiros que tinham se buscado durante toda uma vida. Não podia ser coincidência — presenteei Tomás com a versão francesa do livro e fechei o ciclo.

Hoje recomeço Márai, em outra língua estrangeira.

As Bibliotecas Falsas

A ideia de bibliotecas falsas surgiu durante a viagem que fiz à Colômbia em 2010. Sozinha num bar em Bogotá perguntei ao garçom o que seria aquela grande sala do outro lado, com os livros grudados às prateleiras. “É uma biblioteca?”. “Sim, mas é uma biblioteca falsa. Não tem livros”.

Toda Colômbia era literatura. Em Cartagena, logo na chegada, dei de cara com o meu alter-ego literário. Subi as escadas para usar o único computador da pousada, que ficava ao lado das duas maiores suítes. Mexi no mouse e apareceu-me uma tela: Malgosia, M-a-l-g-o-s-i-a, respondia em polonês ao e-mail de um dos hóspedes, e embora eu não entendesse nada de polonês, sabia que a assinatura era um diminutivo do seu nome (Malgosia para Malgozarka ou algo assim). E era íntimo. Minimizei a página e fui para o meu e-mail e então um homem abriu a porta de uma das suítes, inteiro nu, suado, e me perguntou num inglês quebrado se eu havia fechado a sua página de e-mail. Disse que não. Ele me pediu que o fizesse e fechou a porta. Comecei a imaginar coisas. Que Malgosia era sua amante e aquele era um e-mail de ruptura, que ela havia marcado um encontro com ele ali, em Cartagena, e depois mudado de ideia. Ou não. Depois eu o vi no lobby do hotel com a esposa jovem, anéis enormes no dedo. Minha personagem favorita havia escrito a seu amante e de alguma forma eu intercambiara a mensagem.

O segundo personagem foi Gabriel García Marquez. Ele estava presente em cada canto de Cartagena, e da Colômbia. Num dos primeiros dias fui tomar um mojito num resort — eu estava hospedada na Casa La Fe, uma pousada católica charmosa. Eles ainda não tinham começado a servir o almoço e o hotel estava às moscas. Na mesa do buffet, encontrei um símbolo de seu famoso livro, Cem Anos de Solidão: uma bacia de gelos incontáveis e mínimos que não derretiam.

O terceiro personagem foi o anjo de Dulce Compañia, de Laura Restrepo. Naquela semana, li também Sandor Marái, mas como a minha relação com o escritor começou muito antes, acho melhor deixar o assunto para outro momento. Descobri o livro numa pequena livraria do aeroporto de Bogotá, antes de tomar o voo para Cartagena. O enredo é o seguinte: uma jornalista de frivolidades é enviada pelo chefe para cobrir o “surgimento” de um anjo num dos bairros mais pobres da cidade. Apaixona-se por ele, com toda a religiosidade em torno do menino, lindo e jovem, e a sugestão de um quadro de esquizofrenia. Um dia, emocionada e confusa, deixei o livro na cadeira de sol e entrei na piscina. Boiei de barriga para baix, imóvel, por um tempo que deve ter parecido interminável. Aí vi um reflexo na água. O funcionário da pousada, assustado, tinha a mão estendida em minha direção: “Pensei que tivesse morrido”, ele disse.