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Paris é para sempre

Madeleine, Paris.

Madeleine, Paris.

Morei na França durante quase um ano mas só visitei Paris cinco vezes em toda a vida. Pouco. Mas muito. Da primeira à última, dos 14 aos 30, vivi tanta coisa diferente ali, com tanta gente! Minha vó e prima tão amadas, meus melhores amigos, o amor da minha vida. Fui para lá na primavera, no outono, no inverno, agora só falta conhecer Paris no verão.

É difícil escrever sobre Paris. Tentei lembrar como pude de todas as viagens. Da primeira, apenas fragmentos, mas desconfio que o relato completo esteja perdido em um dos meus diários antigos. Se encontrar algo mais do que uma lista de obras e artistas (mania que tinha na época), prometo transcrever os trechos aqui. Reservei um post especial para a última visita, com Tomás, em fevereiro de 2012 (que você pode ler aqui). Ainda transbordo de felicidade pensando que ele conheceu a França comigo, seis meses depois de nosso primeiro encontro. Fizemos um pouco de tudo, e mais. Os museus, a vida noturna, uma Versailles deslumbrante em pleno inverno, ópera na Madeleine, Beckett no teatro, vinhos, champanhes, Marais, bistrôs de bairro, Tour Eiffel à meia noite. Dá até para dizer que as visitas anteriores me conduziram a esta.

***

Conheci Paris aos 14. Lembro que chegamos cedo ao hotel e nosso quarto ainda nem estava liberado. Amontoamos nossas bagagens no alto de uma estante, lá na recepção mesmo, e seguimos para o Louvre. Minha vó, prima e eu estávamos exaustas, e ficamos naquela fila interminável, de frente para a pirâmide, comendo os chocolates que havíamos comprado em Londres. Era abril mas estava chovendo, e por muito tempo lembraria de Paris assim. Naquele dia, a Monalisa não me impressionou muito, mas a Grande Esfinge do Tânis, sim. Lembro que minha vó e eu nos sentamos e ela me contou essa história. Pensei em Sófocles e Édipo e pensaria neles depois, ao ler Cocteau. Queríamos ver a Vitória de Samotrácia e a Vênus de Milo, preferidas absolutas da minha avó e, mesmo com toda aquela expectativa, toda aquela antecipação — o grande corredor para uma, a grande escadaria para a outra — fiquei encantada. Até hoje, dão frio na barriga. Como Paris.

Ficamos apenas três dias na cidade. Minhas memórias são inexatas. Caminhando ao longo da Champs Elysées, jantando num restaurante perto do hotel, comprando baguetes na padaria, falando em francês nos pontos turísticos. A Notre Dame. A Queda da Bastilha. O jardim de Versalhes. Um sorvete de bolinhas coloridas comprado na banca de revista. Rodin e seu Beijo, seu Balzac, seu Pensador. Ah, a Place Vendôme! A Tour Eiffel. Os árabes. Os croissants.

Voltei no outono, em outubro, em um dos dias mais bonitos que já vivi na cidade luz. Tomei o TGV de Montpellier e cheguei mais ou menos umas cinco horas da tarde. Meu melhor amigo chegaria de Genebra à noite, e eu tinha o fim de tarde livre. Nem passei no hotel, fui direto da estação para o Pont Neuf e percorri a Rive Gauche com uma lista que outro amigo havia feito especialmente para mim, com os restaurantes, bares, livrarias e espaços não-demarcados que eu precisava conhecer. Ele me disse, por exemplo, que eu deveria ler no Palais Royal. Passei vários dias procurando onde exatamente, até que ele me esclareceu que o seu local preferido não era um lugar.

Andei às margens do Sena, parando em cada uma das barracas dos chamados “bouquinistes” para ver os livros ou os cartões-postais da Nouvelle Vague. Passei pela Sennelier, no Quai Voltaire, e comprei alguns cadernos pretos, de papelão, que uso até hoje para os escritos de ocasião. Na volta, parei na La Palette, onde ele havia me dito que eu devia tomar um Brouilly. Era um pedacinho tão charmoso de Paris, com as lojas de arte, os carros-esporte. E a apenas alguns minutinhos da Shakespeare & Co., a grande livraria de língua inglesa da cidade. Comprei Beginners, de Raymond Carver, obra que também foi publicada sob o título What We Talk About When We Talk About Love. Foi o único livro que li do autor.

Atravessei a ponte mais uma vez, parei num café qualquer para mais uma taça de vinho e aí percorri a Rue de Rivoli, parando na Place de L’Opèra e na fantástica Place Vendôme. O hotel ficava a algumas quadras da Madeleine. Achei a igreja maravilhosa e nem lembrava de tê-la visto na primeira visita. Quando Pedro chegou, fomos jantar e então andamos às margens do Sena, à meia noite. A cada ponte, jovens e belos universitários bebiam diretamente da garrafa, ao lado dos “flics”, gíria francesa para policiais. E eu nem sabia que Paris tinha tantas pontes lindas!

Pedro me mostrou quase toda Paris, a pé. Não fomos a nenhum museu, a nenhuma atração turística, mas comemos e bebemos maravilhosamente bem (recomendo um restaurante em frente à Madeleine, Maison de la Truffe), e andamos, muito. Foram três dias de sol, uma benção para Paris no outono. No meio da tarde, parávamos em um café qualquer para tomar o famoso pastis Ricard. E foi caminhando no Champs Elysées, em direção ao Arco do Triunfo, que conheci a Ladurée, única marca de macarrons de que realmente gosto (e que tem loja lá no JK).

Voltei duas semanas depois, com Amélia. Logo no primeiro dia, fomos ao Café Hugo na Place des Voges,  depois no bar do hotel Ritz — aquele que fica em frente ao Hemingway, que está sempre cheio. Tomamos o drink mais caro de toda a viagem, um coquetel de champanhe de 30 euros. E vivemos uma das experiências mais divertidas e inusitadas: fizemos um verdadeiro book fotográfico no Ritz! Subindo e descendo as escadas, sentadas na poltrona, admirando os quadros. Nem sei como não nos expulsaram dali!

O programa da sexta-feira era o Castelo de Versalhes. O melhor momento foi quando a chuva parou e eles começaram a vender ingressos para os jardins. Eles e suas “grandes eaux” são das coisas de que mais gosto em Paris. Nós passeamos para caramba e temos fotos demais para provar. Havia comprado nossos ingressos para uma peça de Chekov, Tio Vanya. Tinha lido a peça antes de embarcar para a França e estava louca para vê-la em francês. Fomos ao teatro Louis-Jouvet e ficamos muito bem impressionadas, mas o texto era difícil, por isso Amelinha nem aproveitou tanto.

Para terminar a noite, o Polidor. Esse restaurante tem uma história curiosa. Aliás, duas. Uma vem de Hollywood. O lugar ficou famoso depois do filme de Woody Allen, Meia Noite em Paris. Não sei se ele faz uma menção nominal ao lugar em que o protagonista conversa com Hemingway, mas sei que o restaurante desaparece no fim. Na verdade, ele continua lá, na rua Monsieur Le Prince, 75006, desde 1845. Vale a visita. A comida é espetacular, e como Hugo me disse na época, “ultra-parisiense, sem a fama, ou os preços” de outros restaurantes da cidade. A comida era mesmo fantástica, e a atmosfera, Paris de cima a baixo. A garçonete que nos atendeu tinha uns 70 anos, cabelos curtinhos e loiros, antipática. E o banheiro era turco: um buraco no chão. Achando que havia me enganado, perguntei algumas vezes aos funcionários onde eram os toilettes depois, sem dar jeito, voltamos para o hotel — e que gostoso caminhar e se perder por Paris à meia noite!

Mas vale a pena visitar o Polidor, sempre. Voltei lá em dezembro, com Faffy. A nossa viagem foi diferente, por causa do frio e do meu momento — estávamos em quatro. Já morava há quatro meses em Montpellier, mas não havia me adaptado nem ao frio nem a outros aspectos de minha vida francesa. Mas nós fomos ao Louvre, a bons restaurantes e à Notre Dame. Paris sempre deixa saudades. Até na tristeza.

***

Amelinha me pediu para incluir um dos momentos mais divertidos de nossa viagem, na Place de L’Opèra. Tínhamos comprado um daqueles guarda-chuvas bem sem vergonha, que dificilmente duram mais do que um dia. De repente começou a chover pra caramba, todo mundo buscou abrigo embaixo da Opéra de Paris, e nossos guarda-chuvas se desmantelaram no ar. Fizemos de tudo para registrar este momento com uma foto, mas não houve jeito. A chuva, o evento, todo mundo encharcado. Sempre que lembro desse momento, dou risada sozinha, como imagino que Amelinha também faça.

Leituras pra todo dia

Na França, todo mundo lê, até os moradores de rua, lá chamados de SDF - sans domicile fixe

Na França, todo mundo lê, em qualquer lugar.

Aderi há alguns dias a uma corrente literária que está circulando no Facebook. A ideia é simples: oferecer cinco ou mais livros para amigos em sua rede que estejam interessados em fazer o mesmo com as pessoas na redes deles. Você escolhe os livros que vai dar pensando em quem vai recebê-los, e pode entregar em qualquer momento de 2013. Sempre gostei de correntes, e acho que funcionavam muito bem antes do surgimento do e-mail, quando tudo acontecia por cartas. Quem sabe o Facebook não resgata isso?

Bom, a primeira coisa que fiz foi tirar a obrigação, assim todo mundo pode participar, mesmo quem não tem cinco livros para distribuir. E incluí a possibilidade de doar ebooks. Nos Estados Unidos, já é possível emprestar livros para outros usuários ou mesmo oferecê-los de graça na Amazon e estou torcendo para que eles habilitem a mesma coisa por aqui, ou lancem uma nova função de Doação. Quem já lê em ereader, vai receber o meu presente por e-mail, mas o cartão vai ser em papel mesmo, para ficar mais charmoso. Quem lê em papel vai receber um dos meus livros preferidos, hoje acumulando poeira numa mala bem no meio da sala. Já falei deles aqui, mas só para lembrar rapidinho: Contos de Amor e Morte, de Arthur Schnitzler, um de meus autores preferidos dos meus 20 anos; Complete Short Fiction, de Oscar Wilde, numa edição bem velhinha de algumas das histórias mais apaixonantes que já li na vida; The Night of the Iguana, de Tennessee Williams, peça que adoro (também tenho em casa a versão em espanhol); Steppenwolf, do Herman Hesse (vai ser difícil achar destino para esse), Somerset Maugham, e Morte em Família, de James Agee, lançado no ano passado pela Companhia das Letras — também tenho a versão original no Kindle. Certamente encontrarei algum Georges Simenon, Agatha Christie, Julian Barnes para completar a lista.

A lista de leituras para 2013 está crescendo muito. Já li três livros, mas não consigo terminar Other Lives But Mine, do francês Emmanuel Carrère. Optei por ler em inglês mesmo (o original é em francês) porque o livro ia demorar muito para chegar aqui, mas agora me arrependo. Também baixei o exemplar de dois livros de Alyson Richman, The Lost Wife e The Last Van Gogh, alguns Poirot, um novo do Julian Barnes, (Flaubert’s Parrot) e outros recomendados pela Amazon.

E se não bastasse tudo, sei que preciso concluir os dois livros em andamento — aquele sobre a França e aquele de contos. Logo, logo.

Desamparo; Julian Barnes; Agatha Christie e histórias antigas

Julian Barnes e a capa de seu livro The Sense of an Ending. Imagem publicado no site The Telegraph.

Julian Barnes e a capa de seu livro The Sense of an Ending. Imagem publicada no site The Telegraph.

Li há alguns dias The Sense of an Ending, de Julian Barnes, recomendado numa das já saudosas manhãs com gin tônica em Itacimirim. Conhecia Barnes de nome e fama, tinha folheado Arthur & George algumas vezes, mas nada poderia ter me preparado para a leitura dessa novela de pouco mais de 150 páginas. Acabara de ler Beauvoir in Love (veja post sobre o assunto), e voltar para São Paulo, orfã da praia e da Bahia, e meio entristecida. Comecei a lê-lo na quinta ou sexta, terminei no almoço de domingo, e ele me assombrou até a noite de ontem, quando li, do início ao fim, um outro livro excelente de Agatha Christie (mais sobre isso daqui a pouco).

A leitura de Barnes aumentou meu sentimento de desamparo, mas de um jeito bom. Fiquei orfã do livro, dos personagens, do autor, e tinha vezes em que eu queria falar sobre ele, mas não podia. Esse é um dos seus charmes: você não pode falar sobre o livro para alguém que nunca o leu. Você pode dizer que o narrador é uma pessoa comum, que tudo começa como numa história de bar. Tudo o que acontece poderia realmente ter acontecido, e se tivesse acontecido, seria contado exatamente do jeito que Barnes escolheu. Quer dizer, se fosse contado por Tony, porque uma das coisas que aprendemos logo no início é que não tem jeito de escapar da consciência desse narrador. Ah, e quando o livro acaba, começa a angústia, a agonia, uma saudade profunda e indefinida.

A história é sobre quatro amigos de escola, um mais inteligente e estranho do que os outros, mas também é sobre o que acontece com eles depois que entra em cena uma menina rica, inteligente e bonita. O livro oferece algumas interpretações sobre o tempo, uma intimista, juvenil quase, outra indissociável da memória e uma terceira, a do leitor, implacável. O livro investiga o sentido de acumulação (de que Poirot fala em seu grand finale, por incrível que pareça), e de um fim realmente definitivo, que talvez não exista.

Levei dois dias para dar um chega pra lá no desamparo. Ontem, finalmente, li Curtain: Poirot’s Last Case do início ao fim. É o último livro de Agatha Christie com o detetive Poirot, e é excelente. Aliás, excelente é pouco, é o grand finale de um grande personagem, com estilo impecável e timing de mestre. Impossível parar de ler. Li algumas páginas no almoço, retomei a leitura à noite e só fui terminar às 2h30. Órfã, de novo. Ainda bem que tem muito livro de Poirot pela frente.

*

Há alguns dias, redescobri um pen drive com uma série de contos escritos entre 2005 e 2010, em inglês. Um dos contos foi inclusive criado muito antes disso, quando ainda estava na escola. Mas enfim. São histórias de fantasia, ficção científica e até horror (sim, algumas são assustadoras), que compuseram minha “alma” por muito, muito tempo. Os personagens são recorrentes e indissociáveis da minha vida naquela época.

Quando pensei em organizar e publicar meu livro na plataforma Kindle, a ideia era fazê-lo em português e publicar um livro que tivesse tudo a ver com o meu momento França e pós-França. Mas agora não sei mais. Não sei se tenho o direito de abandonar personagens, histórias e sonhos tão queridos e seguir em frente. O desafio será, realmente, voltar a escrever em inglês, nem que seja para revisar os textos e redigir pré e posfácio. Pois — agora vem o bônus — os textos já estão prontos, graças a Deus.

Bertrand; Uma Estrangeira na França

Performance de O Quarteto Azul, uma das obras de Bertrand Gaillard no ano passado. Ele é francês, mas o texto foi escrito em inglês e depois traduzido por outra pessoa.

Uma das secções do novo livro Uma Estrangeira na França será dedicada às pessoas que encontrei durante a viagem. Os “rencontres” servirão de inspiração para os mini-ensaios ou contos, como este abaixo.

Bertrand

Conheci Bertrand nas minhas últimas semanas em Montpellier. No início do ano, havia afixado um anúncio na livraria inglesa Le Bookshop, colocando-me à disposição para aulas de inglês, para tentar financiar minha estada na França. Bertrand só viu meus contatos em junho, quando minha situação monetária já não fazia muita diferença.

Ele falava inglês muito bem, talvez até melhor do que eu, com um perfeito sotaque britânico. No dia de nosso primeiro encontro, chovia bastante na cidade. Encontramo-nos num dos cafés da Place de la Comédie, e acho que ficamos por lá, mas depois nos encontraríamos principalmente na Esplanade Charles de Gaulle, um de meus lugares preferidos em Montpellier.

Artista plástico, professor de francês, Bertrand era um senhor de estatura média, elegante, eloquente, interessado em todas as coisas que também me fascinavam.  Já nesse primeiro dia, falamos de Anaïs Nin, que li e reli compulsivamente dos 19 aos 21 anos, especialmente Delta of Venus. No prefácio ao livro, ela conta sobre a época em que, com um grupo de escritores e amigos, escrevia contos eróticos a $ 1 dólar por página para um senhor rico que dizia contratar o serviço para outra pessoa. A figura dessa escritora jovem, bonita e sem dinheiro, em noites intermináveis com aqueles amigos tão interessantes, deixou-me sonhando por anos a fio. Lembro-me especialmente da passagem inicial de um conto seu, em que a protagonista, no trem, reflete sobre o que espera da viagem que a levará à Espanha. O maravilhoso (le merveilleux).

Ele também vivia imerso numa profusão de idiomas e sentidos, misturando ritmo, cores e palavras estrangeiras em suas apresentações. Fotógrafo, coreógrafo, roteirista, cinegrafista, em suma, um artista. Às vezes conversávamos inclusive em português. Ele insistia em se despedir de mim com “Adeus”, ao que respondia dizendo sempre que nos veríamos de novo.

Seu trabalho mais recente, o Quarteto Azul, tinha texto em inglês, depois traduzido para o francês por uma amiga. “Precisava ser fiel à minha vontade de escrevê-lo em inglês e só pedi para que o traduzissem para que os artistas entendessem o que estava escrito”. Mas o significado das palavras não era nada fora do contexto sonoro. “Uso a língua inglesa como material musical para minhas criações”, explicou.

Nosso encontro foi também uma descoberta. Depois de quase um ano na França, conhecendo gente de todas as nacionalidades, ainda não havia encontrado alguém com quem pudessem, realmente, dividir. Bertrand era um artista maior, inclusive mais prolífico do que todos aqueles que eu havia conhecido antes, tinha lido mais do que eu e era certamente mais inteligente. Mas não tinha nada da falsa intelectualidade – ou modéstia – de alguns, era fluido como suas pinturas, quase uma estrutura francesa de éter.

Suas obras retratavam dançarinos cheios de vida, prontos para pular da tela, exalando erotismo e calor. Mas nosso rencontre, que durou tão pouco, nunca deixou de observar a mais absoluta polidez e distância física.

Ele queria montar um pequeno concerto em português no meu penúltimo dia de França. Conhecia o Pará e amava o Brasil. “É uma língua bonita, sonora. Que me importa se não entendo o que você está dizendo? Primeiro sentir, depois entender. Leia seus textos em voz alta. Escolha um deles”.

Nosso concerto nunca aconteceu porque voltei muito tarde de uma viagem à Riviera Francesa. E ele me escreveu. “A vida nunca é aquilo que esperamos. Espero que você esteja feliz sob as palmeiras de Cannes. Adeus”.

A janela de Javier Marías; Free New Yorker App

Capa do livro Mientras Ellas Duermen, de Javier Marías. Edição da Anagrama

Meu primeiro contato com Javier Marías aconteceu nas aulinhas de espanhol, há uns 5 anos, lá na Cultura Española da Al. Santos. A professora nos apresentou um texto incompleto e pediu que criássemos um fim. Tratava-se na verdade de um capítulo do livro Corazón tan Blanco, um dos mais famosos do escritor. Um homem em lua de mel olha pela janela do hotel e vê uma mulher, de salto, gesticulando progressivamente, com o dedo em riste apontando para a janela dele. Os outros três alunos escreveram sobre o possível encontro entre os dois. Na minha história, no entanto, a mulher se dirige ao quarto ao lado e mata o hóspede vizinho. O homem a vê fugindo pela escada mas eles nunca têm qualquer interação. No original de Marías, também, o homem procurado não é ele, é um engano do início ao fim, e o protagonista ouve uma briga de casal, que trará consequências para o seu próprio casamento.

Apaixonei-me por Marías. Comprei quase todos os livros dele. El Hombre Sentimental, Mañana en la Batalla Piensa en Mí, Todas las Almas, Negra Espalda en el Tiempo e, principalmente as coletâneas de contos Cuando fui Mortal e Mientras Ellas Duermen. Gosto dos contos mais do que tudo. Como em Corazón, em Mientras ellas Duermen, há também um turista e uma janela e alguém que ele observa. Neste caso, um casal, uma jovem linda de seus 20 anos e um homem de meia idade gordo. O turista acompanha-os com os olhos, interrogando-se sobre quem são e o que fazem ali, e por que aquele homem gordo insiste em registrar cada movimento da menina. Depois, ele encontra o homem à beira da piscina e descobre que estão hospedados no mesmo hotel. Enquanto elas dormem, eles conversam e algumas revelações são feitas. A curiosidade do turista não o deixa interromper a conversa, nem mesmo quando a sua própria mulher aparece na janela, com uma expressão de terror.

Posso dizer que essa janela e esses personagens acompanharam toda a minha vida de leitora, escritora e turista. E quando no ano passado meu pai voltou da viagem de Cannes com uma foto de dois locais no momento em que cruzam a rua,  pensei: “é a janela de Javier Marías”. Toda noite, ele ia para a janela com a sua câmera e começava a fotografar. Acho que nem ele entende direito por que gosto tanto da foto, nem mesmo depois de eu contar a história de Mientras ellas Duermen. A foto servirá de capa para meu livro no Kindle e pode ser vista aqui.

Para os que quiserem ler Marías, a Alfaguara e a Anagrama publicam em espanhol. Em inglês, a Penguin acaba de anunciar nova coleção. E na Amazon.com, você pode encontrar a versão ebook de vários dos livros — mas apenas em inglês.

Curtas:

A New Yorker acaba de anunciar seu aplicativo gratuito para iPhone — disponível mesmo para aqueles que têm conta Apple brasileira, como eu. Ainda está com alguns bugs — sou assinante e até agora não consegui logar — mas recomendo muito, principalmente para aqueles que não são assinantes. Edição atual tem download de graça. Para saber mais sobre isso, é só entrar no link abaixo.

New Yorker App disponível para download no iPhone – grátis!

Amazon (+ consumidor) x Apple, editoras, livrarias etc

Capa da New Yorker de 25 de junho, que só chegou na minha casa agora. Pode?

Recebi hoje, com atraso, a New Yorker de 25 de junho (isso mesmo), mas encontrei uma reportagem que não tinha visto na edição online: Paper Trail: Did Publishers and Apple Collude Against Amazon?

A matéria, de Ken Auletta, é excelente, e embora não esteja aberta para não assinantes, vale a compra (pelo próprio site da New Yorker). Ainda que o autor simpatize ligeiramente com a premissa das editoras e livrarias, os argumentos são muito bem equilibrados e o texto é rico em possibilidades. A grande questão gira em torno de algumas medidas adotadas por Apple e editoras para combater os preços “predatórios” (e baixos) praticados pela Amazon. Na justiça, a Amazon e o consumidor saíram ganhando.

Será que isso compromete o mercado? Qual o futuro do livro? (Depois entra em jogo outra questão, sobre a briga dos gigantes Amazon, Apple, Google, Microsoft e Facebook, que exigiria um novo post).

Outro dia passei uma hora conversando com um dono de editora brasileira. Perguntei por que ele acreditava no modelo de papel (como chamo o tal “agency model”) e ele me respondeu que não acreditava no eBook. Contra-argumentei que se o modelo tradicional era tão bom, havia de ter outros aspectos positivos além dos defeitos do alternativo. E ele me disse: não precisa recarregar.

Na França, na Universidade de Montpellier, fomos obrigados a escrever sobre o assunto umas três vezes, com argumentos literários, filosóficos, práticos, mas a verdade é que ninguém, nem professores indignados nem editoras preocupadas com o lucro, conseguiu me dizer de onde veio a ideia de que uma alternativa exclui a outra, necessária e progressivamente. O livro de papel não vai acabar, mas não vai mesmo. Seu fim tem sido anunciado desde a criação do fonógrafo e até agora não vingou. Mas o próprio mercado de livros já se reinventou várias vezes. Os paperbacks, que continuam respondendo por uma grande fatia do mercado, acompanharam uma evolução da pirâmide sócio-econômica. Com o eReader, o livro deve chegar a mais gente (isso mesmo), e os ebooks devem comer mercado do paperback. Nada mais natural e melhor para os leitores. Continuarei comprando lindas edições em papel, em capa dura, que ficarão para filhos e netos, mas vou ler mesmo é no Kindle (ou em outro eReader, se inventarem algo melhor).

Agora, considerando o Kindle Direct Publishing, um ponto vale a reflexão. Entre outros argumentos, diz-se na matéria que o agency model financia(va) os escritores profissionais, que recebiam adiantamento pela obra e podiam se concentrar exclusivamente na escrita, e assim produzir livros de qualidade. Isso é verdade, mas não são todos os escritores que gozam dessa oportunidade desde o início. E, quem sabe, a Amazon um dia poderá oferecer a mesma coisa. O que importa é que o escritor, como o leitor, ganha novas alternativas. As próprias editoras poderão comprar, diretamente do marketplace da Amazon, os direitos para publicar a obra impressa, pagando para royalties para Amazon e escritor, numa transação 100% online. E se o mercado se torna mais competitivo, ele também cresce…

Uma Morte em Família

Capa de Uma Morte em Família, (Companhia das Letras, 2012)

Escolhi Uma Morte em Família, do escritor americano James Agee, para iniciar um projeto aqui no Blog. O livro, que ganhou um Pulitzer póstumo em 1958, acaba de ser lançado pela Companhia das Letras, com tradução de Caetano Waldrigues Galindo. A edição em Português deve chegar hoje lá em casa, mas já comecei a ler o ebook no Kindle. Muito querida pelos leitores americanos, a obra é pura poesia… e tem trechos bem difíceis para os não-nativos. O inglês coloquial das classes mais baixas e as descrições do ponto de vista da criança — o menino Rufus, ponto focal da história, alterego e nome do meio de Agee — me deixam curiosa para conhecer a tradução.

He reached up for him and took him, and faintly recalled, as he gave him comfort, a multitude of fire-tipped candles (and bristling needles) and a strong green smell, a dog more gaily colored and much larger, over which he puzzled, and his father’s huge face, smiling, saying, ‘It’s a dog’. His father too remembered how he had picked out the dog with great pleasure and had it given it too soon, and here it was now too late

A ideia é contrapor, aqui, trechos originais aos traduzidos, sem qualquer aspiração a uma análise aprofundada. O livro me conquistou já nas primeiras páginas, com a bela narrativa da última noite do menino com o pai.

Ao fim do passeio noturno, os dois se sentam no cantinho especial, uma rocha a meio km de casa. O silêncio vai crescendo aos poucos e culmina com um carinho do pai, descrito suave e cuidadosamente como o selo do pacto entre os dois. Voltam sem dizer uma palavra e, naquela noite, Jay recebe o telefonema sobre o seu pai. Sonolento, Rufus ouve a conversa dos pais mas não entende muita coisa. O pai vai embora sem se despedir, porque tem certeza de que estará de volta na noite seguinte. A vida do menino — e escritor — passa a girar em torno dessa despedida antecipada.