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Despedida em Paris; Como comprar (melhor) na Amazon; Bolaño e os escritores de contos

Café La Palette, na Rive Gauche, em Paris

Café La Palette, na Rive Gauche, em Paris

Há alguns dias, tive uma ideia para um livro curto, um “short novel”, como dizem os americanos. A ideia ainda é bastante incipiente, e surgiu enquanto eu lia Beauvoir in Love, de Irène Frain. Queria imaginar como seria a nossa despedida de solteiro (minha e de Tomás, juntos), em Paris, cidade que está me dando a maior saudade. E como narraríamos essa despedida, imaginando, descrevendo e vivendo o passo a passo. Talvez o livro nunca vá além dessa ideia, mas por enquanto gosto bastante dela.

Ah, e este era o post que estava “protegido” há alguns dias e hoje resolvi publicar para todo mundo:

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Era a nossa primeira vez em Paris na primavera. Deixamos as malas no hotel, na Madeleine, e começamos o tour. Atravessamos o Pont Neuf e tentamos percorrer os caminhos da Rive Gauche que havíamos feito, rapidamente, mais de um ano antes. Eu usava uma maquiagem discreta e um daqueles vestidos pretos sequinhos, o cabelo preso para trás, a câmera Lomo no colo. Tirei da bolsa dois cadernos pretos idênticos e pequenos, com capa de couro, sem pauta. Entreguei um deles para você. Nelson Algren havia feito a mesma coisa com Simone de Beauvoir mais de cinquenta anos antes. Foi assim que eu tive a ideia para a nossa despedida em Paris. Sentados no Café La Palette, você escreveu o meu nome na primeira página de um caderno, e eu escrevi o seu no outro. Ao longo do dia, escrevemos, ao mesmo tempo, sobre coisas muito diferentes, por exemplo, eu tentei adivinhar o que o casal do outro lado da rua discutia, já você comentou sobre a menina loira de vestido florido a algumas mesas da nossa. Depois você disse, “como você está linda”.

Toda manhã nós trocávamos de caderno, até que um dia cada um de nós ficou com o caderno com o próprio nome. Era uma dedicatória à nossa primeira despedida de amor, de solteiros. E agora, abrindo o caderno, eu leio…

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Como todo mundo que lê esse blog sabe, faz quase dois anos que eu leio — e muito — no Kindle. Geralmente leio em inglês mesmo, porque me identifico bastante com a literatura anglófona, mas também leio bastante em francês, português e espanhol. Quando comprei meu primeiro Kindle, a Amazon ainda não tinha loja na França, e mesmo assim nós leitores podíamos encontrar obras da literatura clássica francesa (meia dúzia de boas almas havia feito o upload dos livros em domínio público). Logo que foi lançada, a loja oferecia principalmente livros comerciais (e muitas vezes americanos) traduzidos para o francês, livros que eu provavelmente leria (ou lia) em inglês mesmo. Mas há alguns dias descobri que livros nacionais, publicados recentemente, já estavam sendo vendidos na Amazon.fr. Inclusive o livro de Emmanuel Carrère, D’Autres Vies que la Mienne (leia post aqui), que terminei de ler, em inglês, há pouquíssimos dias. Fui tentar comprar e não consegui, porque para isso são necessários dois passos simples (pero no mucho): mudar a configuração de país para França (o que eu fiz prontamente) e transferir a sua conta para a Amazon.fr (o que eu não fiz).

Se até agora não mudei minha conta para Amazon.com.br, certamente não mudaria para a Amazon.fr por impulso. Mas aquilo foi me deixando bem chateada com a Amazon, que é uma de minhas empresas — e plataformas — preferidas no mundo todo. Desde que a loja brasileira foi lançada, vários livros da loja americana se tornaram indisponíveis para residentes no Brasil, por causa do gerenciamento de direitos autorais feito pelas editoras. The Hobbit, livros de Julian Barnes, Agatha Christie e da trilogia de Cinquenta Tons. Isso sem falar nos audiobooks. Decidi conversar com um dos atendentes por chat e ele me sugeriu o que eu nunca havia tido coragem de fazer: mudar a minha configuração de país para Estados Unidos.

Basta mudar para Estados Unidos, e todos os livros — e ebooks — ficam disponíveis de novo. Em teoria, você também pode transferir e retransferir sua contas quantas vezes quiser (de Amazon.com para .com.br para .fr) e tudo volta ao normal. Se tomar coragem de fazer isso, aviso!

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No site da Paris Review (e em tom de brincadeira), Roberto Bolaño dá dicas a quem quer escrever contos: quem ler e quem não ler, com uma ênfase toda especial em Poe. (Leia aqui). Impossível não lembrar do que Alessandro Baricco disse na Flip de 2008: “quando escrevo ficção, não leio ficção”.

Uma vida que não é a sua; Saudade de quem nunca conheci

Literatura Estrangeira, na Livraria da Vila do Shopping JK.

Literatura Estrangeira, na Livraria da Vila do Shopping JK.

Finalmente terminei de ler D’Autres vies que la mienne (em inglês, esta versão aqui), do escritor francês Emmanuel Carrère. A proposta do livro é encantadora: um escritor francês narra em primeira pessoa dois episódios bem íntimos que acontecem a outras pessoas: a morte de uma menina durante o tsunami de 2004, no Sri Lanka, e a morte de uma mulher jovem, lutando contra o câncer, em uma cidadezinha da França. Como ele mesmo diz, «À quelques mois d’intervalle, la vie m’a rendu témoin des deux événements qui me font le plus peur au monde : la mort d’un enfant pour ses parents, celle d’une jeune femme pour ses enfants et son mari.» (Em apenas alguns meses, a vida me fez testemunha dos dois eventos que mais me causam medo no mundo: a morte de uma criança, por causa de seus pais, e a morte de uma mulher jovem, por causa de seus filhos e marido).

Acho que algo se perdeu na tradução. Dá para sentir que alguns trechos devem ser mais poéticos no original, e que outras construções e metáforas fariam bem mais sentido em francês. Mas se o livro tivesse sido bem construído, a impossibilidade de tradução seria mero detalhe. Chamou a atenção o egoísmo do narrador na primeira parte do livro, em que ele narra a morte de uma criança francesa no meio da tragédia do tsunami. Parece que o pano de fundo é menos a tragédia do que a provação por que seu relacionamento passa naquele momento: a separação é iminente, e ao mesmo tempo a possibilidade de ter um filho com ela não é descartada. O personagem mais forte, e que não sofre tanto com a displicência egocêntrica do narrador, é Phillipe, avô da pequena Juliette.

A segunda parte é confusa, com descrições intermináveis e desnecessárias sobre como funciona o tribunal de pequenas causas na França, e o trabalho tão importante conduzido por Juliette — esta com 33 anos — e Étienne. Gostei da amizade dos dois, mas as referências à incompatibilidade sócio-econômica e intelectual entre cada um deles e seus respectivos cônjuges me incomodou, pois aí, em vez de torná-los mais fortes, o câncer se tornou uma espécie de deficiência que eles tiveram de compensar de outras formas. Tampouco acredito na dicotomia entre amor físico e intelectual que Carrère quis ilustrar aqui: Juliette só consegue conversar de verdade com Étienne, mas guarda um amor afetuoso pelo marido, Patrice. Não creio nesse amor que serve tão bem a narrativas literárias, e tampouco credito as pessoas por trás dele. O amor verdadeiro é complexo e completo, e mesmo nossos amores marginais não merecem ser divididos dessa forma.

O autor fala muito de si, e tem cuidado para revelar apenas o que os personagens desejam que revele. De certa forma, o título é desconstruído a cada instante, pois a vida que não é dele acaba sendo um livro em que ele só fala de si.

Mas se o livro vale a pena — toda boa literatura incomoda — desconfio que seja por causa de uma passagem bem curta em que Carrère fala sobre o que as meninas sentirão depois que Juliette se for. Saudade, pois mesmo as pessoas que não conhecemos, ou com quem passamos um tempo curtíssimo de vida, continuam a viver dentro de nós. E essa mistura de amor e saudade, palavra que não existe nem em francês nem em inglês mas que brotou das páginas do livro, é o que fica da leitura. O sofrimento das pequenas Diane, Amélie e Clara  tem mais verdade e literatura do que todo o projeto de Carrère, e em alguns parágrafos de seu livro, eu finalmente entendi o que é essa saudade de ausência que sinto do meu avô há tanto tempo, esse meu avô que nunca conheci mas que me ampara nos momentos mais tristes.

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Emmanuel Carrère participou da Flip em 2011.

Leituras pra todo dia

Na França, todo mundo lê, até os moradores de rua, lá chamados de SDF - sans domicile fixe

Na França, todo mundo lê, em qualquer lugar.

Aderi há alguns dias a uma corrente literária que está circulando no Facebook. A ideia é simples: oferecer cinco ou mais livros para amigos em sua rede que estejam interessados em fazer o mesmo com as pessoas na redes deles. Você escolhe os livros que vai dar pensando em quem vai recebê-los, e pode entregar em qualquer momento de 2013. Sempre gostei de correntes, e acho que funcionavam muito bem antes do surgimento do e-mail, quando tudo acontecia por cartas. Quem sabe o Facebook não resgata isso?

Bom, a primeira coisa que fiz foi tirar a obrigação, assim todo mundo pode participar, mesmo quem não tem cinco livros para distribuir. E incluí a possibilidade de doar ebooks. Nos Estados Unidos, já é possível emprestar livros para outros usuários ou mesmo oferecê-los de graça na Amazon e estou torcendo para que eles habilitem a mesma coisa por aqui, ou lancem uma nova função de Doação. Quem já lê em ereader, vai receber o meu presente por e-mail, mas o cartão vai ser em papel mesmo, para ficar mais charmoso. Quem lê em papel vai receber um dos meus livros preferidos, hoje acumulando poeira numa mala bem no meio da sala. Já falei deles aqui, mas só para lembrar rapidinho: Contos de Amor e Morte, de Arthur Schnitzler, um de meus autores preferidos dos meus 20 anos; Complete Short Fiction, de Oscar Wilde, numa edição bem velhinha de algumas das histórias mais apaixonantes que já li na vida; The Night of the Iguana, de Tennessee Williams, peça que adoro (também tenho em casa a versão em espanhol); Steppenwolf, do Herman Hesse (vai ser difícil achar destino para esse), Somerset Maugham, e Morte em Família, de James Agee, lançado no ano passado pela Companhia das Letras — também tenho a versão original no Kindle. Certamente encontrarei algum Georges Simenon, Agatha Christie, Julian Barnes para completar a lista.

A lista de leituras para 2013 está crescendo muito. Já li três livros, mas não consigo terminar Other Lives But Mine, do francês Emmanuel Carrère. Optei por ler em inglês mesmo (o original é em francês) porque o livro ia demorar muito para chegar aqui, mas agora me arrependo. Também baixei o exemplar de dois livros de Alyson Richman, The Lost Wife e The Last Van Gogh, alguns Poirot, um novo do Julian Barnes, (Flaubert’s Parrot) e outros recomendados pela Amazon.

E se não bastasse tudo, sei que preciso concluir os dois livros em andamento — aquele sobre a França e aquele de contos. Logo, logo.