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O livro mais lindo do ano

Ilustração do episódio bíblico de Emmaüs.

Ilustração do episódio bíblico de Emmaüs, do qual o livro toma emprestado o nome.

Terminei de ler hoje Emmaüs, de Alessandro Baricco, escritor italiano que conheci na Flip de 2008 ou 2009, agora não lembro mais. Foi o livro mais bonito e mais longo dos últimos meses. Tem 100 e poucas páginas mas levei semanas para ler até o fim. A história gira em torno de cinco adolescentes: quatro garotos celibatários, que se revezam no trabalho com a igreja e num hospital para pobres e uma menina, Andre — tão jovem quanto eles, meio madona, meio prostituta, a quem o narrador atribui uma masculinidade latente. Aliás, na língua italiana, Andrea é um primeiro nome de homem, e Andre sequer existe, o que traduz tanto a virilidade da personagem como as liberdades tomadas pela sua família rica.

Praticamente nada acontece da abertura até quase o fim — e deve ter sido por isso que o li em momentos etéreos de semi-sonolência. Ia dormir com a imagem de Andre e dos quatro adolescentes condenados na cabeça, e na noite seguinte pouca coisa havia mudado. Mas aí, de repente, o narrador nos contava como Andre havia tentado o suicídio pela primeira vez, ou nos surpreendia com uma cena de amor: Andre e dois dos quatro rapazes, na cama, com toda aquela carga e expectativa adolescente, e muita poesia, muito erotismo. Custei, também, a entender a virilidade de Andre. Era a sua independência, sua mortalidade, sua sexualidade. Em um dos momentos, o narrador diz que a sua beleza e virtude se concentrava no rosto e afirma, certamente sem acreditar muito, que ninguém prestava atenção ao seu corpo. O seu corpo nada mais era do que “um jeito de ser, de se apoiar, de ir-se”. Em outro trecho enfatiza justamente que, do lado de fora dos banheiros, “ela se apoiava contra o muro”, para esperar os homens que se sucediam “uns após os outros”.

Desde a primeira página encontrei várias semelhanças entre a obra e The Sense of an Ending, de Julian Barnes, que li em janeiro. Foram os dois livros que mais gostei de ler no ano, o que certamente influencia e potencialmente deturpa minha percepção sobre eles. Enquanto os jovens de Baricco aspiram a uma religião pura, os de Barnes aspiram a uma intelectualidade superior. A mulher, em ambos os livros, fascina a todos, com uma pequena diferença. Andre não é Veronica, a protagonista feminina de The Sense, mas Adrian, que também se reflete parcialmente no Santo, de Baricco. E nós temos a certeza de que o narrador de Emmaüs está dizendo a verdade, mesmo quando ele não sabe qual ou o que é a verdade. Já no caso de Tony, a verdade só aparece no fim e a despeito dele. Ah, se pudesse mentir!

Talvez a coisa mais impressionante seja o fim do livro de Baricco, pois as últimas cenas são as mais vívidas de toda a narrativa. Como se todo o livro fosse uma preparação a elas, àquele momento em que, como no episódio bíblico de Emmaüs, a verdade fica clara. Nós não somos mais tão jovens e finalmente compreendemos.

A perigosa arte de viver a ficção na realidade

Dentro de Casa, novo filme de François Ozon, baseado na peça El Chico de La Última Fila de Juan Mayorga (Foto Divulgação)

Cena de Dentro de Casa, novo filme de François Ozon, baseado na peça El Chico de La Última Fila, de Juan Mayorga (Foto Divulgação)

Há dias pensava em escrever sobre as delícias — e os perigos — de viver a ficção na realidade, mas não conseguia pensar em uma obra que abordasse o assunto do jeito que queria. Tenho certeza de que este é o tema implícito de todo livro, filme, peça de teatro, música, novela, de qualquer narrativa semi ou inteiramente fictícia e de que provavelmente elas só existem para isso e são fundamentais, inclusive, para manter nossa sanidade intacta e conter a realidade dentro de nosso tempo. Por isso, talvez, tanta gente se preocupe com a saúde do autor George R. R. Martin, como um amigo nos explicou nesse fim de semana. Dela depende a continuidade da famosa série Crônicas de Gelo e Fogo. O que seria de milhões e milhões de fãs se não pudessem conhecer o fim da história?

O novo filme de François Ozon vai um pouco além dessa curiosidade. A ideia, aqui, é mesmo privilegiar a continuidade pela continuidade, e inscrevê-la no fluxo da própria vida. Ozon é um grande autor de cinema. Acho que seus filmes mais conhecidos aqui no Brasil são Swimming Pool e 8 Femmes (8 Mulheres). Mas eu tinha acabado de mudar para Montpellier quando Potiche – A Esposa Perfeita entrou em cartaz. Adorei. Fabrice Luchini, Catherine Deneuve e Gérard Depardieu, juntos. Luchini é tão bom, tão bom que ainda dou risada quando lembro de As Mulheres do Sexto Andar (Les Femmes Du Sixième Étage), que fui ver sozinha no meio da semana num cinema de bairro cheirando a pó da cidade francesa.

A premissa é simples mas arrebatadora — escolhi o filme quando li a sinopse naquele folheto de porta de cinema. Luchini é Germain, um professor de francês de colegial, entediado com a mediocridade dos seus alunos. É casado com Jeanne, interpretada por Kristin Scott Thomas. Ela trabalha numa galeria de arte que está com os dias contados — e vende arte ou muito erótica ou muito moderna, ou as duas coisas. A história começa assim: ela volta do funeral do suposto dono da galeria e o encontra corrigindo o dever de casa dos alunos. Ele havia pedido que escrevessem sobre o fim de semana, e quase todos falam da televisão, do celular, da pizza — e ele lhes dá notas baixíssimas. Mas Claude Garcia começa uma narrativa sobre como finalmente entrou na casa de seu amigo Raphael Artole, descreve o perfume característico da mulher de classe média e termina assim: Continua.

Germain decide dedicar horas extras do dia a Claude e ensinar-lhe sobre a literatura. Empresta-lhe livros, dá aulas extras sobre o motivo literário, incorre em pequenos e grandes delitos para garantir que a história, bem, continue. Lê com avidez cada novo capítulo do que se passa Dentro da Casa de Raphael, ao lado da esposa, que também entra na brincadeira. Ninguém mais sabe o que é verdade e o que é ficção, o que é manipulação de Claude e o que é literatura no que tem de melhor, tudo o que é importa é a narrativa pela narrativa, e que não acabe nunca.

Não poderia concordar mais com a premissa de uma Scheherazade e um sultão de meia idade, e reconheço um pouco de mim em Claude e Germain, tão indispensáveis para qualquer história. No enredo do filme, a dosagem da ficção ganha proporções trágicas, e talvez seja sempre assim quando a parte mais importante de nossas vidas começa a ser ocupada por outro tipo de narrativa. A pergunta, então, poderia ser: quando parar?

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A peça em que o filme é baseado, El Chico de La Última Fila, pode ser lida na Internet, neste link. A adaptação é bastante fiel e o texto original, muito bom.

Emmanuelle Seigner, a bela e banal esposa de Roman Polanski, interpreta Esther, por quem o jovem Claude é obcecado. Eu a considero uma das mulheres mais bonitas de todos os tempos.

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E já que estamos falando em narrativas, acho que vale mencionar que a sexta temporada de Mad Men já está disponível para download na Apple Store (para usuários americanos). Bom, por enquanto, apenas os 2 primeiros — e maravilhosos — episódios. Estou adorando. Não existe narrativa mais elegante — em estilo e literatura. E acho Don Draper um dos melhores personagens dos últimos tempos.

Ainda estou terminando de ler Emmaus, de Baricco, e engatei no segundo livro da trilogia Fifty Shades. Mas quase não tenho tido tempo para ler.

Comentário sobre o Universo (e além)

Jim Holt com uma xícara de café -- que ele tanto aprecia...

Jim Holt com uma xícara de café — que ele tanto aprecia…

Foi uma resenha publicada há mais de seis meses que animou o meu dia hoje. “Why Does the World Exist“, de Jim Holt, foi lançado no meio do ano passado, mas por algum motivo só fiquei sabendo do livro hoje, em uma crítica de Dwight Garner, do New York Times (leia aqui). Depois de dois ou três parágrafos, já tinha certeza de que se tornaria um de meus livros preferidos do ano, e exatamente aquilo que eu vinha buscando. Lembrei na mesma hora de almoços filosóficos com a família, que ainda acontecem às vezes, mas eram muito frequentes há uns 10 anos. Meu pai nos colocava a par das mais recentes descobertas da ciência, das obras mais vendidas de física quântica, e leigos que éramos (e somos), nós retrucávamos em pé de igualdade. Houve uma época da minha vida, talvez dos 20 aos 25 anos, em que só a física quântica ou a sua filosofia muito particular me trazia paz. Minhas ficções emanavam todas de gordos livros de capa dura de cientistas do show biz americano e eu tinha os sonhos mais espetaculares à noite. Uma vez sonhei que conversava com Einstein. E, no dia seguinte, passei a tarde toda com um livro de Richard Feynman, calculando, em distância, o tempo que me separava de um certo homem.

Esse uso arbitrário da literatura científica pode até não ser muito nobre, mas cumpria com o que acredito ser o dever principal da ciência: provocar a imaginação.

Dwight, por exemplo, não é inteiramente elogioso a Holt, mas a verdade é que se diverte inclusive quando parece repreender o hedonismo do autor. E o fato de Holt gostar tanto de descrever suas refeições ou sucumbir sem muita resistência ao champanhe provavelmente o aproxima mais da resposta primordial.

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O blog fez um ano no dia 15 e eu não escrevi um único post comemorativo. Tampouco vim aqui avisar que a Amazon já começou a vender o Kindle Paperwhite — o melhor eReader de todos os tempos, sem sombra de dúvida — aqui no Brasil. É caro — a versão Wifi custa R$ 479 — mas acho que vale a pena para quem não viaja muito. Para quem está curioso, é só clicar no link — os pontos de venda são Ponto Frio e Livraria da Vila.

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Um update rápido sobre os livros — estou lendo Emmas, de Alessandro Baricco, em francês. E gostando demais. O tema do livro parece ser o mesmo de The Sense of an Ending, uma das obras que eu mais gostei de ler nesse ano.

Não consegui terminar The Falls. Ainda.