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Uma Estrangeira na França: Meu Primeiro Livro Kindle

Ontem finalmente publiquei meu livro pela KDP, a plataforma de autopublicação da Amazon. Foram meses e meses de espera, pensando se deveria ou não terminar a versão em português antes para oferecer uma versão bilingue ou ainda incluir outros textos, em francês. Será que não era curto demais? Ou pedante demais? Publicar assim em francês quase três anos depois da minha volta ao Brasil?

Contei com a ajuda da minha antiga professora Marie-Laure Bousquet, do Instituto IEFE, em Montpellier, para organizar e revisar meus textos, produzidos durante o atelier de escrita da Universidade. Trata-se de uma primeira investigação sobre o estrangeiro na literatura francófona (depois explico mais sobre o projeto e sobre a capa). O livro tem apenas 25 páginas, e está disponível em todas as lojas da Amazon (veja aqui os links para venda na loja brasileira, francesa e americana).

Publicar é necessário. E hoje estou muito, mas muito feliz em ter colocado essa obra diminuta “no ar”. A plataforma de autopublicação da Amazon é um sonho. Mesmo. Tão simples, tão didática, tão intuitiva que não dá para entender como algumas editoras conseguem subir livros com tantos erros (de diagramação, digitação e, olha, até gramática e concordância). Quer mudar alguma coisa na capa? No texto também? A KDP converte seu arquivo HTM ou HTML (que nada mais é do que um .doc ou .docx limpo e bem formatado salvo como HTML) na hora, e o seu produto é atualizado algumas horas depois na loja. Dá para publicar em todas as lojas do mundo e até especificar preços ligeiramente diferentes para lojas-chave e escolher o regime de royalties (obedecendo, é claro, a algumas regras pré-estabelecidas). Acho que a autopublicação promete mudar a forma como produzimos e consumimos literatura, que nada mais é do que estender a uma esfera dita mais nobre o que já está acontecendo em todas as outras. E fico sem dormir de tão excitada só de pensar em tudo o que podemos fazer quando participamos ativamente de todas as etapas de produção e consumo de arte e conhecimento.

O site é extremamente didático (só clicar aqui). Quem usa Mac (como eu), pode ter algumas dificuldades ao formatar o índice, mas nada que não seja resolvido depois de ver alguns tutoriais na Internet. O livro fica mesmo disponível em poucas horas e recomendo a todos que têm algum texto guardado na gaveta que experimentem. Publiquem um capítulo, um teaser — há vários contos de dez páginas publicados como Kindle Single. Não custa nada.

Meu caso de amor com Camus

Clara Paget na belíssima adaptação de Tom Beard de The Sea Close By (La Mer au Plus Près). Iniciativa incrível da Penguin para comemorar o centenário de Camus

Clara Paget na belíssima adaptação de Tom Beard de The Sea Close By (La Mer au Plus Près). Iniciativa incrível da Penguin para comemorar o centenário de Camus

Às vezes a gente se apaixona por um livro e começa um caso com ele. Há quatro dias estou namorando The Sea Close By (La Mer au Plus Près na versão original). Foi amor à primeira vista. Estava na Livraria Cultura por acaso, fazendo hora para a minha aula da pós, quando notei um livrinho caseiro e barato, daqueles que dava para imprimir em qualquer gráfica. Logo vi que devia se tratar de uma iniciativa incrível da Penguin, que com seus paperbacks liderou a popularização da leitura (e literatura) em nosso vasto mundo.

Logo me dei conta da qualidade arrebatadora da tradução. Esse é um tema que me fascina e um dia pretendo estudá-lo a fundo, mas leio mesmo é no original (menos quando não dá, né?). Aqui foi a exceção. Fui atrás do texto em francês, no Kindle, e aí descobri uma porção de coisas. A Penguin escolheu dois capítulos de dois livros distintos, L’Été, onde Camus originalmente publicou La Mer au Plus Près  e Noces, onde publicou L’Été à Alger. O belo The Sea Close By é o último capítulo de L’Été, mas aqui ele abre a diminuta seleção, e em grande estilo: “I grew up in the sea and poverty was sumptuous, then I lost the sea and found all luxuries grey, and poverty unbearable”. Em francês: “J’ai grandi dans la mer et la pauvreté m’a été fastueuse, puis j’ai perdu la mer, tous les luxes alors m’ont paru gris, la misère intolérable”. Decidi que compraria os pequenos paperbacks e a coletânea completo no Kindle. Mas não parei por aí.

Essa edição da Penguin apareceu em agosto, em comemoração ao centenário de Albert Camus (que nasceu em 07 de novembro de 2013). Em setembro, a editora lançou um filme dirigido por Tom Beard e estrelado pela modelo e atriz Clara Paget, que é lindo, para dizer o mínimo (é só clicar nesse link para assistir). Aí que desde segunda eu leio e releio o texto em inglês e em francês, vejo e revejo o filme e comecei até a gravar o primeiro trecho, que é também o mais bonito e poético, com o qual eu mais me identifico. Não é todo dia que descobrimos um livro que tem tanto a ver com a gente, de um escritor que nos fascina — e arrebata — desse jeito. Descobri Camus há 2 anos, quando voltei da França. Coincidência ou não, estudava o estrangeiro na época mas ainda não tinha lido uma única linha do autor. L’Étranger foi um dos livros que mais me impressionaram. Cada vez que lia “Cela ne veut rien dire”, alguma coisa pulsava dentro de mim. Por que levei tanto tempo para ler outro livro do algeriano, nunca vou saber, só sei que não vou esquecer que como eu ele é totalmente apaixonado pelo mar, a pátria que escolheu para si: “Point de patrie pour le désesperé et moi, je sais que la mer me précède et me suit, j’ai une folie toute prête. Ceux qui s’aiment et qui sont séparés peuvent vivre dans la douleur, mais ce n’est pas le désespoir: ils savent que l’amour existe. Voil`s pourquoi je souffre, les yeux secs, de l’exil. J’attends encore. Un jour vient, enfin…”.

Belo filme de Tom Beard

Belo filme de Tom Beard

Uma vida que não é a sua; Saudade de quem nunca conheci

Literatura Estrangeira, na Livraria da Vila do Shopping JK.

Literatura Estrangeira, na Livraria da Vila do Shopping JK.

Finalmente terminei de ler D’Autres vies que la mienne (em inglês, esta versão aqui), do escritor francês Emmanuel Carrère. A proposta do livro é encantadora: um escritor francês narra em primeira pessoa dois episódios bem íntimos que acontecem a outras pessoas: a morte de uma menina durante o tsunami de 2004, no Sri Lanka, e a morte de uma mulher jovem, lutando contra o câncer, em uma cidadezinha da França. Como ele mesmo diz, «À quelques mois d’intervalle, la vie m’a rendu témoin des deux événements qui me font le plus peur au monde : la mort d’un enfant pour ses parents, celle d’une jeune femme pour ses enfants et son mari.» (Em apenas alguns meses, a vida me fez testemunha dos dois eventos que mais me causam medo no mundo: a morte de uma criança, por causa de seus pais, e a morte de uma mulher jovem, por causa de seus filhos e marido).

Acho que algo se perdeu na tradução. Dá para sentir que alguns trechos devem ser mais poéticos no original, e que outras construções e metáforas fariam bem mais sentido em francês. Mas se o livro tivesse sido bem construído, a impossibilidade de tradução seria mero detalhe. Chamou a atenção o egoísmo do narrador na primeira parte do livro, em que ele narra a morte de uma criança francesa no meio da tragédia do tsunami. Parece que o pano de fundo é menos a tragédia do que a provação por que seu relacionamento passa naquele momento: a separação é iminente, e ao mesmo tempo a possibilidade de ter um filho com ela não é descartada. O personagem mais forte, e que não sofre tanto com a displicência egocêntrica do narrador, é Phillipe, avô da pequena Juliette.

A segunda parte é confusa, com descrições intermináveis e desnecessárias sobre como funciona o tribunal de pequenas causas na França, e o trabalho tão importante conduzido por Juliette — esta com 33 anos — e Étienne. Gostei da amizade dos dois, mas as referências à incompatibilidade sócio-econômica e intelectual entre cada um deles e seus respectivos cônjuges me incomodou, pois aí, em vez de torná-los mais fortes, o câncer se tornou uma espécie de deficiência que eles tiveram de compensar de outras formas. Tampouco acredito na dicotomia entre amor físico e intelectual que Carrère quis ilustrar aqui: Juliette só consegue conversar de verdade com Étienne, mas guarda um amor afetuoso pelo marido, Patrice. Não creio nesse amor que serve tão bem a narrativas literárias, e tampouco credito as pessoas por trás dele. O amor verdadeiro é complexo e completo, e mesmo nossos amores marginais não merecem ser divididos dessa forma.

O autor fala muito de si, e tem cuidado para revelar apenas o que os personagens desejam que revele. De certa forma, o título é desconstruído a cada instante, pois a vida que não é dele acaba sendo um livro em que ele só fala de si.

Mas se o livro vale a pena — toda boa literatura incomoda — desconfio que seja por causa de uma passagem bem curta em que Carrère fala sobre o que as meninas sentirão depois que Juliette se for. Saudade, pois mesmo as pessoas que não conhecemos, ou com quem passamos um tempo curtíssimo de vida, continuam a viver dentro de nós. E essa mistura de amor e saudade, palavra que não existe nem em francês nem em inglês mas que brotou das páginas do livro, é o que fica da leitura. O sofrimento das pequenas Diane, Amélie e Clara  tem mais verdade e literatura do que todo o projeto de Carrère, e em alguns parágrafos de seu livro, eu finalmente entendi o que é essa saudade de ausência que sinto do meu avô há tanto tempo, esse meu avô que nunca conheci mas que me ampara nos momentos mais tristes.

*

Emmanuel Carrère participou da Flip em 2011.

Paris apaixonada, Paris quand il fait beau!

Palácio de Versailles, em fevereiro de 2012. Dia glorioso de inverno

Palácio de Versalhes, em fevereiro de 2012. Dia glorioso de inverno

Paris é sempre Paris. Mas quando você está apaixonada, quand il fait beau, é mais Paris ainda. Havia prometido a mim mesma que não voltaria para a França no inverno e menos ainda no Carnaval. Estava apaixonada por um baiano e convencida de que a minha pátria era a Bahia. Só não podia imaginar que visitar a França com ele poderia ser tão bom. E que na felicidade, a gente carrega a pátria dentro de si. A minha Paris com Tomás é a melhor de todas. Assim como a minha São Paulo, a minha Itacimirim, a minha Itália.

***

Chegamos em Paris no dia 23 de fevereiro de 2012. Tínhamos embarcado em Aix-en-Provence naquela manhã e antes das 10 horas já estávamos na Gare de Lyon. Fomos para o nosso hotel, Le Vignon 8, a algumas quadras da Igreja Madeleine, no 8ème arrondissement, meu bairro favorito em Paris. Já havia ficado em Saint Germain e em outros hotéis da Rive Gauche, mas eles eram caros e nada confortáveis, isso sem falar na calefação central, que não dava para mudar. Deixamos nossas malas, ajustamos a temperatura do quarto para 15 graus Celsius (isso mesmo, para não dar aquele choque térmico na volta) e fomos a pé para as Galeries Laffayette, para fazer nossas comprinhas de chegada. Vinho, champanhe, belisquetes para ter no hotel — além das deliciosas madeleines que nos eram oferecidas todos os dias, bem ao gosto de Proust! E, de quebra, uma sessão maquiagem com uma negra linda, vendedora da Clinique, que usou um sem fim de produtos para me deixar com a cara das francesas.

Almoçamos no Saint Joseph, um restaurante na região, antes de ir para o Louvre. Comemos filet mignon (o autêntico, de carne de porco), com Chablis e foie gras. Tudo uma delícia. E então o Louvre. Fizemos uma visita curta. A Vitória de Samotrácia, a Vênus de Milo, a Mona Lisa, as salas com as esculturas greco-romanas, e os salões com obras dos grandes pintores franceses. Fui perguntar onde estava o Delaroche que tanto havia me impressionado um ano antes, A Jovem Mártir, mas a funcionária me disse que estava em tour, infelizmente.

Voltamos para o hotel passando pela Place Vendôme e pela Place de L’Opèra. Queríamos ir ao Bar Hemingway, mas ainda estava fechado, e tudo o que fizemos foi tirar uma foto em frente à Coluna da Grande Armada, para lembrar de Maurice Chevalier e Amor na Tarde. À noite, nos encontramos com Iuli, amigo de longa data da família de Tomás, que nos levou ao Marais e mostrou muito da Rive Droite, passando inclusive pelo Centre Georges Pompidou, que Tomás tanto queria visitar. Jantamos no Le Petit Marcel, um restaurante delicioso, e tomamos o vinho da casa, também excelente.

Na manhã seguinte, Versalhes. Saímos um pouco atrasados (e atrapalhados) com o metrô de Paris. Visitamos o Palácio e, quando descemos, que surpresa! Estávamos em pleno inverno e fazia um dia glorioso de primavera. Eles nem cobraram entrada para os jardins, já que as esculturas estavam todas cobertas e não havia espetáculo das grandes eaux. Versalhes era quase só nossa, passeando entre as fontes e os lagos, tirando foto dos cisnes e dos mini labirintos charmosos. Tinha até uma barraca de pommes de terre, o equivalente a nossas barraquinhas de cachorro-quente, imagino — e lá compramos duas garrafas de 250mL de vinho branco. O moço fez o maior sucesso. Quem imaginaria que em pleno inverno, eles abririam os jardins e ele venderia tanto?

Dali voltamos para Paris. Compramos pães, queijo e foie gras com vinho, para comer com as madeleines antes de se arrumar para o teatro. O teatro era o Théatre Madeleine e a peça, Oh Les Beaux Jours, escrita por Beckett em inglês em 1961, quando ele já escrevia quase que exclusivamente em francês. São dois personagens, Winnie e Willie, uma cinquentona e um sessentão, provavelmente casados. Ela está enterrada até o colo em um monte de terra, mas todos os dias acorda dizendo: “Oh, mais um dia maravilhoso”, faz sua toilette e tenta dizer a Willie o que fazer com o seu dia. O primeiro ato é uma construção repetitiva para nos preparar para o segundo, em que Winnie, agora com os braços também imobilizados — tetraplégica — e Willie compartilham um momento ambíguo. Beckett disse que a peça fala dos momentos lentos que levam à morte, quando o tempo começa a passar mais devagar. E até hoje não consigo me livrar do eco de “Willieee”, que servia de compasso às falas de Winnie.

Tomamos champanhe no metrô, fomos para a Champs-Elysées e então para Saint Germain. Jantamos e tomamos um drink de mais de um litro no Le Petit Café, perto do Boulevard. Depois terminamos a noite numa discoteca perto dos Champs-Elysées de nome já esquecido.

Acordamos tarde no sábado, fomos almoçar com Iuli num restaurante italiano e passeamos pelo Marché des Enfants Rouges. De lá, atravessamos para a Rive Gauche a pé, passamos por um circo montado, pelos bouquinistes do Pont Neuf, por quase toda Paris, até chegar ao Musée d’Orsay. Só tivemos meia hora lá, foi a visita mais rápida possível aos impressionistas — privilegiando Van Gogh, naturalmente. E foi aí que nosso passeio perdeu o rumo e ficou ainda mais interessante. Tentei refazer o caminho de uma antiga lista de outro amigo, passamos pelo La Palette, pelas galerias de arte, por tudo que dá mais charme à Rive Gauche, até chegar, por acaso, a uma loja de vinhos chamada La Dernière Goute. Uma americana radicada há muito tempo na França nos vendeu alguns vinhos e depois falou que havia escrito um livro, Guia da Paris Impressionista, editado pela Record aqui no Brasil (o nome da escritora é Patty Laurie). Ela nos deu o livro de presente e de lá fomos, sem querer, para Les Deux Magots, que havia sido tão recomendado por todo mundo aqui no Brasil. Bebemos um excelente Bourgogne e saímos correndo para a Igreja Madeleine, para o concerto das Quatro Estações de Vivaldi. Fomos os últimos a entrar, acho.

Minha vó me disse que adora a igreja e certamente nos levou lá há mais de quinze anos. A Madeleine é o lugar onde mais gosto de ficar em Paris. Saindo de lá, fomos jantar num restaurante de bairro, despretensioso, Le Roi du Pot au Feu. A cozinha estava fechada, mas ele nos serviu o prato da casa — pot au feu, parecido com o nosso cozido –e o vinho da casa, melhor do que muito vinho internacional, e até francês, que já bebi. Já estava chegando a hora de se despedir. No dia seguinte, visitamos a Tour Eiffel e o Arco do Triunfo, e almoçamos no café do George V, na Champs-Elysées. Foram quatro dias gloriosos de sol, na Paris mais apaixonante. Em fevereiro, vai fazer um ano já. Que saudades. Quem sabe eu não compre meu vestido de noiva lá?

Paris é para sempre

Madeleine, Paris.

Madeleine, Paris.

Morei na França durante quase um ano mas só visitei Paris cinco vezes em toda a vida. Pouco. Mas muito. Da primeira à última, dos 14 aos 30, vivi tanta coisa diferente ali, com tanta gente! Minha vó e prima tão amadas, meus melhores amigos, o amor da minha vida. Fui para lá na primavera, no outono, no inverno, agora só falta conhecer Paris no verão.

É difícil escrever sobre Paris. Tentei lembrar como pude de todas as viagens. Da primeira, apenas fragmentos, mas desconfio que o relato completo esteja perdido em um dos meus diários antigos. Se encontrar algo mais do que uma lista de obras e artistas (mania que tinha na época), prometo transcrever os trechos aqui. Reservei um post especial para a última visita, com Tomás, em fevereiro de 2012 (que você pode ler aqui). Ainda transbordo de felicidade pensando que ele conheceu a França comigo, seis meses depois de nosso primeiro encontro. Fizemos um pouco de tudo, e mais. Os museus, a vida noturna, uma Versailles deslumbrante em pleno inverno, ópera na Madeleine, Beckett no teatro, vinhos, champanhes, Marais, bistrôs de bairro, Tour Eiffel à meia noite. Dá até para dizer que as visitas anteriores me conduziram a esta.

***

Conheci Paris aos 14. Lembro que chegamos cedo ao hotel e nosso quarto ainda nem estava liberado. Amontoamos nossas bagagens no alto de uma estante, lá na recepção mesmo, e seguimos para o Louvre. Minha vó, prima e eu estávamos exaustas, e ficamos naquela fila interminável, de frente para a pirâmide, comendo os chocolates que havíamos comprado em Londres. Era abril mas estava chovendo, e por muito tempo lembraria de Paris assim. Naquele dia, a Monalisa não me impressionou muito, mas a Grande Esfinge do Tânis, sim. Lembro que minha vó e eu nos sentamos e ela me contou essa história. Pensei em Sófocles e Édipo e pensaria neles depois, ao ler Cocteau. Queríamos ver a Vitória de Samotrácia e a Vênus de Milo, preferidas absolutas da minha avó e, mesmo com toda aquela expectativa, toda aquela antecipação — o grande corredor para uma, a grande escadaria para a outra — fiquei encantada. Até hoje, dão frio na barriga. Como Paris.

Ficamos apenas três dias na cidade. Minhas memórias são inexatas. Caminhando ao longo da Champs Elysées, jantando num restaurante perto do hotel, comprando baguetes na padaria, falando em francês nos pontos turísticos. A Notre Dame. A Queda da Bastilha. O jardim de Versalhes. Um sorvete de bolinhas coloridas comprado na banca de revista. Rodin e seu Beijo, seu Balzac, seu Pensador. Ah, a Place Vendôme! A Tour Eiffel. Os árabes. Os croissants.

Voltei no outono, em outubro, em um dos dias mais bonitos que já vivi na cidade luz. Tomei o TGV de Montpellier e cheguei mais ou menos umas cinco horas da tarde. Meu melhor amigo chegaria de Genebra à noite, e eu tinha o fim de tarde livre. Nem passei no hotel, fui direto da estação para o Pont Neuf e percorri a Rive Gauche com uma lista que outro amigo havia feito especialmente para mim, com os restaurantes, bares, livrarias e espaços não-demarcados que eu precisava conhecer. Ele me disse, por exemplo, que eu deveria ler no Palais Royal. Passei vários dias procurando onde exatamente, até que ele me esclareceu que o seu local preferido não era um lugar.

Andei às margens do Sena, parando em cada uma das barracas dos chamados “bouquinistes” para ver os livros ou os cartões-postais da Nouvelle Vague. Passei pela Sennelier, no Quai Voltaire, e comprei alguns cadernos pretos, de papelão, que uso até hoje para os escritos de ocasião. Na volta, parei na La Palette, onde ele havia me dito que eu devia tomar um Brouilly. Era um pedacinho tão charmoso de Paris, com as lojas de arte, os carros-esporte. E a apenas alguns minutinhos da Shakespeare & Co., a grande livraria de língua inglesa da cidade. Comprei Beginners, de Raymond Carver, obra que também foi publicada sob o título What We Talk About When We Talk About Love. Foi o único livro que li do autor.

Atravessei a ponte mais uma vez, parei num café qualquer para mais uma taça de vinho e aí percorri a Rue de Rivoli, parando na Place de L’Opèra e na fantástica Place Vendôme. O hotel ficava a algumas quadras da Madeleine. Achei a igreja maravilhosa e nem lembrava de tê-la visto na primeira visita. Quando Pedro chegou, fomos jantar e então andamos às margens do Sena, à meia noite. A cada ponte, jovens e belos universitários bebiam diretamente da garrafa, ao lado dos “flics”, gíria francesa para policiais. E eu nem sabia que Paris tinha tantas pontes lindas!

Pedro me mostrou quase toda Paris, a pé. Não fomos a nenhum museu, a nenhuma atração turística, mas comemos e bebemos maravilhosamente bem (recomendo um restaurante em frente à Madeleine, Maison de la Truffe), e andamos, muito. Foram três dias de sol, uma benção para Paris no outono. No meio da tarde, parávamos em um café qualquer para tomar o famoso pastis Ricard. E foi caminhando no Champs Elysées, em direção ao Arco do Triunfo, que conheci a Ladurée, única marca de macarrons de que realmente gosto (e que tem loja lá no JK).

Voltei duas semanas depois, com Amélia. Logo no primeiro dia, fomos ao Café Hugo na Place des Voges,  depois no bar do hotel Ritz — aquele que fica em frente ao Hemingway, que está sempre cheio. Tomamos o drink mais caro de toda a viagem, um coquetel de champanhe de 30 euros. E vivemos uma das experiências mais divertidas e inusitadas: fizemos um verdadeiro book fotográfico no Ritz! Subindo e descendo as escadas, sentadas na poltrona, admirando os quadros. Nem sei como não nos expulsaram dali!

O programa da sexta-feira era o Castelo de Versalhes. O melhor momento foi quando a chuva parou e eles começaram a vender ingressos para os jardins. Eles e suas “grandes eaux” são das coisas de que mais gosto em Paris. Nós passeamos para caramba e temos fotos demais para provar. Havia comprado nossos ingressos para uma peça de Chekov, Tio Vanya. Tinha lido a peça antes de embarcar para a França e estava louca para vê-la em francês. Fomos ao teatro Louis-Jouvet e ficamos muito bem impressionadas, mas o texto era difícil, por isso Amelinha nem aproveitou tanto.

Para terminar a noite, o Polidor. Esse restaurante tem uma história curiosa. Aliás, duas. Uma vem de Hollywood. O lugar ficou famoso depois do filme de Woody Allen, Meia Noite em Paris. Não sei se ele faz uma menção nominal ao lugar em que o protagonista conversa com Hemingway, mas sei que o restaurante desaparece no fim. Na verdade, ele continua lá, na rua Monsieur Le Prince, 75006, desde 1845. Vale a visita. A comida é espetacular, e como Hugo me disse na época, “ultra-parisiense, sem a fama, ou os preços” de outros restaurantes da cidade. A comida era mesmo fantástica, e a atmosfera, Paris de cima a baixo. A garçonete que nos atendeu tinha uns 70 anos, cabelos curtinhos e loiros, antipática. E o banheiro era turco: um buraco no chão. Achando que havia me enganado, perguntei algumas vezes aos funcionários onde eram os toilettes depois, sem dar jeito, voltamos para o hotel — e que gostoso caminhar e se perder por Paris à meia noite!

Mas vale a pena visitar o Polidor, sempre. Voltei lá em dezembro, com Faffy. A nossa viagem foi diferente, por causa do frio e do meu momento — estávamos em quatro. Já morava há quatro meses em Montpellier, mas não havia me adaptado nem ao frio nem a outros aspectos de minha vida francesa. Mas nós fomos ao Louvre, a bons restaurantes e à Notre Dame. Paris sempre deixa saudades. Até na tristeza.

***

Amelinha me pediu para incluir um dos momentos mais divertidos de nossa viagem, na Place de L’Opèra. Tínhamos comprado um daqueles guarda-chuvas bem sem vergonha, que dificilmente duram mais do que um dia. De repente começou a chover pra caramba, todo mundo buscou abrigo embaixo da Opéra de Paris, e nossos guarda-chuvas se desmantelaram no ar. Fizemos de tudo para registrar este momento com uma foto, mas não houve jeito. A chuva, o evento, todo mundo encharcado. Sempre que lembro desse momento, dou risada sozinha, como imagino que Amelinha também faça.

Histórias que não acabam nunca; Cinquenta Tons de Cinza; Casamentos

Tempo sem fim. Início da primavera, Languedoc, um homem fotografa. Ao longe, parece carregar uma arma

Hoje terminei de ler Fifty Shades of Grey. Gostei mais do desfecho do que do corpo da história, e acho que podemos dizer que o trecho final é superior. Em 500 páginas, o livro não arrancou de mim a emoção e verdade das últimas dez, mas as últimas dez devem ter feito valer a leitura. Há uma curiosidade perversa latente na tola Ana com que quase todas as mulheres podem se identificar. Só fico na dúvida se o momentum final não teria ficado melhor num conto. A ideia de uma continuação me apavora. Meus contos e minhas histórias preferidas cristalizaram personagens queridos e outros nem tanto em um tempo sem fim, numa escada de milhões e milhões de degraus. A protagonista de Lamb to the Slaughter, de Roald Dahl, no quarto, gargalha depois de servir a arma do crime aos policiais, as gordas de The Three Fat Women of Antibes provavelmente teriam comido até morrer se Maugham não as tivesse salvado com um ponto final. Brown, o pobre Brown, no recente Ox Mountain Death Song, não sabemos o que aconteceu com ele depois, e muito menos antes, tantos poemas inacabados de Baudelaire e contos assustadores de Poe, Milhauser e seus miniaturistas sem fim, ou o homem que alguém convenceu a comprar um lustre de vidros e de repente, havia enchido a casa de espelhos (leia aqui Miracle Polish, publicado na New Yorker no ano passado). A literatura às vezes se comporta como o buraco negro das nossas almas, e faz a história parar num único tempo. Como “se a intrusão dilacerante do tempo pudesse ser trancada do lado de fora”, (Tennessee Williams). (Aqui, você pode baixar todo o texto The Timeless World of a Play*).

Se eu tivesse escrito Cinquenta Tons, terminaria o livro com uma cena de Anastasia subindo as escadas do novo e estranho apartamento, num início de noite sem luz, sem parar de chorar, impregnada com o cheiro de Christian e com a escuridão sem fim.

Agora volto às últimas páginas de Stardust, de Neil Gaiman, que voltei a ler hoje. E, se ainda tiver fôlego, a The History of Mr Polly, de Wells.

*

No último sábado, Tomás e eu fomos padrinhos num casamento de amigos. Em um ano e três meses de namoro, e muitos, muitos casamentos, foi a primeira vez em que fomos padrinhos juntos, e isso em si já seria muito especial. Mas o fato de os noivos terem se tornado tão importantes, em tão pouco tempo, fez do casamento um dos mais emocionantes de toda a minha vida.

* Trecho completo, na versão original:

The audience can sit back in a comforting dusk to watch a world which is flooded with light and in which emotion and action have a dimension and dignity that they would like-wise have in real existence, if only the shattering intrusion of time could be locked out. 

Meu caso de amor com o Kindle; Halloween; Penguin e Random House

Kindle em suas versões Touch (cinza) e Paperwhite (preto). Os dois são muito bons, mas o novo modelo é ainda melhor, com um sistema de iluminação quase perfeito, uma caixa robusta e resistente, e um touchscreen que funciona bem. Mesmo.

Hoje recebi o meu Kindle Paperwhite, que veio por encomenda, diretamente dos Estados Unidos, quase um mês depois do lançamento do produto em solo americano.

É o meu terceiro Kindle em 18 meses. Comprei o primeiro em maio do ano passado, pouco antes de voltar para o Brasil, numa época em que ia quase todos os dias à Gilbert & Joseph negociar algum valor por algum livro. Desfiz-me de títulos incalculáveis, e outros tantos mandei pro Brasil numa caixa, a um preço abusivo (esses eram livros caros que eu havia levado para a França ou pedido para alguém levar). Livro na França era barato. Já nas primeiras semanas por lá, tinha visto um mendigo, sentado na entrada de uma loja, lendo um volume em capa dura. Que civilização literária!, pensei. Eram tão baratos e tão disponíveis que dava para comprar um livro com o troco do maço de cigarro. Mas, alas, eu não podia levá-los de volta para o Brasil.

As meninas inglesas da universidade andavam com seus Kindles a tiracolo. Resolvi experimentar. Na época, a Amazon ainda nem vendia na França. Encomendei no site, paguei 60 USD a mais e aguardei. Em apenas 4 dias, meu e-reader (Kindle Keyboard) já estava lá. Foi meu companheiro inseparável nas últimas semanas francesas. Fomos juntos para todas as praias, do Languedoc à Riviera, lemos George Steiner e Baudelaire e, chegando ao Brasil, Wilkie Collins. Ele só tinha um probleminha. Quando faltava luz, não dava para ler. Aí o jeito era apelar para os Text-to-Speech e para os Audiobooks (como as palestras de Richard Feynman).

Apresentei o Kindle a Tomás, que gostou da ideia e em novembro de 2011, quando ele viajou para os EUA, encomendei 2 novíssimos Kindle Touch. Primeiro, fiquei decepcionada, por incrível que pareça. Coloquei na cabeça que refletia luz, que não era tão bom, mas assim que me acostumei, nunca mais desgrudei. O Touch era infinitamente superior ao Keyboard. A experiência da leitura tinha se tornado quase íntima de tão próxima, e eu já não precisava me preocupar com mais nada quando estava lendo. Compramos umas mini luzinhas para leitura, que quebravam um galho quando faltava luz, ou quando eu lia madrugada adentro. Depois, compramos capas com luz embutida, que utilizavam a própria bateria do Kindle para funcionar (a bateria dura “quase” para sempre, na cronologia dos bytes), uma libertação.

Estava tão feliz com o Kindle e com a Amazon — que inclusive mandou um Kindle substituto depois que eu manchei o meu na praia — que nem esperava que criassem algo melhor. Aí veio o Kindle Paperwhite.

Ele tem quase o mesmo design do Touch, mas o tato é bem diferente. É mais robusto e bem-acabado, arrojado. Estava receosa quanto ao sistema de iluminação, a tal da built-in light (veja aqui), mas funciona muito bem. E você pode mudar a quantidade de luz na hora em que quiser. Como a Amazon explica no site, a luz reflete sobre a tela e não sobre os seus olhos, então o efeito anti-glare continua valendo. Ele é ligeiramente menor e mais leve, e o primeiro Kindle realmente Touch (não tem nem aquele botão da Home, sabe?).

Como nada é perfeito, a depender da configuração de luz escolhida, aparecem algumas manchinhas na parte inferior da tela. Mas nada que incomode a leitura.

Comprei a capinha de couro junto. Uma surpresa boa. Embora a capa da versão anterior viesse com a luz, era bem ruim. Pesada, com acabamento suspeito, pouco prática. A nova é excelente (veja aqui) e vale a compra. Recomendo!

Agora, para quem quer comprar seu Kindle Paperwhite e não está indo para os EUA… recomendo a Dabee. A Amazon ainda não vende diretamente no Brasil e tudo indica que começará vendendo o modelo mais barato da família. Por isso, melhor garantir. O modelo Wifi — bem mais barato — atende às necessidades de quase todos os leitores. A não ser que você viaje muito, e leia muito em trânsito, e não aguente esperar chegar em casa para baixar o livro, nesse caso (o meu), melhor gastar um pouco mais e comprar a versão 3G.

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Ontem foi anunciada a fusão entre Penguin e Random House. O iG, aqui no Brasil, reproduziu uma matéria da agência EFE (leia aqui), sob o título: “Penguin e Random House anunciam fusão para enfrentar desafio digital“. Ainda lembro das longas tardes que passava em livrarias, procurando as mais novas edições de literatura estrangeira em versão original, e hoje, tudo à distância de um toque…

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Halloween. Acompanhei pelo Facebook alguns vídeos e galerias de imagens de festas muito bacanas. Fiquei triste que não consegui ir a nenhuma. Na época em que eu era adolescente, essas festas estavam restritas a escolinhas de inglês e colégios bilingues. Agora, parece que estão por toda parte. Será o mundo globalizado?