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O escritor e (é) o estrangeiro; O convite à viagem

Dia de Canoagem, numa cidade próxima a Montpellier. Na França, tudo é viagem; e todos, estrangeiros

Queria uma revista de noivas mas achei a edição de Julho e Agosto da Le Magazine Littéraire. O tema, “L’invitation au voyage” (O Convite à viagem), com (grandes) escritores como Montaigne, Sand, Jules Verne, Gide, Kerouac, Le Clézio, George Sand, Bruce Chatwin.

É uma das mais importantes revistas francesas do panorama literário e, nos meus primeiros meses de Montpellier, andei com um de seus números para cima e para baixo. Quase obscena, a edição sobre o hedonismo trazia na capa  uma pintura famosa de uma mulher inteiramente nua.

Mas esta fala do estrangeiro. O estrangeiro parece estar presente em tudo o que é francês, e principalmente em todas as minhas memórias francesas. Muitos desses escritores, só vim a conhecer na França ou depois da França. Bruce Chatwin, o estrangeiro por excelência, já conhecia de nome, mas foi em Montpellier que li o belíssimo On The Black Hill. Cheguei a comprar Songlines, sua obra-prima, mas até hoje não li até o fim. Meu amigo Bertrand, já mencionado em outro post, dizia se tratar do livro mais lindo de todos.

Foi Montesquieu que disse (embora tenha pensado até outro dia que havia sido Montaigne): “As viagens concedem uma grande profundidade ao espírito: saímos do círculo de preconceitos de nosso país, e ainda não estamos prontos para adotar aqueles dos estrangeiros”. A partir dessa frase, construí um dos meus trabalhos na Université Paul-Valéry e dei início à busca muito pessoal pelo estrangeiro. Dali, só foi um pulo para Beckett e seu Dire Je e todos os outros. Em francês, estrangeiro e estranho são palavras muito próximas, com uma grande conexão sonora (étranger e étrange). E estranhamento e estrangeirice são exatamente a mesma (aliás, não há correspondência exata em nossa língua natal: étrangeté.

E nada disso deve ser por acaso pois logo na primeira página encontramos um comentário do jornalista Joseph Macé-Sacron, identificando o caráter indissociavelmente estrangeiro do escritor. Depois ele diz: “A viagem desloca a alma assim como o corpo, e essa participação total permite ao escritor alcançar, além do estranhamento/estrangeirice que atravessa, uma outra dimensão de si mesmo”.

O artigo vale a leitura, lá no site da revista, e o poema de Baudelaire, extraído de Fleurs du Mal, também é ótimo.

L’invitation au voyage – clique aqui para ler a versão em inglês

Mon enfant, ma soeur,
Songe à la douceur
D’aller là-bas vivre ensemble!
Aimer à loisir,
Aimer et mourir
Au pays qui te ressemble!
Les soleils mouillés
De ces ciels brouillés
Pour mon esprit ont les charmes
Si mystérieux
De tes traîtres yeux,
Brillant à travers leurs larmes.

Là, tout n’est qu’ordre et beauté,
Luxe, calme et volupté.

Des meubles luisants,
Polis par les ans,
Décoreraient notre chambre;
Les plus rares fleurs
Mêlant leurs odeurs
Aux vagues senteurs de l’ambre,
Les riches plafonds,
Les miroirs profonds,
La splendeur orientale,
Tout y parlerait
À l’âme en secret
Sa douce langue natale.

Là, tout n’est qu’ordre et beauté,
Luxe, calme et volupté.

Vois sur ces canaux
Dormir ces vaisseaux
Dont l’humeur est vagabonde;
C’est pour assouvir
Ton moindre désir
Qu’ils viennent du bout du monde.
— Les soleils couchants
Revêtent les champs,
Les canaux, la ville entière,
D’hyacinthe et d’or;
Le monde s’endort
Dans une chaude lumière.

Là, tout n’est qu’ordre et beauté,
Luxe, calme et volupté.

— Charles Baudelaire

O Gosto da França; Uma Estrangeira na França

Ingredientes do meu primeiro jantar francês. Croustillants à la Poire et à la Fourme d’Ambert, Kir Royal e Boeuf Bourguignon

Mais um capítulo do livro Uma Estrangeira na França, agora sobre os sabores da França. Na versão para o livro, incluirei também as receitas (em português) e os endereços de restaurantes em Montpellier — a cidade e a gastronomia de Paris ganharão texto à parte.

O Gosto da França

Guardo na boca o gosto da França. A baguete do fim-do-dia ou do midi. A manteiga, sempre deliciosa, não importa se tem mais ou menos gordura. Os ovos mexidos que comia às pressas, no horário de almoço da Fac, com um pouco de queijo e jambon. O foie gras, principalmente em versão patê, com torradas finas, salada verde e geleia.

Dava para escrever um livro inteirinho só com esses sabores. A batata gratinada que provei um dia, nem lembro mais onde, e reconheci imediatamente quando jantei no Le Marais, na Rua Jerônimo da Veiga, aqui em São Paulo. Os escargots, os moules, que decidi provar em fins de semana de aventura, acompanhada de gente que entendia mais do assunto do que eu. O Martini Bianco de tantas tardes de outono, que não era bom, mas também não chegava a ser ruim, e tinha a vantagem de custar apenas 3 euros. O Bourgogne que tomei quando cozinhei pela primeira vez, boeuf bourguignon! O sanglier de Sophie – ela dizia não fazer grandes coisas na cozinha, mas preparava pratos deliciosos, até hoje me lembro da ratatouille e da lasanha de soja. Foi ela quem despertou em mim a ideia de cuisine française. Uma cozinha sazonal – uma vez dissuadiu-me de comprar framboesas no supermercado porque já estávamos no outono – e pessoal – sempre cozinhava para si, mesmo quando não tinha tempo, nem que fizesse ovos fritos.

Dava prazer ver a intimidade do francês com a comida. Quando começavam a cortar as verduras, os legumes, para as sopas, por exemplo – Alex, marido de minha amiga Flávia, tem intolerância ao glúten e não pode comer queijo, mas fazia as sopas mais deliciosas. Ou a cozinha toda especialista de Vania, minha co-boadrasta, como costumava chamá-la. O primeiro pain d’épices de Sophie causou alvoroço. Repeti a receita outras três vezes, e trouxe um dos temperos para casa, na mala, mas nunca fiz.

Foi lá que cozinhei pela primeira vez. Em janeiro de 2011, Sophie viajou durante um mês inteiro e eu fiquei sozinha em seu apartamento. Aí decidi experimentar algumas receitas do livro Cozinha Provençal (French Provincial Cooking), da inglesa Elizabeth David. A obra tinha sido um presente de um amigo, alguns dias antes de eu embarcar. Hoje nossa amizade já não é mais a mesma coisa, mas na época ele me disse que se tratava da melhor introdução à cultura francesa que conhecia. Tinha lido o livro pela primeira vez quando era bem mais jovem do que. “Leia do início ao fim” foi sua recomendação máxima.

Para o primeiro jantar, escolhi o Boeuf Bourguignon já mencionado. Meu amigo disse que Ms David provavelmente sugeriria o Daube Provençal, mas resolvi optar por um prato que conhecia desde criança. Como o livro era em inglês e eu não tinha conhecimento algum sobre cozinha, tive de pesquisar na Internet para encontrar os termos equivalentes em francês. Isso foi o que deu mais trabalho. Ligava para minha avó por Skype várias vezes ao dia, e algumas vezes nem ela sabia a resposta. A verdade é que alguns temperos só existem na França. Ela também me enviou sua própria receita. A versão final virou uma mistura, considerando o que funcionou no dia porque, por incrível que pareça, funcionou. O boeuf bourguignon ficou delicioso. Tomei uma garrafa de vinho durante o processo, os pedaços de carne ficaram quase simétricos, e o fogo se comportou direitinho. Mas logo nesse primeiro dia, entendi que meu negócio era outro. A sobremesa – a mousse au chocolat à l’orange estava divina, feita com o excelente Grand Marnier e o melhor chocolate Lindt amargo, 43% de cacau – e os drinks, preparados com a mesma bebida e uma grande variedade de sucos.

Os jantares geralmente aconteciam às sextas-feiras. Tive a oportunidade de experimentar mais algumas receitas. Para sobremesa, sorbet au citron e pain d’épices, que ficaram muito bons, e um crepe, que não ficou lá essas coisas. O magret de canard não funcionou, mas os gratinados sim, e minha receita máxima acabou sendo o Poulet à la Ciboulette, que devo ter feito pelo menos umas dez vezes entre janeiro e junho, quando embarquei de volta para o Brasil. A ciboulette não existe aqui, nem o échalotte, e virou uma aventura encontrar os ingredientes que pudessem substituí-los.

Antes de viajar, folheando a obra de David, tinha uma ideia toda sofisticada do que seria a cozinha na França, mas os sabores que ficaram foram realmente os mais simples. O pão, a manteiga, os ovos mexidos. Fico com água na boca sempre que me lembro do sanduíche de Charolais de 2 euros que comprava no Mc Donald’s da Place de la Comédie quando não tinha tempo de comer outra coisa. Era minha carne favorita, inclusive nos restaurantes (como o excelente La Chistera). O queijo de cabra, curado, fresco, do jeito que fosse, era irresistivelmente barato e me acompanhava durante todo o dia: no café-da-manhã, no almoço, no lanche da tarde. Na primavera, gostava de sentar a uma mesa qualquer, no meio da tarde, e almoçar aquela salada com foie gras. Mas a primavera, que chegou deslumbrante – um espetáculo assistir ao aparecimento de flores por toda a cidade– trouxe também muitas saudades. E de repente já não fazia mais as receitas francesas, mas a torta negra que aprendi com Ludmila e que conquistaria os franceses para sempre.

P.S: If you’d like to read this post in English or French, please feel free to contact me at: blogliteraturaestrangeira at gmail.com

Si vous voulez lire ce texte en Français ou Anglais, contactez-moi s’il vous plaît sur mon addresse e-mail blogliteraturaestrangeira at gmail.com

Bertrand; Uma Estrangeira na França

Performance de O Quarteto Azul, uma das obras de Bertrand Gaillard no ano passado. Ele é francês, mas o texto foi escrito em inglês e depois traduzido por outra pessoa.

Uma das secções do novo livro Uma Estrangeira na França será dedicada às pessoas que encontrei durante a viagem. Os “rencontres” servirão de inspiração para os mini-ensaios ou contos, como este abaixo.

Bertrand

Conheci Bertrand nas minhas últimas semanas em Montpellier. No início do ano, havia afixado um anúncio na livraria inglesa Le Bookshop, colocando-me à disposição para aulas de inglês, para tentar financiar minha estada na França. Bertrand só viu meus contatos em junho, quando minha situação monetária já não fazia muita diferença.

Ele falava inglês muito bem, talvez até melhor do que eu, com um perfeito sotaque britânico. No dia de nosso primeiro encontro, chovia bastante na cidade. Encontramo-nos num dos cafés da Place de la Comédie, e acho que ficamos por lá, mas depois nos encontraríamos principalmente na Esplanade Charles de Gaulle, um de meus lugares preferidos em Montpellier.

Artista plástico, professor de francês, Bertrand era um senhor de estatura média, elegante, eloquente, interessado em todas as coisas que também me fascinavam.  Já nesse primeiro dia, falamos de Anaïs Nin, que li e reli compulsivamente dos 19 aos 21 anos, especialmente Delta of Venus. No prefácio ao livro, ela conta sobre a época em que, com um grupo de escritores e amigos, escrevia contos eróticos a $ 1 dólar por página para um senhor rico que dizia contratar o serviço para outra pessoa. A figura dessa escritora jovem, bonita e sem dinheiro, em noites intermináveis com aqueles amigos tão interessantes, deixou-me sonhando por anos a fio. Lembro-me especialmente da passagem inicial de um conto seu, em que a protagonista, no trem, reflete sobre o que espera da viagem que a levará à Espanha. O maravilhoso (le merveilleux).

Ele também vivia imerso numa profusão de idiomas e sentidos, misturando ritmo, cores e palavras estrangeiras em suas apresentações. Fotógrafo, coreógrafo, roteirista, cinegrafista, em suma, um artista. Às vezes conversávamos inclusive em português. Ele insistia em se despedir de mim com “Adeus”, ao que respondia dizendo sempre que nos veríamos de novo.

Seu trabalho mais recente, o Quarteto Azul, tinha texto em inglês, depois traduzido para o francês por uma amiga. “Precisava ser fiel à minha vontade de escrevê-lo em inglês e só pedi para que o traduzissem para que os artistas entendessem o que estava escrito”. Mas o significado das palavras não era nada fora do contexto sonoro. “Uso a língua inglesa como material musical para minhas criações”, explicou.

Nosso encontro foi também uma descoberta. Depois de quase um ano na França, conhecendo gente de todas as nacionalidades, ainda não havia encontrado alguém com quem pudessem, realmente, dividir. Bertrand era um artista maior, inclusive mais prolífico do que todos aqueles que eu havia conhecido antes, tinha lido mais do que eu e era certamente mais inteligente. Mas não tinha nada da falsa intelectualidade – ou modéstia – de alguns, era fluido como suas pinturas, quase uma estrutura francesa de éter.

Suas obras retratavam dançarinos cheios de vida, prontos para pular da tela, exalando erotismo e calor. Mas nosso rencontre, que durou tão pouco, nunca deixou de observar a mais absoluta polidez e distância física.

Ele queria montar um pequeno concerto em português no meu penúltimo dia de França. Conhecia o Pará e amava o Brasil. “É uma língua bonita, sonora. Que me importa se não entendo o que você está dizendo? Primeiro sentir, depois entender. Leia seus textos em voz alta. Escolha um deles”.

Nosso concerto nunca aconteceu porque voltei muito tarde de uma viagem à Riviera Francesa. E ele me escreveu. “A vida nunca é aquilo que esperamos. Espero que você esteja feliz sob as palmeiras de Cannes. Adeus”.

Publicando no Kindle; Uma estrangeira na França

Foto tirada por meu pai em junho 2011, à noite, em Cannes. O efeito “tarde de verão na Riviera Francesa” deve-se ao uso de alguns softwares de fotografia. A imagem deve servir de capa para o livro.

Nas próximas semanas publicarei meu livro através do Kindle Direct Publishing da Amazon. Depois de anos e anos adiando o dia em que reuniria meus trabalhos para enviar para uma editora, finalmente decidi que publicaria um ebook. As belas edições em papel podem ter seu charme mas hoje leio mesmo é no Kindle e não faria o menor sentido publicar, primeiro, em papel. Além disso, fica bem mais emocionante desse jeito pois você cuida de tudo, dos parágrafos à arte da capa, organizando seu livro do jeito que quer.

O livro, no momento intitulado Uma Estrangeira na França, será publicado em Português e terá entre 5 e 10 mil palavras. Os capítulos (ou mini contos) são parte ficção, parte relato, e estão diretamente relacionados ao período em que vivi na França. Havia pensado em publicar uma um conto de ficção, mas a história francesa é mais urgente.

O livro já está todo formatado e, uma vez revisado, o upload deve ser rápido.

Aliás, para escritores interessados em publicar na plataforma Kindle, basta seguir as instruções neste guia da Amazon, Building your Book for Kindle. As instruções são bem didáticas e fáceis de seguir e, uma vez formatado, seu livro não dará mais trabalho. (Qualquer atualização, que no mundo dos livros em papel implicaria numa reimpressão, aqui leva só alguns minutinhos).

Além disso, vários idiomas são suportados pelo programa. Português, Inglês, Francês, Alemão, Espanhol, Italiano, Catalão, e até as línguas Galega e Basca. Infelizmente, ainda não é possível publicar em formato bilíngue, mas a equipe do Kindle disse que trabalha para isso*.

O pagamento é feito em cheque (quando o saldo chega a 100 USD) ou diretamente numa conta americana. Hoje, os escritores de língua inglesa têm uma série de vantagens, como por exemplo participar do fundo específico da KDP e ter suas obras escolhidas como Kindle Single. Mas, para começar, o melhor mesmo é jogar o preço do livro lá embaixo e ver o que acontece. Normalmente, escritores brasileiros publicando obra original devem ter royalties de 70% nos países onde a Amazon está presente e 35% sobre as vendas no Brasil.

Boa sorte a todos nós!

*: sim, já é possível. O formato é uma incógnita. Veja os posts Kindle Bilíngue; Como Baixar Aplicativo Kindle e Uma Carta de Amor; Guia Aleatório de Paris; Uma Estrangeira na França.

Uma retrospectiva literária do mês de julho

Fim de tarde na praia do Porto da Barra, onde meu avó morreu em julho de 1981. Foto tirada em 2009

Mais de um ano de Brasil e de leituras variadas. Logo que voltei, ainda estava na expectativa de me inscrever no Mestrado em Francês na USP em agosto de 2011, e andava para cima e para baixo com os livros da bibliografia exigida. Queria falar sobre o estrangeiro, mas não sabia se escolhia Literatura, Língua ou Tradução, então acabei comprando todos os livros indicados. Li pelo menos algumas páginas de cada um deles, que são muitos, com atenção especial para Antoine Berman, uma preciosidade quase literária do mundo acadêmico, Edmond Jabès e seu Estrangeiro com um Livro de Pequeno Formato Debaixo do Braço, que acabou cruzando minha lista sem querer, pois era citado em vários dos livros, e claro, George Steiner, meu grande ídolo, que escreve deliciosamente em qualquer língua e cujo After Babel estava me esperando em casa logo que voltei (na França, optei por lê-lo na biblioteca mesmo, e ainda passei por apuros quando o moço não me deixou “alugar” 3x seguidas).

Tem também Derrida, e seu texto sobre Babel que até hoje não entendo direito (Des Tours de Babel) e cuja xérox está lá na minha sala. Tem Beckett, em francês e inglês, que comprei e baixei e culminou com a peça que fomos ver lá em Paris, Oh Les Beaux Jours, no Théatre de la Madeleine. Camus, que Tomás me emprestou naquele finzinho de julho passado, e tornou-se o ícone do meu estrangeiro (e do meu amor).

Aos poucos, fui me libertando e abocanhando toda e qualquer literatura. Wilkie Collins e sua Woman in White, seu Moonstone. Um escritor que já devia ter lido há tempos e foi cair no meu colo logo em julho de 2011, mês tão emblemático. Devorei seus livros no Kindle como se não houvesse amanhã, lendo no escuro no meio do apagão em nossa antiga casa em Perdizes. Baixei todas as palestras de Richard Feynman, certa de que me tornaria mais inteligente — como naquele dia em que, em pleno desespero, usei a equação de Einstein para calcular a distância do tempo de ausência de alguém que amava. Tornei-me, também uma curiosa na literatura sobre esquizofrenia. Henry’s Demons é brilhante, Recovered Not Cured nem tanto, e Making Sense of Madness exemplifica, planifica, conceitualiza tudo o que já imaginei sobre o assunto mas não tinha competência acadêmica para organizar. Freud e Jung de volta em A Most Dangerous Method e Studies in Hysteria, a trilogia Millenium, tão apreciada pelos franceses, e a minha primeira biografia: Steve Jobs. Ficção científica, rapidamente, com o lindo, emocionante Never Let Me Go e os Bradburies e Wells de todo dia. Novos velhos escritores — James Agee, Charles Bukowski, George Sand — e a descoberta de um dramaturgo-ator, Steven Berkoff. George Steiner nos intervalos de uma e outra coisa, Sandor Márai, e agora, a Pénélope de Emilio Rodrigué.

Depois desse retorno ao meu país, à Bahia, ao amor que ainda não conhecia (ou conhecia?), decidi que os anos deviam começar no mês de julho, meio-caminho entre a minha chegada, no dia 23 de junho, e o primeiro encontro com Tomás, em 28 de julho. Como começou em 1981, com o meu nascimento no dia 14 de julho, cinco dias depois do falecimento de meu avô. Ele havia dito: “Hoje vou ficar na praia até o sol se pôr”. É como se aquela tarde triste tivesse se estendido até o ano passado, e em 28 de julho de 2011 um novo dia tivesse nascido.

Aos 30 anos

Aos 30 anos: novo poema da americana Paula Bohince, publicado na edição de inverno da Granta: “Bohince disse que o texto começa com a decisão de escapar do stress da cidade e voltar para a casa da mãe, ‘sentindo-se um fracasso total’. Bohince combinou descanso com resignação, nas tardes de comida de microondas e sonecas, e nado no meio de pacientes fazendo fisioterapia”.

Aos 29, fugi para a França. Nadei sozinha na água gelada do Mediterrâneo vezes incontáveis. Recitei Baudelaire em silêncio, no inverno. No intervalos de almoço, comia omeletes porque não tinha microondas. Lia deitada na grama, na faculdade, e buscava livros de Steiner e Derrida e Beckett. Dormia muito à tarde, por isso num dos projetos finais decidi falar sobre o sono, cientificamente. Voltei para o Brasil dias antes de completar 30, para uma nova vida, e agora quero ganhar um novo nome.

Abaixo, tradução em português:

Aos 30, fugi da minha vida

numa chuva de granizo num incêndio, em direção

ao que chamei de ‘grande descanso’,

desfiz as malas na casa de minha mãe,

dormi na cama da minha irmã,

me inscrevi na natação do Y, nadei duas vezes,

diariamente, nas manhãs

os pacientes fazendo fisioterapia

na parte rasa,

nas tardes pendurava maiô molhado,

bandeira preta em linha,

a comida no microondas, e depois a soneca,

o sono minha calamina, o cloro

meu remédio, minha fraqueza por toda parte,

mal conseguia me aguentar.

Nadei nas noites, antes de fechar,

recitando poemas em silêncio,

da antologia de minha mente,

eu estava sozinha, nadando de costas,

pela câmera úmida, debaixo

de afrescos de golfinhos e ninfas,

Flutuei, como um bebê no berço,

fascinada com aquelas imagens suaves —

Por muito tempo foi assim.

Samuel Beckett começa seu romance L’Innommable com “dire je”. De origem irlandesa, o autor havia começado a carreira escrevendo na língua nativa mas, nessa época, as versões originais de suas obras já eram quase exclusivamente em francês (depois ele mesmo as traduzia para o inglês). Ao dizer “je” e não mais “I”, ele tenta se libertar de todos os eus que não têm relação com o “eu criador”, em busca de um “moi” puro. Embora nunca chegue lá realmente, a construção inscrita nesse movimento torna possivel uma literatura bem original.

Comecei a ler Beckett — e Derrida e George Steiner — na França, no início do ano passado. Queria entender este eu estrangeiro, tão comum em território francês — talvez por causa da multiplicidade de línguas faladas na França d’Outre Mer, ou da variedade de estrangeiros que abandonam sua língua materna pelo francês. Encontrei-me com Edmond Jabès e seu estrangeiro com um livro debaixo do braço, Akira Mizubayashi e sua história na minha cidade, Steiner (um caso raríssimo e maravilhoso de tripla nacionalidade), Ionesco e, claro, Beckett. Apaixonados pela língua francesa, eles já não eram mais egípcios, japoneses, europeus (George Steiner nasceu em Paris mas era, sobretudo, europeu), romênios, irlandeses… mas tampouco chegavam a ser franceses. Este limbo literário seria, para tantos, e logo para mim também, um estado permanente d’étrangeté .

De volta ao Brasil, encontrei a pessoa mais importante da minha vida e ele me emprestou O Estrangeiro de Camus (outro estrangeiro, argelino radicado na França). Li a obra famosa pela primeira vez e suas palavras, Cela ne veut rien dire, até hoje ressoam dentro de mim, como aquelas de Beckett…

Talvez toda literatura seja estrangeira.

Na foto, traduzindo o texto Lunch, do ator e dramaturgo Steven Berkoff.