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Meu caso de amor com o Kindle; Halloween; Penguin e Random House

Kindle em suas versões Touch (cinza) e Paperwhite (preto). Os dois são muito bons, mas o novo modelo é ainda melhor, com um sistema de iluminação quase perfeito, uma caixa robusta e resistente, e um touchscreen que funciona bem. Mesmo.

Hoje recebi o meu Kindle Paperwhite, que veio por encomenda, diretamente dos Estados Unidos, quase um mês depois do lançamento do produto em solo americano.

É o meu terceiro Kindle em 18 meses. Comprei o primeiro em maio do ano passado, pouco antes de voltar para o Brasil, numa época em que ia quase todos os dias à Gilbert & Joseph negociar algum valor por algum livro. Desfiz-me de títulos incalculáveis, e outros tantos mandei pro Brasil numa caixa, a um preço abusivo (esses eram livros caros que eu havia levado para a França ou pedido para alguém levar). Livro na França era barato. Já nas primeiras semanas por lá, tinha visto um mendigo, sentado na entrada de uma loja, lendo um volume em capa dura. Que civilização literária!, pensei. Eram tão baratos e tão disponíveis que dava para comprar um livro com o troco do maço de cigarro. Mas, alas, eu não podia levá-los de volta para o Brasil.

As meninas inglesas da universidade andavam com seus Kindles a tiracolo. Resolvi experimentar. Na época, a Amazon ainda nem vendia na França. Encomendei no site, paguei 60 USD a mais e aguardei. Em apenas 4 dias, meu e-reader (Kindle Keyboard) já estava lá. Foi meu companheiro inseparável nas últimas semanas francesas. Fomos juntos para todas as praias, do Languedoc à Riviera, lemos George Steiner e Baudelaire e, chegando ao Brasil, Wilkie Collins. Ele só tinha um probleminha. Quando faltava luz, não dava para ler. Aí o jeito era apelar para os Text-to-Speech e para os Audiobooks (como as palestras de Richard Feynman).

Apresentei o Kindle a Tomás, que gostou da ideia e em novembro de 2011, quando ele viajou para os EUA, encomendei 2 novíssimos Kindle Touch. Primeiro, fiquei decepcionada, por incrível que pareça. Coloquei na cabeça que refletia luz, que não era tão bom, mas assim que me acostumei, nunca mais desgrudei. O Touch era infinitamente superior ao Keyboard. A experiência da leitura tinha se tornado quase íntima de tão próxima, e eu já não precisava me preocupar com mais nada quando estava lendo. Compramos umas mini luzinhas para leitura, que quebravam um galho quando faltava luz, ou quando eu lia madrugada adentro. Depois, compramos capas com luz embutida, que utilizavam a própria bateria do Kindle para funcionar (a bateria dura “quase” para sempre, na cronologia dos bytes), uma libertação.

Estava tão feliz com o Kindle e com a Amazon — que inclusive mandou um Kindle substituto depois que eu manchei o meu na praia — que nem esperava que criassem algo melhor. Aí veio o Kindle Paperwhite.

Ele tem quase o mesmo design do Touch, mas o tato é bem diferente. É mais robusto e bem-acabado, arrojado. Estava receosa quanto ao sistema de iluminação, a tal da built-in light (veja aqui), mas funciona muito bem. E você pode mudar a quantidade de luz na hora em que quiser. Como a Amazon explica no site, a luz reflete sobre a tela e não sobre os seus olhos, então o efeito anti-glare continua valendo. Ele é ligeiramente menor e mais leve, e o primeiro Kindle realmente Touch (não tem nem aquele botão da Home, sabe?).

Como nada é perfeito, a depender da configuração de luz escolhida, aparecem algumas manchinhas na parte inferior da tela. Mas nada que incomode a leitura.

Comprei a capinha de couro junto. Uma surpresa boa. Embora a capa da versão anterior viesse com a luz, era bem ruim. Pesada, com acabamento suspeito, pouco prática. A nova é excelente (veja aqui) e vale a compra. Recomendo!

Agora, para quem quer comprar seu Kindle Paperwhite e não está indo para os EUA… recomendo a Dabee. A Amazon ainda não vende diretamente no Brasil e tudo indica que começará vendendo o modelo mais barato da família. Por isso, melhor garantir. O modelo Wifi — bem mais barato — atende às necessidades de quase todos os leitores. A não ser que você viaje muito, e leia muito em trânsito, e não aguente esperar chegar em casa para baixar o livro, nesse caso (o meu), melhor gastar um pouco mais e comprar a versão 3G.

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Ontem foi anunciada a fusão entre Penguin e Random House. O iG, aqui no Brasil, reproduziu uma matéria da agência EFE (leia aqui), sob o título: “Penguin e Random House anunciam fusão para enfrentar desafio digital“. Ainda lembro das longas tardes que passava em livrarias, procurando as mais novas edições de literatura estrangeira em versão original, e hoje, tudo à distância de um toque…

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Halloween. Acompanhei pelo Facebook alguns vídeos e galerias de imagens de festas muito bacanas. Fiquei triste que não consegui ir a nenhuma. Na época em que eu era adolescente, essas festas estavam restritas a escolinhas de inglês e colégios bilingues. Agora, parece que estão por toda parte. Será o mundo globalizado?

Uma retrospectiva literária do mês de julho

Fim de tarde na praia do Porto da Barra, onde meu avó morreu em julho de 1981. Foto tirada em 2009

Mais de um ano de Brasil e de leituras variadas. Logo que voltei, ainda estava na expectativa de me inscrever no Mestrado em Francês na USP em agosto de 2011, e andava para cima e para baixo com os livros da bibliografia exigida. Queria falar sobre o estrangeiro, mas não sabia se escolhia Literatura, Língua ou Tradução, então acabei comprando todos os livros indicados. Li pelo menos algumas páginas de cada um deles, que são muitos, com atenção especial para Antoine Berman, uma preciosidade quase literária do mundo acadêmico, Edmond Jabès e seu Estrangeiro com um Livro de Pequeno Formato Debaixo do Braço, que acabou cruzando minha lista sem querer, pois era citado em vários dos livros, e claro, George Steiner, meu grande ídolo, que escreve deliciosamente em qualquer língua e cujo After Babel estava me esperando em casa logo que voltei (na França, optei por lê-lo na biblioteca mesmo, e ainda passei por apuros quando o moço não me deixou “alugar” 3x seguidas).

Tem também Derrida, e seu texto sobre Babel que até hoje não entendo direito (Des Tours de Babel) e cuja xérox está lá na minha sala. Tem Beckett, em francês e inglês, que comprei e baixei e culminou com a peça que fomos ver lá em Paris, Oh Les Beaux Jours, no Théatre de la Madeleine. Camus, que Tomás me emprestou naquele finzinho de julho passado, e tornou-se o ícone do meu estrangeiro (e do meu amor).

Aos poucos, fui me libertando e abocanhando toda e qualquer literatura. Wilkie Collins e sua Woman in White, seu Moonstone. Um escritor que já devia ter lido há tempos e foi cair no meu colo logo em julho de 2011, mês tão emblemático. Devorei seus livros no Kindle como se não houvesse amanhã, lendo no escuro no meio do apagão em nossa antiga casa em Perdizes. Baixei todas as palestras de Richard Feynman, certa de que me tornaria mais inteligente — como naquele dia em que, em pleno desespero, usei a equação de Einstein para calcular a distância do tempo de ausência de alguém que amava. Tornei-me, também uma curiosa na literatura sobre esquizofrenia. Henry’s Demons é brilhante, Recovered Not Cured nem tanto, e Making Sense of Madness exemplifica, planifica, conceitualiza tudo o que já imaginei sobre o assunto mas não tinha competência acadêmica para organizar. Freud e Jung de volta em A Most Dangerous Method e Studies in Hysteria, a trilogia Millenium, tão apreciada pelos franceses, e a minha primeira biografia: Steve Jobs. Ficção científica, rapidamente, com o lindo, emocionante Never Let Me Go e os Bradburies e Wells de todo dia. Novos velhos escritores — James Agee, Charles Bukowski, George Sand — e a descoberta de um dramaturgo-ator, Steven Berkoff. George Steiner nos intervalos de uma e outra coisa, Sandor Márai, e agora, a Pénélope de Emilio Rodrigué.

Depois desse retorno ao meu país, à Bahia, ao amor que ainda não conhecia (ou conhecia?), decidi que os anos deviam começar no mês de julho, meio-caminho entre a minha chegada, no dia 23 de junho, e o primeiro encontro com Tomás, em 28 de julho. Como começou em 1981, com o meu nascimento no dia 14 de julho, cinco dias depois do falecimento de meu avô. Ele havia dito: “Hoje vou ficar na praia até o sol se pôr”. É como se aquela tarde triste tivesse se estendido até o ano passado, e em 28 de julho de 2011 um novo dia tivesse nascido.