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Só depois de desconectar

Esse post vai ser bem rápido: só para compartilhar o excelente artigo de Evgeny Morozov publicado na New Yorker de 28 de outubro (que só chegou para mim outro dia). Foi o texto mais inteligente sobre conectividade e tédio (que também já foi chamado de ócio criativo) e dar sentido ao nosso dia-a-dia cheio de distrações deliciosas. Morozov, cujos textos vou acompanhar bem de perto a partir de agora, começa falando de Siegfried Kracauer, que receitava o bom e velho tédio para nos reunir com nossas mentes. E o tédio em tempos tão modernos pode tomar formas interessantes…

O artigo só está disponível para assinantes aqui, mas dei um jeito de publicá-lo em PDF para que todo mundo possa ler: Only Disconnect, de Evgeny Morozov.

Para quem se interessa mesmo pelo assunto, o livro The Distraction Addiction, de Alex Pang, foi muito bem-recomendado e eu já comecei a ler.

Dukan, Cupcakes, Kleist. E mapeamento genético

Cupcake da Delicake, para quem não está fazendo a Dukan

Cupcake da Delicake, para quem não está fazendo a Dukan

Nos últimos meses escrevi alguns posts sobre a Dieta Dukan. Estava empolgadíssima com livro e método do neurologista francês e, olha, eu até pretendia seguir a dieta à risca. Colegas, amigos, familiares e até meu noivo aderiram à moda, com resultados excepcionais, e só tenho coisas boas a dizer sobre o programa. Mas preciso confessar aqui: eu não segui a dieta. No fim de setembro, devo ter feito três dias de Ataque (PP – proteína pura) e alguns dias de PV (proteínas + vegetais), mas nos outros dias, comi à vontade. Ou quase. Porque eu realmente privilegiei os alimentos escolhidos por Dukan — proteína e vegetais — e comecei a evitar outros que antes faziam parte da minha dieta do dia-a-dia — pão branco, massas, batatas, queijos amarelos, frituras. (Só não deu para escapar do Lollo, do brigadeiro do cupcake). E o resultado foi bom. Ontem, depois de meses sem me pesar, eis que subi na balança. Eliminei mais de 5kg desde setembro, sem passar vontade. Agora só falta perder mais 2kg para o casamento!

E os preparativos devem incluir um exame pouco comum. No último fim-de-semana, um amigo nosso veio contar uma das coisas mais interessantes dos últimos tempos. O mapeamento genético, aquele negócio bem complicado que há pouco mais de 10 anos parecia inacessível ao cidadão comum, custa hoje apenas 99 USD e pode ser feito com um kit encomendado pela Internet — eles entregam em vários países, mas o Brasil ainda não faz parte da lista. Você só precisa cuspir no tubo que vem no kit e enviar de volta, depois de cadastrar todas as informações online. Se dá para enviar daqui do Brasil, via FedEx, ainda não sei. Mas a possibilidade não deixa de ser fantástica.

O 23andMe tem como co-fundadora Anne Wojcicki, esposa de Sergey Brin, co-fundador do Google. O negócio passou por várias injeções de capital, e o exame, que custava 999 dólares inicialmente, hoje pode ser encomendado por 1/10 do valor, o que deve contribuir para aumentar a database deles. Basicamente, ao enviar o kit, você pode descobrir seus ancestrais, possíveis parentes distantes que já são membros da “comunidade” e, não menos importante, sua predisposição genética para algumas doenças já mapeadas e outras nem tanto — eles conseguem listar genes associados a estudos conduzidos recentemente que ainda não têm sequer o aval da comunidade científica. E se você fizer com seu cônjuge, pode conhecer um pouco mais sobre o possível futuro hereditário dos filhos. Se fizer com pais, irmãos, avós, os riscos que você carrega serão certamente melhor definidos.

Acho tudo muito interessante e intelectualmente estimulante, como já disse aqui, e pretendo fazer o exame com Tomás antes do casamento. Mas ainda estamos longe de um mundo como aquele retratado no filme Gattaca. O sequenciamento genético ainda custa muito, muito caro, e até este ficar disponível vai ser difícil pensar na ascensão de qualquer tipo de genoísmo. E, como meu pai me disse hoje, “informação sem sabedoria é [quase sempre] uma maldição”.

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Terminei de ler The Duel, de Kleist, escritor de quem gosto demais. E agora estou terminando de ler The Mysterious Affair at Styles, de Agatha Christie (com Poirot) e gostando muito. Comentários aqui em breve.

Caos e ficção

Ilustração da curvatura do espaço-tempo disponível em página da Wikipedia (propriedade da Wikimedia Commons)

Comecei a gostar de ficção científica porque me interessei por física quântica, no comecinho de 2005, quando a literatura quântica com base filosófica invadiu as livrarias. Lembro até hoje do primeiro livro, The Fabric of the Cosmos, de Brian Greene, o primeiro cientista-celebridade de tantos que viriam depois. Comprei a edição mais baratinha, da Penguin, e a letra e as figuras eram tão pequenas que não consegui passar da metade. Mas ali estava um assunto que havia me fascinado desde a infância, desde uma tarde remota na casa de Tacimirim, quando me debrucei sobre a obra famosa de James Gleick.

Devia ser 93 ou 94, Caos tinha sido lançado há uns cinco anos e já estava surrado. Meu pai, meu grande ídolo até hoje, tinha as versões original e em inglês, em casa e em Taci, e sugeriu que eu lesse o livro. Ele já havia me presenteado com histórias fantásticas como o Homem Que Calculava, de Malba Tahan, as Mil e Uma Noites e uma porção de livros sobre dinossauros. Mas não li Caos depois daquela tarde, nem procurei pelo livro. Lembro de ter ficado com medo, como se alguém tivesse dito de repente que o universo de verdade era outro, escondido, incompreensível. Por muitos anos rejeitei a ficção científica. Não participei da euforia por Star Wars ou Star Trek ou Alien, e até Jurrasic Park me deixava apavorada. Mas, pior do que isso: eu não me interessava pelos livros que meu pai devorava no fim-de-semana, era como se a minha literatura e a dele fossem distintas, ainda que eu, cheia de admiração, fosse ler em seu cantinho especial sempre que podia. E se eu escrevia, meus textos eram terrenos, quase aborrecidos, e eu tinha certeza que ele nunca os aprovaria como um todo.

Não sei se a ficção me decepcionou parcialmente, ou se estava mesmo entediada com tudo, mas em 2005 essa ficção da ciência, apresentou-se novamente para mim como um outro universo, que eu não entendia em absoluto mas, olha, era possível. E as possibilidades abertas pelo avanço da física quântica eram tão amplas e tão deliciosas que eu podia encará-las como ficção. E daí meu projeto de conclusão de concurso ficou sendo sobre o futuro da informação. Foi um ano inteiro [sub]imersa nas literaturas de Google, Richard Feymann, Lee Smolin, H.G. Wells, Bruce Sterling — que tive o prazer de entrevistar diversas vezes — absorvendo a máxima de John Wheeler: IT FROM BIT, toda existência vinha de uma só coisa, informação.

Lembro de ligar uma vez para meu pai, no meio da noite, para perguntar por quê mesmo o teletransporte ainda não era possível, ou de nossas conversas no meio do almoço, a família toda reunida no Dolce Villa, eu comendo aquele hamburger de javali, sobre o código cerebral descoberto por uma equipe do MIT segundo o qual pensamos em 1, 0 e -1 e é isso que nos permite ignorar tanta informação.

Nem o excesso de citações nos livros de Michio Kaku, nem o culto a Lisa Randall (como se a beleza fosse algo incompatível com o intelecto), nada me tirou desse caminho mais. Não consegui ler o último capítulo de Quantum Gravity, de Lee Smolin, mas volta e meia releio o início. E foi naquela época que comecei a escrever uma novela sobre o tempo. Meu pai acompanhou passo a passo, dando dicas sobre enredo e personagens. Já tem mais de cem páginas e talvez eu a retome algum dia. A verdade é que a ficção científica acabou se tornando um abrigo desse mundo tão difícil. É como se eu tivesse voltado para a família, para casa, como naquele texto tão bonito de Ray Bradbury que comentei aqui outro dia. Take me Home.

Nota pós publicação: quando fui pesquisar o nome do autor de Caos, descobri que é também autor de The Information: A History, A Theory, A Flood publicado recentemente e já disponível no meu Kindle. A versão em Português será publicada pela Companhia das Letras, com tradução do amigo Augusto Calil.