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Primeira língua e verdades estrangeiras

Livro Journaux de Voyage de Camus na paisagem de Itacimirim, Bahia

Livro Journaux de Voyage de Camus na paisagem de Itacimirim, Bahia

Tem escritores por quem a gente se apaixona várias vezes. Cada vez que descubro ou encontro uma nova velha obra de Camus isso acontece comigo. Primeiro foi O Estrangeiro, depois La Mer au Plus Près (The Sea Close By, que li em inglês e francês) e, agora, Journaux de Voyage. E eu tenho certeza de que quando não houver nada mais entre nós dois, quando seu Cela ne veut rien dire não me disser nada, ainda teremos o mar.

Li Journaux de Voyage em Itacimirim, logo depois do Carnaval. Lê-lo, em papel, ao longo da minha praia mais amada, teve um significado todo especial. A viagem que ele fez na América Latina e mais especificamente no Brasil, é consonante com a minha história e com as minhas aspirações literárias. O livro tem passagens lindíssimas: “Noite maravilhosa sobre o Atlântico. Essa hora que vai do sol minguante à lua nascente, do oeste ainda iluminado ao oeste já sombrio. Sim, amei demais o mar — essa imensidão calma — essas pegadas cobertas — esses caminhos líquidos. Pela primeira vez um horizonte tem a medida da respiração de um homem, um espaço tão grande quanto a sua audácia”, ou tristes e absurdas: “Tristeza por me sentir ainda tão vulnerável. Daqui a 25 anos, terei 57. Então restam 25 anos para concluir a minha obra e encontrar aquilo que busco. E logo a velhice e a morte”. Camus tinha 32 anos quando escreveu isso, exatamente a minha idade. Quando li esse trecho, tive certeza de que ele havia tirado a própria vida. Mas não. Morreu aos 47, 10 anos antes do que planejava, de uma forma bem vulgar: num acidente de carro (é possível, no entanto, que tenha sido um atentado à sua vida). No entanto, ele escreveu talvez um dos mais interessantes livros sobre o suicídio, Le Mythe de Sisyphe.

Já não sei mais qual é a minha literatura, posto que não escrevo mais ficção desde a França (só reescrituras e pequenas traduções de mim mesma, todas sem importância), embora acredite em uma literatura forjada entre a ficção e a realidade, com a ficção incidindo sobre ela, exatamente como acontece em algumas obras que admiro (Dans la Maison sendo o exemplo mais recente e mais exato). Vejo também uma literatura modesta que vai se construindo durante os meus sonhos noturnos e sobre a qual creio não exercer qualquer poder num primeiro momento — e as histórias e personagens que não deixam de existir só porque eu me recuso a colocá-los no papel, a conferir-lhes essa materialidade tão almejada. Sinto falta dos meus personagens e ao mesmo tempo sei que nunca vivi tanto e tão feliz na realidade.

Quando reavalio meus textos antigos escritos em outra língua, tenho certeza de que caso decidisse traduzi-los para o português, poderia explorá-los com muito mais detalhe, mais profundidade. Não que sejam superficiais, pois são de uma profundidade estrangeira, de uma verdade que talvez eu não conheça em minha língua materna. À noite, durante os meus sonhos, é como se eu trancasse essas verdades em primeira língua, linguagem: as imagens, os cheiros, os sons. Pena que eu não tenho qualquer talento para o desenho, porque se eu tivesse, ainda que fosse um pouco, jamais escreveria de novo em minha vida.

O duplo na literatura

Fim de tarde no paraíso: Itacimirim.

Fim de tarde no paraíso: Itacimirim.

Já são dias e dias sem escrever. Dezembro foi embora num pulo, e logo estávamos na Bahia (na Bahia desse lindo fim de tarde). Aí 2014 chegou. E vamos primeiro às coisas últimas.

Estou terminando de organizar o meu primeiro livro no Kindle (mais novidades em breve). Mas, no fim do ano, queria dar um presente de Natal original para Tomás e, empolgada com a organização do livro estrangeiro, acabei reunindo todos os textos escritos ao longo de uma vida. Coloquei tudo num arquivo só e fui escolhendo uma ordem que fizesse sentido. Depois que li descobri que ali tinha um livro, um livro com um fio condutor e temas consistentes: a escritora em mim, veja só, era coerente.

E o tema principal é o Duplo. Aquele assunto apaixonado da literatura (e da psicanálise) desde muito tempo, com exemplos famosos: Dr. Jekyll & Mr. Hyde, O Retrato de Dorian Grey, O Duplo de Dostoiévski, apenas para citar alguns. O primeiro estudo sobre o conceito data de 1914, e é de autoria de Otto Rank (clique aqui para visualizar o ebook sobre o assunto na Amazon), mas Freud se debruçou sobre o tema em seu famoso The Uncanny. Na primeira versão desse post (sim, decidi reescrevê-lo, condensá-lo e explicá-lo), eu sequer definia o termo. É um conceito tão familiar, tão íntimo que eu não achei que precisasse. E agora que tento definir, tampouco consigo. É como Santo Agostinho disse sobre o tempo: se você me pergunta o que é, não sei responder, mas se ninguém me pergunta, sei exatamente o que é.

Gosto de uma definição que encontrei por aqui (para Das Unheimliche, conceito cunhado por Freud e que pode ser traduzido por The Uncanny): uma instância onde algo pode ser familiar e também estrangeiro, e essa estranheza e familiaridade a um só tempo produzem desconforto. Como no estrangeiro (que busco e investigo há mais de dois anos). O Dicionário Gale de Psicanálise oferece um conceito mais robusto (e talvez menos compreensível): O duplo se refere a uma representação do ego que pode assumir várias formas (sombra, reflexo, retrato, duplo, gêmeo) e que é encontrado no animismo primitivo como uma extensão narcisística e garantia de imortalidade mas que, na ausência do narcisismo, pode prenunciar a morte ou se tornar fonte de perseguição.

Há alguns dias encontrei a primeira versão daquele que considero o meu melhor conto — Polina e o Menino dos Olhos de Espelho — escrito em uma das aulas do curso de Jornalismo da PUC-SP. A professora me apresentou para o Hoffmann literário, aquele grande criador que eu só conhecia por meio do desenho do Quebra-Nozes que passava na televisão. Lemos O Homem de Areia e o efeito em mim foi profundo. Escrevi meu texto modesto às pressas, intitulei-o O Autômato Adormecido e o entreguei de última hora. A professora escreveu, há quase 14 anos: “Jennifer, o seu conto é muito criativo e interessante, mas deixa a desejar quanto ao texto. Merecia ser refeito!”. E refeito foi.

Hoffmann é um personagem fundamental da minha educação literária. No fim do ano passado, fomos ver o balé Quebra-Nozes da Cia de Dança Cisne Negro e logo depois li a adaptação de Dumas da história, Histoire d’un Casse-Noisette

No balé O Quebra-Nozes

No balé O Quebra-Nozes

Estava com saudades dos duplos e dos autores germânicos — uma de minhas maiores frustrações é não poder, por enquanto, ler em alemão. Então dá para imaginar a minha excitação quando, na semana passada, procurando um livro de ficção em espanhol na Livraria Cultura — estava traduzindo uma obra do espanhol para o português e queria me manter em contato constante com a língua — encontrei Alter Ego: Cuentos de Dobles. Una Antología. O preço era salgado (R$ 106,20 para textos que já estão quase todos no domínio público) e apenas dois dos contos eram hispânicos, então acabei não comprando, mas iniciei uma verdadeira busca pelos seus textos, que listo abaixo, com links diretos ou para a história na íntegra ou para a obra da qual faz parte:

La Historia del Reflejo Perdido, ETA Hoffmann

El principe Ganzgott y el cantante Halbgott, Ludwig Achim von Arnim

Howe’s Masquerade Nathaniel Hawthorne

Le Chevalier Double, Théophile Gautier

Markheim, Robert Louis Stevenson

Lui?, Guy de Maupassant

L’Homme Double, Marcel Schwob

The Story of the Late Mr. Evelsham, H.G. Wells

The Jolly Corner, Henry James

One of Twins, Ambrose Bierce

The Secret Sharer, Joseph Conrad

Mirtho, César Vallejo

La muerte de mi doble, José María Salaverría

Li quase todos, mas não todos. Li com muita excitação Hoffmann, Stevenson e Wells, que figuram entre os meus escritores favoritos de todos os tempos.

O de Hoffmann ficou um pouco aquém das minhas expectativas, possivelmente porque faz parte de uma história maior (é possível ler o trecho selecionado de A New Year’s Eve Adventure ou La Aventura de La Noche de San Silvestre neste ink: La Historia del Reflejo Perdido. Por incrível que pareça, a versão em espanhol, disponível gratuitamente na Internet, é superior à que encontrei em Inglês — muito pobre — e em Francês — com muitos erros), mas o tema do reflexo perdido é muito interessante. 

Markheim, de Stevenson, é elegante, extremamente bem escrito, e virtuoso. Wells é sempre Wells, e embora o texto seja curtíssimo, e seu desenvolvimento bastante previsível (principalmente para quem está lendo um livro só de histórias de duplos), a construção magnífica dos dois personagens em tão poucas linhas, e o final, previsível e imprevisível ao mesmo tempo, faz do texto delicioso, e assustador.

Lui, de Maupassant, consiste em uma única carta e deixa o leitor esperando por mais (característica de muitos dos seus textos). O Cavaleiro Duplo de Gautier li num suspiro só, sem poder adivinhar o que aconteceria em seguida. Surpreendeu-me que ele fosse tão pudico! Mas vale a leitura ainda assim.

Amei One of Twins, de Ambrose Bierce, que eu mal conhecia e nunca tinha lido. Também se trata de uma carta, mas dizer qualquer coisa mais não seria justo.

Joseph Conrad foi quem mais me impressionou. Nunca havia lido absolutamente nada dele. Original da Polônia, ele adotou a língua inglesa, que nunca “matrisou” completamente. E por algum motivo ele até agora não havia aparecido em nenhuma das minhas pesquisas sobre o estrangeiro. Nem mesmo a sua intimidade com o mar havia me levado a um de seus livros antes desse momento…

Estrangeiro ou não, The Secret Sharer é de uma clareza magnífica, estilo cristalino. Li à beira da piscina, de uma vez só, pois não conseguia parar antes de saber como terminava. Certamente a melhor descoberta literária de 2014 até agora. E olha que o autor faleceu há exatos 90 anos.

Liz e a saudade do lado de fora do tempo

A linda Praia do Porto da Barra, em Salvador

A linda Praia do Porto da Barra, em Salvador

Minha vó mencionou Liz pela primeira vez em 2007. Tínhamos acabado de jantar e estávamos tomando licor (o meu favorito, o francês Grand Marnier), nós três. Meu namorado na época, Joe, era americano e a gente falava em inglês. Pode ter sido por causa da língua ou porque ele era ex-pat em São Paulo, exatamente como minha vó e meu avô em 53, só sei que foi a primeira vez em que ela me contou algo mais ordinário (embora fosse, na verdade, extraordinário) sobre a vida dos dois.

Liz era uma mulher fascinante que eles tinham conhecido logo que se mudaram para São Paulo. Moravam em Santo Amaro e passavam os fins de semana na represa de Guarapiranga ou em jogos de mímica na casa dos amigos. Liz e Richard, também expatriados, eram vizinhos e tinham quatro meninos. Meu avô e avó, três. Então a aproximação foi natural. Um dia, meu tio e um dos filhos de Liz saíram para brincar e não voltaram até a noite. Minha vó ficou desesperada — acredite, só quem a conhece pode imaginar como é. Aí Richard virou para ela e disse (brincando na certa): “já sei por que você está nesse estado e eu não. Se eles não voltarem, você vai perder 1/3 enquanto eu, apenas 1/4”.

Liz, que era mesmo muito peculiar, tentou matar o segundo marido. Assim. Envenenou-o com arsênico e ele só escapou (embora paraplégico) porque ela teve um ataque cardíaco na farmácia antes de concluir de forma bem sucedida a tentativa. Passei dias, meses, só pensando na história, fascinada com a possibilidade de a minha vó, alguém tão próxima de mim, ter conhecido um autêntico personagem de policial. Volta e meia lembrava da narrativa e me vinha a ideia de escrever um livro, ou pelo menos um conto sobre Liz, mas “a intrusão dilacerante do tempo” (só para citar Tennessee Williams) não deixava.

Minha vó e eu falávamos (e falamos) sobre tudo, sobre as pequenas coisas do dia a dia e os grandes livros, os grandes planos, a grande política (nesse caso, ela fala e eu ouço). E de 2007 para cá realmente muita coisa aconteceu. Os pequenos romances, a ida para a França, a volta para o Brasil, o grande amor. E ainda que a gente falasse praticamente todos os dias, por telefone, por Skype, por e-mail e até por cartas, nunca dava tempo de falar das coisas que estão do lado de fora do tempo. Sempre tive essa curiosidade enorme sobre o meu avô. Ele faleceu cinco dias antes de eu nascer, no dia em que tinham marcado meu parto, e toda a minha infância, adolescência, pensei que esses cinco dias tinham sido necessários para que um pedaço de sua alma fizesse parte de mim. Mas nunca havíamos conversado de verdade sobre ele, eram fragmentos de narrativa que compunham sua imagem para mim.

Depois que voltei para o Brasil, minha vó começou a falar mais sobre o meu avô. Exatamente como naquela noite em que me contou sobre Liz. Ou estávamos jantando, ou almoçando, ou passeando pela rua (somos grandes amigas) e de repente alguma coisa levava até ele. Mas as narrativas eram emocionadas, profundas, embora também alegres, cheias de vida. E o que deveria me dar felicidade, acabava me deixando triste. Porque eu sabia que a mesma coisa que trazia meu avô para perto, um dia a levaria para longe. Ela estava se despedindo. Era uma despedida longa, mas era uma despedida ainda assim.

Quando Willie veio me dizer que queria gravar alguns videos com ela, para que ela contasse mais sobre o meu avô, sobre a vida que tiveram juntos, sobre todos esses anos extraordinários que nós sempre fomos jovens demais para conhecer, eu me lembrei do meu desejo quase infantil de escrever sobre Liz. Aí decidi que queria escrever um livro, não sobre os incidentes literários da sua vida cheia de eventos, nem tampouco sobre o meu avô, de quem sempre senti saudade sem nunca ter conhecido, mas sobre a minha vó, ela mesma. Um livro que seja um documento, em que ela mesma e mais ninguém possa narrar a vida que teve. Às vezes penso que é para descobrir como ela se tornou a mulher extraordinária que é hoje ou se tenho um pouco de quem ela foi no passado. Mas a verdade é que o único jeito de aguentar a saudade vai ser guardá-la do lado de fora do tempo, para que seja contínua, em vez de eterna e ainda assim, para sempre.

*

The Timeless World of a Play, de Tennessee Williams, texto brilhante de onde vem a citação “if only the shattering intrusion of time could be locked out”.

Noivas perdidas e a Paris de Doisneau

Vestido Celebrity da coleção Off White/Mariage da Emannuelle Junqueira. Meu preferido!

Vestido Celebrity da coleção Off White/Mariage da Emannuelle Junqueira. Meu preferido!

Estou apaixonada pelos vestidos da Emannuelle Junqueira. No ano passado, uma de nossas madrinhas queridas elogiou muito a marca e foi comigo até a loja, mas na época achei os vestidos customizados muito pesados — embora lindos — para o que eu queria, enquanto os modelos da linha off white (às vezes chamada de Mariage — ou Marriage, até agora não sei se a ideia é falar em francês ou em inglês) eram simplinhos demais. Lembro que pensei que seria ótimo achar um vestido no meio caminho entre uma proposta e outra, e parece que finalmente achei.

O Salão Casa Moda Noivas começou na sexta, mas só resolvi ir no sábado. Perdi o desfile da Emannuelle, que aconteceu na sexta à noite, mas vi um pouco da cobertura no Instagram e na web, e parece que foi lindo, inclusive com vários modelos que não estavam disponíveis para prova durante o evento. Comecei provando um da Cymbeline, que tem uma comunicação de marca deliciosa, tudo a ver comigo. Mas nem todos os vestidos — importados diretamente de Paris — vêm para o Brasil e eles acabam não trazendo os mais fluidos e simples, que combinam melhor com a minha proposta, como o Grenadine (sem as flores, claro).

Vestido Cymbeline Grenadine da coleção 2012. Não veio para o Brasil...

Vestido Cymbeline Grenadine da coleção 2012. Não veio para o Brasil…

O estande da Emannuelle era logo em frente ao da Cymbeline, e já estava cheio por volta de meio dia. Fui e voltei algumas vezes, e confesso que tinha gostado de vários vestidos, mas nenhum deles havia me conquistado de verdade. Fiquei na fila e vi o modelo Celebrity numa das “brides to be” e me apaixonei. Nem sabia como ia ficar no meu corpo, mas foi só vesti-lo para me encantar. Era um modelo 36 e mesmo assim precisava de ajustes — na cintura e no busto — mas era lindo demais!

Não provei mais nenhum vestido depois desse. Dei uma volta pelos estandes, tirei algumas fotos curiosas, provei os bombons, e saí de lá bem feliz, tendo provado apenas 4 modelos (o Celebrity, um da Cymbeline e dois da M.Gio). Aliás, vi ao vivo as lingeries da marca Gisele Bündchen e achei lindas. Não estavam à venda mas dá para comprar pelo site.

Para ler a matéria sobre o desfile, clique aqui. E quem quiser ver o vídeo, é só acessar esse link do UOL.

Foi difícil resistir à tentação de publicar uma foto minha com o modelo, mas Tomás foi categórico: não quer saber do meu vestido. As amigas que estiverem curiosas, podem me escrever pelo Facebook. É só clicar no meu perfil, aqui.

*

Os últimos dias foram muito, muito especiais. Tomás e eu comemoramos 1 ano e 7 meses de namoro e fomos jantar num restaurante a que eu não ia há mais de 10 anos. Dei de presente para ele o livro Paris Doisneau, de Robert Doisneau, que não me canso de folhear: acho que todos os contos parisienses estão naquele livro de algum jeito, e eu queria muito trazê-los à tona. Já eu ganhei miniaturas de alguns dos meus escritores preferidos: Poe, Joyce e Shakespeare, além de uma camiseta da Paris Review que chegou tardiamente — ele havia feito o pedido em julho do ano passado! Meu momento é definitivamente Paris, por isso queria recomendar um post publicado hoje no Blog da Companhia: As gavetas francesas estão cheias

Ontem meu pai completou 60 anos, e estou preparando livros e textos e álbuns para ele, porque ele merece tudo isso e muito mais.

Desamparo; Julian Barnes; Agatha Christie e histórias antigas

Julian Barnes e a capa de seu livro The Sense of an Ending. Imagem publicado no site The Telegraph.

Julian Barnes e a capa de seu livro The Sense of an Ending. Imagem publicada no site The Telegraph.

Li há alguns dias The Sense of an Ending, de Julian Barnes, recomendado numa das já saudosas manhãs com gin tônica em Itacimirim. Conhecia Barnes de nome e fama, tinha folheado Arthur & George algumas vezes, mas nada poderia ter me preparado para a leitura dessa novela de pouco mais de 150 páginas. Acabara de ler Beauvoir in Love (veja post sobre o assunto), e voltar para São Paulo, orfã da praia e da Bahia, e meio entristecida. Comecei a lê-lo na quinta ou sexta, terminei no almoço de domingo, e ele me assombrou até a noite de ontem, quando li, do início ao fim, um outro livro excelente de Agatha Christie (mais sobre isso daqui a pouco).

A leitura de Barnes aumentou meu sentimento de desamparo, mas de um jeito bom. Fiquei orfã do livro, dos personagens, do autor, e tinha vezes em que eu queria falar sobre ele, mas não podia. Esse é um dos seus charmes: você não pode falar sobre o livro para alguém que nunca o leu. Você pode dizer que o narrador é uma pessoa comum, que tudo começa como numa história de bar. Tudo o que acontece poderia realmente ter acontecido, e se tivesse acontecido, seria contado exatamente do jeito que Barnes escolheu. Quer dizer, se fosse contado por Tony, porque uma das coisas que aprendemos logo no início é que não tem jeito de escapar da consciência desse narrador. Ah, e quando o livro acaba, começa a angústia, a agonia, uma saudade profunda e indefinida.

A história é sobre quatro amigos de escola, um mais inteligente e estranho do que os outros, mas também é sobre o que acontece com eles depois que entra em cena uma menina rica, inteligente e bonita. O livro oferece algumas interpretações sobre o tempo, uma intimista, juvenil quase, outra indissociável da memória e uma terceira, a do leitor, implacável. O livro investiga o sentido de acumulação (de que Poirot fala em seu grand finale, por incrível que pareça), e de um fim realmente definitivo, que talvez não exista.

Levei dois dias para dar um chega pra lá no desamparo. Ontem, finalmente, li Curtain: Poirot’s Last Case do início ao fim. É o último livro de Agatha Christie com o detetive Poirot, e é excelente. Aliás, excelente é pouco, é o grand finale de um grande personagem, com estilo impecável e timing de mestre. Impossível parar de ler. Li algumas páginas no almoço, retomei a leitura à noite e só fui terminar às 2h30. Órfã, de novo. Ainda bem que tem muito livro de Poirot pela frente.

*

Há alguns dias, redescobri um pen drive com uma série de contos escritos entre 2005 e 2010, em inglês. Um dos contos foi inclusive criado muito antes disso, quando ainda estava na escola. Mas enfim. São histórias de fantasia, ficção científica e até horror (sim, algumas são assustadoras), que compuseram minha “alma” por muito, muito tempo. Os personagens são recorrentes e indissociáveis da minha vida naquela época.

Quando pensei em organizar e publicar meu livro na plataforma Kindle, a ideia era fazê-lo em português e publicar um livro que tivesse tudo a ver com o meu momento França e pós-França. Mas agora não sei mais. Não sei se tenho o direito de abandonar personagens, histórias e sonhos tão queridos e seguir em frente. O desafio será, realmente, voltar a escrever em inglês, nem que seja para revisar os textos e redigir pré e posfácio. Pois — agora vem o bônus — os textos já estão prontos, graças a Deus.

Paixão e vaidade em Beauvoir e as mulheres de Rubem Fonseca

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Fim de tarde em Itacimirim. Dezembro 2012

Acabamos de voltar de uma viagem de dez dias na Bahia, em Itacimirim, na praia das nossas vidas. Foi tudo uma delícia, vai ver é por isso que está tão difícil me readaptar a São Paulo, seu ar rarefeito, sua chuva no asfalto. Nessa viagem tão curta e tão longa ao mesmo tempo, voltei a pertencer a Itacimirim, como há dezenas de anos, só que mais e melhor. Aquela alegria, aquela liberdade de se deixar adormecer em qualquer lugar e ter sonhos quase épicos, deitada na cadeira de sol ou boiando no mar, enquanto a história se refaz sob a luz do meio-dia. Voltei a ser feliz como naqueles passeios logo antes ou logo depois do pôr-do-sol, caminhadas solitárias e profundas que agora não faço mais sozinha.

Li dois livros nessas férias, Ela e outras mulheres, de Rubem Fonseca, e Beauvoir in Love, da francesa Irène Frain. O primeiro era um presente para Tomás, e tem uma história curiosa. Em 2009 ou 2010, não lembro, uma prima me falou muito em Fonseca e no livro, e eu fiquei com uma vontade louca de ler. Ela já não tinha mais seu exemplar e a obra estava esgotada por aqui. Procurei-o em livrarias, sebos, mas não achei em nenhum lugar. Aí fui para a França, voltei, e já lia quase que exclusivamente no Kindle. Esqueci totalmente disso e só lembrei no meio de dezembro, quando estava comprando presentes na Livraria da Vila. Alguém falou em Marcelo Rubens Paiva e eu lembrei de Fonseca, pedi o livro e comprei. Queria ler antes de dar de presente para Tomás.

Pois bem. O livro explora o universo masculino muito mais do que o feminino, talvez por isso a leitura seja tão inusitada. Não guarda nenhuma semelhança com a história que eu havia criado na minha cabeça e queria que Tomás lesse. Não consegui me identificar com nenhuma das personagens femininas, mas alguns dos protagonistas homens me agradaram muito. De qualquer forma, a leitura vale a pena. E ler em papel em pleno dezembro me preparou para o livro que viria depois, de Irène Frain. Com mais de 400 páginas, o livro é delicioso mesmo pesando quase 1kg.

Nunca li nada de Simone de Beauvoir. Para mim, ela sempre foi a “mulher de Sartre“, aquela que havia estabelecido com ele um relacionamento pra lá de liberal. Já Sartre tinha um correspondente complexo no meu imaginário. Era tão fascinada por ele que chegava a considerá-lo bonito. Adoro Entre Quatro Paredes, que já li dramaticamente algumas vezes, na aula de teologia da faculdade, no projeto Jovens Escritores da escola e em outras ocasiões. Foi a única peça que atravessou-me da adolescência à vida adulta e que pode ser interpretada na minha cabeça, com personagens independentes. Adoro A Náusea, também, e O Muro, As Palavras e, inclusive, O Ser e o Nada, que usava para me acalmar em meus momentos mais tristes dos perdidos 19 anos.

De modo que não sabia bem o que esperar do livro de Frain, que transformou em romance um complexo e longo trabalho de estudo: cartas, diários, obras e entrevistas com todos aqueles que participaram (mesmo que como coadjuvantes) do quarteto amoroso formado por Sartre, Beauvoir, Nelson Algren, o escritor americano com quem o Castor viveu um tórrido caso de paixão e Dolores, a “contingente” quase amor essencial de Sartre.

Algren é autor do famoso livro The Man With The Golden Arm, que virou (um excelente) filme com Frank Sinatra. É um dos meus títulos preferidos da era dourada de Hollywood, e o melhor Sinatra. Foi vendo esse filme que comecei a entender a fascinação que minha vó tem por ele, e que tantos têm por Kim Novak. Mas li o livro na mais completa ignorância. Para mim, Algren era apenas um escritor americano bem bonito, que vinha das classes mais baixas. Nem sabia que ele havia escrito algo de valor. Não conseguia entender por que Beauvoir ou Mary Guggenheim eram tão apaixonadas, até que cheguei à página 300. É quando eu descubro quem ele é de verdade, bem no momento em que ele começa as colher os frutos do sucesso do seu romance recém-publicado.

As primeiras páginas dão uma raiva sem limite de Sartre. Sartre manipulador, machista, mesquinho. Egoísta, egocêntrico. Insensível. Simpatizei imediatamente com o dilema de Beauvoir. Ela e Sartre se relacionavam havia quase duas décadas, mas há anos não tinham qualquer relacionamento sexual. Tentei imaginar o sofrimento dessa mulher inteligente, de mais ou menos 40 anos, relegada à segunda posição assim, de repente. E é esse sentimento desesperador, esse ciúme, essa vaidade que imperam quando ela vai para os Estados Unidos para um tour de quase 3 meses.

Seu primeiro capricho é conhecer Dolores, a amante americana de Sartre. Ela convence uma amiga a marcar o encontro, e inferniza a vida da “contingente” por algumas semanas (ou meses). Consigo entender essa necessidade. Um misto de curiosidade, vaidade e literatura faz com que a gente queira conhecer a mulher  apaixonada por “nosso amor essencial”. Dolores é uma personagem fugidia: sabemos que ela é atraente e pequena, de tipo mignon (embora em francês mignonne queira dizer bonita, simplesmente), e passa impávida às provocações de Beauvoir. E dá para entender por que ela não aparece tanto no livro: quem de fato Dolores foi importa menos do que quem ela é nas cartas e relatos de Sartre, e é isso que dá origem, em Beauvoir, a um tour de force de pura vaidade.

Tudo acontece principalmente por palavras, não importa quantas vezes Algren e Beauvoir façam amor, ou quantos voos cada um precise tomar para ver o outro. A cada encontro no aeroporto, a impressão de que aquele que esperava era um desconhecido, isso sem mencionar o “calepin”, o pequeno caderno instituído por Algren para que cada um relatasse as experiências sob a sua ótica. As pequenas narrativas começam com uma explosão de amor e terminam como brigas veladas ou mesmo abertas, e uma angústia sem fim para alcançar aquele primeiro momento de puro sexo e amor, quando ainda não haviam intelectualizado e epistolado a paixão que sentiam um pelo outro. Algren permanece vivo em Beauvoir, mesmo quando ela não se sente mais atraída, mesmo quando, em suas viagens românticas ao lado dele, ela corre para o correio quase todos os dias para verificar se há uma nova carta de Sartre. Algren é o outro, o tempo todo. Eles teriam feito uma perfeita encenação de Entre Quatro Paredes, com a vantagem de que Sartre e Beauvoir poderiam interpretar todos e cada um dos papéis: o homem inseguro, que morre de desejo pela mulher bonita, mas precisa da aprovação da outra, a mulher bonita cuja vaidade é mais simples, ela quer ser amada e desejada pelo homem, pela sua beleza, e a outra mulher, que tem um desejo físico pela mulher bonita. Sartre e Beauvoir, na verdade, precisavam do outro para coroar a sua relação a dois.

É até possível que Beauvoir tenha se apaixonado e mesmo amado Algren (e Sartre), mas a impressão que fica é a de uma vaidade perigosa e egoísta, e de uma dependência realmente existencial (de Sartre). Não consigo dizer se gostei do livro, mas posso garantir que foi fascinante lê-lo durante sete dias, sob o sol da Bahia. Os personagens não são agradáveis e ainda assim dá vontade de encontrá-los um dia e passar toda a história a limpo. De Beauvoir, provavelmente lerei Les Mandarins e Le Deuxième Sexe, em francês, que ela preparou durante os anos de romance com Algren. Já baixei uma amostra do famoso Tête-à-Tête, da australiana Hazel Rowley. Mas atenção: vi que a autora usa termos bem diferentes dos franceses para definir os tipos de amor estabelecidos no contrato dos dois. O amor essencial de Sartre e Beauvoir se torna “absoluto”, e os amores contingentes, “secundários”. A diferença é grande.

Na luz e na brisa do litoral

Casamento na Chiesa di Santa Maria Assunta, em Positano. Dia 27 de Agosto de 2012, um dia antes de Tomás me pedir em casamento

Hoje alguém procurou na Internet pelas palavras-chave “casamento Jennifer e Tomás”. Possivelmente trata-se de outra Jennifer (ou outro Tomás) ou então alguém da família, interessado em saber se a data já foi divulgada. Mas a verdade é que passei boa tarde da tarde pensando: quem será que foi, e por quê…

Dia 28, Tomás e eu completamos 1 ano e 2 meses de namoro e um mês inteirinho de “noivado”. Ainda falta mais de um ano, as provas de vestido estão agendadas para o fim de outubro, já tenho mais de dez revistas de Noiva aqui, a leitura de A Practical Wedding comprometida por Christian Grey (que não é ruim mas não chega a ser bom) e, agora, Os Enamoramentos, de Marías, e The Facebook Effect. Mas a coisa mais bonita que li nessa última semana foi enviada na verdade por email, um texto reflexivo sobre um novo livro, que fala diretamente para a minha alma. Depois do fim-de-semana inteiro na praia, na luz e na brisa gloriosa do litoral, não quero pensar é em mais nada. Mas comecei a tomar colágeno em cápsulas, e outras cápsulas, que, prometem fortalecer o cabelo, tudo para casar de “cabelão”. E me preparo para assistir ao batizado de minha sobrinha-prima Sofia neste fim-de-semana, o primeiro batizado de minha vida, de uma pequeninha tão amada… Outubro é o mês de que mais gosto no ano.