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Bonjour Tristesse, encore

Lendo Bonjour Tristesse

Lendo Bonjour Tristesse

Terminei de ler Bonjour Tristesse de Françoise Sagan e fui logo ver a adaptação de Otto Preminger (que pode ser baixada pelo iTunes). Cécile e Raymond, interpretados respectivamente por Jean Seberg (atriz americana com um “côté” francês, já que fez um dos filmes mais famosos da Nouvelle Vague, o Acossado de Godard) e David Niven são irresistíveis, como no livro. Deborah Kerr está impecável (eu ainda não vi um filme em que ela fosse menos do que perfeita) como Anne Larsen e talvez seja a única atriz daquela época (final dos anos 50) a combinar expertise técnica e ternura de um jeito tão consistente. Amei o filme como amei o livro — de quem me sinto orfã desde então — mas algumas coisas me incomodaram.

A dimensão psicológica tão rica de Sagan foi usada apenas superficialmente em Preminger, de modo que no resultado final falta uma ou outra camada a Cécile. Aliás, o fato de Seberg ser ridícula e incontestavelmente bonita — daquelas belezas óbvias e clássicas — também não ajudou. Cécile não é bonita, coisa que nunca é dita com todas as letras mas sempre subentendida (quando ela diz que é “maigre” em vez de “mince”, termo francês que ilustra a magreza saudável e atlética de Seberg, ou quando se compara à bela Elsa com um sentimento de grande inferioridade). E muito de sua complexidade vem daí: ela não é bonita e ainda sim é irresistível, “o charmoso pequeno monstro” como a autora ficou conhecida depois. Agatha Christie já dizia, em uma de suas incontáveis histórias de Poirot, que no caso de uma menina muito jovem a beleza é um fator determinante.

Mas o filme é adorável, e algumas soluções visuais bem charmosas. Não me canso da história ou dos seus personagens.

Esse post é uma continuação de minha resenha sobre o livro. Para lê-la, clique aqui.

Bonjour Tristesse

Cena do filme Bonjour Tristesse de Otto Preminger

Cena do filme Bonjour Tristesse de Otto Preminger

Bonjour Tristesse é um daqueles livros que eu “quase” li várias vezes. Aos vinte anos, ia à Livraria Cultura quase todos os dias e numa dessas visitas me deparei com a obra. Sobre o balcão de um dos funcionários, bem no topo de uma pilha de livros. Leitura breve, do jeito que eu gosto, com uma capa bonita e barata. O título era exatamente igual ao original: Bonjour Tristesse. Demorou para eu entender que se tratava de uma novela francesa traduzida para o inglês mas, assim que ficou claro, pensei que seria melhor lê-la quando dominasse a língua.

Naqueles anos, devo ter folheado centenas, milhares de livros que acabei não comprando por algum motivo, mas lembro-me especialmente de Tristesse. Não entendi a contracapa da obra nem as suas primeiras páginas. Na França, também dei-me com ela algumas vezes, perdida nas livrarias, sempre adiando a compra, e quando comecei a ler em francês diretamente no Kindle, Sagan e seu Bonjour foram alguns dos primeiros nomes que busquei, sem sucesso.

Ontem, passeando pela Cultura, e mais especificamente pelas sessões de livros em francês e espanhol — que estão caríssimos, todos eles — encontrei Bonjour mais uma vez, no original. Achei que era coisa do destino e que deveria levá-lo para casa. Que mesmo a minha resistência a ler “no papel” (sim, a experiência de leitura no Kindle é melhor em todos os aspectos: textura, legibilidade, luz, intimidade com o livro, seja sob o sol de meio dia ou a escuridão da noite) devia dar uma pausa agora que tenho tempo. E deu. Comecei o livro ontem, à tardinha, e em menos de 24 horas devorei as suas 154 páginas. E agora me sinto quase orfã dele.

Cécile, a protagonista, tem apenas 17 anos, e Sagan tinha ela mesma 18 anos quando publicou o livro. O estilo é claro e a leitura rápida, mas permeada por hesitações adolescentes. As primeiras três ou quatro páginas me causaram estranheza: o uso de uma outra palavra mais rebuscada, alguma construção sofisticada… Como o próprio Somerset Maugham disse uma vez, a gente só alcança a clareza total e absoluta na maturidade literária.

Eu não sabia o que esperar de Cécile, Raymond, Elsa ou da recém-chegada Anne. Mas as palavras de Cécile estabeleciam uma linha direta comigo, eu as sorvia avidamente, como se tivesse 17, 18 anos de novo. Cécile e seu “ménage” sensual, escandaloso, irresponsável, Cécile e suas contradições de adolescente ora intelectual, ora estúpida, ora frívola, ora profunda. É impossível resistir ao efeito do sol da manhã na sua janela, aos seus banhos de sol do meio dia, ao romance delicioso com Cyril. Cada vez que leio “ce moi” lembro-me de minha dualidade juvenil, da gravidade e da leveza que cada pequeno incidente de minha breve existência infantil assumiam alternadamente, dos jogos que eu criava na minha cabeça, e de como eu lidava com esses personagens “fora de mim”.

Lê-se Tristesse como uma narrativa rica e visual, pontuada pelas opiniões, sentimentos, aforismos de Cécile. Ela, o pai e sua amante Elsa estão passando o verão numa vila na Côte d’Azur. Ele é viúvo: a mãe de Cécile morreu há alguns anos, e ela morou quase toda a vida num pensionato. Desde que saiu de lá há dois anos, mora com o pai e leva ao lado dele uma vida despreocupada, com todo tipo irresponsável de luxo: as pessoas de seu “entourage” (amante incluída) são belas e divertidas, as festas breves, a bebida abundante, o verão em vilas suntuosas. Cécile até começa um romance sem importância com Cyril. Tudo vai bem, até que Anne, uma estilista inteligente, sensível e elegante, amiga da mãe de Cécile, aparece. Ela é respeitada por todos mas a antítese de seu estilo de vida. Está apaixonada por Raymond e determinada a desempenhar o papel de mãe de Cécile. Cécile, por sua vez, nutre uma grande admiração por ela e a considera sua rival.

A história é vivida nas reflexões da adolescente tanto quanto na ação propriamente dita, e deve ser isso que faz do livro grande literatura. Sua duração é breve, mas a história e as personagens ficam muito tempo depois. Estou com saudades de Cécile.

Para quem quiser ler o livro em português, ele está disponível nesse link: Bom dia, Tristeza.

Todos os livros da Amazon podem ser seus; O Hotel dos Dois Mundos

Livros da minha biblioteca de papel preferida

Livros da única biblioteca de papel de que realmente gosto: a do meu pai

Nesse feriado tomei coragem para fazer aquilo que já queria há muito tempo: mudar a minha conta Amazon para os Estados Unidos e, depois, para a França, para comprar livremente ebooks em inglês e em francês (embora não ao mesmo tempo). A disponibilidade de conteúdo na Amazon — e em qualquer outro lugar deste vasto mundo digital — varia de acordo com o país porque as editoras estipulam os royalties dessa forma. Nunca entendi como funcionam esses royalties (mas dá para ter uma ideia de como o conceito se aplica a editoras independentes aqui nesse link), nem as leis de direitos autorais para cada país, mas sempre achei um contra-senso limitar o acesso a um conteúdo que de outra forma seria livre para qualquer um com acesso à Internet em qualquer lugar do mundo.

Quando a Amazon lançou a loja deles por aqui, falei por chat com alguns dos atendentes. Queria saber o seguinte: se eu mudasse para a loja brasileira, poderia mudar de volta para a americana? Eles disseram que sim. Mas eu não arrisquei, porque tenho muitos audiobooks na minha conta na Amazon e estava com medo de perdê-los — talvez isso já tenha sido mudado, é preciso checar. Mas no comecinho do feriado, me dei conta de que vários livros que eu planejava comprar — Julian Barnes, Agatha Christie e os dois últimos livros da Trilogia dos Cinquenta Tons — não estavam mais disponíveis ou só podiam ser comprados no pacote (e se eu já tinha um dos livros para quê mesmo iria querer comprá-lo de novo?). Foi aí que alguém da Amazon sugeriu que eu mudasse o país — até então Brasil — para Estados Unidos. Pronto. Num passe de mágica, todos aqueles livros — e outros mais — apareceram na loja.

No dia seguinte, resolvi ir mais longe. Mudei meu país para França e transferi a minha conta para Amazon.fr. Foi uma das melhores decisões literárias que tomei nos últimos anos, pois instantaneamente tive acesso aos títulos contemporâneos de alguns dos melhores e mais lidos escritores franceses. Gente como Éric-Emmanuel Schmitt — meu preferido até o momento –, Tatiana de Rosnay — tenho dois livros dela em versão brochura, mas até agora não tive coragem de ler, Marc Levy — que ainda acho meio autoajuda –, Guillaume Musso e Katherine Pancol — de quem provavelmente gostarei muito (leia sobre esses autores aqui). Li um livro inteirinho de Schmitt ontem, e recomendo muito. Mas o principal, mesmo, é ganhar acesso fácil à literatura francófona de hoje em dia, um luxo.

Para quem quer fazer o mesmo e transferir a conta de uma loja para a outra, aí vai um Passo a Passo bem básico:

Mude a sua configuração de país.

No canto direito da página, clique em Your Account e então em Manage Your Kindle. Na barra esquerda, você verá a opção Country Settings.

É lá que você deve escolher o país e inserir um endereço ou código postal válidos.

Não se preocupe, a Amazon não se comunicará com você de nenhuma forma por meio deste endereço físico.

Transfira sua conta.

Se você já usa a Amazon.com e mudou a configuração de país para Estados Unidos, o catálogo aparece para você instantaneamente. Mas se você mudou para Brasil, França ou outro país, você deve entrar na página da loja virtual e autorizar a transferência.

Leia com atenção quais itens serão ou não transferidos. Como não tenho nenhuma assinatura, apenas ebooks e audiobooks, para mim não teve problema. Mas é melhor garantir.

Bom, este é meu depoimento de cliente Amazon cada dia mais feliz 🙂

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Devo acrescentar que alguns amigos meus compram conteúdo fora da Amazon para ler no Kindle ou no Nook ou em qualquer outro ereader há muito tempo. E que há outros métodos de transferência que não envolvem mudar de conta a cada momento, mas talvez exijam contas múltiplas e bastante trabalho — eu por exemplo nunca conectei nenhum Kindle meu ao computador (leia aqui para conhecer mais).

A Livraria Cultura também vende o Kobo, que é bem híbrido nesse sentido. Enfim, as opções são infinitas. Mas eu continuo fiel ao Kindle e à Amazon, que ao longo dos anos se tornou, sem sombra de dúvidas, a minha livraria favorita. O Kindle é o melhor ereader que já vi e o catálogo global de livros eletrônicos é excepcional. E torço muito para que um dia as editoras ofereçam seus livros ao mesmo tempo para o mundo todo, e nós leitores possamos escolher o que queremos ler, a qualquer hora.

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O post acabou ficando longo demais, mas no próximo falarei sobre os dois livros que terminei de ler no feriado, The Hollow, de Ms Christie, e L’Hôtel des Deux Mondes, de Schmitt. Fiquei particularmente fascinada por esta peça de pouco mais de 150 páginas que li inteirinha na noite de quarta-feira de cinzas. Schmitt me fez rir em voz alta e chorar também, com sua história simples, escrita cristalina e personagens de carne e osso. Às vezes acho que gosto da dramaturgia mais do que tudo, porque lá as imagens e as palavras servem aos seus verdadeiros mestres.

E já estou lendo Maigret et le Fantôme, de Georges Simenon. Adoro Maigret e tenho certeza de que ele foi a inspiração de Christie para criar Poirot!

Uma vida que não é a sua; Saudade de quem nunca conheci

Literatura Estrangeira, na Livraria da Vila do Shopping JK.

Literatura Estrangeira, na Livraria da Vila do Shopping JK.

Finalmente terminei de ler D’Autres vies que la mienne (em inglês, esta versão aqui), do escritor francês Emmanuel Carrère. A proposta do livro é encantadora: um escritor francês narra em primeira pessoa dois episódios bem íntimos que acontecem a outras pessoas: a morte de uma menina durante o tsunami de 2004, no Sri Lanka, e a morte de uma mulher jovem, lutando contra o câncer, em uma cidadezinha da França. Como ele mesmo diz, «À quelques mois d’intervalle, la vie m’a rendu témoin des deux événements qui me font le plus peur au monde : la mort d’un enfant pour ses parents, celle d’une jeune femme pour ses enfants et son mari.» (Em apenas alguns meses, a vida me fez testemunha dos dois eventos que mais me causam medo no mundo: a morte de uma criança, por causa de seus pais, e a morte de uma mulher jovem, por causa de seus filhos e marido).

Acho que algo se perdeu na tradução. Dá para sentir que alguns trechos devem ser mais poéticos no original, e que outras construções e metáforas fariam bem mais sentido em francês. Mas se o livro tivesse sido bem construído, a impossibilidade de tradução seria mero detalhe. Chamou a atenção o egoísmo do narrador na primeira parte do livro, em que ele narra a morte de uma criança francesa no meio da tragédia do tsunami. Parece que o pano de fundo é menos a tragédia do que a provação por que seu relacionamento passa naquele momento: a separação é iminente, e ao mesmo tempo a possibilidade de ter um filho com ela não é descartada. O personagem mais forte, e que não sofre tanto com a displicência egocêntrica do narrador, é Phillipe, avô da pequena Juliette.

A segunda parte é confusa, com descrições intermináveis e desnecessárias sobre como funciona o tribunal de pequenas causas na França, e o trabalho tão importante conduzido por Juliette — esta com 33 anos — e Étienne. Gostei da amizade dos dois, mas as referências à incompatibilidade sócio-econômica e intelectual entre cada um deles e seus respectivos cônjuges me incomodou, pois aí, em vez de torná-los mais fortes, o câncer se tornou uma espécie de deficiência que eles tiveram de compensar de outras formas. Tampouco acredito na dicotomia entre amor físico e intelectual que Carrère quis ilustrar aqui: Juliette só consegue conversar de verdade com Étienne, mas guarda um amor afetuoso pelo marido, Patrice. Não creio nesse amor que serve tão bem a narrativas literárias, e tampouco credito as pessoas por trás dele. O amor verdadeiro é complexo e completo, e mesmo nossos amores marginais não merecem ser divididos dessa forma.

O autor fala muito de si, e tem cuidado para revelar apenas o que os personagens desejam que revele. De certa forma, o título é desconstruído a cada instante, pois a vida que não é dele acaba sendo um livro em que ele só fala de si.

Mas se o livro vale a pena — toda boa literatura incomoda — desconfio que seja por causa de uma passagem bem curta em que Carrère fala sobre o que as meninas sentirão depois que Juliette se for. Saudade, pois mesmo as pessoas que não conhecemos, ou com quem passamos um tempo curtíssimo de vida, continuam a viver dentro de nós. E essa mistura de amor e saudade, palavra que não existe nem em francês nem em inglês mas que brotou das páginas do livro, é o que fica da leitura. O sofrimento das pequenas Diane, Amélie e Clara  tem mais verdade e literatura do que todo o projeto de Carrère, e em alguns parágrafos de seu livro, eu finalmente entendi o que é essa saudade de ausência que sinto do meu avô há tanto tempo, esse meu avô que nunca conheci mas que me ampara nos momentos mais tristes.

*

Emmanuel Carrère participou da Flip em 2011.

Leituras irresistíveis

Nada mais gostoso do que ler no Kindle em Taci

Recebi hoje minha New Yorker de 28 de maio, um atraso danado. Mas o ensaio Easy Writers de Arthur Krystal, é delicioso e vale a leitura (infelizmente é necessário comprar a edição ou já ter a assinatura para ler). O campo de investigação é muito bem definido: o que seria de nós, reles mortais, sem a literatura fácil, a “genre literature”. Nenhum leitor que se preze vive só de alta literatura. E cada um tem seu escritor das horas difíceis ou tediosas — no meu caso, P.G Wodehouse acaba com qualquer tristeza e Agatha Christie, com qualquer tédio. E não resisto ao magnífico Georges Simenon, para muitos o único “escritor” do gênero policial — e uma das grandes delícias de se conhecer o idioma francês.

Mas muitos dos escritores fáceis de antigamente são hoje respeitados — Somerset Maugham, que aos 23 anos já vivia da literatura e escreveu um excelente conto sobre uma escritora adorada pela crítica: não ganhava um tostão e vivia às custas do marido até ser abandonada por ele. E é então que ele lhe dá um grande conselho: “Ora, por que você não escreve histórias de detetive? A crítica vai adorar ter uma desculpa para ler o que quer, e as massas finalmente cederão a seus livros”. E assim ela fica rica*.

Recentemente sucumbi a Stieg Larsson e adorei. Não tem nada melhor do que um livro gostoso para substituir as horas incontáveis na frente da TV ou os devaneios sem fim de um domingo de solidão.

*: Para descobrir qual o nome do conto, é só dar uma espiada no 2o post do dia…