Arquivo da tag: literatura

Primeira língua e verdades estrangeiras

Livro Journaux de Voyage de Camus na paisagem de Itacimirim, Bahia

Livro Journaux de Voyage de Camus na paisagem de Itacimirim, Bahia

Tem escritores por quem a gente se apaixona várias vezes. Cada vez que descubro ou encontro uma nova velha obra de Camus isso acontece comigo. Primeiro foi O Estrangeiro, depois La Mer au Plus Près (The Sea Close By, que li em inglês e francês) e, agora, Journaux de Voyage. E eu tenho certeza de que quando não houver nada mais entre nós dois, quando seu Cela ne veut rien dire não me disser nada, ainda teremos o mar.

Li Journaux de Voyage em Itacimirim, logo depois do Carnaval. Lê-lo, em papel, ao longo da minha praia mais amada, teve um significado todo especial. A viagem que ele fez na América Latina e mais especificamente no Brasil, é consonante com a minha história e com as minhas aspirações literárias. O livro tem passagens lindíssimas: “Noite maravilhosa sobre o Atlântico. Essa hora que vai do sol minguante à lua nascente, do oeste ainda iluminado ao oeste já sombrio. Sim, amei demais o mar — essa imensidão calma — essas pegadas cobertas — esses caminhos líquidos. Pela primeira vez um horizonte tem a medida da respiração de um homem, um espaço tão grande quanto a sua audácia”, ou tristes e absurdas: “Tristeza por me sentir ainda tão vulnerável. Daqui a 25 anos, terei 57. Então restam 25 anos para concluir a minha obra e encontrar aquilo que busco. E logo a velhice e a morte”. Camus tinha 32 anos quando escreveu isso, exatamente a minha idade. Quando li esse trecho, tive certeza de que ele havia tirado a própria vida. Mas não. Morreu aos 47, 10 anos antes do que planejava, de uma forma bem vulgar: num acidente de carro (é possível, no entanto, que tenha sido um atentado à sua vida). No entanto, ele escreveu talvez um dos mais interessantes livros sobre o suicídio, Le Mythe de Sisyphe.

Já não sei mais qual é a minha literatura, posto que não escrevo mais ficção desde a França (só reescrituras e pequenas traduções de mim mesma, todas sem importância), embora acredite em uma literatura forjada entre a ficção e a realidade, com a ficção incidindo sobre ela, exatamente como acontece em algumas obras que admiro (Dans la Maison sendo o exemplo mais recente e mais exato). Vejo também uma literatura modesta que vai se construindo durante os meus sonhos noturnos e sobre a qual creio não exercer qualquer poder num primeiro momento — e as histórias e personagens que não deixam de existir só porque eu me recuso a colocá-los no papel, a conferir-lhes essa materialidade tão almejada. Sinto falta dos meus personagens e ao mesmo tempo sei que nunca vivi tanto e tão feliz na realidade.

Quando reavalio meus textos antigos escritos em outra língua, tenho certeza de que caso decidisse traduzi-los para o português, poderia explorá-los com muito mais detalhe, mais profundidade. Não que sejam superficiais, pois são de uma profundidade estrangeira, de uma verdade que talvez eu não conheça em minha língua materna. À noite, durante os meus sonhos, é como se eu trancasse essas verdades em primeira língua, linguagem: as imagens, os cheiros, os sons. Pena que eu não tenho qualquer talento para o desenho, porque se eu tivesse, ainda que fosse um pouco, jamais escreveria de novo em minha vida.

Solidão em Murakami

O escritor Haruki Murakami

O escritor Haruki Murakami

Depois de anos e anos ouvindo falar de Haruki Murakami, finalmente resolvi ler o autor. The Elephant Vanishes é uma coletânea de contos livresca, solitária e inesperada, quer dizer, os personagens fazem exatamente o que eu faria se estivesse no lugar deles — mas eu nunca pensei que encontraria personagens assim ou ainda que um escritor japonês poderia traduzir tanto do que penso sobre isso — a intrusão desesperada da ficção na realidade.

Li em algum lugar que a literatura de Murakami tinha um quê de realismo fantástico. Eu não concordo, pelo menos não com o nome. Esses críticos da web também falam em extraordinário, em “descompasso com o mundo ao redor” ou em uma “desestabilização do cotidiano”. Eu diria que o descompasso é de dentro para dentro, e que a cisão acontece no interior do personagem. Como a mulher que passa as noites acordadas — exatas 17 noites — num estado de super-vigília, lendo e relendo Anna Karenina enquanto come chocolates e bebe conhaque, em suma, faz três coisas que a vida pacífica com o marido e o filho não permitiam (ou assim ela nos leva a pensar). A realidade, ou o dia, torna-se para ela algo automático e sem significado, até que a falta de sono acaba comprometendo sua supra-realidade notívaga…

Talvez o conto mais impressionante seja o mais simples e aborrecido: Um dos empregados da loja de departamentos responde à carta de uma cliente que queria trocar um CD porque havia se confundido de compositor clássico — aliás, todo mundo parece confundir os nomes da música clássica nesse livro, já nem sei mais se era Haydn ou Mozart ou outro — dizendo que queria dormir com ela mas, veja bem, apenas se pudesse se dividir em dois, e ela também — ele queria continuar com a namorada, e não poderia pedir à destinatária da carta que mudasse nada em sua vida, mas seus duplos, eles sim, iriam para a cama.

Minha pergunta talvez seja ainda mais simples: por que esta cisão é, ao mesmo tempo, impossível e necessária? Talvez na resposta esteja a síntese da literatura que me interessa, talvez seja a solidão em seu estado puro.

*

Tem um outro escritor japonês que me impressionou demais: David Hoon Kim, autor de Sweetheart Sorrow, o melhor conto que já li na New Yorker, e talvez o melhor conto que já li na vida.

Despedida em Paris; Como comprar (melhor) na Amazon; Bolaño e os escritores de contos

Café La Palette, na Rive Gauche, em Paris

Café La Palette, na Rive Gauche, em Paris

Há alguns dias, tive uma ideia para um livro curto, um “short novel”, como dizem os americanos. A ideia ainda é bastante incipiente, e surgiu enquanto eu lia Beauvoir in Love, de Irène Frain. Queria imaginar como seria a nossa despedida de solteiro (minha e de Tomás, juntos), em Paris, cidade que está me dando a maior saudade. E como narraríamos essa despedida, imaginando, descrevendo e vivendo o passo a passo. Talvez o livro nunca vá além dessa ideia, mas por enquanto gosto bastante dela.

Ah, e este era o post que estava “protegido” há alguns dias e hoje resolvi publicar para todo mundo:

*

Era a nossa primeira vez em Paris na primavera. Deixamos as malas no hotel, na Madeleine, e começamos o tour. Atravessamos o Pont Neuf e tentamos percorrer os caminhos da Rive Gauche que havíamos feito, rapidamente, mais de um ano antes. Eu usava uma maquiagem discreta e um daqueles vestidos pretos sequinhos, o cabelo preso para trás, a câmera Lomo no colo. Tirei da bolsa dois cadernos pretos idênticos e pequenos, com capa de couro, sem pauta. Entreguei um deles para você. Nelson Algren havia feito a mesma coisa com Simone de Beauvoir mais de cinquenta anos antes. Foi assim que eu tive a ideia para a nossa despedida em Paris. Sentados no Café La Palette, você escreveu o meu nome na primeira página de um caderno, e eu escrevi o seu no outro. Ao longo do dia, escrevemos, ao mesmo tempo, sobre coisas muito diferentes, por exemplo, eu tentei adivinhar o que o casal do outro lado da rua discutia, já você comentou sobre a menina loira de vestido florido a algumas mesas da nossa. Depois você disse, “como você está linda”.

Toda manhã nós trocávamos de caderno, até que um dia cada um de nós ficou com o caderno com o próprio nome. Era uma dedicatória à nossa primeira despedida de amor, de solteiros. E agora, abrindo o caderno, eu leio…

*

Como todo mundo que lê esse blog sabe, faz quase dois anos que eu leio — e muito — no Kindle. Geralmente leio em inglês mesmo, porque me identifico bastante com a literatura anglófona, mas também leio bastante em francês, português e espanhol. Quando comprei meu primeiro Kindle, a Amazon ainda não tinha loja na França, e mesmo assim nós leitores podíamos encontrar obras da literatura clássica francesa (meia dúzia de boas almas havia feito o upload dos livros em domínio público). Logo que foi lançada, a loja oferecia principalmente livros comerciais (e muitas vezes americanos) traduzidos para o francês, livros que eu provavelmente leria (ou lia) em inglês mesmo. Mas há alguns dias descobri que livros nacionais, publicados recentemente, já estavam sendo vendidos na Amazon.fr. Inclusive o livro de Emmanuel Carrère, D’Autres Vies que la Mienne (leia post aqui), que terminei de ler, em inglês, há pouquíssimos dias. Fui tentar comprar e não consegui, porque para isso são necessários dois passos simples (pero no mucho): mudar a configuração de país para França (o que eu fiz prontamente) e transferir a sua conta para a Amazon.fr (o que eu não fiz).

Se até agora não mudei minha conta para Amazon.com.br, certamente não mudaria para a Amazon.fr por impulso. Mas aquilo foi me deixando bem chateada com a Amazon, que é uma de minhas empresas — e plataformas — preferidas no mundo todo. Desde que a loja brasileira foi lançada, vários livros da loja americana se tornaram indisponíveis para residentes no Brasil, por causa do gerenciamento de direitos autorais feito pelas editoras. The Hobbit, livros de Julian Barnes, Agatha Christie e da trilogia de Cinquenta Tons. Isso sem falar nos audiobooks. Decidi conversar com um dos atendentes por chat e ele me sugeriu o que eu nunca havia tido coragem de fazer: mudar a minha configuração de país para Estados Unidos.

Basta mudar para Estados Unidos, e todos os livros — e ebooks — ficam disponíveis de novo. Em teoria, você também pode transferir e retransferir sua contas quantas vezes quiser (de Amazon.com para .com.br para .fr) e tudo volta ao normal. Se tomar coragem de fazer isso, aviso!

*

No site da Paris Review (e em tom de brincadeira), Roberto Bolaño dá dicas a quem quer escrever contos: quem ler e quem não ler, com uma ênfase toda especial em Poe. (Leia aqui). Impossível não lembrar do que Alessandro Baricco disse na Flip de 2008: “quando escrevo ficção, não leio ficção”.

Agatha Christie, a rainha do crime

Encenação de And Then There Were None com Jennifer Wilson como Miss Brent. Foto do site http://www.freewebs.com/colinbaker

Encenação de And Then There Were None com Jennifer Wilson como Miss Brent. Foto do site http://www.freewebs.com/colinbaker

Não lembro quando comecei a ler Agatha Christie, mas sempre fui fã da escritora. Meu primeiro livro foi O Assassinato de Roger Ackroyd, depois passei a outros, ora com Poirot, ora com Miss Marple, culminando em sua peça mais brilhante, The Mousetrap. Um de meus filmes favoritos, Testemunha de Acusação, é baseado num conto de mesmo nome da autora (depois adaptado para o teatro). Nunca li. A versão de Billy Wilder, com os deliciosos e impecáveis Charles Laughton, Marlene Dietrich, Tyrone Power e Elsa Lanchester, é insuperável e pretendo me manter fiel a ela. Por enquanto.

Na última sexta-feira, estava procurando um livro de literatura fácil e grande estilo, aquele tipo de história que te prende desde o primeiro minuto e não larga nunca mais, que você lê mesmo quando vai jantar com amigos. Escolhi a versão Kindle de After the Funeral (vendido também em bancas e livrarias de São Paulo em sua versão L&PM Pocket a um preço baixinho). Fui conquistada logo na largada. A narrativa começa com o mordomo Lanscombe, que sintetiza tudo aquilo que esperamos de um mordomo na literatura. Ele prepara a casa para o funeral e faz algumas reflexões, rápidas, sobre a mudança dos tempos. Aí a história começa. A família rica e decadente, os irmãos e sobrinhos de moralidade oscilante, o sempre fiel executor e amigo da família Sr. Entwhistle, são peças excelentes e complementares no grande jogo de Christie. E temos um bônus, uma certa personagem irretocável, que me faz pensar em irresistíveis personagens literários, como aquele coadjuvante onipresente nos filmes de Hitchcock. Tudo com muita classe.

Quando terminei de ler na manhã de domingo fui logo contar a Tomás quem era o assassino. Bom, talvez não tenha dito exatamente quem era, mas revelei o gênero, o que ele não gostou nada. Horas depois me senti orfã de Christie (e de Poirot). Tinha três ou quatro livros candidatos numa lista no Kindle mas ontem decidi ler And Then There Were None, que não tem Poirot mas em compensação é considerado um dos melhores AC.

Li o livro numa única noite, e quando terminei, lá pelas 2 horas da manhã, estava tão apavorada que não consegui dormir. Já conhecia visual e sensorialmente todos os pedaços da Soldier Island e da mansão do U.N.Owen, e talvez nunca consiga esquecer a canção “de ninar” Ten Little Solider Boys:

Ten little soldier boys went out to dine;
One choked his little self and then there where Nine.

Nine little soldier boys sat up very late;
One overslept himself and then there were Eight.

Eight little soldier boys travelling in Devon;
One said he’d stay there and then there where Seven.

Seven little soldier boys chopping up sticks;
One chopped himself in halves and then there were Six.

Six little soldier boys playing with a hive;
A bumble bee stung one and then there were Five.

Five little soldier boys going in for law;
One got into Chancery and then there were Four.

Four little soldier boys going out to sea;
A red herring swallowed one and then there were Three.

Three little soldier boys walking in the Zoo;
A big bear hugged one and then there were Two.

Two little soldier boys sitting in the sun;
One got frizzled up and then there was One

One little soldier boy left all alone;
He went and hanged himself

And then there were None.

O melhor Agatha Christie. Sem dúvida. Ou talvez os outros sejam tão bons quanto. Livro bom é assim: você lê em uma só noite.

Daqui para o instante seguinte, é tudo mistério; Narrativas do futuro

Sestina, publicado na edição de outono 2012 da Paris Review é uma sugestão de nova narrativa. Meio poema, meio quadrinhos, meio cinema. “Quem realmente quer ler um poema? Vamos dizer que uma garota esteja sentada debaixo de árvores cabeludas, lendo, segurando um livro. E, quem sabe, no chão esteja um rapaz. Ele está dormindo, parece, ou talvez esteja morto. Ele não se move, nem ele nem as árvores”.

Uma semana inteira sem escrever aqui e me deparo com um conto na última edição da New Yorker (The Semplica-Girl Diaries, leia aqui) que me faz pensar, justamente, nesses momentos de intensa atividade, quando quase não escrevemos, mas vivemos tantas coisas gostosas. E aí, passa um, dois anos e ficamos com saudades desses momentos, e buscamos em cadernos perdidos um registro fidedigno dessa época. Queremos saber o que acordamos pensando, qual foi o primeiro gesto do namorado, que bebida escolhemos da carta do bar, qual foi o bar, a distância que percorremos, e como (táxi, a pé, ônibus, carona?) aquilo que disse o taxista ou o moço desocupado olhando para você do outro lado da rua, as mensagens de texto que trocamos, os momentos menos fotogênicos e mais literários e além, bem além, nossas paixões e crenças, convicções e sensações, quase um Instagram da alma.

Conheço várias mamães de primeira viagem e acompanho a atividade delas — e de suas famílias — nas mídias sociais. Outro dia estava pensando na sobrinha de uma amiga. Ela tem hoje 15 anos, um ano mais nova do que eu naquela foto perdida que publiquei no último post (leia aqui), e já possui uma significativa memória instagrâmica. E o sobrinho de cinco meses também. Isso sem falar em casamentos, batizados, pedidos de noivado, viagens de aventura, tudo devidamente registrado na nuvem. A experiência deve ser diferente. Quando ela tiver 30 anos, por exemplo, não vai precisar recorrer a caixas e cadernos velhos para se lembrar de quem era, pois ela já vai saber. Vai mesmo?

Hoje vivemos o tempo todo com todas as nossas memórias. Ou quase. É verdade que o homem só conseguiu chegar até aqui porque tem a capacidade de ignorar informação — aliás, essa é uma das principais características a nos diferenciar de computadores e, porque computadores já estão um quê ultrapassados, plataformas digitais. Nossos algoritmos são mais criteriosos e desenvolvidos, e até agora vivemos muito bem nos esquecendo de quase tudo (e nos forçando a lembrar das coisas importantes, o que se torna cada vez menos necessário, com tantas ferramentas!). Mas a possibilidade de viver tudo, com tudo e todos, o tempo todo, deixa a humanidade mais ubíqua — e divertida. Alguns físicos acreditam que é assim com o universo. Passado, presente e futuro acontecem ao mesmo tempo. Outros dizem que existe uma relação entre o universo visível e a quantidade de informação acumulada até hoje. Do instante zero até o momento atual, está tudo iluminado; daqui para o instante seguinte, é tudo mistério. Torço, muito, pela evolução dessa ubiquidade e, para um dia, realmente, poder viver com tudo e todos o tempo todo. E, num futuro não muito longínquo, poder acessar, mais do que minhas memórias, todo o conhecimento humano, como HG Wells tão brilhantemente previu (veja The World Brain aqui). Responder a todas as perguntas, de uma sala de reunião virtual, com alguém no tempo presente e alguém no tempo passado, e ver a história desfilar defronte meus olhos (em holografias tão perfeitas que, mais do que simular a realidade, vão superá-la).

O valor dessas pegadas digitais é incalculável. Dizem que os atores dessa vanguarda de bits querem nos censurar e controlar, que essa tendência de colocar tudo na nuvem vai botar a humanidade em cheque. Do meu lado, torço para isso; para que as plataformas digitais conversem cada vez mais entre sim e nós tenhamos cada vez mais acesso a todas as histórias. Então poderemos criar novas narrativas, abrir, de verdade, uma brecha no tempo do nosso universo, e investigar o mistério.

Os 39 Degraus, por John Buchan e Hitchcock

Desenho de Merville Stairs por Dermond McCarthy

Os últimos dias têm sido uma correria mas eu não poderia deixar de falar do livro que li recentemente — e finalmente — Os Trinta e Nove Degraus, de John Buchan.

Escritor escocês, historiador, diplomata, Primeiro Barão de Tweedsmir e uma vez 15o Governador Geral do Canadá, Buchan é bastante prolífico. O romance é o primeiro de cinco a figurar o personagem que se tornaria famoso, Richard Hannay (no início um escocês bem de vida vivendo tediosamente em Londres). O título curioso surgiu quando Buchan estava doente num lar assistencial privado e a irmã de 6 anos começou a contar os degraus da escada que levava à praia. A escada, que se tornaria um presente para o escritor (bem, parte dela), tinha 39 degraus.

Nas mãos de Hitchcock, no entanto, o título é um Mc Guffin — talvez o melhor de toda a obra do diretor. (Clique sobre o link para conhecer mais sobre a técnica narrativa popularizada por ele). Confesso que só resolvi ler o livro por causa da excelente adaptação do mestre do suspense. E o filme, em preto e branco, é um dos primeiros de sua filmografia, ainda da época inglesa — estrelando a já famosa atriz Madeleine Carroll.

A primeira vítima, em Buchan um homem, torna-se nas telas uma mulher — e outras personagens femininas surgem ao longo da trama. O desfecho, que na versão literária obedece a uma combinação ficção/realidade pouco ousada, na hitchcockiana traz uma grande surpresa, e o efeito mcguffiano me faria ler Buchan madrugada adentro.

Cada versão tem seu final, e o melhor é que ambos são ótimos. Vale a leitura!

Leitura Atualizada

Estou terminando de ler Stardust, de Neil Gaiman. Vi o filme há 4 anos e adorei, mas por algum motivo nunca tinha lido a obra. Em papel, pretendo começar a ler neste fim-de-semana meu delicioso presente Femmes Qui Courent Avec Les Loups, de Clarissa Pinkola Estés. E para minha total surpresa, acabo de comprar as versões Kindle de The Dukan Diet e A Practical Wedding, para me preparar para 2013.

Positano para sempre

Positano de nossa varanda

Nessa última viagem pela Europa finalmente conheci Positano, uma das mais charmosas cidades da Costa Amalfitana. Hoje a província está cheia de turistas e é relativamente bem organizada (ou pelo menos tem mais estrutura do que Roma em alta temporada) mas há mais ou menos 100 anos a história era outra.

No início do séc. XX, Somerset Maugham, um de meus escritores favoritos, que morou nas rivieras francesa e italiana, escreveu um conto delicioso sobre Positano intitulado The Wash-Tub. O enredo é o seguinte: o alter-ego de Maugham chega a Positano de barco e vai se hospedar numa das únicas pousadas da cidade. Lá se surpreende ao descobrir que não é o único hóspede. Um senhor americano já mora na pousada há 3 meses. O aspecto livresco — o pobre senhor está ali para não atrapalhar os planos da esposa que ao receber uma fortuna decide exagerar um pouco sua história de arrivista social e cria um personagem bem pouco ortodoxo para o marido — me conquistou desde o início e a cidade mais ainda, Positano, fora do tempo e do espaço, onde podemos ser quem realmente somos. Nos últimos sete anos, aguardei ansiosamente a oportunidade de conhecê-la e posso dizer que esta surgiu na hora certa.

Hoje o anacronismo de Positano é mais sutil. São inúmeras pousadas, hotéis, restaurantes, lojas. Os turistas, eles também, são um pouco de tudo. Mas volta e meia dá para viver um momento literário. Em nosso primeiro passeio diurno pelo centro da cidade, a caminho da praia Marina Grande, assistimos de longe a uma cerimonia de casamento na linda igreja Santa Maria Asssunta. Os noivos não eram locais nem jovens, mas tanto eles como os convidados estavam muito bem vestidos. A fotógrafa gritava em inglês, com sotaque americano, para juntar todo mundo e fazer a foto de família. E alguns curiosos, com trajes de banho, até conseguiram entrar na igreja. Tomás me perguntou: “Você não acha que é um sinal?”. Depois, outro dia, no “alimentari”, comprando presunto, queijo e pão, vi entrar um casal cinematográfico, que poderia estrelar o próximo filme de Woody Allen. A menina, loira, de cabelos compridos e cachos delicados, magra num vestido branco transparente colado no corpo, com um rasgo lateral ocasional. O namorado, loiro também, com um bronzeado sutil, chapéu panamá barato, camisa branca de botões aberta, bermuda clara. Fiquei fascinada e de longe pedi a Tomás que tirasse uma foto. Ele não me ouviu. Achei que aquele se tornaria o meu momento preferido de Positano, mas horas depois tive uma grande surpresa. A bordo de um barco alugado, no meio do mar, com vista para toda a costa amalfitana, Tomás me pediu em casamento, com um lindo anel vintage, de cristal, comprado numa feira de verão às margens do Tevere, em Roma. E isso foi melhor do que qualquer conto de Maugham.

*

Para os curiosos, o conto começa assim:

Positano stands on the side of a steep hill, a disarray of huddled white houses, their tiled roofs washed pale by the suns of a hundred years; but unlike many of these Italian towns perched out of harm’s way on a rocky eminence it does
not offer you at one delightful glance all it has to give. It has quaint streets that zigzag up the hill, and battered, painted houses in the baroque style, but very late, in which Neapolitan noblemen led for a season lives of penurious
grandeur. It is indeed almost excessively picturesque and in winter its two or three modest hotels are crowded with painters, male and female, who in their different ways acknowledge by their daily labours the emotion it has excited in them. Some take infinite pains to place on canvas every window and every tile their peering eyes can discover and doubtless achieve the satisfaction that rewards honest industry. ‘At all events it’s sincere,’ they say modestly when they show you their work. Some, rugged and dashing, in a fine frenzy attack their canvas with a pallet knife charged with a wad of paint, and they say: ‘You see, what I was trying to bring out was my personality.’ They slightly close their eyes and tentatively murmur: ‘I think it’s rather me, don’t you?’ And there are some who give you highly entertaining arrangements of spheres and cubes and utter sombrely: ‘That’s how I see it!’ These for the most part are strong silent men who waste no words

Clique aqui para ler 65 contos de Somerset Maugham, incluindo o The Wash Tub.