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Bonjour Tristesse

Cena do filme Bonjour Tristesse de Otto Preminger

Cena do filme Bonjour Tristesse de Otto Preminger

Bonjour Tristesse é um daqueles livros que eu “quase” li várias vezes. Aos vinte anos, ia à Livraria Cultura quase todos os dias e numa dessas visitas me deparei com a obra. Sobre o balcão de um dos funcionários, bem no topo de uma pilha de livros. Leitura breve, do jeito que eu gosto, com uma capa bonita e barata. O título era exatamente igual ao original: Bonjour Tristesse. Demorou para eu entender que se tratava de uma novela francesa traduzida para o inglês mas, assim que ficou claro, pensei que seria melhor lê-la quando dominasse a língua.

Naqueles anos, devo ter folheado centenas, milhares de livros que acabei não comprando por algum motivo, mas lembro-me especialmente de Tristesse. Não entendi a contracapa da obra nem as suas primeiras páginas. Na França, também dei-me com ela algumas vezes, perdida nas livrarias, sempre adiando a compra, e quando comecei a ler em francês diretamente no Kindle, Sagan e seu Bonjour foram alguns dos primeiros nomes que busquei, sem sucesso.

Ontem, passeando pela Cultura, e mais especificamente pelas sessões de livros em francês e espanhol — que estão caríssimos, todos eles — encontrei Bonjour mais uma vez, no original. Achei que era coisa do destino e que deveria levá-lo para casa. Que mesmo a minha resistência a ler “no papel” (sim, a experiência de leitura no Kindle é melhor em todos os aspectos: textura, legibilidade, luz, intimidade com o livro, seja sob o sol de meio dia ou a escuridão da noite) devia dar uma pausa agora que tenho tempo. E deu. Comecei o livro ontem, à tardinha, e em menos de 24 horas devorei as suas 154 páginas. E agora me sinto quase orfã dele.

Cécile, a protagonista, tem apenas 17 anos, e Sagan tinha ela mesma 18 anos quando publicou o livro. O estilo é claro e a leitura rápida, mas permeada por hesitações adolescentes. As primeiras três ou quatro páginas me causaram estranheza: o uso de uma outra palavra mais rebuscada, alguma construção sofisticada… Como o próprio Somerset Maugham disse uma vez, a gente só alcança a clareza total e absoluta na maturidade literária.

Eu não sabia o que esperar de Cécile, Raymond, Elsa ou da recém-chegada Anne. Mas as palavras de Cécile estabeleciam uma linha direta comigo, eu as sorvia avidamente, como se tivesse 17, 18 anos de novo. Cécile e seu “ménage” sensual, escandaloso, irresponsável, Cécile e suas contradições de adolescente ora intelectual, ora estúpida, ora frívola, ora profunda. É impossível resistir ao efeito do sol da manhã na sua janela, aos seus banhos de sol do meio dia, ao romance delicioso com Cyril. Cada vez que leio “ce moi” lembro-me de minha dualidade juvenil, da gravidade e da leveza que cada pequeno incidente de minha breve existência infantil assumiam alternadamente, dos jogos que eu criava na minha cabeça, e de como eu lidava com esses personagens “fora de mim”.

Lê-se Tristesse como uma narrativa rica e visual, pontuada pelas opiniões, sentimentos, aforismos de Cécile. Ela, o pai e sua amante Elsa estão passando o verão numa vila na Côte d’Azur. Ele é viúvo: a mãe de Cécile morreu há alguns anos, e ela morou quase toda a vida num pensionato. Desde que saiu de lá há dois anos, mora com o pai e leva ao lado dele uma vida despreocupada, com todo tipo irresponsável de luxo: as pessoas de seu “entourage” (amante incluída) são belas e divertidas, as festas breves, a bebida abundante, o verão em vilas suntuosas. Cécile até começa um romance sem importância com Cyril. Tudo vai bem, até que Anne, uma estilista inteligente, sensível e elegante, amiga da mãe de Cécile, aparece. Ela é respeitada por todos mas a antítese de seu estilo de vida. Está apaixonada por Raymond e determinada a desempenhar o papel de mãe de Cécile. Cécile, por sua vez, nutre uma grande admiração por ela e a considera sua rival.

A história é vivida nas reflexões da adolescente tanto quanto na ação propriamente dita, e deve ser isso que faz do livro grande literatura. Sua duração é breve, mas a história e as personagens ficam muito tempo depois. Estou com saudades de Cécile.

Para quem quiser ler o livro em português, ele está disponível nesse link: Bom dia, Tristeza.

O filme perdido de Hitchcock

hitch

Hitchcock na abertura de um dos episódios de Alfred Hitchcock Presents

Se descobri o cinema com Kubrick, foi por causa de Hitchcock que me apaixonei pela sétima arte.

Gosto de todos os filmes dele, dos clássicos ingleses aos hollywoodianos, dos mais “cabeça” aos mais divertidos, dos preto-e-branco aos coloridos com technicolor. Foi graças a suas brilhantes adaptações que conheci alguns escritores e obras sensacionais — como John Buchan e seu The Thirty-Nine Steps. Mas a grande diferença em relação a Kubrick é talvez o fato de eu gostar de Hitchcock a qualquer hora do dia.

Tenho revivido emoções do diretor inglês. Aproveitando o lançamento do filme Hitchcock, com Anthony Hopkins e Helen Mirren, agora em cartaz em São Paulo, a Livraria Cultura promoveu uma noite só com seus clássicos. Não fui, mas resolvi assistir, em DVD mesmo, a dois filmes que adoro. Marnie, por causa de Sean Connery e de uma Tippi Hedren impecável, por seu conteúdo sexual e controverso para a época. Rope porque se trata de um filme perfeito. Filmado em longas sequências em uma única locação e quase sem edição, faz parte do cinema teatral e envolve uma experimentação bem ousada. Fiquei sabendo de sua existência em uma edição especial da Scientific American sobre o Tempo, que acaba de ser reeditada. Em uma das reportagens, Antonio Damasio avalia que, embora o filme de Hitchcock tenha apenas 80 minutos, a duração para o espectador é de pelo menos 105 minutos, proeza que ele conseguiu com seus efeitos de câmera.

Redescobri The Paradine Case, que não tinha visto até agora. Não me entusiasmei tanto, mas Alida Valli está sensacional, e Louis Jourdan, de uma beleza quase indecente para a película em preto e branco. Com a Apple TV, começamos também a ver episódios da série de TV de Hitch, “Alfred Hitchcock Presents“. Vimos o primeiro capítulo, Revenge, com Vera Miles — mais linda do que nunca — e Into Thin Air, também chamado de The Vanishing Lady — uma alusão ao excelente filme que ele fez para as telonas, The Lady Vanishes. Então resolvemos pular para um episódio da terceira temporada, Lamb To The Slaughter, baseado no conto homônimo de Roald Dahl, um de meus textos preferidos. Perfeição pura.

Revimos Janela Indiscreta e Dial M for Murder, duas obras fantásticas com a deslumbrante Grace Kelly — em um dos extras, um dos envolvidos na filmagem diz que ali estão as tomadas mais bonitas já feitas de um rosto feminino. E eu concordo.

Por tudo isso, devo dizer que gostei do Hitchcock com Hopkins, mas para mim ninguém nunca poderá representá-lo de verdade. Nos últimos anos, a minha relação com o cinema foi marcada pela descoberta de novas obras do diretor, e às vezes fico pensando o que vai ser de mim quando tiver assistido a absolutamente tudo.

Mas será que eu vou conseguir ver tudo? Pesquisando na web, Tomás descobriu que ele tem um filme perdido. De The Mountain Eagle, filme mudo de 1927, restam apenas alguns ‘stills’ e um roteiro obtuso. E, ainda assim, daria um ótimo thriller.

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Baixei uma amostra de Alfred Hitchcock: A Life in Darkness and Light, considerado a sua biografia máxima, mas até agora não consegui passar do começo. Foi aí que lembrei de um livro recomendado por um amigo há vários anos, Hitchcock, de Truffaut, disponível apenas em papel. Vou encomendar.

As leituras têm sido lentas desde que terminei o segundo Simenon. Estou lendo The Falls, de Joyce Carol Oates, recomendado por minha tia-sogra. O livro é bonito e profundo, e talvez por isso esteja demorando tanto para terminá-lo.

 

 

Lendo livremente no Kobo

As diferentes versões do Kobo (sim, eles são coloridos!)

Olha, estava preparando um outro post para esses dias mas esse teve que passar na frente.

A Livraria Cultura começou a vender hoje — para entrega a partir do dia 05 de dezembro, às vésperas do Natal — o Kobo, que foi considerado o melhor eReader pela revista Wired. O preço estipulado pela Livraria Cultura é R$ 399, quase o dobro do preço internacional — 129 USD. O Kindle Touch também é vendido, nos Estados Unidos, a um valor a partir de 119 USD. Mas enquanto a Amazon não chega, fica difícil dizer quanto vai custar no país. (Clique aqui para encomendar seu Kobo na Livraria Cultura).

Para começar, preciso dizer que gostei. Mesmo. O design é bacana, o layout é bem similar ao do Kindle Touch, e adorei a contracapa estilizada. Gostei tanto que compraria um, se não fosse tão caro. A empresa canadense e, agora, a Livraria Cultura, têm feito muita publicidade em torno da ideia de leitura livre (“reading freely”), dizendo que livros em qualquer formato podem ser lidos no Kobo, o que é uma grande vantagem em relação aos eReaders exclusivos hoje disponíveis no mercado. Ainda preciso confirmar se o contrário também é verdade, ie, se podemos ler livros Kobo em qualquer eReader — dando uma olhada rápida no site da Cultura, vejo que muitos livros estão disponíveis em formato PDF, que não é ideal para o Kindle, por exemplo.

E, uma curiosidade: os eBooks Kobo mais vendidos fazem parte da nova literatura erótica. A trilogia de Cinquenta Tons de Cinza, obras de Sylvia Day, Algemas de Seda e até Anaïs Nin, em português. Será que é porque ler livros assim sem capa é melhor?

A inteligência sem cortinas de Fernando Pessoa; Dukan; Uma Estrangeira na França

Lisboa no início de setembro, em pleno sol e verão

Estou lendo Crônicas da Vida que Passa, de Fernando Pessoa, comprado numa (linda) livraria-café em Lisboa (não lembro o nome, não sei por quê). E estou me divertindo muito, pois não conhecia esse lado de Pessoa.

O livro reúne crônicas de Pessoa publicada n’O Jornal no ano 1915. A primeira fala de política e de convicções profundas: “Se há fato estranho e inexplicável, é que uma criatura de inteligência se mantenha sempre sentada sobre a mesma opinião, sempre coerente consigo mesma. (…) Uma criatura de nervos modernos, de inteligência sem cortinas, de sensibilidade acordada, tem a obrigação cerebral de mudar de opinião e de certezas várias vezes no mesmo dia”. A segunda, do excesso de disciplina do povo português (“Somos incapazes de revolta e agitação”, escreve). A quarta, polêmica, trata dos chaffeurs para criticar o jornal monarquista A Nação, e levou o jornal a demitir o escritor.

Curtas

Depois de quase 5 dias sem escrever, aí vai uma breve atualização:

Terminei de ler The Dukan Diet de Pierre Dukan. Não só isso. Estou seguindo a dieta desde segunda-feira e posso confirmar a sua eficácia (algo mais preciso só na próxima segunda-feira, quando começarei a 2a semana). O cardápio só proteínas da fase de ataque (que para mim durou 3 dias embora o recomendado seja 2) é surpreendentemente rico e variado. O cardápio proteínas+vegetais, mais ainda, mas estou alternando 1 dia de proteínas com 1 dia de proteína, vegetais e 1 extra, que pode ser qualquer coisa que eu queria comer, desde que em quantidade bem reduzida. Acho uma boa opção para quem quer (ou precisa) perder uma média de 5kgs (e não muito mais do que isso).

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A Livraria Cultura anunciou ontem um fim-de-semana de desconto para alguns títulos Penguin, em homenagem aos 110 anos de Allan Lane, o inovador fundador da Editora Penguin que lançou o paperback barato no mercado. Entre os títulos disponíveis (há livros em inglês e em português), recomendo Dubliners, de Joyce, The Heart is a Lonely Hunter, de Carson McCullers, e The Great Gatsby, de Fitzgerald, em versões original e traduzida. O desconto é de mais ou menos 30%. E a promoção vai só até domingo, dia 23!

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A nova data de publicação do livro Uma Estrangeira na França já foi definida: 29 de novembro de 2012. Optei por não publicar os novos capítulos, mas todos estarão disponíveis no livro, publicado na plataforma KDP da Amazon. Novidades em breve!

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Noiva por acaso: Comprei a 4a edição da Claudia Noivas. Ainda não tive tempo de olhar com calma, mas gostei — embora não seja tão boa quanto a 3a edição ou a Vogue Noiva de 2012. Tenho duas provas agendadas para a semana que vem: Cymbeline e Cecilia Echenique. Pretendo escolher o vestido até janeiro de 2013 — e antes disso temos 2 casamentos muito queridos, os dois em novembro.