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O Gosto da França; Uma Estrangeira na França

Ingredientes do meu primeiro jantar francês. Croustillants à la Poire et à la Fourme d’Ambert, Kir Royal e Boeuf Bourguignon

Mais um capítulo do livro Uma Estrangeira na França, agora sobre os sabores da França. Na versão para o livro, incluirei também as receitas (em português) e os endereços de restaurantes em Montpellier — a cidade e a gastronomia de Paris ganharão texto à parte.

O Gosto da França

Guardo na boca o gosto da França. A baguete do fim-do-dia ou do midi. A manteiga, sempre deliciosa, não importa se tem mais ou menos gordura. Os ovos mexidos que comia às pressas, no horário de almoço da Fac, com um pouco de queijo e jambon. O foie gras, principalmente em versão patê, com torradas finas, salada verde e geleia.

Dava para escrever um livro inteirinho só com esses sabores. A batata gratinada que provei um dia, nem lembro mais onde, e reconheci imediatamente quando jantei no Le Marais, na Rua Jerônimo da Veiga, aqui em São Paulo. Os escargots, os moules, que decidi provar em fins de semana de aventura, acompanhada de gente que entendia mais do assunto do que eu. O Martini Bianco de tantas tardes de outono, que não era bom, mas também não chegava a ser ruim, e tinha a vantagem de custar apenas 3 euros. O Bourgogne que tomei quando cozinhei pela primeira vez, boeuf bourguignon! O sanglier de Sophie – ela dizia não fazer grandes coisas na cozinha, mas preparava pratos deliciosos, até hoje me lembro da ratatouille e da lasanha de soja. Foi ela quem despertou em mim a ideia de cuisine française. Uma cozinha sazonal – uma vez dissuadiu-me de comprar framboesas no supermercado porque já estávamos no outono – e pessoal – sempre cozinhava para si, mesmo quando não tinha tempo, nem que fizesse ovos fritos.

Dava prazer ver a intimidade do francês com a comida. Quando começavam a cortar as verduras, os legumes, para as sopas, por exemplo – Alex, marido de minha amiga Flávia, tem intolerância ao glúten e não pode comer queijo, mas fazia as sopas mais deliciosas. Ou a cozinha toda especialista de Vania, minha co-boadrasta, como costumava chamá-la. O primeiro pain d’épices de Sophie causou alvoroço. Repeti a receita outras três vezes, e trouxe um dos temperos para casa, na mala, mas nunca fiz.

Foi lá que cozinhei pela primeira vez. Em janeiro de 2011, Sophie viajou durante um mês inteiro e eu fiquei sozinha em seu apartamento. Aí decidi experimentar algumas receitas do livro Cozinha Provençal (French Provincial Cooking), da inglesa Elizabeth David. A obra tinha sido um presente de um amigo, alguns dias antes de eu embarcar. Hoje nossa amizade já não é mais a mesma coisa, mas na época ele me disse que se tratava da melhor introdução à cultura francesa que conhecia. Tinha lido o livro pela primeira vez quando era bem mais jovem do que. “Leia do início ao fim” foi sua recomendação máxima.

Para o primeiro jantar, escolhi o Boeuf Bourguignon já mencionado. Meu amigo disse que Ms David provavelmente sugeriria o Daube Provençal, mas resolvi optar por um prato que conhecia desde criança. Como o livro era em inglês e eu não tinha conhecimento algum sobre cozinha, tive de pesquisar na Internet para encontrar os termos equivalentes em francês. Isso foi o que deu mais trabalho. Ligava para minha avó por Skype várias vezes ao dia, e algumas vezes nem ela sabia a resposta. A verdade é que alguns temperos só existem na França. Ela também me enviou sua própria receita. A versão final virou uma mistura, considerando o que funcionou no dia porque, por incrível que pareça, funcionou. O boeuf bourguignon ficou delicioso. Tomei uma garrafa de vinho durante o processo, os pedaços de carne ficaram quase simétricos, e o fogo se comportou direitinho. Mas logo nesse primeiro dia, entendi que meu negócio era outro. A sobremesa – a mousse au chocolat à l’orange estava divina, feita com o excelente Grand Marnier e o melhor chocolate Lindt amargo, 43% de cacau – e os drinks, preparados com a mesma bebida e uma grande variedade de sucos.

Os jantares geralmente aconteciam às sextas-feiras. Tive a oportunidade de experimentar mais algumas receitas. Para sobremesa, sorbet au citron e pain d’épices, que ficaram muito bons, e um crepe, que não ficou lá essas coisas. O magret de canard não funcionou, mas os gratinados sim, e minha receita máxima acabou sendo o Poulet à la Ciboulette, que devo ter feito pelo menos umas dez vezes entre janeiro e junho, quando embarquei de volta para o Brasil. A ciboulette não existe aqui, nem o échalotte, e virou uma aventura encontrar os ingredientes que pudessem substituí-los.

Antes de viajar, folheando a obra de David, tinha uma ideia toda sofisticada do que seria a cozinha na França, mas os sabores que ficaram foram realmente os mais simples. O pão, a manteiga, os ovos mexidos. Fico com água na boca sempre que me lembro do sanduíche de Charolais de 2 euros que comprava no Mc Donald’s da Place de la Comédie quando não tinha tempo de comer outra coisa. Era minha carne favorita, inclusive nos restaurantes (como o excelente La Chistera). O queijo de cabra, curado, fresco, do jeito que fosse, era irresistivelmente barato e me acompanhava durante todo o dia: no café-da-manhã, no almoço, no lanche da tarde. Na primavera, gostava de sentar a uma mesa qualquer, no meio da tarde, e almoçar aquela salada com foie gras. Mas a primavera, que chegou deslumbrante – um espetáculo assistir ao aparecimento de flores por toda a cidade– trouxe também muitas saudades. E de repente já não fazia mais as receitas francesas, mas a torta negra que aprendi com Ludmila e que conquistaria os franceses para sempre.

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Londres, Roma e um livro misterioso

Hampton Court, em Londres. Foto publicada na Wikipedia

Ontem à noite terminei de ler o livro misterioso e inédito, enviado por um amigo escritor. Definitivamente, o livro mais estranho e mais estranhamente bonito que já li. Um romance curto, de menos de 200 páginas, na categoria ficção/fantasia. Consegui transferi-lo para o Kindle e fui lendo-o ansiosamente nos últimos dias, sem saber direito como reagir a ele. Apaixonei-me imediatamente por alguns personagens, outros, detestei apaixonadamente. Gostei do oceano — sim, o livro tem um oceano — e do menino, livresco, tímido, fantasioso, que tem muito de mim quando era mais nova.

Lembrei de minha infância obtusa mas fantástica e, como disse ao escritor por e-mail, foi como sair de um sonho de outra pessoa, e lembrar de tudo perfeitamente. Tomara que seja lançado logo, aí escrevo aqui de novo, mencionando mais detalhes da história. Já se tornou meu livro preferido desse escritor, o que mais “conversa” comigo. E é impossível parar de lê-lo, por isso interrompi a leitura (sofrida porém maravilhosa) de Rodrigué.

E já tem mais um livro na fila. Ontem conversei com minha vó longamente por telefone, em antecipação à viagem a Londres (e Europa) que faremos em Agosto. Ela sugeriu que eu lesse Sarum, de Edward Rutherfurd. Trata-se de uma obra de ficção histórica publicada em 1987 — bem recente — que fala sobre a história da Inglaterra através dos olhos de representantes de famílias de Salisburg. Como só fui descobrir ontem, o nome Sarum é uma corruptela de uma abreviação antigamente usada para Salisburg que acabou ficando pra história. Nem comecei a ler ainda, mas como foi recomendado por minha vó, só pode ser boa coisa.

Iremos também para Roma, por isso Le Voyage à Rome, do historiador Pierre Grimal, já se encontra na mesa de cabeceira. O livro foi publicado recentemente — não consigo encontrá-lo em nenhuma lista de obras do autor — mas Grimal é um dos mais respeitados especialistas em Roma Antiga. Comprei o livro em Montpellier, pensando numa futura oportunidade de viagem, mas nunca o li. Fui a Roma em 2008 e lá fiquei por mais de 15 dias, uma viagem maravilhosa que me permitiu conhecer cada pedacinho da cidade. Roma encontra-se do lado oposto de Londres. É colorida, ensolarada, quente em todos os sentidos. Já estou na contagem regressiva para a viagem.

Nota: Só chegando em casa para descobrir que Voyage à Rome abrigava todos os livros de Pierre Grimal sobre Roma: La Rome Antique, Vivre dans La Rome Antique, L’Âme Romaine, Promenades Romaines, Guide: Nous Partons pour Rome. Comecarei por este último.

Mais um ano

Moulin Rouge de Henri de Toulouse-Lautrec, 1891

As leituras ficaram comprometidas nos últimos (e emocionantes) dias. Sexta, uma antecipação do aniversário no sábado, dia lento e gostoso. Comemoração no almoço e no jantar, numa mesa na varanda, para potencializar o frio paulistano. Presentes emblemáticos; uma cópia de uma lupa de Praga, que eu vinha namorando nos últimos anos, e uma luminária em cubo com reproduções de pinturas que amo, O Beijo, de Klimt, La Goulue-Moulin Rouge do pintor e ilustrador parisiense Henri de Toulouse-Lautrec (descendente direto dos condes Toulouse, no sul francês) e Absinthe Robette, de Privat Livemont. Pode-se ler sobre esses cartazes emblemáticos da Belle Époque parisiense aqui, Um Olhar de Descoberta na Paris da Belle Époque, ensaio semi-fictício com o olhar do estrangeiro sobre a Paris daquela época.

Esses cartazes acompanharam-me muito durante o séjour francês. O  Ambassadeurs – Aristide Bruant de Toulouse-Lautrec, conheci através de um amigo, fã do artista. Mas em Paris, às margens do Sena, na Rive Gauche, apaixonei-me definitivamente por esses cartazes, cartões postais, ilustrações. Agora tenho um pouquinho deles na minha casa.

Sábado foi meu almoço de aniversário, apenas para alguns amigos, mas dá para dizer que entre um dia e outro, tive a melhor comemoração da minha vida. Servimos Cassoulet, homenagem indireta ao 14 Juillet, e muitos queijos, brigadeiros, bolos, caipiroskas. Foi meu cumpleãnos, um ano de Brasil, de Tomás, de muitas coisas boas; de vestido branco. Mais um ano, como no belo filme Another Year de Mike Leigh. Um ano que mudou tudo.

Continuo lendo Pénélope, mas ontem tive uma grande surpresa ao receber um livro inédito de um amigo. Não posso dizer do que se trata, nem quem é o autor, mas vou intercalar as duas leituras durante a semana e quem sabe escrever alguma coisa aqui depois.