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O duplo na literatura

Fim de tarde no paraíso: Itacimirim.

Fim de tarde no paraíso: Itacimirim.

Já são dias e dias sem escrever. Dezembro foi embora num pulo, e logo estávamos na Bahia (na Bahia desse lindo fim de tarde). Aí 2014 chegou. E vamos primeiro às coisas últimas.

Estou terminando de organizar o meu primeiro livro no Kindle (mais novidades em breve). Mas, no fim do ano, queria dar um presente de Natal original para Tomás e, empolgada com a organização do livro estrangeiro, acabei reunindo todos os textos escritos ao longo de uma vida. Coloquei tudo num arquivo só e fui escolhendo uma ordem que fizesse sentido. Depois que li descobri que ali tinha um livro, um livro com um fio condutor e temas consistentes: a escritora em mim, veja só, era coerente.

E o tema principal é o Duplo. Aquele assunto apaixonado da literatura (e da psicanálise) desde muito tempo, com exemplos famosos: Dr. Jekyll & Mr. Hyde, O Retrato de Dorian Grey, O Duplo de Dostoiévski, apenas para citar alguns. O primeiro estudo sobre o conceito data de 1914, e é de autoria de Otto Rank (clique aqui para visualizar o ebook sobre o assunto na Amazon), mas Freud se debruçou sobre o tema em seu famoso The Uncanny. Na primeira versão desse post (sim, decidi reescrevê-lo, condensá-lo e explicá-lo), eu sequer definia o termo. É um conceito tão familiar, tão íntimo que eu não achei que precisasse. E agora que tento definir, tampouco consigo. É como Santo Agostinho disse sobre o tempo: se você me pergunta o que é, não sei responder, mas se ninguém me pergunta, sei exatamente o que é.

Gosto de uma definição que encontrei por aqui (para Das Unheimliche, conceito cunhado por Freud e que pode ser traduzido por The Uncanny): uma instância onde algo pode ser familiar e também estrangeiro, e essa estranheza e familiaridade a um só tempo produzem desconforto. Como no estrangeiro (que busco e investigo há mais de dois anos). O Dicionário Gale de Psicanálise oferece um conceito mais robusto (e talvez menos compreensível): O duplo se refere a uma representação do ego que pode assumir várias formas (sombra, reflexo, retrato, duplo, gêmeo) e que é encontrado no animismo primitivo como uma extensão narcisística e garantia de imortalidade mas que, na ausência do narcisismo, pode prenunciar a morte ou se tornar fonte de perseguição.

Há alguns dias encontrei a primeira versão daquele que considero o meu melhor conto — Polina e o Menino dos Olhos de Espelho — escrito em uma das aulas do curso de Jornalismo da PUC-SP. A professora me apresentou para o Hoffmann literário, aquele grande criador que eu só conhecia por meio do desenho do Quebra-Nozes que passava na televisão. Lemos O Homem de Areia e o efeito em mim foi profundo. Escrevi meu texto modesto às pressas, intitulei-o O Autômato Adormecido e o entreguei de última hora. A professora escreveu, há quase 14 anos: “Jennifer, o seu conto é muito criativo e interessante, mas deixa a desejar quanto ao texto. Merecia ser refeito!”. E refeito foi.

Hoffmann é um personagem fundamental da minha educação literária. No fim do ano passado, fomos ver o balé Quebra-Nozes da Cia de Dança Cisne Negro e logo depois li a adaptação de Dumas da história, Histoire d’un Casse-Noisette

No balé O Quebra-Nozes

No balé O Quebra-Nozes

Estava com saudades dos duplos e dos autores germânicos — uma de minhas maiores frustrações é não poder, por enquanto, ler em alemão. Então dá para imaginar a minha excitação quando, na semana passada, procurando um livro de ficção em espanhol na Livraria Cultura — estava traduzindo uma obra do espanhol para o português e queria me manter em contato constante com a língua — encontrei Alter Ego: Cuentos de Dobles. Una Antología. O preço era salgado (R$ 106,20 para textos que já estão quase todos no domínio público) e apenas dois dos contos eram hispânicos, então acabei não comprando, mas iniciei uma verdadeira busca pelos seus textos, que listo abaixo, com links diretos ou para a história na íntegra ou para a obra da qual faz parte:

La Historia del Reflejo Perdido, ETA Hoffmann

El principe Ganzgott y el cantante Halbgott, Ludwig Achim von Arnim

Howe’s Masquerade Nathaniel Hawthorne

Le Chevalier Double, Théophile Gautier

Markheim, Robert Louis Stevenson

Lui?, Guy de Maupassant

L’Homme Double, Marcel Schwob

The Story of the Late Mr. Evelsham, H.G. Wells

The Jolly Corner, Henry James

One of Twins, Ambrose Bierce

The Secret Sharer, Joseph Conrad

Mirtho, César Vallejo

La muerte de mi doble, José María Salaverría

Li quase todos, mas não todos. Li com muita excitação Hoffmann, Stevenson e Wells, que figuram entre os meus escritores favoritos de todos os tempos.

O de Hoffmann ficou um pouco aquém das minhas expectativas, possivelmente porque faz parte de uma história maior (é possível ler o trecho selecionado de A New Year’s Eve Adventure ou La Aventura de La Noche de San Silvestre neste ink: La Historia del Reflejo Perdido. Por incrível que pareça, a versão em espanhol, disponível gratuitamente na Internet, é superior à que encontrei em Inglês — muito pobre — e em Francês — com muitos erros), mas o tema do reflexo perdido é muito interessante. 

Markheim, de Stevenson, é elegante, extremamente bem escrito, e virtuoso. Wells é sempre Wells, e embora o texto seja curtíssimo, e seu desenvolvimento bastante previsível (principalmente para quem está lendo um livro só de histórias de duplos), a construção magnífica dos dois personagens em tão poucas linhas, e o final, previsível e imprevisível ao mesmo tempo, faz do texto delicioso, e assustador.

Lui, de Maupassant, consiste em uma única carta e deixa o leitor esperando por mais (característica de muitos dos seus textos). O Cavaleiro Duplo de Gautier li num suspiro só, sem poder adivinhar o que aconteceria em seguida. Surpreendeu-me que ele fosse tão pudico! Mas vale a leitura ainda assim.

Amei One of Twins, de Ambrose Bierce, que eu mal conhecia e nunca tinha lido. Também se trata de uma carta, mas dizer qualquer coisa mais não seria justo.

Joseph Conrad foi quem mais me impressionou. Nunca havia lido absolutamente nada dele. Original da Polônia, ele adotou a língua inglesa, que nunca “matrisou” completamente. E por algum motivo ele até agora não havia aparecido em nenhuma das minhas pesquisas sobre o estrangeiro. Nem mesmo a sua intimidade com o mar havia me levado a um de seus livros antes desse momento…

Estrangeiro ou não, The Secret Sharer é de uma clareza magnífica, estilo cristalino. Li à beira da piscina, de uma vez só, pois não conseguia parar antes de saber como terminava. Certamente a melhor descoberta literária de 2014 até agora. E olha que o autor faleceu há exatos 90 anos.

As Bibliotecas Falsas

A ideia de bibliotecas falsas surgiu durante a viagem que fiz à Colômbia em 2010. Sozinha num bar em Bogotá perguntei ao garçom o que seria aquela grande sala do outro lado, com os livros grudados às prateleiras. “É uma biblioteca?”. “Sim, mas é uma biblioteca falsa. Não tem livros”.

Toda Colômbia era literatura. Em Cartagena, logo na chegada, dei de cara com o meu alter-ego literário. Subi as escadas para usar o único computador da pousada, que ficava ao lado das duas maiores suítes. Mexi no mouse e apareceu-me uma tela: Malgosia, M-a-l-g-o-s-i-a, respondia em polonês ao e-mail de um dos hóspedes, e embora eu não entendesse nada de polonês, sabia que a assinatura era um diminutivo do seu nome (Malgosia para Malgozarka ou algo assim). E era íntimo. Minimizei a página e fui para o meu e-mail e então um homem abriu a porta de uma das suítes, inteiro nu, suado, e me perguntou num inglês quebrado se eu havia fechado a sua página de e-mail. Disse que não. Ele me pediu que o fizesse e fechou a porta. Comecei a imaginar coisas. Que Malgosia era sua amante e aquele era um e-mail de ruptura, que ela havia marcado um encontro com ele ali, em Cartagena, e depois mudado de ideia. Ou não. Depois eu o vi no lobby do hotel com a esposa jovem, anéis enormes no dedo. Minha personagem favorita havia escrito a seu amante e de alguma forma eu intercambiara a mensagem.

O segundo personagem foi Gabriel García Marquez. Ele estava presente em cada canto de Cartagena, e da Colômbia. Num dos primeiros dias fui tomar um mojito num resort — eu estava hospedada na Casa La Fe, uma pousada católica charmosa. Eles ainda não tinham começado a servir o almoço e o hotel estava às moscas. Na mesa do buffet, encontrei um símbolo de seu famoso livro, Cem Anos de Solidão: uma bacia de gelos incontáveis e mínimos que não derretiam.

O terceiro personagem foi o anjo de Dulce Compañia, de Laura Restrepo. Naquela semana, li também Sandor Marái, mas como a minha relação com o escritor começou muito antes, acho melhor deixar o assunto para outro momento. Descobri o livro numa pequena livraria do aeroporto de Bogotá, antes de tomar o voo para Cartagena. O enredo é o seguinte: uma jornalista de frivolidades é enviada pelo chefe para cobrir o “surgimento” de um anjo num dos bairros mais pobres da cidade. Apaixona-se por ele, com toda a religiosidade em torno do menino, lindo e jovem, e a sugestão de um quadro de esquizofrenia. Um dia, emocionada e confusa, deixei o livro na cadeira de sol e entrei na piscina. Boiei de barriga para baix, imóvel, por um tempo que deve ter parecido interminável. Aí vi um reflexo na água. O funcionário da pousada, assustado, tinha a mão estendida em minha direção: “Pensei que tivesse morrido”, ele disse.