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Meu caso de amor com Camus

Clara Paget na belíssima adaptação de Tom Beard de The Sea Close By (La Mer au Plus Près). Iniciativa incrível da Penguin para comemorar o centenário de Camus

Clara Paget na belíssima adaptação de Tom Beard de The Sea Close By (La Mer au Plus Près). Iniciativa incrível da Penguin para comemorar o centenário de Camus

Às vezes a gente se apaixona por um livro e começa um caso com ele. Há quatro dias estou namorando The Sea Close By (La Mer au Plus Près na versão original). Foi amor à primeira vista. Estava na Livraria Cultura por acaso, fazendo hora para a minha aula da pós, quando notei um livrinho caseiro e barato, daqueles que dava para imprimir em qualquer gráfica. Logo vi que devia se tratar de uma iniciativa incrível da Penguin, que com seus paperbacks liderou a popularização da leitura (e literatura) em nosso vasto mundo.

Logo me dei conta da qualidade arrebatadora da tradução. Esse é um tema que me fascina e um dia pretendo estudá-lo a fundo, mas leio mesmo é no original (menos quando não dá, né?). Aqui foi a exceção. Fui atrás do texto em francês, no Kindle, e aí descobri uma porção de coisas. A Penguin escolheu dois capítulos de dois livros distintos, L’Été, onde Camus originalmente publicou La Mer au Plus Près  e Noces, onde publicou L’Été à Alger. O belo The Sea Close By é o último capítulo de L’Été, mas aqui ele abre a diminuta seleção, e em grande estilo: “I grew up in the sea and poverty was sumptuous, then I lost the sea and found all luxuries grey, and poverty unbearable”. Em francês: “J’ai grandi dans la mer et la pauvreté m’a été fastueuse, puis j’ai perdu la mer, tous les luxes alors m’ont paru gris, la misère intolérable”. Decidi que compraria os pequenos paperbacks e a coletânea completo no Kindle. Mas não parei por aí.

Essa edição da Penguin apareceu em agosto, em comemoração ao centenário de Albert Camus (que nasceu em 07 de novembro de 2013). Em setembro, a editora lançou um filme dirigido por Tom Beard e estrelado pela modelo e atriz Clara Paget, que é lindo, para dizer o mínimo (é só clicar nesse link para assistir). Aí que desde segunda eu leio e releio o texto em inglês e em francês, vejo e revejo o filme e comecei até a gravar o primeiro trecho, que é também o mais bonito e poético, com o qual eu mais me identifico. Não é todo dia que descobrimos um livro que tem tanto a ver com a gente, de um escritor que nos fascina — e arrebata — desse jeito. Descobri Camus há 2 anos, quando voltei da França. Coincidência ou não, estudava o estrangeiro na época mas ainda não tinha lido uma única linha do autor. L’Étranger foi um dos livros que mais me impressionaram. Cada vez que lia “Cela ne veut rien dire”, alguma coisa pulsava dentro de mim. Por que levei tanto tempo para ler outro livro do algeriano, nunca vou saber, só sei que não vou esquecer que como eu ele é totalmente apaixonado pelo mar, a pátria que escolheu para si: “Point de patrie pour le désesperé et moi, je sais que la mer me précède et me suit, j’ai une folie toute prête. Ceux qui s’aiment et qui sont séparés peuvent vivre dans la douleur, mais ce n’est pas le désespoir: ils savent que l’amour existe. Voil`s pourquoi je souffre, les yeux secs, de l’exil. J’attends encore. Un jour vient, enfin…”.

Belo filme de Tom Beard

Belo filme de Tom Beard

Meu caso de amor com o Kindle; Halloween; Penguin e Random House

Kindle em suas versões Touch (cinza) e Paperwhite (preto). Os dois são muito bons, mas o novo modelo é ainda melhor, com um sistema de iluminação quase perfeito, uma caixa robusta e resistente, e um touchscreen que funciona bem. Mesmo.

Hoje recebi o meu Kindle Paperwhite, que veio por encomenda, diretamente dos Estados Unidos, quase um mês depois do lançamento do produto em solo americano.

É o meu terceiro Kindle em 18 meses. Comprei o primeiro em maio do ano passado, pouco antes de voltar para o Brasil, numa época em que ia quase todos os dias à Gilbert & Joseph negociar algum valor por algum livro. Desfiz-me de títulos incalculáveis, e outros tantos mandei pro Brasil numa caixa, a um preço abusivo (esses eram livros caros que eu havia levado para a França ou pedido para alguém levar). Livro na França era barato. Já nas primeiras semanas por lá, tinha visto um mendigo, sentado na entrada de uma loja, lendo um volume em capa dura. Que civilização literária!, pensei. Eram tão baratos e tão disponíveis que dava para comprar um livro com o troco do maço de cigarro. Mas, alas, eu não podia levá-los de volta para o Brasil.

As meninas inglesas da universidade andavam com seus Kindles a tiracolo. Resolvi experimentar. Na época, a Amazon ainda nem vendia na França. Encomendei no site, paguei 60 USD a mais e aguardei. Em apenas 4 dias, meu e-reader (Kindle Keyboard) já estava lá. Foi meu companheiro inseparável nas últimas semanas francesas. Fomos juntos para todas as praias, do Languedoc à Riviera, lemos George Steiner e Baudelaire e, chegando ao Brasil, Wilkie Collins. Ele só tinha um probleminha. Quando faltava luz, não dava para ler. Aí o jeito era apelar para os Text-to-Speech e para os Audiobooks (como as palestras de Richard Feynman).

Apresentei o Kindle a Tomás, que gostou da ideia e em novembro de 2011, quando ele viajou para os EUA, encomendei 2 novíssimos Kindle Touch. Primeiro, fiquei decepcionada, por incrível que pareça. Coloquei na cabeça que refletia luz, que não era tão bom, mas assim que me acostumei, nunca mais desgrudei. O Touch era infinitamente superior ao Keyboard. A experiência da leitura tinha se tornado quase íntima de tão próxima, e eu já não precisava me preocupar com mais nada quando estava lendo. Compramos umas mini luzinhas para leitura, que quebravam um galho quando faltava luz, ou quando eu lia madrugada adentro. Depois, compramos capas com luz embutida, que utilizavam a própria bateria do Kindle para funcionar (a bateria dura “quase” para sempre, na cronologia dos bytes), uma libertação.

Estava tão feliz com o Kindle e com a Amazon — que inclusive mandou um Kindle substituto depois que eu manchei o meu na praia — que nem esperava que criassem algo melhor. Aí veio o Kindle Paperwhite.

Ele tem quase o mesmo design do Touch, mas o tato é bem diferente. É mais robusto e bem-acabado, arrojado. Estava receosa quanto ao sistema de iluminação, a tal da built-in light (veja aqui), mas funciona muito bem. E você pode mudar a quantidade de luz na hora em que quiser. Como a Amazon explica no site, a luz reflete sobre a tela e não sobre os seus olhos, então o efeito anti-glare continua valendo. Ele é ligeiramente menor e mais leve, e o primeiro Kindle realmente Touch (não tem nem aquele botão da Home, sabe?).

Como nada é perfeito, a depender da configuração de luz escolhida, aparecem algumas manchinhas na parte inferior da tela. Mas nada que incomode a leitura.

Comprei a capinha de couro junto. Uma surpresa boa. Embora a capa da versão anterior viesse com a luz, era bem ruim. Pesada, com acabamento suspeito, pouco prática. A nova é excelente (veja aqui) e vale a compra. Recomendo!

Agora, para quem quer comprar seu Kindle Paperwhite e não está indo para os EUA… recomendo a Dabee. A Amazon ainda não vende diretamente no Brasil e tudo indica que começará vendendo o modelo mais barato da família. Por isso, melhor garantir. O modelo Wifi — bem mais barato — atende às necessidades de quase todos os leitores. A não ser que você viaje muito, e leia muito em trânsito, e não aguente esperar chegar em casa para baixar o livro, nesse caso (o meu), melhor gastar um pouco mais e comprar a versão 3G.

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Ontem foi anunciada a fusão entre Penguin e Random House. O iG, aqui no Brasil, reproduziu uma matéria da agência EFE (leia aqui), sob o título: “Penguin e Random House anunciam fusão para enfrentar desafio digital“. Ainda lembro das longas tardes que passava em livrarias, procurando as mais novas edições de literatura estrangeira em versão original, e hoje, tudo à distância de um toque…

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Halloween. Acompanhei pelo Facebook alguns vídeos e galerias de imagens de festas muito bacanas. Fiquei triste que não consegui ir a nenhuma. Na época em que eu era adolescente, essas festas estavam restritas a escolinhas de inglês e colégios bilingues. Agora, parece que estão por toda parte. Será o mundo globalizado?

Giorgio Vasari, Kindle Single e o Aspartato de Magnésio

Foto do escritor, historiador, pintor e arquiteto Giorgio Vasari disponível no site Wikipedia. Vasari viveu no séc. XVI e foi imortalizado por sua biografia de artistas renascentistas, Le Vite de’ più eccellenti pittori, scultori, ed architettori

Quando fui a Roma pela primeira vez, em 2008, minha vó me emprestou um paperback surrado. Tratava-se do The Lives of the Artists, principal livro de Giorgio Vasari, uma espécie de multi-biografia dos principais artistas renascentistas, com histórias deliciosas de Michelangelo e Da Vinci, entre muitos outros (infelizmente Bernini nasceria em 1598, anos depois da publicação do livro, em Nápoles e não na Florença). Vasari era contemporâneo de muitos deles, e embora algumas das anedotas sejam meioo fictícias, tornou-se a bíblia da Pintura Renascentista. A edição antiga da Penguin só listava os principais e estabeleci como meta comprar o livro lá na Itália.

Encontrei-o numa pequena livraria, voltando da Piazza Navona, em versão original e integral em italiano. Comprei-o, toda orgulhosa de mim, mas tive de devolvê-lo no dia seguinte, a pedido de minha vó — o livro era pesado demais e, bem, em italiano. Consegui comprar uma edição nova e em inglês, da Penguin, saindo do Museu Ufizzi alguns dias depois. Mas o livro de papel sofreu alguns acidentes nos últimos anos e estava atrás de uma edição que sobrevivesse às marcas do tempo. Ontem comprei, finalmente, a edição Kindle, por apenas $ 5,24. Os principais artistas, 36 deles, estão ali. Recomendo!

Comecei ontem, finalmente, depois de uma tarde inteira passando mal por causa do Aspartato de Magnésio, a escrever o conto que publicarei através do Kindle Direct Publishing. A Amazon já anunciou que virá para o Brasil no fim do ano (leia post relacionado), então imagino que a negociação com as editoras brasileiras já esteja em fase final. Mais títulos brasileiros (e em português) significa mais usuários brasileiros na base de clientes Kindle, e consequentemente uma nova alternativa para os novos escritores do país. Lá fora, o Kindle Single, por exemplo, é rentável e promovido pela própria Amazon. Aqui, pode virar mania (os livros precisam passar pelo crivo da Amazon para ingressarem na categoria. Veja aqui).

Minha ideia consiste em adaptar algo que escrevi há 1 ano e meio em inglês e depois reescrevi em francês. Embora o enredo seja bom, está mal escrito. A nova versão em português deve corrigir alguns problemas, mas ainda não tem título. Em inglês, intitulei-a Sphere, em francês, Sporatte. Quero escrever entre 500 e 1.000 palavras por dia e prometo dar notícias sobre o progresso por aqui.

Caos e ficção

Ilustração da curvatura do espaço-tempo disponível em página da Wikipedia (propriedade da Wikimedia Commons)

Comecei a gostar de ficção científica porque me interessei por física quântica, no comecinho de 2005, quando a literatura quântica com base filosófica invadiu as livrarias. Lembro até hoje do primeiro livro, The Fabric of the Cosmos, de Brian Greene, o primeiro cientista-celebridade de tantos que viriam depois. Comprei a edição mais baratinha, da Penguin, e a letra e as figuras eram tão pequenas que não consegui passar da metade. Mas ali estava um assunto que havia me fascinado desde a infância, desde uma tarde remota na casa de Tacimirim, quando me debrucei sobre a obra famosa de James Gleick.

Devia ser 93 ou 94, Caos tinha sido lançado há uns cinco anos e já estava surrado. Meu pai, meu grande ídolo até hoje, tinha as versões original e em inglês, em casa e em Taci, e sugeriu que eu lesse o livro. Ele já havia me presenteado com histórias fantásticas como o Homem Que Calculava, de Malba Tahan, as Mil e Uma Noites e uma porção de livros sobre dinossauros. Mas não li Caos depois daquela tarde, nem procurei pelo livro. Lembro de ter ficado com medo, como se alguém tivesse dito de repente que o universo de verdade era outro, escondido, incompreensível. Por muitos anos rejeitei a ficção científica. Não participei da euforia por Star Wars ou Star Trek ou Alien, e até Jurrasic Park me deixava apavorada. Mas, pior do que isso: eu não me interessava pelos livros que meu pai devorava no fim-de-semana, era como se a minha literatura e a dele fossem distintas, ainda que eu, cheia de admiração, fosse ler em seu cantinho especial sempre que podia. E se eu escrevia, meus textos eram terrenos, quase aborrecidos, e eu tinha certeza que ele nunca os aprovaria como um todo.

Não sei se a ficção me decepcionou parcialmente, ou se estava mesmo entediada com tudo, mas em 2005 essa ficção da ciência, apresentou-se novamente para mim como um outro universo, que eu não entendia em absoluto mas, olha, era possível. E as possibilidades abertas pelo avanço da física quântica eram tão amplas e tão deliciosas que eu podia encará-las como ficção. E daí meu projeto de conclusão de concurso ficou sendo sobre o futuro da informação. Foi um ano inteiro [sub]imersa nas literaturas de Google, Richard Feymann, Lee Smolin, H.G. Wells, Bruce Sterling — que tive o prazer de entrevistar diversas vezes — absorvendo a máxima de John Wheeler: IT FROM BIT, toda existência vinha de uma só coisa, informação.

Lembro de ligar uma vez para meu pai, no meio da noite, para perguntar por quê mesmo o teletransporte ainda não era possível, ou de nossas conversas no meio do almoço, a família toda reunida no Dolce Villa, eu comendo aquele hamburger de javali, sobre o código cerebral descoberto por uma equipe do MIT segundo o qual pensamos em 1, 0 e -1 e é isso que nos permite ignorar tanta informação.

Nem o excesso de citações nos livros de Michio Kaku, nem o culto a Lisa Randall (como se a beleza fosse algo incompatível com o intelecto), nada me tirou desse caminho mais. Não consegui ler o último capítulo de Quantum Gravity, de Lee Smolin, mas volta e meia releio o início. E foi naquela época que comecei a escrever uma novela sobre o tempo. Meu pai acompanhou passo a passo, dando dicas sobre enredo e personagens. Já tem mais de cem páginas e talvez eu a retome algum dia. A verdade é que a ficção científica acabou se tornando um abrigo desse mundo tão difícil. É como se eu tivesse voltado para a família, para casa, como naquele texto tão bonito de Ray Bradbury que comentei aqui outro dia. Take me Home.

Nota pós publicação: quando fui pesquisar o nome do autor de Caos, descobri que é também autor de The Information: A History, A Theory, A Flood publicado recentemente e já disponível no meu Kindle. A versão em Português será publicada pela Companhia das Letras, com tradução do amigo Augusto Calil.

Curiositas: do Asno de Ouro à Vênus em Peles de Sacher-Masoch

Venus com um espelho, de Titian. Arquivo do Wikimedia Commons

Estou lendo um livro delicioso que redescobri há pouco tempo: o semi-autobiográfico Venus in Furs, do escritor austríaco Leopold von Sacher-Masoch. Tomás estava fazendo uma pesquisa na Web, encontrou a obra por acaso e comprou pelo Kindle. Embora tivesse há muitos anos na edição Red Classics, da Penguin, por algum motivo nunca tinha lido.

O nome do escritor deu origem ao termo masoquismo — e de certa forma, também ao termo sadomasoquismo — cunhado pelo psiquiatra Richard Freiherr von Krafft-Ebing em 1866, quatro anos antes da publicação do primeiro volume de The Legacy of Cain, que incluía a novela Venus in Furs. Aí a história fica interessante. Segundo o psiquiatra, nascido no comecinho do século XX,

 As an author he suffered severe injury so far as the influence and intrinsic merit of his work is concerned, for so long and whenever he eliminated his perversion from his literary efforts he was a gifted writer, and as such would have achieved real greatness had he been actuated by normally sexual feelings.

Em Venus in Furs, como na vida real, Severin/Sacher-Masoch e Wanda/Fanny Pistor assinam um contrato que estabelece que ele será seu escravo, e ela usará peles o mais frequentemente possível, especialmente em seus momentos mais cruéis. O ponto de partida é puramente intelectual. O solitário Severin visita a Vênus de mármore todas as noites, até que um dia uma viúva de excepcional beleza decide se fazer passar por ela. Assustado, ele sai correndo, mas ela reaparece como reles mortal e confessa ter lido suas anotações, curiosa sobre essa Vênus imaginária. Ele então lhe revela uma fantasia antiga, tornar-se o escravo de uma mulher extremamente bela e cruel, vestida em peles.

Na primeira metade do livro, o discurso é dialético, mas Wanda se deixa seduzir aos poucos pela fantasia do outro, e se um dia está totalmente apaixonada, no outro tem todos os desejos do mundo, e leva seu hedonismo às últimas consequências. O livro não tem nada de pérfido, embora um dos pontos focais seja uma perversão (compartilhada). E o fato de Severin sucumbir, diversas vezes, ao prazer da dor, lembra-me muito um dos melhores livros que já li, O Asno de Ouro, de Lucius Apuleius, único romance em latim a sobreviver em sua forma completa. Fascinado pela magia e pelas mulheres, e irremediavelmente insaciável, o protagonista se vê transformado num asno, vivendo na pele do animal as mais divertidas fantasias. Talvez a comparação nem seja tão absurda — Severin se refere a si mesmo como “donkey” (asno) diversas vezes, quando reflete sobre seu comportamento. E talvez o tema de ambos os livros seja um só: a curiosidade.

Nota pós publicação: Terminei de ler o livro no dia em que publiquei o post e vale muito a pena.

O livro está morto. Viva o livro!

Nova Penguin English Library - foto publicada via Penguin, no Facebook

A Penguin acaba de lançar uma nova coleção deliciosa: Penguin English Library. É na verdade um projeto com 100 títulos clássicos da literatura inglesa, os “melhores” segundo a famosa editora. Great Expectations, A Tale of Two Cities, The Adventures of Huckleberry Finn, Moby Dick e muito mais. O lançamento é a cara da “maison”, primeira a produzir paperbacks de qualidade, na década de 30. Nos últimos 12-13 anos,  acompanhei quase todos os seus novos selos e coleções, entusiasmando-me com cada um deles. E a diferença entre meu primeiro The Picture of Dorian Gray, de capa amarelada, páginas permeáveis e impressão borrada e os itens da nova English Library é muito simples: não dá para comparar. A única semelhança parece ser o preço — na Amazon.com, as novas cópias da EL são vendidas entre $4 e $7. Mas aí eu pergunto, será que é barato mesmo?

Moonstone, do fantástico Wilkie Collins, é um dos livros do selo. Só que tem quase 1.000 páginas. Em 2010, comprei uma edição paperback de outra obra extensa do autor, a muito famosa Woman in White. E só fui terminar de ler em 2011, em julho, de volta ao Brasil com meu novo Kindle. Andar pra cima e pra baixo com um livro de tantas páginas não é tarefa fácil — isso sem contar o esforço envolvido em decifrar aquelas letrinhas espremidas. No Kindle, diversão pura: li os dois em uma semana. E o melhor: não precisaria ter pago nada por eles, pois estão no domínio público.

É claro que a Penguin sabe que os ebooks são uma ameaça iminente. Há alguns anos, lançaram alguns títulos em edição deluxe, com capa de couro, impressão impecável, uma beleza só. Ia para a Cultura umas 3x por semana só para namorar o livro, vendido no Brasil a R$ 200. Acabei comprando um. Na época li em algum lugar que a Penguin pretendia liderar um novo movimento do mercado literário, tornando o livro, mais uma vez, um artigo de luxo. Os ebooks tomariam uma fatia grande dos paperbacks, mas ainda haveria espaço para os livros mais cuidados, sofisticados. Não deu certo: um ano depois, os livros eram vendidos a R$ 70. A ideia não era sem fundamento. A Bibliothèque de la Pléiade e edições Robert Lafont são deluxe e semi-deluxe e vendem muito bem há décadas. Mas com a Penguin não funcionou.

Hoje a leitura é uma atividade de tempos bem variados. Para as leituras rápidas, diárias, só no Kindle mesmo. Aquelas mais demoradas, as leituras de domingo, são perfeitas para um exemplar da Pléiade. Tem lugar pra todo mundo, mas o fato de a Penguin não ter liderado essa migração para o ebook me deixa um pouco decepcionada. As inovações na área são bem limitadas. Adoraria, um dia, poder comprar um livro em edição deluxe e ganhar uma versão ebook. Já pensou que delícia poder pesquisar os principais trechos de seus livros favoritos e ainda presentear um filho ou neto nas décadas vindouras com uma edição em capa dura? Recebi minha herança em livros antecipadamente e espero passá-la adiante com adições minhas. Ou, quem sabe, comprar um livro em inglês, no Kindle ou na livraria, e ganhar uma senha para acessar um link tal, onde eu poderia adquirir com desconto de 70% a mesma obra, em outra língua (ou em várias outras línguas)? Isso sem falar em alternativas já viáveis, mas restritas geograficamente. Tive que ouvir da Amazon que não poderia emprestar ebooks porque as editoras não permitem a função no Brasil. Não sabia que ler tinha fronteiras. E quando escrevi para eles, entusiasmada, perguntando como deveria proceder para publicar um livro em 2, até 3 línguas no Kindle Direct Publishing, responderam-me: “Infelizmente a alternativa ainda não é possível. Anotaremos a sugestão da senhora”.

Parece que o futuro dos livros é um tema mal-endereçado há bem uns 50 anos…

P.S: o título é o nome de um estudo do MIT Media Lab sobre mídias velhas e novas (“Books are Dead. Long Live Books“). Um dos melhores trechos era um registro jornalístico da época em que o fonógrafo foi anunciado. O jornalista proclamava: “Agora os livros estão condenados à extinção.

P.S:2: Links e hiperlinks vieram depois porque esse post tinha que sair no dia 27. Desfilei o dia todo com o presente de Tomás, uma camiseta que dizia: “Keep Calm and Blog On”. Não compri a primeira parte da oração imperativa e precisava dar um jeito na segunda.

P.S:3: Em Montpellier, essa suposta morte dos livros era assunto em todas as aulas. Nunca entendi direito a preocupação dos franceses. Com Gallimard, Livre de Poche e Lafont, eles souberam abordar melhor do que ninguém a trajetória dos bouquins: livros para todos os tipos de leitores e de leituras. Poucos títulos no Kindle, infelizmente, graças à liderança de mercado da Fnac. Mas isso vai mudar.